terça-feira, 13 de julho de 2010

Frio e mega-sena

Foto: Nauro Júnior


Uma vez ouvi uma entrevista da Marília Gabriela onde ela contava que adorava o frio. Que mesmo no inverno sempre terminava o banho com uma ducha de água fria para manter o viço da pele.

Lembrei dela hoje de manhã enquanto me digladiava com alguns pingos de água morna, tentando tirar o sabão do corpo antes de morrer de hipotermia.

Inclusive pensei na hora, que se eu soubesse o celular da Marília Gabriela ligava pra ela e convidava para colocar em prática a sua técnica de longevidade. Mas tinha que ser hoje, e no meu banheiro. Ah, e ainda por cima tinha que sair com cara de “linda” do box. E pior, terminar de se secar e se vestir com um sorriso lânguido no rosto.

Ah Marília Gabriela, acho que se tu morasses aqui no sul irias rever teus conceitos estéticos.

Esse foi o pensamento mais gentil que tive nesta manhã fria. Os outros são impublicáveis aqui neste blog de gente educada. A verdade é que esse pessoal do sudeste acha que o inverno deles é frio. Adoram comprar uma manta fashion pra usar com uma camiseta de algodão. Ou então colocar um casacão por cima de um vestidinho de crepe, e juram que estão enroupados. Eles juram que inverno é sinônimo de estilo, requinte, charme.

Ora poupe-me!

E tem ainda aquele povo que acha que no inverno a gente fica mais elegante. Eu sinceramente nunca consegui. Além de sofrer com a tal da rinite, ficar com o nariz vermelho que nem palhaço, acho que aquelas olheiras na pele esbranquiçada não favorecem nem a Mortiça, da família Adams. Mas de qualquer forma, respeito a opinião alheia.

A outra desculpa boa é aquela de que no inverno os programas são mais românticos.

Aqui a minha caixinha de ideias está praticamente estagnada. Quando chegamos em casa acendemos a lareira e conseguimos resistir por uma hora, duas no máximo. Depois só o quarto com o ar condicionado nos 30 graus e muito edredon para sobreviver. Isso sem falar que com a temperatura dessa madrugada dormi com pijama e ceroula, a coisa mais “elegante” que o mundo fashion já viu. Imagina o sex appeal!

Eu posso ser uma pessoa sensata, aberta a novos argumentos, mas se tem uma coisa que ninguém no mundo vai me convencer é que inverno é bom. A tirar pelo meu mau humor nesse post já deu pra perceber né?

Mas tudo bem, enquanto o Minuano e sua fúria congelante batem na porta, eu viajo na internet pelos resorts do nordeste, imaginando que a qualquer momento eu vou ganhar na Mega-Sena e chutar o balde. Fretar um avião e levar todos os amigos queridos que amam o verão e odeiam o inverno para um daqueles paraísos. Só vamos voltar depois que a primavera der seus ares coloridos. E ainda por cima, vamos aportar com aquela pele dourada, alma lavada pela água salgada e espírito refeito pela brisa do mar.

Que delícia. Já me animei a seguir minha jornada de picolé dessa tarde de terça-feira. Enquanto o sorteio da mega-sena não acontece, vamos nos divertindo imaginando tudo de maravilhoso que o paraíso terá. Quem se habilita a entrar nessa lista de amigos?

Olha que o último sorteio saiu para um apostador sozinho. O que será que ele fez com 20 milhões hein?
Poxa vida, e esse cara não era meu amigo!!!

domingo, 11 de julho de 2010

Um lar

Foto: Nauro Júnior


Eu nasci em uma casa que mais parecia um museu. Foi construída em 1810, tinha 33 cômodos, paredes espessas e salas que exalavam uma mistura de mofo com história. Em meio a tantos objetos históricos tínhamos o nosso mundo, com todos os elementos de qualquer morada. Durante três décadas aquela casa que virou cenário de minissérie foi de fato um lar.

Uma vez, em 1998, quando fui morar por um período em Florianópolis, uma prima querida me disse uma frase na despedida:

“Gabi, uma casa pode levar um tempo até ser realmente um lar”.

No auge dos meus vinte e tantos anos, não me detive na essência daquela frase com a profundidade que contém. Hoje, mais de uma década depois, compreendo cada sílaba daquela oração composta por carinho e premonição. À caminho da ilha da magia, eu não imaginava que levaria tempo até achar de fato o meu lar.

Acho que um lar é aquele lugar que mesmo se passando uma semana no resort mais desejado do caderno de viagem, no oitavo dia só pensamos no gosto do café que só a nossa cafeteira faz. É aquele aconchego no dia cinza, que só o nosso edredon consegue proporcionar. Mais do que isso, um lar é aquele espaço físico que nos dá a mesma sensação de segurança que a cama dos pais transmitia nas noites de temporal da infância.

E nesse final de semana de céu azul, me peguei admirando o meu lar e pensando no quanto caminhamos na para chegar até aqui.

Cada objeto traduz muito de nossa história. No mosaico dos ladrilhos hidráulicos da cozinha, diferentes formas que juntas tem harmonia. Assim como nosso modo de ser e ver a vida. São os contrários complementares. E assim são os lares que vejo por aí.

Na semana passada fomos à Jaguarão e conheci a casa da querida amiga Neca. Foi uma tarde muito especial. Com a força de uma leoa, ela mostrou cada pedacinho daquele lugar, que sem dúvida é um grande lar. Cada peça apresentada com carinho, tinha alguma referência simbólica. Era como um retrato dos moradores daquele local.

Isso faz de uma casa um lar. E assim são os lugares mais especiais que conheci na vida.

Lembro também de casas que visitei, extremamente bem decoradas. Daquelas que se vê em revistas e que temos vontade de nos teletransportar na hora, imaginado que a felicidade mora ali. Em muitas dessas casas, não vi a cara de seus donos. As marcas de suas vidas não estava nos bem desenhados móveis sob medida.

A verdade é que a minha prima Andréa tinha razão.

Pode demorar um tempo para se achar um lar de verdade. Mas o que realmente importa, é no dia que encontrarmos esse lugar, depositarmos ali nossos sonhos e desejarmos do fundo da alma que a segunda-feira demore a chegar!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A bolha

Nunca pensei em criar a Sofia numa bolha, longe da realidade da vida. Mesmo com as seqüelas respiratórias que ela tem, nossa orientação e vontade, sempre foi de colocá-la no girar do mundo, para criar anticorpos.

Mas confesso que nos últimos tempos tenho repensado tudo isso. E não é por causa de vírus, bactérias ou risco de doenças. A realidade anda uma navalha. As notícias que invadem o nosso mundinho pacato não cabem dentro de cidadãos de bem, como nós aqui reunidos. A tal da tecnologia da comunicação faz com que nossa paz seja diariamente rompida com notícias e dramas que jamais pensamos em sã consciência.

Eu ando triste por demais essa semana. Não consigo dar um passo sem alguma nova informação do horrendo crime do tal goleiro do Flamengo me atropelar. Se ligo o rádio enquanto vou levar a Sofia ao colégio, vem a tona mais uma novidade. Ligar a TV nem pensar. Me logo na internet e a página de capa do meu computador já estampa mais um detalhe da barbárie.

E daí me pego pensando na suavidade e doçura daqueles olhinhos que me seguem. Sorte que a cabecinha de um ser humano de cinco anos não compreende metade do que é dito nos noticiários. Mesmo assim fico angustiada em tê-la por perto quando tamanha brutalidade é detalhada, sem dó nem piedade, por nossos colegas jornalistas.

Como explicar a uma florzinha que acha que o namorado será aquela pessoa que vai saltar coraçãozinhos da cabeça, como nos gibis da turma da Mônica, que o fulano matou e mandou atirar os pedaços da fulana aos cachorros. Que o pai da fulana, que pegou a guarda do bebê dessa relação, vai perdê-lo porque é suspeito de estuprar uma menina de dez anos. Como isso tudo cabe na nossa cabeça? Como transformar esse enredo do mal em qualquer coisa mais amena para se dizer a um filho?

Eu nunca assisti a um filme de terror na minha vida. Em fase alguma, juro. E foi uma opção minha, por vontade de nunca ficar pensando em coisas irreais, que pudessem tirar o romantismo da vida. E não é que a vida real tem me proporcionado cenas bem mais picantes que as imaginadas em Hollywood?

Do jeito que as coisas andam, vou adaptar o roteiro De “A vida é bela”, ou criar um planeta como o “Pequeno Príncipe” para criar minha filha.
Nos últimos tempos, a realidade não tem tido graça nenhuma, bem melhor seria viver na tal da bolha!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O beijo de Galeano

Foto: Nauro Júnior

Era um sábado como outro qualquer, se não tivesse tocado o meu celular cortando a calma da tarde. Eu não imaginava que a partir daquele telefonema, começaria a trajetória de um encontro que jamais imaginei ter, mesmo que com 650 quilômetros de distância entre os protagonistas .

Do outro lado da linha, a chefe do Nauro dizia que ele iria para Montevidéu, para cobrir o clima de euforia do povo uruguaio em função do jogo da semifinal da Copa do Mundo. Eufóricos ficamos nós com a notícia, já que uma cobertura internacional é sempre um presente para um jornalista. Tratamos de agilizar a parte prática da viagem, para que ele embarcasse no TTL de domingo à noite. Passagem na mão, mala pronta, equipamento afiado.

Ele se despediu meio nervoso, parece que prevendo que aquela não seria uma cobertura qualquer. Em Montevidéu o repórter Diogo Oliver o aguardava para traduzirem em texto e imagens a emoção dos seguidores da Celeste. Enquanto isso, eu aqui tratei de tocar a vida, acabar algumas pendências e organizar a rotina da Sofia.

Na segunda-feira, como de costume, acordei cedo e já me conectei à internet para começar o trabalho do dia. Falei rapidinho pelo MSN com o Nauro, que tinha chegado bem e estava tomando pé das coisas por lá. Seguimos cada um no seu curso, até que pelas 11h ele me chama de novo.

- Sabes quem vamos entrevistar hoje a tarde?

E eu sem a menor idéia e meio sem paciência, fui direto ao assunto.

- Não sei, conta logo.

E ele, sabendo que eu iria ficar maluca, digitou cada sílaba na tela azul:

- Ga-le-a-no!

- O quê? Não acredito, que máximo!!! Ah, como eu queria estar aí. Aiii meu Deus, então manda um beijo meu pra ele, e diz que ele norteou meus passos desde a adolescência. Sou louca por ele!

Não consegui mais trabalhar. Começava a fazer alguma coisa, e quando via estava viajando pelas páginas de “Veias abertas da América latina”. Este, assim como tantos outros livros que sempre inspiraram minha alma. Me perdia pensando no quanto a obra deste grande escritor tinha influenciado as minhas escolhas de vida. Ele e a Isabel Allende sempre foram as minhas adorações literárias. Sou apaixonada pela dupla.

O Galeano tem uma coisa que admiro demais. Ele é fiel a si mesmo. Diz o que pensa, mesmo que de forma irreverente. Está convicto de suas idéias, que sempre condizem com a sua essência. É daquelas pessoas que sentimos orgulho em estar vivendo na mesma época que nós.

Bueno, a entrevista era às 15h, e no final da tarde o Nauro me chama de novo no MSN. Estava totalmente inebriado com aquele momento singular. Para nós, que tanto o admiramos, são instantes mágicos. Então ele começa a descrever detalhes da entrevista, feita em um charmoso café chamado “Café Brasileiro”. O Nauro, ciente de que aquele seria um momento para contar aos nossos netos, gravou toda entrevista com o celular. Papo vai, papo vem, e no final o Nauro conta que sou apaixonada por ele, e que desde jovem leio seus livros. Com àquele jeito único, Galeano responde:


- Coitada da moça, é uma vítima.


O Nauro aproveita e diz que eu mandei um beijo, conforme a recomendação feita a 650 quilômetros de Montevidéu. Foi aí que o grande momento aconteceu. Ele olhou para câmera e disse olhando nos meus olhos:


- Gabriela, Gabriela, que emoção, eu estou lhe enviando um beijo.


E olhou para o Nauro e disse:


- Não sejas ciumento.


O Nauro ainda brincou com ele, que não poderia sentir ciúmes, já que o meu amor por Galeano era anterior ao nosso casamento. Foi quando ele disse:


- Não te preocupes, eu te autorizo a amá-la como se fosse eu!


Gente, depois desse presente eu vou guardar essa Copa do Mundo da África para sempre no meu coração. Não tem hexacampeonato que valha mais do que um beijo do Galeano.


Sinceramente, eu não sei vocês, mas eu... tô levando a taça pra casa!!!!

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."

[ Eduardo Galeano ]

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Medula

Numa tarde qualquer dessas últimas semanas fiz uma coisa que tenho vontade há pelo menos uns cinco anos. Estava escutando rádio enquanto dirigia o carro e ouvi uma entrevista no programa Pelotas Treze Horas. Era com uma guria de cerca de 30 anos, que estava com leucemia. Naquele momento, através do seu relato, ela estava estimulando as pessoas a se candidatarem à doação de medula.

A entrevistada era super disposta e estava pra lá de otimista, visto a guerra que tinha pela frente. Ela tinha recebido um diagnóstico que há alguns anos atrás era uma sentença de morte. Hoje a coisa já é bem diferente. Ela tem todas as possibilidades de ganhar essa guerra. Não é barbada, como tudo que envolve as tais células cancerígenas.

Mas a contar pela sua disposição e esperança, já entra no campo de batalha com um exército corpulento. As armas do positivismo são definitivamente uma grande ajuda. Tenho vários amigos na volta que me ensinam isso: Neca, Leo, Gianne,...Eles já ganharam muitas batalhas e estão aí para mostrar que dentro do coração temos imensuráveis formas de atuar contra a doença e levantar a bandeira da paz nessa guerra.

Aquela breve lição de vida que chagava pelas ondas do rádio me fez mudar o rumo do meu trajeto. Me dirigi na mesma hora para o Hemocentro e fui finalmente fazer a doação de medula. Em pouco mais de quinze minutos, os meus cinco milímetros de sangue estavam a caminho do Registro Brasileiro de Doadores de Medula Óssea - Redome. É um banco de dados sanguíneo, que reúne o detalhamento celular de cada doador e do receptor. Caso um doador cadastrado seja compatível, articula-se a doação.

Simples assim!

E o pior é que eu já sabia disso, porque há uns três anos fiz uma matéria exatamente para detalhar a facilidade da doação e desmistificar a imagem de que doía, ou iríamos ter que deixar um pedaço de medula no banco de sangue. Escrevi a matéria, saiu na revista, mas eu não me mexi.

Depois de feito o procedimento, fiquei pensando exatamente nisso. Sei lá o que fazemos de nossos dias, que nos ocupamos com coisas mais importantes do que a possibilidade de salvar uma vida. Então pensei que uma forma de me redimir dessa falha, seria disseminando por aí a afora sobre a facilidade que é fazer a doação.

Sei que as chances de compatibilidade são mínimas. Que são raros os casos e tudo mais. Mas quando entro na lotérica para jogar na Mega Sena, a chance de eu ganhar é menor ainda. Quando envio um torpedo para o Faustão, querendo ganhar um milhão de reais, a chance é a mesma. E mesmo assim, fazemos isso sem a menor cerimônia.

Portanto, a partir de hoje, sou uma porta-voz da doação de medula. Imagina um pedacinho da gente virar vida em outra pessoa.

Isso sim não tem preço!

P.S.: Para quem se animar e for da região de Pelotas segue o endereço do Hemopel. Para os demais sugiro divulgarem os das suas cidades!!

O Hemocentro de Pelotas fica no prolongamento da avenida Bento Gonçalves, 4.569, próximo do Colégio Municipal Pelotense. O contato com o Departamento de Captação pode ser feito pelos telefones (53) 3225-7262 e 3222-3002, ou pelo e-mail hemopel@fepps.rs.gov.br.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Madrugadas

Estou longe do meu divã-virtual há quase duas semanas. Tempo curto por um lado, interminável por outro. Voltamos dia 21 de Novo Hamburgo, onde a Sofia comemorou seu aniversário, trazendo uma bela gripe na bagagem. Fomos com roupa de meia estação e encontramos uma frente fria no caminho. O resultado foi mãe e filha pestiadas.

Tosse, espirra, dói o corpo, mas segue o ritmo. Fomos assim por não mais do que dois dias. Primeiro eu caí de cama. Ela segurou mais dois dias, mas quando veio a baixo ficou bem ruinzinha. Desde domingo foram duas noites insones. Hoje, depois da segunda consulta ao pediatra, ingressamos com o antibiótico. Ela segue com duas sessões diárias de fisioterapia.

Durante as madrugadas, em que atendo minha florzinha, fico divagando. Entre um febrão e outro, vendo o seu esforço para respirar com aquele pulmãozinho lotado de catarros, me remeto a várias viagens noturnas.

As madrugadas parecem intermináveis. Eu sei que o tempo tem a mesma duração com sol ou lua, mas a sensação de infinito toma conta no escuro. Ainda mais quando a angústia é companheira dessas horas.

E nesse desenrolar noturno, penso e repenso na vida. Na sua brevidade e essência. No destino de cada uma dessas pessoas que cruzam o caminho da gente. Muitas, me questiono sobre o porquê de tê-las encontrado. Outras, fico feliz por existir um fio condutor e invisível, que atrai pessoas totalmente distintas, por motivos especiais. Essa mágica da vida é encantadora.

Penso no que deverá nos espreitar na próxima esquina. Misturo sentimentos de medo e alegria nas noites insones. Penso nos amigos que foram embora. Nos que nunca foram tão amigos assim. Nos que acreditamos que eram. E nos que sempre voltaram.

Cada um procurando fazer a sua trajetória nessa tal de vida. Buscando, achando, perdendo. Sentimentos contraditórios que invadem a cabeça durante os minutos infinitos da madrugada.

Entre um pensamento e outro, meus desejos são sempre para que a vida seja uma espécie de madrugada infinita, e que todos que eu amo estejam sempre por perto.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Véspera

Acontece há quatro anos a mesma coisa e pelo visto se repete mais uma vez. Na véspera do aniversário da Sofia uma angústia inexplicável toma conta de mim.

Amanhã, dia 18 de junho de 2010, minha amada filha completa cinco anos de vida.

O clima aqui em casa é de euforia. Ela pediu para eu fazer um calendário com os dias que faltam, e desde a semana passada todo dia acorda e risca um dia. Amanhã será a festinha no colégio, na hora do lanche. Coisa bem simples, mas a Tatá e eu já nos debruçamos em compras e detalhes para deixar a hora do lanche das crianças um momento divertido. No dia seguinte, seguimos para Novo Hamburgo. Ela terá outro aniversário lá, junto com o primo Lucas, que completa um ano de vida. O tema da festa é o circo, e já compramos um tule rosa-choque para fazer a tão desejada roupa de bailarina que ela pediu. Eu aluguei uma fantasia de palhaço para mim e o Nauro disse que vai produzir sua própria performance.

Com esse cenário maravilhoso, como eu posso estar angustiada?

Sempre a mesma sensação. Hoje peguei a estrada para ir até a Ecosul e no caminho fui pensando. Tentando desvendar esse sentimento que me assombra na véspera de um dia que tenho como o mais feliz da minha vida. Imagino que Freud tenha pelo menos uns 20 capítulos de respostas pra me dar. Mas não estou a fim de encarar um divã real.

Quando a Sofia completou um ano, fizemos uma coisa bem simples para comemorar. Na época ainda estávamos morando com meus pais, e passei o dia anterior à data fazendo lembrancinhas, enrolando negrinhos com a Kiki, com meus sobrinhos e a Sofia na volta. Um clima super legal. Daí fui dormir e por volta das 2h da manhã me acordei com uma dor aguda no abdômen. Era uma coisa tão forte que eu só conseguia pedir para o Nauro chamar a ambulância. Ele me colocou no carro e quando me dei por mim, já estava de pijama e pantufas tomando um remédio na veia, em plena Unimed. Não tenho a menor idéia do que aconteceu, até hoje. Nem o médico que me atendeu decifrou.

Com o passar dos anos o aperto vem no peito, como se eu tivesse que romper aquela data para respirar aliviada. Sei que muita gente pode dizer que está ligado ao que passamos, à cesárea de urgência, enfim, respostas aos montes. Hoje enquanto eu dirigia para Ecosul, pensei que escrever sobre ela iria me aliviar. Comecei a olhar para trás, com a intenção de enxergar os fantasmas e acabar de vez com eles.

No meio dessa imersão no passado me veio à mente o dia que eu desafiei a morte. Foi na véspera da cirurgia da Sofia. Não tínhamos mais tempo para esperar e quando menos imaginávamos, ela pegou uma nova infecção. Era uma segunda-feira de manhã e Dr. Flávio entrou com o resultado do exame na mão. Sentou e baixou a cabeça. Estávamos a Sofia, ele e eu na sala do isolamento da UTI. Ele mexeu a cabeça e percebi seus olhos umedecerem. Então naquele momento eu vi que estávamos frente a frente, como naqueles desenhos animados que enxergamos aquele vulto negro, com a foice na mão.

Eu senti alguma coisa por dentro que jamais saberia descrever em palavras. Olhei firme pra ele e disse:

- Não se preocupe Dr. Flávio, não vai acontecer nada de ruim com a Sofia!

Eu acho que nesse momento peitei a morte. Meus argumentos eram as tantas pessoas que rezavam e pediam pela Sofia naquele momento. Gente que até hoje nem conhecemos. Anônimos que se engajaram na corrente pela vida dela. Tenho certeza de que força dessa energia conjunta, fez com que ela se convencesse a ir embora. Foi como se eu tivesse usado toda minha energia naquele momento.Para quem lê, pode parecer uma ideia absurda. Mas quando olho para trás, vejo que alguma coisa muito forte aconteceu naquele dia.

Talvez alguma coisa ainda me dê medo dentro desse passado. E a proximidade do aniversário da Sofia é uma certeza de que amá-la incondicionalmente, é a melhor coisa que a vida poderia ter me proporcionado. Não consigo imagina a vida sem esse ser brilhante, que ilumina nosso caminho todos os dias. Não tem um dia que eu não agradeça à Deus por esse presente. Sou eternamente grata, por ter me confiado tamanho privilégio.

Com ela aprendo todos os dias, e quem sabe depois desse desabafo, não vou acender uma velinha na igreja em que minha Voinha sempre agradeceu pelos seus sete filhos.

Acho que é uma boa idéia nessa véspera de dia tão especial. Um contato direto com quem me deu o meu maior presente!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Luzes

Desde que a Sofia nasceu confesso que não me dediquei mais aos cuidados femininos. Na verdade já sei que sou um pouco diferente do padrão da maioria das mulheres. Meu estilo é alternativo, tenho horror à maquiagem e não uso salto alto. Na verdade não sei caminhar com nada além dos meus longos centímetros de altura. Se já sou levemente desengonçada, de salto então, pareço um boneco de Olinda!

No quesito exercícios físicos, a coisa vai pelo mesmo caminho. Tenho horror a academia. Odeio aquele “um-doi-um-dois”, ainda mais para depois ficar toda suada em função de meia dúzia de calorias. Socorro!!! O custo não vale o benefício!

No ano passado, descobri o tal do Pilates e me apaixonei. Além da aula ser todinha pra mim, todos os movimentos são leves, lentos e de alongamento. Uma verdadeira terapia corporal. Comecei com toda força durante o verão, até que começaram as aulas da Sofia e o vai-vém de horários não fechou mais com meu tempo. Minha coluna continua cheia de dores, e voltei a ficar ancorada nessa cadeira, o dia todo em frente ao computador, como uma verdadeira samambaia.

Dentro desse kit, a parte dedicada aos cabelos foi a que mais sofreu nos últimos anos. Quando eu era adolescente, fazia mil experiências químicas com camomila, leite e água oxigenada e conseguia um resultado maravilhoso. Minha mãe ficava apavorada, mas sempre dava certo. As mechas ficavam super naturais, como se eu acabasse de voltar de um mês na Praia da Ferrugem. Mas a verdade é que minha veia alquimista é criativa demais para linha capilar e com o passar dos anos tive algumas surpresas nada agradáveis.

Depois que a Sofia nasceu o tempo para criar fórmulas também diminuiu, e por isso estive com a cabeça que nem um capincho nos quatro últimos anos. A correria do cotidiano fez com que eu deixasse mais ainda de lado a dedicação ao ritual feminino. Isso me incomodava muito, mas eu ia levando e levando.

Até que há algumas semanas atrás resolvi dar um jeito na vida. Marquei hora no cabeleireiro e fiz as tais luzes, como manda o figurino. Quando a mulher secou o cabelo e me olhei no espelho, me deu vontade de chorar.

Há quanto tempo eu não enxergava aquela pessoa no espelho? Uma coisa tão simples, tão rápida, e que elevou a minha auto-estima feminina aos ares. Parecia que eu tinha voltado aos 25 anos. Continuo vestindo minhas calças de bolsos grandes, meu tênis all star, com minha bolsa atravessada. Coloco creme diurno mas o resto fica mofando na prateleira. A maquiagem só se for para brincar com a Sofia. Mas a verdade é que com essa pequena mudança consigo olhar essa mulher de 41 anos com mais brilho todas as manhãs.

Vou continuar sem freqüentar academia e possivelmente o salto alto fique para próxima encarnação. Mas essa ligação entre quem eu era e quem eu sou, vai continuar sendo prioridade. Prometo que as luzes internas vão continuar acesas para iluminar o meu cotidiano. Sempre!

sábado, 12 de junho de 2010

O encanto das flores



Em vez de cavalo, ele chegou no banco traseiro de uma caminhonete branca, marcada pela lama da estrada. Vinha sentado na cadeirinha, com o cinto de segurança, como manda a lei. Na mão, empunhava um delicado buquê de astromélias rosadas, amarradas com cordão de ráfia.

Essa cena descreve a chegada do Pedro em nossa casa, para uma tão aguardada visita, na tarde desse sábado. Com os olhinhos brilhantes pela chegada do amigo, a Sofia corou ao ver as flores, e perguntou:

- Mas são pra mim?

Foi o primeiro buquê de flores que nossa mimosa ganhou, e por mais que passem os anos, jamais essa cena tão pura se apagará de nossa retina. A Lorena, mãe do príncipe, brincou:

- E hoje ainda é Dia dos Namorados!!!

Depois do abraço de boas-vindas, a Sofia enxergou o cartão, que tinha a letrinha do remetente escrita com o encanto das primeiros traços do alfabeto: P-E-D-R-O.

Assim como a primeira vez que ela foi para casa do "colega meu", mais uma vez a ansiedade maior era minha (vide post “Um colega meu”, de abril). Ela queria muito que algum coleguinha da sala conhecesse a casa dela, e depois de três meses do começo das aulas, já estava mais do que na hora.

Nossa primeira vez como anfitriões foi aguardada com expectativa . Comprei a torta de morango preferida do nosso convidado e fizemos uma faxina na casinha de bonecas da Sofia.

Os dois não precisaram muito pra se divertir. Na mesma hora começaram a jogar taco, depois subiram na casinha para fazer comidinhas, desceram no escorregador, brincaram de estradas de areia, até que sugeri um pic-nic na lareira, já que o vento começava a esfriar nosso final de tarde.

Montamos uma barraca na sala e coloquei a toalha xadrez com a cesta de guloseimas na frente. Eles desenharam, brincaram de massinha de modelar e comeram pipoca. A tarde voou e curtimos momentos deliciosos juntos.

Já era hora do príncipe deixar o castelo, quando o Nauro chegou, empunhando um ramo de lírios brancos. Eu sorri e quase perguntei a mesma coisa que a Sofia:

- Mas é pra mim?

Não sei se era o calor da lareira, mas senti esquentar minhas bochechas. Com esse gesto carinhoso encerramos nossa tarde de sábado. E depois de comer duas fatias da torta de morango com chocolate, nosso convidado Pedro foi para casa, de mãos dadas com sua mãe.

Depois desse dia tão especial, cá estou eu, declarando com todo meu coração, a certeza de que independente da idade ou do momento, as flores sempre tocam o coração. A força das flores transcende as gerações e sempre encanta as mulheres.

Seja aos quatro, ou aos quarenta anos, pode acreditar!
P.S.: Em tempo: um verdadeiro gentlleman, não tem idade!

Um colega meu II

Para quem acompanha o blog,deve lembrar o post “Um colega meu”, publicado aqui em abril. Pois então, a segunda parte dessa história acontece nessa ventosa tarde de sábado. Enquanto escrevo, a Sofia me pergunta sem parar:

- Falta muito para o Pedro chegar?

É que hoje, àquela visita que ela fez ao colega, vai ser retribuída, com a vinda dele aqui em casa. Para esperá-lo com todo carinho que merece, ontem na saída da aula perguntei se ele gostava de bolo de chocolate. Ele disse:

- Eu gosto, com morangos!

Na hora me dei conta que a minha idéia de fazer uma nega-maluca caseira tinha ido por água abaixo. Meus dotes culinários se limitam ao no máximo um bolo de caixinha, com cobertura de negrinho. Então hoje, quando se confirmou a vinda do “colega meu”, saímos as duas para o centro, com o objetivo de encontrar uma deliciosa torta para o nosso pic-nic vespertino.

Passamos por uma livraria e aproveitamos para comprar cadernos de desenho e canetinhas novas, já que o tempo está frio e as brincadeiras pelo gramado devem durar pouco tempo. A intenção é dividir a programação em duas etapas, uma externa e outra com lareira, pipoca e pinturas.

Nesse exato momento a Sofia pediu para sestiar, já que o tempo para ela não passa e na sua cabecinha imagina que se dormir, o Pedro vai chegar mais rápido. Eu também, resolvi escrever no meu divã-virtual para o tempo voar. Quero muito que essa tarde seja divertida para essa duplinha tão mimosa.

No primeiro post, a princesa Sofia voltou para casa com o castelo do Pedro e terminou a noite tomando uma mamadeira no colo da mamãe. Hoje esperamos o príncipe Pedro com uma deliciosa torta de chocolate com morangos.

A seguir, cenas do próximo capítulo, de uma fábula dos tempos modernos, feita com a pureza do mundo infantil!

sábado, 5 de junho de 2010

Laços de doce de leite

Como pode uma comida tocar a alma?

O começo dessa história foi na noite de quarta para quinta-feira. O Nauro passou a noite com febre alta e eu entre uma soneca e outra, tive um sonho muito real. Quando acordei ainda fiquei alguns minutos em estado de graça, com uma sensação diferente de que algo muito real tinha acontecido durante aquela noite. E não era delírio, já que os 39 graus de temperatura que o termômetro apontava, eram do marido.

Coloquei a mesa do café e sentei sozinha na sala, puxando da memória cada detalhe do encontro que tive com a Voinha. Ela conversava comigo coisas boas, cotidianas, e me perguntava onde estava àquela carta que ela tinha me dado, com uma oração em papel de seda. Eu tentava lembrar, mas a última vez que a vi, foi no primeiro quarto que fizemos para Sofia, na casa alugava que vivemos antes desta ficar pronta.

Com os imprevistos do nascimento prematuro e dos meses de hospital, a Sofia nem conheceu aquele quarto. No segundo mês de internação na UTI, nossa casinha foi assaltada, e decidimos por colocar nossas coisas em uma garagem de amigos para não ter nada que tirasse a atenção da nossa amada. Concentramos nossa energia nela, e na sua cura. Eu nesse período, nem vi a casa ser desfeita. Como permanecia durante 24 horas – literalmente - no hospital com ela, não participei dessa mudança.

Meus sogros queridos fizeram essa parte dolorida. Vieram de Novo Hamburgo e pegaram no pesado. Então o altarzinho de santos, com as cartinhas das duas avós já falecidas, Voinha e Chochó, foram parar em alguma caixa do passado.

E agora nesse sonho, a Voinha me pergunta pela cartinha.

Nossa, que sensação. O que posso dizer, é que aquele encontro aconteceu, de alguma forma. Senti o carinho dela, a segurança das suas palavras, a luz do seu espírito. Aqueles momentos imensuráveis abraçaram meu coração. Foi um colo gostoso de avó, em um tempo que não sabemos ainda explicar, mas que existe. Tenho certeza que sim!

Mas essa história não acaba aqui. Surpresa maior eu tive na quinta-feira à noite. Minha irmã Kiki veio de Jaguarão com as crianças, para irmos à Fenadoce. Chegaram à noite, e a Sofia e eu estávamos na casa da mãe esperando por eles. Ficamos matando a saudades na volta da estufa, conversando sobre a vida. E eis que ela me diz:

- Gabi, essa noite me aconteceu uma coisa tão boa. Sonhei toda noite com a Voinha. Foi a primeira vez que isso aconteceu depois dela ter morrido!

Eu gelei. Não cabia em mim. Dizia para ela:

- Kiki, vai lá no quarto agora e pergunta para o Nauro com quem eu sonhei toda noite. Pergunta para ele, tu não vais acreditar se eu te contar que também estive com ela!!!!

Fiquei impressionada com aquilo. Por mais que realmente exista alguma coisa muito forte além dessa vida que vivemos, aquilo era inusitado demais. A Kiki detalhou seu sonho, onde também estava a tia Isa, que sempre teve uma ligação forte com ela, mesmo que tenha morrido antes da Voinha, quando a Kiki era bem criança. A Voinha dizia que a tia Isa era o anjo da guarda da Kiki. E a kiki por sua vez colocou o nome da filha de Luisa, não por obra do acaso, mas em homenagem a tia Isa.

No sonho da minha irmã, o lugar do encontro era o priemiro apartamento da Voinha, na rua Tiradentes, onde íamos sempre depois do colégio. A empregada da Voinha era a Laura, que na época era uma moça solteira, com uma mão boa na cozinha, e que nos cuidava com muito carinho. Ela nos buscava todas as tardes no colégio. Quando chegávamos, assistíamos ao Sítio do Pica-pau Amarelo, enquanto a Laura fazia um doce de leite caseiro. Aquela receita necessitava de fogo brando e muita paciência, e enchia o apartamento da Voinha de um saboroso aroma de afeto.

Lembramos disso e de mais alguns detalhes daqueles bons tempos da infância. Ficamos emocionadas com a estranha coinciência.

Ontem comentei com a Talita, que trabalha comigo, sobre o episódio dos sonhos e do doce de leite. Fui para Fenadoce com a kiki e as crianças e hoje quando acordei: surpresa!

A Talita é filha da Laura, a que trabalhava na Voinha. E quando a chegou na sua casa ontem, comentou dos nossos sonhos com a Laura. Ela na mesma hora foi para o fogão. Fez um daqueles doce de leite de antigamente, e dividiu em dois potinhos. Hoje a Talita chegou com o néctar da saudade, em duas carinhosas embalagens.

Abri e não acreditei. Ela pediu para eu cheirar. Tasquei uma colher de doce na boca e fechei os olhos. Senti o sabor daquela saudade bem dentro da minha boca. Fiquei profundamente emocionada com aquele carinho.

Agora estou aqui, sozinha em casa, acompanhada pelo calor da lareira e escrevendo esse depoimento de uma das melhores sensações que tive. Além de um momento único, foi uma certeza. De que aqueles que amamos, nunca vão deixar de estar perto da gente. Mesmo que muitas vezes o tempo apague algumas memórias, sempre vai ter um cheiro, um sabor ou um anjo para assoprar um carinho e matar a saudade no nosso coração.

No caso da minha Voinha, são laços eternos, feitos de doce de leite e muito amor!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Silêncio e água

Hoje eu tinha um compromisso no final da tarde, então pedi para mãe buscar a Sofia no colégio. Acabei me liberando mais cedo, e quando cheguei na porta da casa dela, o alarme estava ligado. Estacionei o carro e fiquei aguardando eles chegarem para abrir o portão.

Nos minutos finais do dia dessa terça-feira, me deparei com o silêncio.

Pensei até em ligar o Cd do carro, mas aquela sensação estava tão boa que decidi apreciar a ausência de ruídos.

Comecei a pensar, e pensar em silêncio é primoroso.

A vida dos tempos modernos é repleta de sons. E mesmo que eu trabalhe em um ambiente calmo, a quantidade de mails que invade minha caixa cotidianamente, é uma espécie de barulho. Quando não é isso, o celular irrompe com alguma coisa para agendar, marcar, lembrar, falar.

Como trabalho em casa, a ligação escritório família é quase siamesa. E em uma casa onde as pessoas que a habitam gostam de falar, desde o primeiro raio de sol ao nascer d lua os verbos são conjugados incessantementes. Meu marido é conhecido por falar pelos cotovelos, e como a genética não falha, a Sofia saiu com essa característica do pai bem apurada. Para se ter uma idéia, o primo Pedro a chama de “máquina de falar”. Como se não bastasse, minha mãezinha querida gosta de um bom papo, e não é de hoje.

Então, com esse histórico genealógico e com a tecnologia que impera no século XXI, aquele momento de silêncio, em plena rua de chão do bairro Areal, soou como um presente. Mesmo com certo receio de ser assaltada, pensei em me deleitar antes do “mãos ao alto”.

E assim foram vinte minutos, onde a paz daquele silêncio me inspirou a escrever novamente no blog.

E foi ali, naquele instante só meu, que descobri porque gosto de água. Desde criança sou fã desse tal líquido inodoro, que é minha preferência para acompanhar qualquer refeição.

A água dá uma sensação de refrescância. É como tocar sem deixar impressões digitais. Descobri naqueles breves minutos, o poder do silêncio. É tão simples como um gole de água, e refresca a alma.

Acho que vou me dar esse luxo mais seguido. Um brinde a essa descoberta!

(*Com água é claro!)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Da pá virada

Que os homens são de marte a as mulheres são de Vênus eu já sabia. Não li o tal livro famoso, mas na prática compreendi o significado amplo da metáfora. Até aí tudo bem, mas eu sempre tive afinidade com amigos homens, desde os tempos de colégio. Por isso acho que talvez meu planeta seja Saturno, ou Urano, quem sabe. Meu amigo Gabriel, inseparável parceiro dos tempos de Gonzaga, que o diga. Ele conta até hoje que eu era pior que os guris naqueles idos anos 80. Eu até hoje me defendo acusando ele de cúmplice das minhas peripécias.

Uma vez quase fui expulsa do colégio por conta de uma arte. Tínhamos uma colega que era a popozuda da aula. Loira, calça branca colada, unhas pintadas e aquele ar de frágil, que comovia e encantava os seres humanos do sexo oposto. Também pudera, com esse conjunto de atributos. Mas a guria era uma baita dissimulada, e quando chegavam as aulas de educação física, aproveitava os jogos de handebol para empurra, beliscar, puxar cabelo. Mas como tinha cara de santa, na hora que reclamávamos a professora não acreditava.

Até que um belo dia achamos uma calcinha velha no vestiário do colégio. Eu e minha gang resolvemos fazer um plano maquiavélico de vingança. Pintamos a peça íntima com cores chamantes e escrevemos o nome da guria na calcinha. Depois levamos para sala de aula, e logo depois do recreio, o guri mais espalhafatoso da aula abriu o caderno e tchan, tchan, tchan...encontrou-a dentro. Foi aquele alvoroço masculino. A calcinha rodou a sala de mão em mão, até que um dos alunos a colocou esticada na parece do fundo da aula.

O professor de Física entrou e a barulheira não acalmava. Foi então que a nossa colega viu do que se tratava. Levantou chorando, e saiu desenfreada sala a fora. Na mesma hora o professor resolveu chamar o inspetor, figura temida no meio escolar, o famoso Luiz Gonzaga.

Ao entrar na sala de aula ele nos olhos com cara de furioso e disse:

- As meninas estão dispensadas, o assunto aqui é de homem!

E eu sai bem quietinha, faceira por ir mais cedo para casa. No outro dia a coisa complicou. Um dos guris me denunciou e fui chamada com outra colega a depor na direção. Foi um horror. Imaginem em um colégio de padres, uma menina fazer tamanha traquinagem. Chamaram minha mãe e depois de muita conversa eu fui colocada na quarentena. Acabei não sendo expulsa porque na hora da minha defesa pedi a palavra e disse uma frase que comoveu o diretor, utilizando passagens bíblicas para evocar o perdão. Foi tipo Francisco Cuoco no auge da canastrice.

Depois dessa fiquei bem quietinha. Até o dia em que descobri uma obra no edifício ao lado do colégio. Cuidei o movimento dos pedreiros e em determinado momento convidei minha gang para colocarmos a escada e agilizarmos uma fuga em pleno intervalo de aula. Quando estávamos no meio do caminho, alguém espiou pela janela e nos viu em plena travessia. Resultado: fomos levadas de volta ao cárcere privado, sem direito a merenda.

A minha vida escolar não foi de muita dedicação aos estudos, mas a verdade é que era divertido demais. Depois que cresci e virei uma profissional de respeito, fiquei chata e meus dias mais insossos. A única adrenalina dos dias de hoje são prazos pra cumprir e volta e meia alguns vaidosos para enfrentar.

Que saudades dos tempos em que eu era da pá virada!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Terapia de maridos

Terça-feira cinza, fria e chuvosa. Pra completar o cenário, a nossa fiel escudeira, Talita, que se divide entre as tarefas de ser minha secretária e babá da Sofia, estava doente há dois dias. Sem perspectiva de voltar tão cedo, a casa estava ainda com aquele resquício de final de semana. Lavei o rosto, escovei os dentes e fui fazer um café.

O Nauro acorda alguns minutos depois, com cara de poucos amigos. Parecia estampar no rosto todos os ingredientes daquela manhã esquisita. Lacônico, mal deu bom dia e sentou na sala com o mate na mão. Para quem conhece o meu marido, sabe que estar quieto e sério, é sinal de que entrou água nas máquinas. Alguma coisa não está rodando nessa engrenagem.

Abri a internet para fazer o clipping, e me dou de cara com a capa da Zero Hora. Uma foto do repórter da sucursal de Rio Grande, feita com celular. Sinal dos tempos e do que está se transformando o jornalismo. Hoje em dia um celular com câmera e uma dose de vaidade, fazem de qualquer repórter um faz-tudo. Tudo que o departamento financeiro de uma empresa quer. A personificação da redução de custos. Nos olhamos e eu já sabia o que ele estava pensando. Fazer o que? Eu continuo achando que nada substitui o talento. Mas em uma manhã cinza e chuvosa, melhor não contrariar.

Organizamos a casa, me debrucei nos textos do caderno da Fenadoce e ele foi para cozinha. Passamos a manhã cumprindo os deveres domésticos, em um silêncio cúmplice. Sei das fases do meu marido. De quando ele tira todas as dúvidas das gavetas e coloca no sol, como que para tirar o mofo. Só que um dia como aquele não ajudaria a secar nada, muito menos angústias.

Deixamos a Sofia no colégio juntos, tomamos um cafezinho na cantina da escola e o deixei no jornal. Sabia que o compromisso da tarde dele era legal. Iria à casa do querido amigo Schlee, com o Javier, Alex e Vicente.

A tarde passou e quando a noite caiu fui buscá-lo para irmos para casa. O Nauro que entrou no carro parecia recém chegado de uma semana em Porto de Galinha. Animado, sorridente e até mais corado, juro! Perguntei se tinha dado tudo certo lá no Schlee e ele disse:

- Não e sim!

Como assim, perguntei. O Schlee não estava, perderam a viagem? Isso porque ele mora em Capão do Leão, município vizinho a Pelotas.

- Ficamos esperando ele chegar, fizemos um mate e começamos a conversar os quatro. Um papo super bom, sobre as nossas vidas, esposas, rotina. Um papo de homem, sem frescura. Foi tão bom!

Então ele começou a dizer coisas que tinha dito e ouvido, na maior alegria. Como se tivesse ido na terapia. Enxerguei naqueles olhos tristes da manhã, um ar de juventude, de renovação. O Schlee acabou não atendendo eles, por motivos pessoais. Mas sei que os quatro saíram levinhos daquele mate terapêutico.

Pensei no quanto tinha sido legal e necessário aquele momento para eles. Sugeri até que repitam a dose mais vezes. Que façam das manhãs cinzas, tardes de sol.

Mas não dá pra facilitar. Vá que eles comecem a pensar muito nesses encontros e resolvam queimar cuecas em praça pública. Alto lá, vamos devagar com essa terapia de maridos!

domingo, 16 de maio de 2010

Mochila de rodinhas

Tudo ia muito bem até que um belo dia, pouco minutos antes de entrarmos no carro para ir ao colégio, a Sofia me chamou. Pediu para me contar um segredo no ouvido:

- Mamãe, eu não quero ir para o colégio!

Eu achei estranho, mas pensei que fosse alguma coisa daquele dia. Vai ver que está cansadinha, com dor de barriga, qualquer coisa assim. Então prossegui o diálogo:

- Mas por que meu amor, tu que gostas tanto do colégio. O que houve?

Ela se abraçou no meu pescoço e aninhada respondeu:

- Mamãe, eu nunca mais quero ir para o colégio!

Como assim? Pirei na batatinha. Ela não precisou de adaptação. No primeiro dia de aula abanou para nós dois, que tentávamos disfarçar as lágrimas, e seguiu adiante cheia de si. Acordava sábado querendo saber que dia seria segunda-feira, enfim, nada poderia explicar. De um minuto para o outro, meu mundo desabou. E pela frase alguma coisa muito séria tinha acontecido para aquela frase vir tão cheia de certezas.

Busquei nos meus arquivos de mãe o tal manual de crises, mas o capítulo "adaptação na escola" só tinha dicas para crianças com dificuldade para ficar nos primeiros dias. Então fui pela lógica, e imaginei que a melhor coisa naquele momento era levá-la ao colégio mesmo assim. Tentei não valorizar o assunto. Disse que eu também não tinha vontade de trabalhar muitos dias, mas que a vida é assim mesmo. Uns dias com vontade, outros sem, mas o negócio era seguir em frente.

Entramos no carro e ela, sentada na cadeirinha, parecia que ia para forca. Não chorou, só deixou a cabeça cair para o lado, com um ar de tristeza tão explícito, que não teve assunto que mudasse o semblante. Chegamos no colégio e ao estacionar o carro ela já me pediu para ir no colo até a porta da sala. Entrou, e sentou em uma cadeira, como se estivesse na sala de espera de um consultório médico, sem o menor entusiasmo.

Comentei com a professora, perguntei se tinha acontecido alguma coisa diferente, mas ela lembrou apenas de um episódio comum. Uma coleguinha havia levado um bichinho de pelúcia e a Sofia brincando, acabou por sujar de tinta o rabo do tal bicho. Foi repreendida e pediu desculpas, segundo o relato.

Chegando em casa à noite, sentei para conversar com ela. Disse que tinha falado com a “profi” e que ela tinha me dito do acontecido com a colega. Ela me disse que estava triste, porque a “aluninha” (é como ela chama) não a tinha desculpado. Expliquei que não tinha sido nada, que era assim mesmo, comum nas escolas e que ela não precisava se sentir culpada. E ela me retribui:

- Mas mamãe, não é só isso, as "aluninhas" nunca brincam comigo!

Ah, a coisa começava a encrespar e eu já estava pedindo ajuda para os universitários. Daí ela começou a relatar um rosário de situações corriqueiras, e em todas o que pude perceber é que minha princesinha estava se sentindo diferente do todo. Rejeitada para ser mais literal.

Uma vez uma colega disse que a mochila dela era velha. A verdade é que na sala (e acho que em 98,8% do colégio) todas crianças arrastam uma mochila de rodinhas. A dela é uma laranja e marinho, que ganhou no final de ano como presente da empresa pelo pai ser funcionário da RBS. Achei ótima, porque é bem das cores do uniforme e cabe a merendeira com o lanchinho, na medida. O outro lamento foi porque a outra colega disse que o tênis dela era velho. Na verdade é um tênis lindo, mas como moramos para fora, tem cara de quem usa mesmo, com as marcas do dia a dia. E assim foram várias situações que para nossa cabeça podem ser mínimas, mas que no universo infantil e sua “sinceridade”, podem virar um problema.

Percebi que até a minha involuntária idéia criativa de mãe, tinha sido um desastre logo no começo das aulas. Deixa eu contar. Seguinte, era para todos irem fantasiados de algum personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo, uma atividade alusiva ao dia do livro, eu acho. O caso foi que quando me dei conta que a maioria das crianças iriam alugar fantasia, já era tarde demais. Não tinha nada disponível. Então lembrei que a roupa da Tia Anastácia era super fácil de fazer e preparei a Sofia com um vestidinho mimoso, avental, lencinho no cabelo, coloquei base no rosto e como adereço uma colher de pau, finalizando as características de uma das personagens mais amáveis de Monteiro Lobato. Levamos ela pela mão, o Nauro e eu, bem faceiros e orgulhosos da nossa Tia Anastácia. Tiramos foto na sala de aula, mas percebemos que ela estava um pouco tímida, fora do seu estado natural de alegria. Quando fui buscá-la mais tarde, entrou no carro e me disse:

- Mamãe, na próxima vez que quero ir de Narizinho, tá? Todo mundo riu de mim.

Hoje, depois dos últimos relatos, percebo que aquele deve ter sido um dia difícil para Sofia. Ser diferente não é fácil. E o universo infantil é permeado de uma sinceridade muitas vezes cruel. Me dei conta que a Sofia tinha chegado de peito aberto para um mundo novo. E da mesma forma que ainda não tinha anticorpos para as gripes cotidianas da escola, não possuía os antídotos para situações como as que o convívio social nos expõem. Ela foi criada aprendendo que sempre que se errava era preciso pedir desculpas, e que ouviríamos “não foi nada”, do outro lado. Da mesma forma, era preciso agradecer quando alguém nos fazia uma gentileza. E assim por diante, com as famosas “palavrinhas mágicas que abrem as portas do mundo”, como sempre brincávamos em casa.

A verdade é que o mundo não tem mais essas regras como essenciais, e muitas vezes usá-las pode parecer diferente. E assim seguem as situações da mochila, do tênis, da Tia Anastácia...e muitas outras que estarão por vir. Minha cabeça ainda está confusa. Mas depois de uma semana e meia em que a cena do “não querer ir ao colégio” se repetia, sexta-feira minha mãe por sua conta achou uma saída.

Eu estava atucanada com uma pauta e ela foi buscar a Sofia em casa para levá-la ao colégio. Antes disso, passaram no centro e a Sofia escolheu uma mochila de rodinhas, rosa, flamante. A mãe contou que chegaram no estacionamento e ela já zarpou do carro caminhando, sem pedir colo. Empunhou sua mochila de rodinhas e adentrou poderos às dependências do colégio. Como se fosse o Superman recém saído de Kripta. Com um ar de alegria voltando a aparecer, deu um beijo de tchau na avó e seguiu a rotina.

A mãe ligou na mesma hora para contar a novidade. Aquele relato me deu um misto de felicidade e tristeza. Sei que esse é apenas o primeiro passo. Daqui pra frente mundo será assim mesmo. Preciso me preparar para enfrentá-lo da melhor forma. Mas me dei conta que no primeiro round fui nocauteada pela mochila de rodinhas!

Qual será o próximo desafio?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A paineira

A fase introspectiva tem seu lado bom. Sem querer nos perdemos em pensamentos nostálgicos, no meio da tarde, como se voando para um pedaço bom do tempo. E isso na maioria das vezes, é uma delícia.

Então essa semana, entre uma coisa e outra, me peguei com saudades da minhas avó. Pois é, eu sempre fui muito apegada as minhas duas avós.

A Nóris, mãe do meu pai, morou toda vida conosco. Sempre a chamei de Chochó, um apelido inventado aos dois anos, que virou marca registrada da nossa relação. Ela foi morar na charqueada conosco quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Na véspera do meu nascimento, eles ficaram sabendo que meu avô Rafael estava com leucemia, e que tinha pouco tempo de vida. Como moravam na cidade, em uma casa com escadas, optaram por passar aquele último momento perto do arroio, com o ar do campo, na casa que simbolizava tanto para aquele casal (essa é outra linda história!). E foi assim que eu vim ao mundo, em um momento delicado da vida da minha avó, mas que como sempre, ela encarou de peito aberto. A sentença dos seis meses de vida, acabou durando dois anos, e nesse tempo soube que minha presença infantil foi de grande valia para as despedidas do meu avô, a quem intitulei obviamente de Chochô.

Minha avó era uma mulher muito especial. Fora a beleza física, inquestionável, tinha um certo magnetismo naqueles olhos cor de esmeralda. Era uma mulher de hoje nos dias de ontem. Ficou viúva muito jovem. Não sei se tinha 50 anos quando perdeu o amor da sua vida. Mas depois do tempo de luto, sacudiu a poeira e deu a volta por cima.

Ela sempre contava da viagem que fez à Bahia, quando tentava se reerguer e digerir a dor da perda. Ela que sempre amou o mar, foi de navio, e pelo que contava o tempo de viagem foi importante para afogar suas dores nas águas do oceano. Chegando lá foi ao centro da Mãe Meninha do Cantuá. Ela conta que a sala de espera estava lotada de gente, de todos os cantos. Ela já sem esperança de ser atendida, mas nem pensava em desistir. Eis que surge uma mulher de branco e a pega pela mão, levando diretamente ao encontro da Mãe Menininha. Foi um momento de tanta emoção, que foi um marco. A vida precisava seguir sem meu avô, e aquele dia ela entendeu que ainda tinha muito o que fazer nas bandas de cá. Daquele dia em diante ela voltou a sorrir, e espalhar aquela cor dourada por onde passava.

A Chochó tinha tantas histórias incríveis, que eu deveria fazer como a minha amiga Dê sugeriu, escrever um livro sobre essa mulher.

Nós tínhamos um vizinho chamado Donald Marshall, que trocou a Argentina pelo Brasil, e se instalou em uma bela casa vizinha à charqueada. Então ela levou uma muda de paineira para dar boas vindas e desejar que encontrasse muita felicidade naquela nova terra. Plantaram juntos aquela semente, nos idos anos 60 eu acho. A gentileza foi retribuída, e ele deu uma muda de paineira para ela plantar na porteira da nossa casa. Os anos passaram, as árvores cresceram e os dois se foram para outros jardins.

Mas não é que o script dividno está sempre no ponto e o mundo depois de dar voltas, fez com que eu acabasse voltando para esse canto de terra que tanto amo. Nossa casa fica vizinha a do filho do Donald, o Diego, de quem o Nauro comprou o terreno.

Dia desses acordei, e o Nauro em chamou para ver uma coisa no alpendre. Apontou para copa da paineira do vizinho, toda florida. Lembrou que aquela árvore tinha sido plantada pela minha avó, como presente de boas vindas ao pai do nosso vizinho. Me emocionei!

A gente tem tesouros guardados na memória, que tempo algum pode apagar. Assim como a força das paineiras no outono. E foi assim que mudei minha cara naquela manhã. Olhando aquela copa de árvore, colorida e imponente. Impondo alegria naquela manhã cinza. E tenho certeza que naquele momento abracei minha Chochó, e matei um pouco dessa saudade!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Talvez

Há algum tempo tenho pensado em mudar radicalmente o rumo das coisas. Por enquanto não passam de pensamentos soltos, no meio de dias cansados. A rotina de um trabalhador autônomo parece linda naqueles livros de auto-ajuda americanos. Eles trabalham em casa, tem escritórios modernos, usam roupas super relax e estão sempre com aquela cara de ócio criativo, com um óculos na ponta do nariz.

Mas a vida real não é bem assim. Desde que abri minha empresa, há quatro anos, soube que era a decisão mais acertada para as circunstâncias. Estar ao lado da Sofia durante esse tempo, foi de um valor imensurável. Neste período a minha pequena agência ganhou espaço e hoje as coisas vão de vento em popa. Clientes ótimos, bons âncoras, rotatividade de assuntos, ou seja, muito mais do que eu planejei para esse capítulo da minha vida profissional.

Nos últimos dias tenho pensado em trocar de profissão, de rotina, de estilo, sei lá... menos de marido (que fique claro!!!). Pensei se não era melhor ter uma lojinha, aprender a cozinhar, vender joias, entrar pro budismo, rapar a cabeça, estudar japonês, sei lá o que mais...

Acho que estou na crise pós-colégio da Sofia.

A verdade é que agora tenho mais tempo pra me olhar. Tenho trabalhado cada vez mais, como se fosse um cachorro correndo atrás do rabo. Me sinto presa dentro de um castelo construído pelas minhas listinhas de compromissos. A empresa cresceu, mas o que sinto com tudo isso é uma angústia cada vez maior. Medo frente a responsabilidade que tenho, com os contratos e prazos à cumprir, o clipping pra fazer, o texto para criar, a matéria pra enviar, a nota para postar, e assim caminha a minha rotina.

Estou com saudades de não ter peso nos ombros, dor na coluna, hora pra acordar, almoçar, dormir. Saudades de passar as tardes comigo mesma. Olhar mais de perto aquelas unhas deixadas por fazer, ou o cabelo sem um reflexo dourado há meses. Quero olhar pra dentro de mim e reencontrar minha fé inabalável, que já removeu montanhas.

Enfim, me dei de cara comigo mesmo. E quando isso aconteceu vi que preciso ser mais minha amiga. Cuidar um pouco mais do meu cotidiano. Ir ao cinema com meu marido, jantar fora de vez em quando, tomar um vinho e ficar meio grogue, dormir até tarde numa quinta-feira, dedicar uma tarde para o cabeleireiro, sei lá o que mais.

Fazer coisas que me façam sentir prazer. Abolir a eterna sensação de estar cumprindo deveres, de estar em dívida. Eu sei que esse não é o assunto mais emocionante para um blog. Mas se é pra ser divã-virtual, os meus psiquiatras-leitores vão ter que fazer hora-extra hoje. Talvez seja apenas uma crise de “meia-idade”. Talvez seja a nostalgia que traz o cinza do inverno. Talvez seja a tosse da Sofia que não dá trégua nos últimos dias.

Talvez, talvez, talvez...

Talvez seja eu que tenha me perdido de mim mesma, e queira achar àquela Gabi livre, leve e solta que eu fui um dia.

Alguém viu ela por aí?

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Não tem preço

Ontem estivemos em Porto Alegre com a Sofia, para consulta com o especialista que acompanha o caso dela desde os primórdios. Ela estava feliz da vida com a viagem à capital. A guria é cosmopolita, como diz o pai dela. Adora um saracoteio e no alto de seus quatro anos já tinha feito um cronograma de viagem de dar inveja aos guias de mochileiros.

Mas voltando a vaca fria. As nossas idas ao Dr. Fischer sempre foram envoltas de uma certa tensão. A primeira delas foi no final de 2005. Ela tinha uns cinco ou seis meses e depois da saga da UTI seguimos para capital para avaliar com o melhor pneumologista do país, o que havia restado do pulmão direito danossa filha. Com semblante fechado, bem diferente do estilo carinhoso do Dr. Flávio, com quem estávamos acostumados aqui, encontramos um estudioso que se interessou em pesquisar um caso raro da medicina. Naquela época ficamos dias com ela internada no Hospital Santo Antônio, e ele e sua equipe fizeram exames de última geração para chegar a um diagnóstico final. Lembro como se fosse hoje do dia em que ele entrou no quarto do hospital, nos descreveu cada detalhe técnico da doença e disse.

- Pronto, agora retomem as rédeas de vida de vocês!

Simples assim. Com esse conselho voltamos para Pelotas e começamos uma adaptação, procurando sempre proporcionar o máximo de normalidade à rotina da Sofia. Trocamos a enfermeira por uma babá, organizamos uma fisioterapeuta para vir em casa, fomos morar na nossa casinha para fora, cheia de ar puro. Depois disso seguimos com consultas rotineiras ao Dr. Fischer, com o grupo de estudos dele sempre acompanhando o caso. Mas a cada bateria de exames era como reviver nossas dores. Lembro da última ida, há cerca de dois anos, quando fomos fazer uns exames mais delicados.

Combinamos com ela um passeio, que iríamos ao shopping, nos hospedamos em um hotel e ao final fomos para o hospital fazer o tal exame. Na hora em que colocaram o sedativo, o famoso “cheirinho” para iniciar a anestesia geral, ela entrou em pânico. Nunca vou esquecer aqueles olhinhos pedindo socorro. E eu arrasada, me sentindo cúmplice de um plano malvado, que começava com diversão e acabava como sempre, em um hospital. Sentei na sala de espera e chorei muitos baldes de lágrimas, amparada pelo ombro do Nauro.

Então depois dessa ida à capital, eu me fiz de boba e não retornei mais para os exames de rotina. Errado eu sei, mas eu tentava de alguma forma me concentrar em uma qualidade de vida boa para fazê-la crescer e ficar forte. Pedi demissão do emprego, abri minha própria empresa e me dediquei a estar ao lado dela. Vê-la de perto e dar todo suporte necessário foi meu objetivo nesses quatro anos.

Até que este ano a nossa mimosa foi para o colégio e como já era previsto o Dr. Flávio nos pediu uma tomografia com contraste, do pulmão afetado. Eu protelei o que pude, até que decidi que faria o exame em Porto Alegre, porque como na última vez foi preciso entubá-la, teríamos mais suporte lá.

Marquei a tal consulta para o Dr. Fischer, para que ele conduzisse a internação e acompanhasse tudo. E ontem finalmente chegou o dia de revê-lo depois de nosso sumiço.

Nossa consulta, marcada para às 16h, era a primeira da agenda. Enquanto aguardávamos na sala de espera, ele entrou rapidamente para colocar uns peixes novos, que havia comprado, no aquário que fica na recepção. Olhou pelo vidro aquela criança fascinada pelos peixinhos, e conversou alguma coisa, mas não me viu.

Passados alguns minutos, a secretária nos mandou passarmos para consulta. A Sofia foi na frente e eu e minha mãe logo atrás. Quando ele me viu, retornou o olhar para ela e parou alguns segundos no rostinho daquela sapeca sorridente. Buscou ar e disse:

- Eu não acredito que essa é a Sofia!?

No rosto sério daquele que é considerado um dos maiores especialistas em casos raros da medicina na área da pneumologia, vi um misto de incredulidade e satisfação. Discreto como sempre, começou a avaliar os exames que levamos e a fazer algumas perguntas. Examinou a “paciente” e depois me disse que é impressionante o resultado, já que a maioria das crianças com hiplopasia pulmonar não crescem ou se desenvolvem. Tentei esconder minha emoção na hora, mas acho que não consegui.

Cada minuto da nossa rotina, me dedico para que a qualidade de vida da Sofia seja boa. Para que ela seja uma criança como as outras, que não se sinta diferente, que tenha convívio com os amiguinhos, enfim, que se sinta feliz com a vida que tem. Nossa maior preocupação sempre foi ela não achasse que a vida eram agulhas, injeções, dores, remédios, fisioterapia, exames, cheiro de hospital, gente de branco, enfim...Todos os médicos que já a viram por dentro, se surpreendem como ela é por fora.

Por isso, aquele olhar de admiração, vindo de alguém que estuda casos raros da medicina, foi um presente de Dia das Mães.

O melhor de todos os presentes a vida já me deu, e o Papai do Céu foi generoso em caprichar nesse anjo especial, com quem tenho o privilégio de aprender a cada dia. Mas uma coisa eu tenho erteza...

Mega-sena, viagem pelo Caribe, banho de loja, carro novo...para tudo isso existe o tal do Credicard.

Mas um olhar de admiração do Dr. Fischer....ahhhh, isso não tem preço!

domingo, 2 de maio de 2010

Cassino

Ontem fomos ao Cassino para o casamento de uma velha e querida amiga minha. A Lílian e eu nos conhecemos nos idos anos de 80, quando éramos duas compridas desajeitas adolescentes, desfilando pela avenida principal, em meio a uma turma de amigas “petiças”. Foi em um verão de 1982, em plena pré-adolescência. Eu com 14 e ela com 13 anos. Acabamos nos aproximando exatamente por uma questão de “altitude”. Enquanto a turma de gurias desfilava sua estatura compatível com a idade, nós já éramos duas girafas que tinham passado dos 1,70m, como nossos pares de tênis tamanho 38. Imaginem, isso ainda em fase de crescimento, depois chegamos à índices ainda maiores!

Eu costumava veranear com minha querida avó Nóris, a quem eu sempre chamei carinhosamente de Chocho. Era sua companheira de aventura e quando chegava janeiro, nos mandávamos com a mala cheia de amor pelo verão. Nós duas sempre amamos uma praia, um belo bronzeado e aquele balneário, que guarda a maior praia do mundo em extensão. E foi lá que conheci essa amiga tão querida. Depois desse primeiro verão, em que nos olhamos pela primeira vez, nunca mais nos perdemos de vista. Ela morava em Porto Alegre, mas seu pai era pelotense e a família da mãe de Rio Grande. Então os laços afetivos estavam todos pelas redondezas e a nossa amizade foi mais um deles.

Lembro que quando voltamos para nossas casas e retomamos a rotina escolar, continuamos a amizade através de cartas. Nossas correspondência sempre foram originais, e até fitas cassetes vendidas pelos Correios na época usávamos. Era uma curtição e assim foi durante longos anos. Temos todas guardadas e combinamos de um dia escrever um livro dessa história, só através das trocas de confidências.

A Lílian sempre foi do mundo. Lembro que com 17 anos se tocou pra San Diego sozinha. Atinada como só ela, estudava japonês, em uma época em que mal se falava em saber inglês. Formou-se em Oceanologia e Direito ao mesmo tempo, e depois disso rodou o mundo novamente. Morou na Escócia, voltou para o Brasil, retornou para Itália e um dia decidiu largar âncora no Cassino. Foi lá que ela sempre recarregou suas energias. E foi lá que conheceu seu amor. Uma pessoa que é a cara Del, o Renato, ou Gordinho. Os dois tem o mesmo amor cativo pelo Cassino.

E a festa de ontem foi exatamente a cara deles. Em uma casa da tia da Lílian chamada “Vila Avozinha”, um lugar que durante os meses de verão sempre era alugada para estudantes de Oceanologia. Como os detalhes do destino são sempre precisos, o Renato morou por longos anos lá. Então a festa era assim, cheia de simbolismo e de uma simplicidade encantadora. A cerimônia foi nos desse lugar tão representativo, com jardins emoldurados por árvores centenárias e iluminado por tochas e velas. A Lílian, sempre linda, estava com um vestido cor de uva, e uma flor branca no cabelo. Estava exalando felicidade. O buquê foi feito por ele, com astromélias e folhas de louro. Nas badejas além de espumante, os garçons ofereciam uma cachacinha de butiá feita pelo noivo, curtida há dois anos. Para finalizar os bem-casados feitos em casa, de uma velha receita familiar.

Fiquei emocionada com o que vi e senti. E tenho certeza de que a minha querida amiga vai ser muito feliz no seu canto especial desse mundo. O lugar para onde ela sempre voltou. Tenho certeza de que todos nós temos o nosso canto preferido nesse mundo e é lá que está escondido o pote de ouro no final do arco-íris. É o canto que nos encanta!

Vida longa a esse amor!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Um colega meu

Quando éramos pequenas a Kiki (minha irmã) chegava em casa do colégio sempre contando um apanhado de novidades. Eram estórias mirabolantes, que aquela cabecinha infantil imaginava e descrevia com uma riqueza de detalhes singular. Mas nós, de casa, desconfiávamos que o personagem traquinas das estórias, era ela mesma. Só que quando resolvíamos perguntar quem tinha feito tamanha arte, ela arregalava aqueles olhos da cor do mar, e respondia séria:

- Foi um colega meu, ora!

A frase ficou célebre na infância e cruzou a adolescência como uma velha sátira. Muitas risadas foram dadas ao lembrarmos dessa tirada. Imaginem, ao melhor estilo "saindo pela tangente", e criada em plena década de 70.

Mas não é que o mundo gira, e quando menos esperamos “o colega meu” bate novamente à nossa porta?

Semana passada estávamos levando a Sofia no colégio, quando encontramos a mãe de um colega da Sofia. Era sexta-feira e ela perguntou o que achávamos de na saída da aula, Sofia ir direto para casa do Pedro, para brincarem juntos. Dessa vez fui eu quem arregalou os olhos e perguntei:

- Lorena, é a primeira vez que a Sofia vai brincar na casa de alguém, como funciona? Eu não sei nada do assunto ainda!!! A que horas eu busco, o que eu faço?!

Cena ridícula, eu sei. Mas era exatamente assim que eu me sentia: perdida. Trocamos celulares e combinamos que eu ligava mais tarde para buscá-la. Chegou perto da hora de terminar a aula, o meu piloto automático fez com que eu pegasse a chave do carro e me dirigisse à garagem. Foi aí que me liguei que não era para buscá-la, que ela estava na casa de “um colega meu”.

Naquele par de horas fiquei pensando tanta coisa. Imaginando que dali em diante as novidades iam ser cada vez mais intensas. Prazeres como esse, de estar na da casa dos amigos, cheios de autonomia, só iam somar à lista de programas da Sofia . Para mim, que sou uma manteiga derretida, tudo é motivo para crise, e naquelas duas horas de espera tive uma em versão fast food. Viajei tão longe, que cheguei a enxergar a Sofia e o Pedro colocando as mochilas no carro, e indo acampar no Uruguai. Nesse ponto não me contive, e liguei para Kiki me lamentando, em mais um momento pós-cordão umbilical. Ela riu de mim, e aproveitou para lembrar que de agora em diante a coisa só piora.

Legal Kiki, valeu!

Mal bateram às 20h e eu já estava à caminho, pegando o Nauro no jornal para irmos buscar a nossa Cinderela. Chegando na casa do Pedro, encontrei a Lorena e a Geórgia aos risos com as tiradas da duplinha. Eles se divertiram muito e obviamente a Sofia já queria combinar um novo encontro. Na saída, para amenizar a saudades do amigo, ela levou um brinquedo dele emprestado, para passar o final de semana com ela.

Adivinhem o que?

Nada mais simbólico do que o colorido castelo do Pedro. Tudo bem, eu me recupero. Mas o principal dessa história, é que a princesa volta para casa com o castelo do príncipe debaixo do braço, ao melhor estilo das fábulas modernas. E termina o dia são e salva, tomando uma mamadeira de leite com Nescau, no colo da sua mamãe!

Ufaaaaaa!!!!

domingo, 25 de abril de 2010

Pós-Sampa

A ida à São Paulo foi bem legal. Corrida claro, mas deu tudo certo e a cidade de cimento não me raptou. Como sempre alguma coisa engraçada tem que acontecer. No dia da tal reunião, acordei às 6h para fazer tudo com calma. A primeira surpresa foi ter esquecido a pasta de dentes. Tudo bem, enchi minha escova de dentes de xampu e fiz um bochecho pra lá de perfumado. Quase vomitei, mas deu pra despistar. Logo depois do banho me dei conta de que agora era a vez da escova de cabelos. Bingo, tinha esquecido também. Logo eu que sou mega-organizada. Não sei o que aconteceu, acho que foi ato falho mesmo. Me olhei no espelho com aquela cara grunge e pensei:

- Desse jeito não dá!

Daí olhei para o secador de cabelos e tive a brilhante idéia de usar uma piranha de cabelo e o secador para “amainar” as madeixas da Maria Betânia. Exato, era assim que a figura do espelho me abanava. Como a filha de Dona Canô, recém saída da montanha russa. Agora calcule, como diria meu amigo Carlos Etchechury!

Mas fora esse probleminha estético, tudo deu certo e nossa reunião foi um sucesso. Chegando de volta à Pelotas, com a função do feriado, acabei deixando o blog meio de lado. Além de colocar em dias os compromissos de trabalho, estava com a função da vacina da Gripe A, ainda pendente. Tínhamos que fazer, e a coragem ainda estava escondida em algum lugar. Eu pensava que a Sofia poderia ter reações e acabava sempre postergando. Até que na quinta-feira acordamos e decidimos que não dava mais para levar esse assunto adiante.

Com o atestado na mão, nos dirigimos ao postinho de saúde do Areal fundos. A Sofia já estava com os olhos arregalados, esperando a hora “H”. A vacina dela seria na clínica particular, já que me disseram que a conjugada (gripe comum + Gripe A) era importada e com menos chances de efeitos colaterais. A enfermeira chamou nossas fichas e entramos os três na salinha da enfermeira. Ela perguntou quem seria a primeira, e eu me adiantei. Pedi para Sofia me dar a mão e me segundos o caso estava resolvido. Ela seguia com olhos atentos, e assim observou as reações do Nauro, na hora do “pic”. Terminada a primeira etapa seguimos para o centro, onde ela seria a paciente da vez.

A sala de espera da clínica estava cheia de carinhas nervosas, assim como a dela. Para descontrair, puxamos assunto com algumas crianças e seus pais, tão aniosos quanto nós. O primeiro guri da fila entrou sorrindo mas em poucos segundos já ouvimos seus berros angustiados. Foi se como uma sirene de emergência tocasse e todos rostinhos nervosos procuraram o colo de seus pais. Ela se agarrou ao Nauro e não desgrudou mais.

Chamaram o nome dela e entramos conversando, ainda na tática-distração. Ledo engano, ela estava nervosa e chorou compulsivamente até ver a agulha ir para o lixo. A enfermeira era hábil e nem sangrou, o que foi comemorado por ela, já secando as lágrimas e se sentindo a mais corajosa do mundo.

Saímos dali todos aliviados, com a sensação de dever cumprido. Entramos no carro e eu disse:

- Viu só Sofia, todo mundo agüentou firme e nem doeu!

E ela me responde cheia de grau:

- É mamãe, nós aguentamos, mas eu vi a hora em que o papai fechou os olhinhos!

(ahahahhahahahahhahahah, Naurinho amado, eu não poderia deixar de contar essa!!!)

sábado, 17 de abril de 2010

Sampa

Domingo embarco para São Paulo, para um compromisso de trabalho na segunda-feira pela manhã.

Adoro ver essa metrópole...mas de longe.

Não sei que sentimento é esse, que os tempos de hoje me fizeram sentir pela cidade do cimento. Quando eu era adolescente, minha prima Andréa morava lá e as férias de julho era esperadas ansiosamente, com o objetivo de passar deliciosos quinze dias em Sampa. Era tempo de fazer programas inusitados para nós, que morávamos quase do outro lado do mundo. Era assim que eu sentia. E nesses quinze dias de deleite, eu assistia desde lançamentos de teatros até visitas à maior feira livre que meus olhos já tinham contemplado. O Tio Onofre era o cicerone, e mostrava cheio de orgulho, todas as cores e sabores de frutas vindas de todos os cantos do Brasil.

Domingo era dia de lasanha na casa dos primos paulistas. Dia de muita gritaria na volta de uma mesa repleta de descendentes italianos. Até hoje não saboreei nada parecido como a receita da tia Luluca. Imbatível! Lembro que eu pegava ônibus, metrô e mesmo assim me achava naquele emaranhado de ruas, buzinas e fumaça. Não sei de que jeito, mas dava tudo certo. Até assistir a aula no Colégio Objetivo, com meu primo Márcio, eu ia. Sem falar nos ensaios das dezenas de bandas de rock que ele teve. Vanguarda na veia!

Na casa da Déia passei momentos especiais e era recebida por ela e pelo Marcos com grandes honrarias. Naquele tempo, o hoje consagrado ator Matheus Nachtergale, era simplesmente o Matheus. Amigo querido da Déia, com quem passávamos horas conversando sobre a vida e sobre a arte. Ele tinha mil dúvidas se queria ou não ser ator. Uma coisa totalmente Shakespeare, bem ao seu estilo. Eles dois tinham começado a estudar com o Antunes Filho, no Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho e assistimos ao primeiro espetáculo da trupe. Lembro que a Déia veio toda animada me perguntando o que eu tinha achado. E eu meio sincera e guasca para as profundezas cênicas, respondi:

- Ah, Déia, eu gostei, mas não entendi muito!

Era um tempo de muitos contrates culturais, onde internet nem existia e para se ver as novidades usávamos os olhos e o coração. O mais incrível disso, é que eu saia do interior do "Areal fundos", diretamente para o coração do progresso, e adorava. Hoje só de pensar que tenho que passar 24 horas no meio desse mundo apressado, me dá um frio na espinha. Estou desde ontem remanchando em fazer a mala. Não organizei nada ainda, e olha que eu faço listinha até para ir à Jaguarão. Mas enfim, deve ser resultado das loucuras do mundo atual. Mas será que naqueles idos anos 90 não tinham coisas tão doidas como as de hoje? Ou será que a nossa cabeça era mais solta e menos preocupada com tudo. Será que envelhecer nos trás sabedoria, ou medo?

Nossa, quantos dilemas e quantas perguntas sem resposta para uma simples viagem de trabalho. Vou e volto num tapa, só pra Sampa não achar que briguei com ela. Mas volto correndo, porque nada se compara a paz que eu encontro nesse pedacinho singelo de mundo.

Viva o Areal fundos!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Viver a vida

Vou confessar aqui no meu divã-virtual:

Assisto à novela das oito (que é às nove!) todos os dias só pra ver os depoimentos do final. Mas também confesso que quando a novela começou critiquei:

- Que falta de originalidade do Manoel Carlos, ele já fez isso em uma novela anos atrás!

Mordi a língua. E a cada final de capítulo me pego segurando um engasgo. Às vezes chego a soluçar. Muitas histórias puxam a cordinha de algum sentimento guardado nem sei aonde, e fazem fluir uma cachoeira de emoções. A primeira coisa que penso é na coragem daquelas pessoas em expor suas feridas, na maioria ainda abertas, para milhares de pessoas. Milhares de cabeças e seus julgamentos.

Mas me dou conta que quem passa por uma fogueira, sai vendo a vida de outra maneira. Sai mais forte e menos preconceituoso. Sem se preocupar tanto com a pequenez do “o que os outros vão pensar”. Esse sentimento estranho, que nos aprisiona, nos tira a liberdade de ousar. Percebi que na maioria dos depoimentos, as pessoas foram ao fundo do poço, para depois ressurgirem com a força de fênix. São lições cotidianas de vida. Sem grandes roteiros, mas escritas nas esquinas por onde passamos diariamente.

E o mais incrível disso tudo, é que não paramos para pensar no verdadeiro valor de cada dia. Dormimos e acordamos sem agradecer pelo fato de caminharmos. Por termos dois olhos que enxergam. Pelo simples fato de não termos dependência química de nenhuma droga. Por termos nossos entes queridos ao lado. Por nada ter nos acontecido da hora que acordamos até a hora de dormirmos.

Me dou conta a cada capítulo dessa novela, o quando é preciosa essa vida. E o quanto banalizamos sem querer, o seu significado. A honra de estarmos aqui e agora. E me pego pensando coisas malucas, que vão desde a morte até o segredo que se esconde atrás dela.

E quando me dou conta de tudo isso, quero usufruí-la com mais intensidade. Quero amar mais, ter mais paciência, menos intolerância, mais tranqüilidade.

Quero simplesmente ter a exata noção do quanto é urgente Viver a Vida!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Anjo da Guarda

Domingo à noite eu estava zapeando com o controle remoto da TV entre as cinco opções de canais que temos aqui fora. Era aquela coisa, de uma tragédia da Globo, para uma bobagem da Rede Tv, passando pelo Silvio Santos de sempre, até que me deparei com uma entrevista na Rede Vida. Era uma mesa-redonda e a entrevistada se chamava Clara, uma atriz que eu não conhecia. O programa era tipo um frente-a-frente com Gabi, mas só que em uma rede de TV que nunca assisto, com uma pessoa que nunca vi antes.

O negócio é que entre tantas coisas íntimas que os entrevistadores iam perguntando, uma resposta da mulher me chamou a atenção. Eles perguntaram se ela lembrava de alguma situação de medo. A moça mudou a fisionomia e começou a relatar um assaltou a mão armada que sofrera dentro da sua casa, com a família presente. Pela transformação das linhas do seu rosto, percebia-se o quanto àquela violência urbana tinha sido impactante. Contraponto dos entrevistadores veio logo, com a pergunta:

- E o que você fez?

Ela tornou a encontrar um ar de doçura e disse em meio a um esboço de sorriso:

- Contei com meu anjo da guarda!

Na hora enchi os olhos de lágrimas, ao ouvir aquela declaração tão singela. Realmente sempre acreditei que todos nós temos um anjo da guarda e sempre tive um contato bem afinado com o meu. Lembro de vários momentos de medo ou tensão, desde os tenros tempos de infância, em que me senti segura depois de pedir o reforço do meu guardião.

Mas nos últimos tempos parece que esqueci dele. Tenho andado absorta em assuntos de trabalho, coisas da casa, filha, marido, supermercado, e não tenho olhado para além das coisas visíveis. Semana passada ainda comentei com o Nauro, que estava sentindo um aperto no peito. Era como se de uma hora para outra, pequenas coisinhas “pesadas” começassem a acontecer na nossa volta, tirando a nossa paz. Como se um círculo de proteção estivesse com falha em algum ponto, e por ali entrassem essas coisas.

Foram alguns mal entendidos com amigos queridos, dedos de decepções com outros, e até sensações indecifráveis, de pensar por que, de uma hora para outra, o equilíbrio se rompe.

Sabe quando a gente se pergunta o porquê de isso vir a acontecer, vindo do nada. No meio de uma tarde qualquer. Eu que prezo tanta a nossa paz. Que curto tanto morar no meio do mato e ver a civilização de vez enquanto, tive dias de tristeza e desânimo. E durante esse período, não procurei meu anjo querido. Tenho certeza de que ele estava ao meu lado, mas não lembrei de pedir seus sábios conselhos.

A tristeza já passou. O desânimo também. Mas disso tudo o que valeu foi lembrar do anjo da guarda. Mesmo que ele não tenha esquecido de mim, quero deixar essa conexão mais afinada. Quero proteção contra coisas ruins, saúde para minha filha, segurança para nossa família, alegria para meus dias, carinho para os amigos e muita luz para essa estrada que seguimos.

Mas também quero agradecer por tudo de bom que a vida nos brinda diariamente. Não quero só pedir, quero que o mensageiro também sinta as coisas boas daqui.

"Santo Anjo do Senhor,
Meu zeloso guardador,
Já que a ti me confiou
A piedade divina,
Sempre me reje, guardes,
governes e ilumines"

Amém

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Blog do Nauro

Bom dia!

Hoje convido à todos para ler um texto que me tocou a alma. Foi escrito pelo Nauro e está no blog dele, Retratos da Vida. Se chama "Três anjos chamados Sofia". Ele publicou ontem, no mesmo dia em que eu deveria estar em SP para um encontro do Instituto Abrace, ONG que integro e onde conheci as pessoas que ele se refere no texto. Por motivos alheios à minha vontade, não pude ir.

Ele conta a história das três Sofias e de nós três, as mães das Sofias. A Maria Julia Miele, que fundou a ONG, é a presidente da entidade e mãe da Sofia que virou luz. A Denise Crispim, mãe da Sofia que aparece na foto com a nossa, é a vice-presidente da ONG e nos deu o prazer de estar aqui no Carnaval, com seu anjo de cadeira roxa.

São duas mulheres incríveis e o nosso encontro há quatro anos atrás foi bem mais que coincidência. O texto do Nauro diz tudo, não preciso falar mais nada. Convido vocês a ler e desejo uma boa semana!

http://wp.clicrbs.com.br/retratosdavida/2010/04/11/tres-anjos-chamados-sofias/?topo=77,1,1#comments

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Parabéns à você


Hoje meu maridão está de aniversário. Ele adora se gabar que é mais novo do que eu. São seis meses apenas, mas ele usa esse semestre contra mim de outubro a abril, com muita força. Mas então hoje emparelhamos, nos 41 aninhos. Bem vividos, podemos dizer.

Portanto, nada mais justo do que dedicar o post do dia para ele, que foi o maior incentivador para que o “Adoro Melancia” existisse. Resolvi falar um pouco dele, mesmo que sem permissão.

Quando a gente decide ficar velhinho ao lado de alguém, temos que acima de tudo admirar essa pessoa. E esse é um sentimento muito forte entre nós dois. Acho que nos amamos porque nos admiramos. E isso eu descobri com a vida. Entendi na prática, o quanto o amor é feito de sentimentos diversos e complementares.

Nesses anos de convívio, acho que conseguimos fazer uma simbiose positiva. Eu aprendi muito com ele. Com esse lado irreverente de ser. De chegar chegando e ter sempre alguma coisa para dizer. Em contraponto, meu lado mais sensível, fez com que ele direcionasse mais as coisas boas para lançar. As palavras ditas serão sempre as flechas lançadas. Mesmo que ditas em forma de brincadeira.

Uma vez dei um livro de fotografia para ele, que se chama “Esplendor dos Contrários”, de Arthur Omar. Aquele título nos tocou e acabamos nos autodefinindo dessa forma. Nossos caminhos deste cedo foram muito distintos. Enquanto eu brincava de boneca na charqueada, em plena infância, ele assinava sua primeira carteira de trabalho como sapateiro, em Novo Hamburgo. Depois veio a adolescência e minhas aventuras se limitavam a acampamentos no Uruguai, enquanto ele voava as tranças em motos e festinhas bem longe do meu mundo. Aos vinte e pouco anos ele foi pai. Eu rodava o mundo de mochila, querendo descobrir o tamanho do mundo e da liberdade.

Foram histórias de vida distintas, mas que estavam traçadas para um destino em comum. E nesse destino, um dia encontramos a nossa paz. Construímos o nosso castelo e geramos a nossa princesa Sofia.

Por isso, no dia de hoje quero externar aqui minha admiração pelo Nauro.

Pelo fotógrafo maravilhoso que consegue captar instantes de vida a cada clique.

Pelo pai apaixonado, que não esconde nunca o imenso orgulho que tem da sua guerreira Sofia.

Pelo marido especial, que respeita o meu jeito tão diferente de ser.

E acima de tudo, pelo companheiro de dores, desejos e sonhos, o qual tenho o prazer de dividir essa vida tão maravilhosa.

Parabéns meu amor!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Era pequeno

Depois de tantos posts densos, vou dar uma aliviada e contar uma história que me aconteceu há uns sete anos atrás. Foi um episódio daqueles que poderia ser trágico, mas por obra do destino foi cômico. Era o ano de 2003 e eu, recém separada do meu ex-husband, tentava vender meu fusquinha bege-esverdeado, ano 81 (esse era novinho!!). Eu tinha ficado com esta relíquia na “divisão dos bens”. Abri mão até do sofá da sala, mas o meu fusquinha não arredei o pé. Nossa!!! Quantas aventuras ele testemunhou, sempre firme e forte. Nos tempos da faculdade eu só ligava no piloto automático e ele ia sozinha pra Colônia Z-3, onde fazíamos um jornal comunitário para os pescadores.

Mas enfim, eu estava recém-separada, cheia de contas para pagar e o meu fiel escudeiro precisava dar o corpo em sacrifício. Anunciei nos classificados do Diário Popular num domingo. Várias ligações, algumas visitas e muitos olhares indecifráveis. Eu não entendo as caras desses homens que vem olhar carro para comprar. Eles fazem que nem a gente na adolescência. Uma cara de não to nem aí, mas quero muito. Depois de dezenas de espiadinhas no motor, eu cheguei a conclusão que algo muito grave deveria ter por trás daquela tampa.

Com a demora na decisão dos meus compradores em potencial, tive a brilhante idéia de levar o meu Fusca-bala para o “feirão de usados” da avenida Duque de Caxias. Nem achei tão ofensivo o título, já que o meu possante era mesmo usado. Aquela coisa sabe, pobre, mas limpinho. Bueno, então para me acompanhar nessa empreitada é óbvio que convoquei minha amiga-de-fé-minha-irmã-camarada. Sim, a minha querida Moby, ou Gabriela, como de batismo.

A feira era sempre aos domingos pela manhã. Acordamos cedo, nos vestimos bem bonitinhas, pegamos um mate novo, bolachinhas - pra caso de a coisa se estender, e umas cadeirinhas de praia. Parecia até que íamos tomar banho de sol no Laranjal. Mas a missão era mais árdua.

Chegamos por volta das 9h30 na feira, e parecia que já era meio-dia. Aquilo abarrotado de gente. Carros, cadeiras, gente, uma loucura. Na hora percebi que a nossa estratégia foi falha, mas não desistimos. A Moby, com seus olhos de lince, logo localizou um único espaço vazio entre as centenas de carros que nos cercavam. No que ela me mostrou o lugar, eu dei o pisca e fui me enfiando na vaga. Eis que surge um Vectra prateado me cortando a frente e se socando no meu lugar. Na hora de manobrar, o maluco me bateu no lado do carro de leve. Eu parei, abri a janela e chamei.

- Poxa moço, o que é isso, não ta vendo a gente aqui?

O cara todo entonado já saiu do Vectra como quem desce de uma nave na lua. É, porque há sete anos atrás, acho que Vectra era carrão. Ele já veio me peitando e dizendo desaforo e ‘mandando” eu tirar aquela geringonça dali. Eu não acreditei. Perguntei:

- O que???? Essa geringonça é o meeeu carro?? E o senhor ainda me bateu!!

E ele saiu dizendo mais meia dúzia de "delicadezas” pra cima de nós. Já se juntava um bolinho de curiosos na volta dos carros e me subiu o sangue. Eu coloquei a cabeça para fora da janela e disse:

- Pois o senhor, pra estar falando com mulher desse jeito, deve ter o “p..” desse tamanhinho!!! (e mostrei o meu dedo mindinho como "exemplo" do assunto...pra quê?!)

Gente, esse homem se transformou no Incrível Hulk. Ele veio com tudo pra cima de nós. Mandou sairmps do carro e chamou a polícia. Detalhe: ele era a polícia!!! Era um policial de folga, que estava indo vender o carrão.

Pronto, me ferreir. Ele chamou a polícia e os Azuizinhos. Imagina o bafão em pleno feirão da Duque de Caxias. No bolo de curiosos da volta, nós já conseguimos umas testemunhas pra nos defender. Aqueles que ficam repetindo; “eu vi, ele se provaleceu, veio metendo o carro por cima!”.

Bom, pra resumir, o meu carro estava com os documentos atrasados, acho que o IPVA. O danado do cara conseguiu que meu fusquinha bege-esverdeado saísse humilhado em cima de um guincho, direto para um depósito. A Moby e eu, por conseqüência, que não tínhamos levado grana já que nosso veículo estava devidamente preparado, ficamos a pé. Ou seja, tínhamos dinheiro só para uma passagem de ônibus, e como estávamos no Fragata, tivemos que ir cameliando até a Osório, com as cadeiras e o pic-nic de arrasto. E o pior, humilhadas pelo tal policial à paisana.

Chegamos em casa sãs e salvas. Depois de três dias paguei os documentos e recuperei meu carro. Gastei mais do que tinha com toda essa história e continuei sem conseguir vender o Fusca. Mas de uma coisa eu tenho certeza e é o que me conforta até hoje:

Se ele ficou tão brabo, é porque "era pequeno" mesmo!!!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Palavra de amiga



Uma vez, quando eu estava grávida, uma senhora disse para minha mãe que a Sofia viria ao mundo para nos ensinar muitas coisas. Naquela ocasião, minhas preocupações se limitavam em arrumar o seu quartinho e passar óleo de amêndoas na barriga. Com o desfecho que todos já sabem, e sua chegada prematura ao mundo, comecei aos poucos entender melhor a razão de tal prenúncio. Foram muitas lições nesses quatro anos de vida.

A última delas aconteceu nesta Páscoa. A Sofia passou semanas esperando ansiosa pela chegada dessa data especial para ela, e todos que habitam o universo infantil. Junto com a felicidade em aguardar os ovos de chocolate e guloseimas, ela tinha um compromisso sacramentado: entregar os bicos para o Coelho da Páscoa. Desde que entrou para o colégio, no início de março, a pressão externa em função de ela chupar o tal bico, é cada vez maior. Mesmo que ela jamais colocasse o bico na boca durante as aulas, na hora que pisava fora da sala me pedia para alcançá-lo e logo saia acariciando o seu amigo de plástico.

Mas no sábado à noite, depois de prepararmos a bandeja com água e cenoura para o Coelho, e posicionarmos estrategicamente ao lado da porta de entrada, veio o momento tão temido. Ela tinha prometido que daria os bicos ao Coelho. Finalmente chegou o dia. Segurei-a pelas mãozinhas e perguntei:

- Meu amor, tu queres mesmo entregar os biquinhos para o Coelho?

Ela desconversou e engatou numa conversa fiada, tagarelando sem parar sobre qualquer assunto. Eu olhei para ela de novo e pedi para que me olhasse nos olhos. Repeti a pergunta e acrescentei.

- É uma decisão tua minha filha, não tem problema nenhum, é só me dizeres o que queres fazer.

Ela deu um suspiro profundo. Daqueles que busca coragem no fundo da alma, e no alto de seus quatro anos de idade me estendeu a mão decidida.

- Toma mamãe, pode colocar aí pro Coelhinho levar!

Eu juntei os dois amuletos de plástico da minha mimosa e coloquei na cestinha ao lado da água e da cenoura. Ela me olhou fundo, estendeu o dedo mindinho em minha direção, pedindo que eu estendesse o meu também, e disse:

- Bate aqui, palavra de amiga!

E assim se recolheu para o quarto para a primeira noite longe do seu objeto mais caro.

Assim que ela dormiu chamei o Nauro na sala para contar o feito e mostrar a coragem da nossa filha. Nos desatamos a chorar os dois, lembrando da primeira vez que ela teve contato com esse subterfúgio emocional, ainda no hospital. Ela completava um mês de vida na UTI e nunca tinha vestido uma roupinha, já que lá os bebês ficam só de fralda, em berços aquecidos. Naquele dia, ela teria que fazer sua primeira tomografia computadorizada do pulmão, para ver a quantas andava a tal bolha que não parava de crescer dentro dela. Como era muito pequena, o desafio era levarmos até um outro hospital e fazer o exame sem que ela se mexesse na máquina e nem acordasse durante todo procedimento.

Preparamos uma verdadeira operação para levá-la até à Santa Casa, já que decidimos ir de carro, em vez de ambulância, mas com uma enfermeira, oxigênio e o médico ao lado. Preparei com carinho a roupinha que minha Voinha tinha feito para ela e começamos a vesti-la pela primeira vez. Auxiliada por duas técnicas de enfermagem da UTI, percebemos que ela estranhava a roupa e começava a chorar. Foi aí que uma delas trouxe uma luva cirúrgica com um algodãozinho na ponta do dedo e colocou na boquinha da Sofia. Ela recebeu aquele primeiro biquinho como um conforto imensurável. Começou a chupar e em pouco tempo estava calminha.

Fizemos o exame e ela dormiu durante todo o tempo, chupando sem parar seu novo amuleto contra as dores do corpo e da alma.

E assim foi durante esses quatro anos. O bico para ela foi bem mais do que um simples vício de criança. Foi uma segurança, um afago, um carinho para enfrentar os exames rotineiros, remédios amargos e fisioterapia constante. Por isso naquele momento de tanta coragem, meu coração ficou apertado e chorei como criança abraçada ao Nauro. Tem que ser muito valente para encarar uma decisão dessas. Eu não sei se conseguiria. Mas como essa figurinha veio realmente ao mundo para nos ensinar, eu prometo que vou ser mais corajosa daqui pra frente.

Palavra de amiga!