segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Soneto do amor moderno


Sábado passado fui ao casamento do meu primo Tiago. Ele tem 30 anos, um emprego fixo, e depois de morar um tempo junto com a Janice, decidiu oficializar o seu amor.

Eles são jovens, cheios de energia e com muitos sonhos na cabeça. Até aí não tem nada de muito diferente nessa geração nascida pelos anos 80.

Depois das tradicionais ficadas, a maioria engata em um namoro e via de regra partem para um teste drive. Juntam os trapos, meia dúzia de móveis e suas coleções de CDs.

Eles decidem morar juntos!

Muitos abortam a missão antes da primeira conta de luz. Mas a verdade é que o placar anda muitíssimo favorável aos que permanecem no jogo.

Para quem pensa que a fábula termina na primeira toalha molhada sobre a cama, está enganado. A novidade é outra.

Eles não só acreditam no amor que estão vivendo, como depois de descobrir os enigmas do cotidiano, decidem apostar no “até que a morte os separe”.

Isso mesmo, o sacramento que ao longo de décadas foi quase que uma imposição natural das famílias. O casamento está de volta, e o melhor, com a força e o encanto que as gerações passadas não tiveram a oportunidade de vivenciar.

Esse sacramento aparentemente démodé, que na geração dos meus pais era uma verdadeira loteria, agora é uma decisão madura e metodicamente avaliada por ambas as partes.

A turma da minha idade que o diga, fomos no vácuo dos nossos pais e hoje a grande maioria já está na segunda ou terceira tentativa.

Existem os que estão firmes na paçoca, é verdade. Mas vocês hão de concordar comigo que são poucas as escovas de dente que permanecem unidas há mais de duas décadas.

Tem gente na prorrogação, isso é uma verdade. Mas é raro um jogo que não tenha tido nenhum impedimento, cartão vermelho e jogador expulso.

Os noivos de hoje têm autonomia e isso faz toda diferença.

Escalam os seus desejos e realizam. Eles escolhem desde o play list da festa até de que forma vão dividir as despesas da casa.

Um paga o condomínio, o outro a TV à cabo. Sensatez e equilíbrio podem não ser sentimentos arraigados no romantismo, mas a verdade é que são pilares para que o amor possa ser vivido.

E viver o amor com leveza é dos maiores desafios do casamento. A gente pode ser parceiro, ter afinidade sexual, amar o mesmo disco do U2, mas isso só não segura a onda do dia após dia.

Este ano já fomos a dois casamentos que me fizeram acreditar que tem alguma coisa muito legal no ar.

Coincidência ou não, as duas noivas vestiam branco com vermelho. Talvez seja essa ousadia que faça desses casais os novos heróis do amor eterno.

Acredite, o casamento está de volta, e com grandes chances de durar realmente para sempre. Essa safra de noivos não vai ficar juntos pelas convenções, pelos filhos ou pela comodidade financeira.

O sentido de obrigação pesou nas costas de muitas histórias que acabaram antes do fim. Por isso, ouso a dizer que hoje vale viver o amor que o poeta cantou.

As chances de durar para sempre são bem maiores. Um brinde aos noivos dos tempos modernos e ao eterno Vinícius de Moraes. Tim tim à Janice e Tiago.

Quem sabe no ano que vem a noiva não serei eu. Quer casar comigo Nauro Júnior?



De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure