sábado, 27 de fevereiro de 2010

Luxo

Uma vez li uma matéria na revista Vida Simples sobre o que é o luxo. Na minha opinião essa resposta, aparentemente simples, traduz bem mais do que uma opinião pessoal, mas o espírito da vida de cada um. Ela mostra o que guardamos dentro das entranhas da alma. Os alicerces que dão ânimo aos nossos sonhos. A filosofia que norteia nossas vidas.

Então parei para olhar para minha vida e analisar se ultimamente eu estava me dando a alguns luxos. A resposta foi: mais ou menos. A correria do cotidiano acaba nos fazendo atropelar alguns detalhes que são puro luxo. Mas confesso que algumas coisas que não abro mão seguem fazendo parte desses elementos fundamentais para gente se sentir vibrando. Para mim o momento do café da manhã é um verdadeiro luxo. Não pelo conjunto de tentações da mesa, mas pelo prazer de tomar o meu café passado, olhando para a vista da minha janela, na mesa colocnial que escolhi com carinho para nossa casinha. Quando sento ali, todas as manhãs, tenho alguns minutos para olhar para dentro de mim. Me enxergo no cenário que sonhei e isso me dá uma paz infinita. Considero esse um momento de luxo do meu dia, já que a vida de hoje não permite muitas regalias como a introspecção, por exemplo.

Não gosto de roupas de marca, nunca fui chegada. Nem nos tempos de adolescente. Também não tenho aquela tara por comprar sapatos, como grande parte das mulheres. Não sou nada consumista para esse tipo de artigo. Mas não abro mão de um sábado a tarde sem nada para fazer. De um papo despretensioso, regado a um mate novo, na vista do alpendre. Luxo é tudo isso e está em todos os cantos e horas da nossa história. Alguns em especial me fazem sentir recompensada. Como ter visto a formação do meu pequeno serzinho nestes quatro anos de vida. Foram tantas as descobertas da Sofia pela vida que ser a espectadora de cada minuto dessa magia me fez muito feliz. Quando optei por deixar de trabalhar fora e abrir minha própria empresa, em casa, sabia que corria riscos. Estar perto dela nesses primeiros e decisivos anos, foi um grande luxo, e confesso que tive momentos de verdadeiro deleite. Foram muitas tardes de inverno que interrompi o trabalho para nos aninharmos no tapete, lendo livrinhos em frente à lareira. Tantos os momentos gostosos, que no meio da tarde fui surpreendida por um cheirinho de bolo no forno. Luxos que a Talita, minha fiél escudeira, sabe presentear como ninguém. São momentos simples, mas que dão a dimensão da certeza dessa escolha. Se eu não estivesse perto, não enxergaria sua grandeza.

Luxo é a cumplicidade com aquela amiga que te conhece só no olhar. É a expressão singular que vejo no rosto dos meus pais quando enxergam a Sofia. É a faceirice do Nauro quando ganha uma massagem nas costas. É poder escrever esse texto em um sábado ensolarado de fevereiro, sem pressa, em um “espaço” que está me ajudando a me fazer mais feliz. E o melhor de tudo, é saber que a lista de luxos não termina aqui, e que depois de ler esse post, os meus visitantes virtuais também vão fazer suas listas pessoais e dar mais valor aos seus luxos pessoais. Afinal de contas, a vida é um luxo!

P.S.: E para não deixar de me dar ao luxo, hoje a tarde vou cortar a grama e depois comer uma melancia bem gelada. Que luuuuxo!!!!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Mundo animal

Sei que ando estressada nos últimos dias e que quando isso acontece qualquer gotinha d´água parece um maremoto. Prova disso foi que me peguei há alguns minutos traçando um plano maquiavélico para acabar com a vida do nosso galo. Isso mesmo, para quem ainda não sabe, nós moramos para fora e temos um galinheiro habitado por três galinhas problemáticas e um galo destemperado.

A Sofia as batizou de Taliba, Luluca e Nine. Tínhamos também a Bira-bira, mas foi dada como desaparecida na enchente de janeiro do ano passado. Testemunhas ouviram seus gritos de socorro nas proximidades da figueira, mas com a força das águas o pessoal da Defesa Civil achou melhor incluí-la na lista dos desaparecidos. Bom, mas voltando a vaca fria. Ou melhor, ao galo Pedro. Isso mesmo, minha filha quis homenagear seu primo mimosos dando esse lindo nome ao penoso-histérico. Ele é mais um dos animais que o Nauro insiste em colecionar. Aqui em casa já tivemos uma ovelha chamada “Me”. Isso mesmo, super original!!! Ela foi convidada a “não fazer mais parte da família” depois que comeu 98,8% das árvores que plantamos com carinho, por longos meses. Foi preciso isso para o Nauro se convencer que seria mais apropriado doá-la. Mas, quem pensa que a Mé virou churrasco, está redondamente enganado. Mesmo que nossos animais gerem desavenças familiares e causem transtornos, depois que pisam nesse terreno, passam a fazer parte da família. Então, demos a ovelha para um senhor com cara de honesto, que assinou um termo de compromisso de que nunca olharia para ela de um “jeito diferente”.

Essa casa vive num entra e sai de bichos. Na última Expofeira foi a vez da coelha Luluca. Seguindo a tradição imposta pela Sofia ela recebeu o mesmo nome da galinha, re-homenageando a prima Luisa, de Jaguarão. Pois então, a Luluca veio para casa em pleno inverno. Primeiro morou no alpendre, mas como fazia muita sujeira, passou para parte térrea da casa. Conheceu aquele universo verde e se deslumbrou. Em menos de uma semana entrou na lista dos desaparecidos. Só que desta vez, suspeitamos que tenha sido um caso passional, já que tinha uma lebre rondando a casa durante a noite. Tudo bem, o que importa é que ela seja feliz. Sem preconceitos.

Mas tudo isso para chegar novamente ao galo Pedro. Eu tenho um sono super leve, qualquer coisa me acorda. Ultimamente o Nauro achou mais produtivo deixar o pessoal do galinheiro solto todo dia e a noite. Com isso, as galinhas colocam ovos nos lugares mais inusitados. Dia desses, tinha um dentro da gaveta de uma escrivaninha velha, no porão. O Nauro adora, e tem mil teorias sobre a psicologia animal. Para se ter uma idéia, outra noite, quando o Pedro começou a cantar destemperado, ele atirou um resto de bauru para o galo. O bicho não só calou a boca como se regalou.

Mas essa manhã o mundo animal me atormentou além dos limites. Eu estava no bom do sono, daqueles necessários, já que o ritmo de trabalho dos últimos meses tem sido intenso. Com o calor que tem feito, uma noite fresca como a de hoje é quase um presente dos céus. Eu estava literalmente nas nuvens. Até acordar com aquela goela desafinada, em um tom grave:

- Cuuuucuruuucuuuuu!!!

Pequei o relógio e constava: 5h43. Abri os olhos com uma fúria e me atinei só fechar a janela. Não foi suficiente para o danado do Pedro conter o seu show matinal. Eu não sei como ele sabe, mas se abala lá do galinheiro e fica postado exatamente na minha janela. Como ele sabe, tem um GPS no meio daquelas penas?

Coloquei um travesseiro na cabeça, esbravejei, e nada adiantou. Não consegui mais dormir e acordei num baita mau-humor. Até meia hora atrás eu estava pensando maneiras cruéis de me vingar do Pedro. Mas como esse é um espaço terapêutico e prometi a mim mesma que seria um blog-divã, estou mais calma. Agradeço aos ouvidos de vocês. Foi bom desabafar. Mas sei que caso ele suma misteriosamente serei a primeira suspeita da lista. Posso até vir a ser indiciada. Tudo bem, só não posso deixar de gritar beeeeeeemm altoooo:

- Mata esse galo e faz uma canja!!!!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Encontro de Sofias

Sofia gaúcha (E) e Sofia paulista (D), apreciando a Lagoa dos Patos, na praia do Laranjal

Foto: Nauro Júnior


Na semana que precedeu ao carnaval recebemos uma visita há muito aguardada e prometida nas bandas do sul. Há cerca de quatro anos, logo depois que saímos do hospital com a Sofia, conhecemos o trabalho, na época embrionário, do Instituto Abrace (www.institutoabrace.org.br).


Na época estávamos organizando a exposição Mundo de Sofia e fazendo uma via-sacra hospitalar para avaliar as possíveis seqüelas do período pós-UTI da Sofia. Era como aquela sensação de esperar ver o nome na lista do resultado do vestibular.


A cada novo exame, uma angústia velada, que Nauro e eu tentávamos disfarçar com um silêncio cúmplice. Era uma espécie de medo de falar e alguma coisa acontecer. Estávamos exaustos pelo período hospitalar e aliviados por tentar segurar novamente as rédeas da nossa vida.

Até que numa bela manhã de março, a minha amiga Maira liga para dizer que tem uma mulher fantástica, dando uma entrevista no programa da Ana Maria Braga. Era dia 8 de março e o programa apresentava mulheres especiais, indicadas por alguma personalidade masculina, representando o que eles achavam da condição feminina.


Eis que surge uma moça loira, magra e alta, indicada pelo jornalista Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo, contando sua saga com a filha na UTI. O relato de mãe virou o livro “Mãe de UTI – amor incondicional” e plantou a semente da ONG que aquela mulher acabara de fundar.


O livro era o diário de Maria Julia Miele, que contava a brava luta de sua filha Sofia, que depois de um ano e três meses entre UTI e home care, faleceu. A instituição que ela começava, tinha como objetivo dar alento e força a pais que estivesses com seus filhos em UTIs, mostrando através da experiência vivida, a importância do amor no contexto hospitalar.


Nós aqui no sul, entre um exame e outro, montávamos a exposição Mundo de Sofia que iria para o Hospital Universitário São Francisco de Paula, para dividir nossa história com pais que ainda estivessem na luta.


A intenção era a mesma: dar uma luz a quem estivesse na escuridão.

Na mesma hora escrevi um mail para Maria Julia e começamos a trocar ideias. Ela me convidou para integrar a ONG e colocar a exposição disponível no site, para distribuir esperança a pais de todos os cantos.


Mas as mãos de Deus movem os peões do destino com tamanha precisão, que algumas coincidências chegam a nos arrepiar. Paralelamente, em Sorocaba, uma jornalista chamada Denise Crispim, fazia contato com a Maria Julia.


Também tinha passado longos meses na batalha. A filha Vivi não resistiu, mas a gêmea Sofia, nascida a menos de 10 dias de minha Sofia, estava na mesma via-sacra que nós.


O trio se formou. Três mães de Sofia, com suas dores e vontades. Dividindo experiências e aprendendo lições com cada nova história que nos chegava ao Instituto Abrace.


De cara sentimos uma identificação profunda e começou ali uma forte amizade, escrita pelo destino e pelas lições que as nossas Sofias vieram nos trazer. Percorremos a tal via-sacra dos exames pós-seqüela juntas, acompanhadas de perto pelos sábios conselhos da amiga Maju.


Nossas Sofia hoje estão lindas e felizes, com uma luz que nenhuma seqüela física jamais poderá apagar. E foi esse encontro de Sofias, que coloriu nossos dias de carnaval. Como diz na frase que é lema da nossa ONG:

“O caminho de cada um é feito pelos próprios passos, mas a beleza da caminhada depende dos que vão conosco”.



Visite o site do Instituto Abrace:


http://www.institutoabrace.org.br/


Clique em Mundo de Sofia, no rodapé da página e conheça a história da nossa Sofia!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cordão umbilical

Discordo dessa visão histórica de que as mulheres precisam lutar pela igualdade. Pelo simples motivo de que homens e mulheres jamais serão iguais, em todos aspectos. Cada gênero tem suas particularidades, exatamente como o azeite e o vinagre. Juntos dão o tempero exato para a salada. Mas uma coisa faz de nós mulheres verdadeiras privilegiadas: a maternidade. A barriga crescendo, o corpo mudando, um ser dentro da gente, se formando. Por mais cotidiano que seja se falar em gravidez, quando acontece com a gente não há como não se emocionar. É um milagre, a ciência que me perdoe.

O cordão umbilical é um laço que a vida jamais consegue cortar. As mães que perderam seus filhos sabem o quanto. As que diariamente acordam, alimentam, vestem e mimam seus rebentos também. Nesse kit singular de que fomos abençoadas, ainda tem a amamentação e a intuição, aquele sentimento que não sabemos explicar e que o mundo batizou de “instinto materno”. Escrevo tudo isso para dizer que meu coração anda apertado nos últimos dias. É uma bobagem, coisa de mãe babona, sei lá. Não é por nada ruim, a Sofia está ótima, há meses sem nenhuma intercorrência, feliz e saudável. Mas na semana que vem finalmente vai para o colégio. Depois de quatro anos debaixo das nossas asas, vai dar seu primeiro passo no mundo coletivo. Vai pisar no universo regido por diferentes modos, gostos e filosofias de vida. Provar refrigerante, comer chiclete, ouvir gente que fala palavrão. Mas sei também que vai descobrir o convívio dos amigos, aprender o mundo das letras e construir o seu mundinho de sonhos. Nesses quatro anos de vida, procuramos mostrar a ela o quanto essa vida vale a pena.

Daqui para frente sei que será um piscar de olhos até a faculdade. Meu peito se enche de angústia e felicidade, se é possível que estes sentimentos antagônicos possam ser companheiros. Me arrepia ter a certeza de que a partir da próxima segunda-feira o tempo vai voar. Minha “minhoca” vai vestir o uniforme do “pré” e pisar o mundo cheia de autonomia. Sei que vai ser muito feliz. Que essa luz que ilumina nosso cotidiano vai irradiar por outros pagos também.

Estou feliz e triste. Mas me vem na memória o texto de um quadro que tinha no corredor da charqueada que nasci e cresci. Era o famoso poema do Kalil Gibran, que durante minha infância li e reli milhares de vezes, sem compreender. Hoje penso na profundidade daquelas frases e me apego a elas para amenizar meus medos. Desejo com todo meu amor que o mundo trate minha amada filha com carinho e que ela siga tendo a certeza de que essa vida é maravilhosa.

P.S.: E quando menos a gente imaginar, ela vai trazer aquele cabeludo, todo tatuado, para apresentar à família. Socorro!!!!

"Seus filhos não são seus filhos.
São os filhos e filhas da vida, desejando a si mesma.
Eles vêm através de vocês, mas não de vocês. E embora estejam com vocês, não lhes pertencem.
Vocês podem lhes dar amor, mas não seus pensamentos, pois eles têm seus próprios pensamentos.
Vocês podem abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas vivem na casa do amanhã, que vocês não podem visitar, nem mesmo em seus sonhos.
Vocês podem lutar para ser como eles, mas não procurem torná-los iguais a vocês. Pois a vida não volta para trás, nem espera pelo passado.
Vocês são o arco de onde seus filhos são lançados como flechas vivas. O arqueiro vê o alvo no caminho do infinito, e Ele curva vocês com Seu poder, para que suas flechas possam ir longe e rápido. Deixem que o seu curvar-se na mão do arqueiro seja pela alegria: Pois mesmo enquanto ama a flecha que voa, Ele também ama o arco que é firme."
KALIL GIBRAN

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Tão rara

Pensei em um milhão de formas de dizer para Neca não desanimar. Mas que pretensão a minha dizer isso a uma pessoa que nos ensina a cada dia o quanto a vida é preciosa. Ela luta há alguns anos contra um câncer. Ela é jovem, tem um marido que a ama, uma filha linda que vai completar 15 anos e um brilho nos olhos que vi em poucas pessoas nesse mundo. Nesses anos de luta, ela sempre sorriu. Não lembro de encontrar a Neca um dia sequer com alguma ruga na testa. Se ela teve, soube administrar com uma sabedoria que jamais minhas palavras saberiam traduzir. Está sempre linda, por dentro e por fora.

Então ontem, quando minha irmã Kiki ligou à noite, pedindo que eu falasse com minha “santinha” para dar ânimo à Neca, eu fiquei pensando. A Kiki sabe que aqui em casa temos um altarzinho repleto, com todos os anjos e santos que integraram nossa corrente pela vida da Sofia. Uma em especial, a Nossa Senhora Desata Nós, estava presente na UTI e pelos corredores do hospital durante a odisséia toda. Nos olhou com firmeza nos momentos mais complicados. Parecia que dizia com o olhar: “Nem pensem em desistir”. Depois da batalha vencida, passou a ser padroeira da ONG que nos engajamos (www.institutoabrace.org.br). Nessa trajetória entre Sofia e a ONG ela já desatou cada nó, que merece o nosso respeito! Por isso então, a Kiki que sabe da história, me ligou ontem pedindo que eu acionasse a santa. Eu disse na hora que já estaria entrando em contato com as “instâncias superiores”.
Fui fazer o jantar e enquanto pensava na vida, seus mistérios e belezas, a Sofia aparece. Ela estava todo tempo no quarto assistindo à Branca de Neve. Daí chegou na cozinha com um anjo na mão, me olhou com aquelas bolitas cor de terra e sentenciou:

- Toma mamãe, é para a gente rezar!

E eu meio tonta perguntei, mas como assim? Quem disse que era para rezar. E ela respondeu com a mesma cara:

- O anjo, ora bolas!

Naquele momento não tive dúvidas de que iríamos rezar. Também tive a certeza de que existe muito mais entre o céu e a terra que possa supor nossa humilde sabedoria ou vã filosofia. Por isso querida Neca, respira fundo e segue firme. Mesmo que não possamos dimensionar tuas dores, conseguimos enxergar tua grandeza, tão rara!

========

Paciência (Lenine)

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

2010 desculpas

Eu deveria reservar pelo menos umas duas páginas para me desculpar pelo “abandono de blog”. Na opinião do Nauro, isso é quase crime inafiançável, já que segundo suas palavras textuais: não podemos começar uma coisa e abandonar assim, de uma hora para outra. Ele tem toda razão e foi por isso que demorei tanto a voltar. Ficava imaginando como me desculpar. Bom, não sei explicar muito o porquê da ausência, já que acúmulo de trabalho não é justificativa. Se trabalho escrevendo, nada mais divertido do que relaxar através de crônicas cotidianas. Mas o fato é que estou aqui solenemente para dizer que não vou mais sumir. Também para compartilhar a sensação de que esse 2010 vai ser uma ano intenso. Acho que tudo nele vai ser muito. E de coração, espero que sejamos muito felizes.

Que venham as melancias geladas desse verão!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A geléia de morango


Nessa linha profissional de fazer fotos de casamento, que iniciamos timidamente em 2009, acabamos por participar de momentos muito importantes das vidas das pessoas. Estar presente, registrando isso para sempre, é uma responsabilidade muito grande. Mais que fotógrafos e produtores do álbum dos noivos, sei que estamos acompanhando pessoas prestes a pisar em um sonho muito esperado. Para estarmos ali sem interferir na cena daquelas vidas, procuramos ser expectadores.

Mas nem sempre acontece dessa forma. E foi assim que no último domingo passamos momentos muito felizes ao lado de duas famílias sensacionais. O casamento da Renata e do Dani, nos rendeu mais do que boas fotos, mas momentos singulares. Acompanhei a preparação da noiva, ao lado do Gustavo. Durante toda tarde conheci melhor uma menina suave, sensível e extremamente bela. Daquelas belezas que começam por dentro, e acabam coroando um físico belíssimo. Durante a sessão de fotos no salão, fomos conversando e fui entendendo melhor aquele amor que em poucas horas seria sacramentado. Enquanto isso o Nauro estava com o Dani, já no local do casamento. Assim como a Renata, ele é daquelas pessoas que falam na altura da calma. Que passam paz interior pelo tom de voz. Uma duplinha rara, nos agitados dias de hoje.

A cerimônia de casamento foi o retrato disso tudo. As duas irmãs foram responsáveis por dividir com os convidados a história do casal, desde o começo. Cada uma com sua cor e seu estilo, duas irmãs que tinham em comum bem mais do que o ar despojado. Mas sim um carinho e admiração imensa pelos seus irmãos. Finalizaram aquele momento com uma frase linda, do poeta Mário Quintana. Celebraram aquele amor, de verdade, e tive o privilégio de assistir a uma das mais belas cerimônias de casamento que já vi.

Nesse mesmo clima e intensidade, rolou a festa. Com cardápio vegetariano, guitar play, muitos flashes, cup cakes fantásticos e...a geléia de morango da Ceres. Naquele cenário de tantos detalhes simbólicos, a lembrancinha do casório não poderia ser mais apropriada. A Ceres é a mãe do noivo, e fez pequenos potinhos de geléia de morango para os convidados levarem aquele doce-carinho para suas mesas de café. Ganhei dois potinhos e trouxe para o meu momento preferido entre todas as refeições.

Ontem, a Sofia inventou de fazermos um pic-nic na sala, e lembramos de colocar a geléia entre as “deliciuras”. Quando botei aquele pedacinho de doce na boca, senti o sabor das tardes inesquecíveis na casa da Voinha. Foi uma viagem ao encontro da minha avó mimosa, com quem vivi momentos que estão impressos nas minhas melhores páginas de vida.

A Voinha morreu com 91 anos, muito bem vividos, diga-se de passagem. A história dela vale muitos posts, mas resumo aqui a história de uma costureira que ficou viúva cedo e tinha sete filhos para sustentar. Começou a costurar para fora para alimentar a prole. Ao longo de muitas décadas, fez a “Regalo”, uma confecção de lingerie que foi um verdadeiro sucesso. Depois de aposentada, começamos as duas juntas a inventar outras “modas”.

De início pensei em uma forma de manter a Voinha conectada com o mundo. Mera ilusão, ela não só se conectou ao mundo como começou a produzir geléias deliciosas, que eu vendia na Prefeitura, para meus colegas na época. A coisa cresceu tanto, que fizemos embalagens personalizadas. Ela costurava as “saias” para os potinhos e eu fiz uma etiqueta personalizada, que tinha até o SAC para os clientes. Abaixo divido com vocês essa divertida lembrança, que hoje serve para matar a saudade de uma pessoa muito especial, que tive o prazer de dividir momentos únicos da vida.

Por isso te agradeço Ceres, porque a geléia de morango me alimentou a alma nesse finalzinho de 2009. São essas as verdadeiras delícias da vida!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Paz + Saúde

Esses dois dias que precedem a virada do ano sempre me deram uma certa angústia. Não sei o porquê, mas é uma sensação de dever cumprido com sede de vida. Sentimentos totalmente contraditórios obviamente, mas que me invadem.

Olhando para 2009 vejo que foi um bom ano. A Sofia atravessou o inverno e a ficou imune à gripe A. Teve apenas uma pneumonia, o que é considerado um saldo mais que positivo. Ingressou na fase das descobertas do mundo e me levou junto a lugares tão mágicos, que nem lembrava mais que existiam. São as grutas do mundo infantil, que com o tempo esquecemos que existem. Muitas lições aprendi esse ano, assistindo aos desenhos antigos e novos, mas que nos fazem relembrar que a vida sem magia fica sem graça.

O Nauro realizou um grande feito, publicando seu primeiro livro, com sucesso absoluto de vendas. Além disso, ajudou de certa forma muita gente a digerir a dor da tragédia do acidente xavante. No ano em que completou 40 anos acho que meu marido amadureceu muito. Como todo grande passo, precede de alguma dor, acho que ele soube encarar os problemas do início do ano e vencer os desafios. Hoje vejo poucos cabelos brancos na sua cabeleira negra, mas contemplo no meu parceiro de vida uma certa calma de espírito que me faz muito bem. Continuamos sonhando juntos, e isso é muito bom.

Nesses doze meses ganhamos novos amigos, compramos um carro novo, perdemos nosso cachorro-amigo, viajamos pouco, compramos mais um pedaço de terreno pra nossa casa, trabalhamos feito doidos, descansamos quase nada, economizamos muito e comecei esse blog-terapia. Acho que só essa listinha que me ocorreu rapidamente, já justifica uma bela despedida para 2009.

E tu 2010, o que nos prepara?!

O Nauro tem fé de que vai ser um ano nota 10.
Eu desejo, de coração, que seja um ano com paz e saúde. E não é jargão de cartão de livraria. Sem esses dois elementos, todo o resto não faz sentido. Por isso meus amigos queridos, são esses os meus desejos para todos que fazem parte da minha vida real ou virtual.

2010 + paz + saúde = Tudo de bom!

sábado, 26 de dezembro de 2009

O espírito da coisa

Hoje foi ao ar o especial de final de ano do Caldeirão do Huck, com a história de Dona Conceição. O Brasil conheceu um personagem da vida, que nós pelotenses já admiramos há tempos. Lindo o gesto do João Bachilli e sua trupe, que encontraram uma linda forma de agradecer todos os conselhos espirituais que ela sempre deu a eles. Era como a lanterninha, que apontava a luz para o lugar certo. E assim o Grupo Tholl foi dando seus passos pelo mundo, mas sempre com os pés no chão. Mas isso é outra história, que merece um capítulo à parte.

Hoje assistindo a humildade daquela mulher, lembrei das minhas muitas idas naquele barraco de madeira. Eu ia na casa da Dona Conceição em busca de um auxílio espiritual, que ela tão bem sabia dar. Foi naquela salinha escura, e repleta de imagens de santos, que ouvi os sábios conselhos do meu avô Rafael. Ele faleceu de leucemia quando eu tinha dois anos, e sua doença foi descoberta alguns dias antes de eu nascer. Me criei ouvindo coisas boas sobre ele, onde quer que eu andasse e sempre sentia por não ter me cruzado com ele nessa vida. Mas foi através da mediunidade da Dona Conceição, que meu avô me disse coisas lindas e acalmou um coração juvenil, doído pelas primeiras decepções amorosas.
Lembro que quando isso aconteceu fiquei assustada. Cheguei em casa atônita e fui correndo contar para minha avó, a Chocho. Descrevi as palavras que tinha escutado e ela encheu os olhos de lágrimas. Disse que era ele mesmo, e que podia ouvir aquelas expressões, bem do jeito dele de dizer as coisas. Os dois viveram um daqueles amores que ultrapassam o céu e a terra, lindo e intenso. Mas como ele se foi muito cedo, minha avó sempre transpareceu com sua alegria de viver, o privilégio que teve em estar aqui por um tempo com ele. Foi um amor singular, como sempre digo, e ela sempre soube disso.
E foi depois de ouvir o recado através de Dona Conceição, que procurei conhecer mais o quê aquela mulher “mensageira” fazia de tão incrível. Ela acolhia cada anjo deixado na sua casa, abrindo aquele vasto coração de mãe e instalando o que recebia de Deus, com o maior carinho. Naquele tempo eram cerca de 40, hoje vi que já passam dos 50.
Hoje ela recebeu uma casa reformada, um microônibus e algum dinheiro. Mas a gente podia ver nos olhos dela, que em alguns momentos ficava até constrangida. Vai ser maravilhoso poder dar esse conforto para todos seus filhos. Foi um grande presente e tenho certeza de que eles vão saber desfrutar. Mas ela é tão incrível, que sempre que pôde, ressaltou no ar que o que importa não é só isso na vida. E foi essa mensagem que fez desse programa tão especial. Aqui em casa nos emocionamos de início ao fim. E ficamos com o coração cheio de orgulho por saber que esse bom exemplo, está bem pertinho, na nossa tão amada Pelotas. Isso serve para aproveitarmos o ensejo e pensarmos um pouco mais no que realmente importa. Afinal de contas a vida está rolando e a festa é nossa, 2010 está chegando. Mas não podemos esquecer o espírito da coisa!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Alfarrabos - parte III

O vento Minuano, a goiabeira e eu

Uma infância no sul do Rio Grande do Sul tem lá suas peculiaridades, e não é pela geografia mais plana ou pela churrasqueira cativa no quintal. Nossa infância de guria é povoada na maior parte por uma trilha sonora muito típica: o zunido do vento Minuano. Lembro bem da dimensão que tinha o tempo e de como os invernos eram longos. Quase intermináveis.

Na espera de estações mais amenas já acordávamos enroupados. Depois da caneca de louça com café-com-leite, e antes de corrermos para o pátio, tínhamos que trocar a ceroula por várias camadas de agasalho, antes de encarar o “friozão”. Na primeira meia hora de aventura, já tínhamos alguns blusões amontoados no pé de alguma árvore. Só ficávamos com a “baxeira” - nome dado à camiseta de baixo, que até hoje povoa guarda-roupas de todas as idades.

Cada estação, por ser bem definida, tinha sua atração especial. A minha preferida sempre foi o outono, não por anteceder ao inverno, mas por inundar a goiabeira de frutos apetitosos. O cheiro da fruta até hoje me remete a boas sensações. Quando cruzo o corredor de algum supermercado, me pego com aquela sensação deliciosa que os aromas de infância nos proporcionam.

Acho que a relação entre o vento minuano a goiabeira e eu foi muito profunda. Ainda hoje, ao ouvir o zunido do vento sul ou cruzar com alguma goiaba lembro o quanto foi bom ser criança. No pé da goiabeira descobri muitas coisas sobre a vida.


Aprendi que mesmo as melhores coisas da vida têm seu tempo de chegar e partir. São como os outonos que trazem as goiabas e as primaveras que levam os Minuanos!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Alfarrabos - parte II

Dias para Viver

Tempos bicudos, diriam nossos avós. Para dizer a verdade, acho que naqueles tempos crise mesmo era de asma, o resto era apenas uma variação no peso das vacas: às vezes mais magras , às vezes mais gordas , mas sempre pastando. Hoje, não dá para jantar e simultaneamente assistir a televisão. Corre-se o risco de um engasgo entre a CPI dos bancos, o vaivém do dólar* e o ataque histérico do Ratinho. (*isso foi escrito em 2000!)
Este é o Brasil ! Apesar dos pesares, pátria amada Brasil. Seguimos firmes e fortes, só não podemos perder o bom humor - nossa maior arma. Mesmo que o inverno este ano esteja "de lascar", que você e o cheque-especial tenham formado uma dupla sertaneja e que o papel-higiênico acabe sempre na sua vez ... Coragem! Ainda existem muitas coisas "legais" para se fazer.
Para começar, descubra coisas simples que, às vezes, nem lembramos existir. Que tal ler aquele livro de cuja capa você gostou? Pode ser um bom começo – pelo menos uma maneira de elevar o nº de livros lidos ao ano por brasileiro . Se ainda não lhe pareceu uma boa saída, que tal uma caminhada pela rua , sem pressa , ouvindo o som de cada esquina ? Ou tomar um mate com o porteiro do seu prédio e ouvir a estória daquela pescaria que ele fez no final de ano ?
São muitas as alternativas: tomar uma taça de vinho tinto na sexta, um cafezinho com o vizinho no sábado ou uma xícara de chocolate-quente no domingo. Se quiser esquentar o coração, experimente convidar um moleque de rua para comer um lanche e conversar . Você vai querer repetir o papo e ele com certeza o cachorro-quente.
Se você curte uma boa conversa, ouça alguém com mais de 70 anos, viaje no tempo e sinta a emoção de quem o conduz.
A atividade pouco importa, mas sim , que você resgate, lá dentro, uma corzinha alegre para pintar estes dias tão cinzas. Como diz a música...

"Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo".

Carpe Diem !

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Alfarrabos - parte I

Mexendo nos meus backups dos tempos da faculdade, encontrei um Cd com várias crônicas que escrevia na época. Isso lá pelos idos do final do seculo XX. Me deu uma nostalgia daquelas e resolvi reler cada um dos escritos. Divido aos poucos aqui, com meu divã-virtual!

* Este foi publicado no jornal Diário Popular de 30 de dezembro de 1998.

Querido Papai Noel

Por mais que o tempo passe, não consigo esquecer aquele tempo em que acreditava no senhor. Guardo às sete-chaves, a deliciosa sensação que eu, e mais meia dúzia de primos, sentíamos nos dias 25 de dezembro de muitos anos atrás. Era sempre depois do almoço, no apartamento da nossa Voinha. Engolíamos a comida natalina rapidamente e fingíamos não ver os sinais disfarçados de nossos tios e pais, que entre mímicas e frases enigmáticas, preparavam a tua chegada.

Ao ouvirmos o toque da campainha, corríamos sem saber para onde, procurando esconderijos estratégicos entre a porta de entrada e a árvore de Natal, onde alguns se entrincheiravam até sentir que a situação estava realmente confiável e que o senhor era de fato um “bom velhinho”. O som da sinetinha se aproximando pela escada fazia com que nossos corações atingissem um ritmo alucinado. Quando, por fim, visualizávamos o senhor com aquela roupa vermelha, todo suado, carregando no ombro o saco onde estavam materializados todos os nossos sonhos...nossa!!! Era a própria essência da felicidade! Olhávamo-nos com excitação e cumplicidade, cada um dos primos esperando ouvir seu nome ser chamado para depois correr para o abraço e merecer o honra de dar um beijo no Papai Noel.
Com o passar dos anos chega o dia em que “aquele” primo mais velho que já se acha “grande” resolve dar um pontapé no teu castelo de areia e conta que o senhor de fato não existe. Acho que é a primeira sensação de desilusão que conhecemos na vida. Depois desta, jamais olhamos o Coelhinho da Páscoa da mesma maneira. Mas, para ser sincera, acho que nunca deixamos de acreditar no senhor, mesmo que os anos transformem nossos sonhos e que nossa vida ao vivo seja bem menos excitante.
Sobrevivemos ao trivial e sempre que chega época de Natal uma luzinha acende dentro de nós e faz com que vejamos o verdadeiro significado do Natal, mesmo que seja cada vez mais a “salvação da lavoura” para maioria dos lojistas, a época de entrar de vez no cheque-especial, e a folga liberada para os nossos amigos do Congresso. Com todos esses “poréns” paralelos, mesmo assim eu sei que muita gente enxerga além do seu próprio umbigo. Pode ser naquele cartão com o mesmo desenho do ano passado que se envia para algum amigo esquecido, naquela briguinha com o vizinho perdoada com uma cervejinha na sacada ou no carinho espontâneo naquele moleque que te entrega o mesmo panfleto todos os dias, na mesma esquina. As formas são muitas, mas o sentido é um só. Por isso e por mais milhares de crianças que ainda brilham os olhinhos ao ver o senhor nas lojas, ou mesmo de longe, é que acredito que o senhor existe sim, e que neste Natal vai fazer muito marmanjo feliz.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Por que?

Acompanhei a fase de perguntas da minha prima Isadora, depois da Júlia e da Luisa e achei que estava preparada para as dúvidas de sempre, tipo:

- Por que os meninos têm tico e as meninas pepeca mamãe?!

Mas nos últimos dias a Sofia entrou com tudo nessa fase instigante, e nem me deu tempo de pesquisar as últimas tendências comportamentais na Internet.

Pois é, porque no meu tempo a gente perguntava essas coisas. No máximo alguma extravagância como:

- Por que os caranguejos caminham para trás?

Era o máximo da esperteza. Mas o mundo mudou, como todos nós sabemos, e com ele além da tecnologia e do efeito estufa, ascrianças vieram pensando bem mais do que a gente pensava. Sei lá, deve ser alguma coisa na composição do oxigênio ou efeito colateral da nossa alimentação, não sei, mas que mudou, ah mudou.

Olhem essa. Em pleno domingo a tarde, eu quase pegando no sono, e a Sofia dispara:

- Mamãe, o que significa “sensível”?

Pensei na hora, mas de onde essa guria me tira isso. Agora mesmo estava assistindo aos Backyardigans no quarto. Não acredito que o Tyrone tenha trocado algum diálogo com a Oníqua sobre a sensibilidade da raça humana. Bom, mas vamos lá, mãos à obra. Não basta ser mãe, tem que participar.

- Bom Sofia, sensível é uma pessoa que se emociona com as coisas. Que assiste por exemplo a uma propaganda na TV, e chora quando sente que é emocionante.

Ela olhou calmamente e rebateu:

- Mas o que é emocionante mamãe?

Ah meu santo, mas não é que presta atenção em toda frase mesmo e ainda redige outra pergunta.

- Bom Sofia, é quando alguma coisa toca o coração da gente, sabe?!

- Claro que sei mamãe.

Que bom, pensei eu, assunto resolvido e encerrado.Passou a tarde e ela seguiu suas brincadeiras de boneca e desenhos. Até que no cair da noite estávamos, o Nauro e eu, sentados no quarto, e ela veio:

- Mamãe, por que as meninas têm medo e os meninos não?

Eu pulei.

- Sofia, quem disse isso. As meninas são muito corajosas sim.

- Mas mamãe, as meninas têm medo de uma lagartixa, por exemplo. Lembra quando entrou um morcego aqui em casa? Nós ficamos com medo e o papai teve que matar ele. Nós sempre temos medo das coisas e eles não.

- Alto lá meu amor. A mamãe vai te explicar, que os meninos também têm medo. E tem coisas que só as meninas têm força e coragem pra fazer. Por exemplo, tu lembras que tu saísses de dentro da barriga da mamãe né?

- Sim, eu lembro.

- Pois então, só as meninas têm a força e a coragem de carregar os nenês na barriga e depois, na hora do parto, fazerem força e agüentar firme, até os bebezinhos virem ao mundo. Os meninos teriam medo, tenho certeza.

- Ah é mamãe, é verdade.

- E tu lembras quando a mamãe usa aquela fraldinha e sai um sanguezinho durante uns dias? Pois então, só as meninas tem a força e a coragem para segurar firme as cólicas, e agüentar aquele desconforto todo o mês.

- Ah é mamãe, é verdade.

Bom, depois disso ela se acalmou e saiu do quarto pensativa. Achei que tinha dado uma grande lição e que ela se daria por satisfeita por semanas. Fui colocar meu pijama e fazer a mamadeira. Quando entrego o leite ela me olha e diz:

- Mas mamãe, o que é a mentira?

Ahhhhh nãoooooo!!! Eu preciso de mais alguns dias para responder.

-Sofia, vamos dormir e amanhã eu te respondo, pode ser? Na hora do café da manhã a mamãe te explica. Boa noite!

Saí rapidinho antes que ela resolvesse me perguntar o que era um “relacionamento” ou alguma coisa desse gênero. Socorro. Fui dormir e na manhã seguinte acho que ela esqueceu que eu tinha ficado com essa dívida. Ainda bem, vai dar tempo de fazer aquela pesquisa dinâmica e me preparar para as próximas perguntas cabeludas!!!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Refuerzo

Dentre as tantas histórias hilárias que me vejo envolvida às vezes, uma recentemente marcou a entrada nos meus 41 anos de vida.

Na verdade, nos últimos anos elas tinham parado um pouco de acontecer. Eu já estava me achando uma senhora madura, com quatro décadas de estrada, mãe de família. Achei que essas coisas tinham ficado nas memórias da juventude.

Ledo engano!

Este ano o meu aniversário (29 de outubro) caiu bem no dia em que o Nauro, a Mari e o Etchuchiry (Chuchu) recebiam uma homenagem na Casa de Cultura de Jaguarão. Como a programação envolvia uma palestra com os aventureiros da Expedição Lagoa Mirim, programamos ir para Jaguarão depois do almoço e depois da função terminada, sairmos juntos para jantar no Restaurante Batuva, de Rio Branco. Adorei a idéia de passar o aniversário no “exterior”, ainda mais que poderia reunir minha irmã que mora lá, sobrinhos, cunhado e mais a Mari e o Chuchu.

Chegamos no meio da tarde e fomos direto para casa da Kiki, minha mana querida. Deixei o Nauro no hotel descansando e seguimos as duas e mais a Sofia para as compras. Não adianta, por mais que não tenhamos nada para comprar, a proximidade com um free shop parece que suga a gente. Não sei que atração é essa, mas acontece com todo mundo que se aproxima da Ponte Mauá, é estatístico.

Então cruzamos a tal da fronteira e seguimos pela avenida principal de Rio Branco. Até que vi um lugar livre bem em frente à Tenda Montevideo, minha preferida. Dito e feito, dei o pisca no meio da rua e estacionei o carro no oblíquo, como era indicado para o local. Descemos as três bem faceiras. A Sofia já apontando para uns tênis rosa na vitrine, imitação de All Star. Olhei para o flanelinha que me acenava e gritei da porta da loja:

- Ok, pode cuidar!

Paramos para olhar melhor as ofertas, eu achando lindo o tênis e fazendo o câmbio, quando escuto o insistente chamado:

- Senhorita, senhorita, veni a cá!

Olhei para o meu carro e vi um flanelinha parado ao lado, com dedo em riste, me chamando. Pensei cá com meus botões: Que flanelinha abusado esse, quer acertar o preço antes de eu voltar. Mas, como era meu aniversário, decidi que não queria me estressar. Desci até a calçada e perguntei:

- O que o senhor quer?

Ele me olhou com os olhos faiscando e disse:

- Su habilitación, senhorita!

Foi quando subi os olhos para aquele bonezinho cáqui surrado e li:
Po-li-cí-a.

Nisso minha irmã já vem com a Sofia pela mão e com os olhos arregalados. Eu peguei a carteira de motorista e me dei conta de que ele deveria estar querendo o meu fígado, porque achei que com aquela farda esfarrapada e o “X” desbotado no meio do peito, ele mais parecia os nosso flanelinhas daqui. O cidadão furioso, depois de olhar a carteira de habilitação, pediu os documentos do carro.

A estas alturas a Sofia já estava no meu colo, apavorada. Morre de medo da polícia e já tinha se dado conta (antes de mim) de que se tratava de uma “autoridade policial”. Peguei o documento do carro e na hora que ele segurou, saiu em disparada para o meio da rua. Nisso minha irmã caça ele pelo braço e diz:

- Ah não, levar os documentos não. O senhor tem que provar que é policial mesmo, senão não pode levar!

Pra quê! Esse homem começou a ficar verde e por alguns segundos achei que se transformaria no Incrível Hulk. Começou aquele bate-boca bilíngüe no meio da rua. Minha irmã e eu perguntando pra ele o que tínhamos feito afinal de contas, e dizendo que ele não tinha o direito de levar os documentos. Ele dizendo sei lá o que em um espanhol mais ligeiro do que nossas mentes insanas pudessem acompanhar. Nisso o homem levanta o braço, prende o apito na boca e grita:

- Refuerzo!!!

Socorro! O guarda estava pedindo reforço para nos levar presas em pleno Rio Branco. Parecia que aquilo não estava acontecendo. A Sofia grudada feito um carrapato no meu pescoço e nós as duas entrando na Delegacia, do outro lado da rua, para prestar esclarecimentos. Se é possível que se possa esclarecer essa confusão toda.

Fomos recebidas por uma senhora enorme, vestida em uma farda marrom, com as duas mãos no bolso e um olhar de baixo para cima. Era a delegada. Muda. Não falava uma palavra, só olhava a cena. Enquanto isso o flanelinha, ops, o guardinha e minha irmã seguiam naquela convulsão de palavras.

Resumo da ópera. No Uruguai é proibido dobrar no meio da rua, mesmo que para estacionar, entrar em uma garagem, qualquer coisa desse tipo. Só se pode dobrar em esquinas (nunca mais esqueço!). No Brasil pode, e daí?

Daí que depois de muito papo, a situação parecia não ter saída. Até que a Kiki lembrou do meu aniversário e veio com o velho papo:

- Mas o senhor vai nos deter no dia do aniversário dela? Imagine o trauma para essa criança e para mãe dela...

E assim debulhou um rosários de lamentações que acabou comovendo aquele coração Hermano. Fomos liberadas depois de atestar a data de 29/10/1968 na carteira de motorista. Ele olhou, levantou uma das sobrancelhas e disse:

- Está bien, pero en la próxima vez no hay perdon!

E assim nos despedimos do guarda mais mal vestido do Uruguay. Nos enfiamos rapidamente em uma loja, antes que ele mudasse de ideia e me fizesse passar um cumpleaño inesquecível, no xadrez.

Nota da redação: Ontem fomos à Jaguarão para o lançamento do livro do Nauro e adivinha quem eu encontrei em Rio Branco? Ele mesmo, e o pior, tive a sensação de que estava me seguindo!!!!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Carta ao Luís Fernando Veríssimo

Querido Veríssimo,

Pode parecer estranho essa carta, mas por mais que pareça, não é mais esquisito do que te olhar diariamente ao lado da Santa Terezinha.

Calma, eu vou explicar!

Vocês os dois me acompanham diariamente. Desde a primeira xícara de café, às 7h, quando subo para o escritório ainda de pijama e pantufas. Eu nem tenho vergonha de chegar escabelada, vocês já são de casa.

Ainda sonolenta, começo a fazer o tal clipping de notícias para aquela agência de São Paulo. São sete jornais, tenho que ler todos de cabo a rabo.

Às vezes comento contigo aquelas notícias que parecem mais anedotas de tão improváveis. Tu só me olhas com aquela cara de quem não tem nada a ver com isso. A Santa Terezinha é diferente, fica me fitando com um olhar firme, sério.

Aquelas mãos lindas, parecem até de pianista. Fica tesa, segurando o ramo de rosas e o crucifixo. O que será que ela pensa? Deve achar que esse mundo está mesmo perdido. Daí me olha com cara de quem vai mandar redobrar os cuidados nas áreas de risco.

São 7h30 e minha filha Sofia acorda. Peço para cuidares um pouco do computador e desço pra levar a mamadeira de leite com Nescau. Tem que ser “morninho”, ela sempre lembra.

Volto correndo, não posso passar das 8h30. O contrato com a tal agência é bem claro. Quanto mais apuro para terminar o clipping, mais tu me distrais.

Te olho de novo e fico pensando por que homens barrigudos gostam tanto de usar colete ? Esse teu colete azul marinho tem cara de roupa escolhida pra “afinar”, como dizia minha avó. Ela adorava vestir uma roupa que a deixasse mais delgada.

Olhando melhor, acho que foi tudo planejado com essa intenção. A camisa é listrada. Listras na vertical. Sempre me disseram que são ideais nessa estratégia da minha avó, de adelgaçar.

O clipping está no final. O café já está esfriando e a Sofia já chamou três vezes. Mas antes de descer meus olhos são puxados pela estrela.

Me vejo de jaqueta jeans, bolsa atravessada, e a estrela no peito. Isso foi lá por 2001, eu acho, quando viesses com teu grupo de jazz para uma apresentação noturna.

Não que me lembre direito, digo isso pelo tamanho da estrela. Com o passar dos anos ela foi diminuindo. Hoje está guardada lá na caixinha de brincos do banheiro. Nada pessoal, só que com tanta bandalheira para os lados de Brasília, ela virou tesouro do passado.
Mas voltando ao início, é assim que nos encontramos todo dia, no porta-retrato da minha escrivaninha. Sempre nessa correria. Às vezes nem nos olhamos.

Outros dias, meu papo é mais com a Santa Terezinha. Tem épocas que só dá ela. Fica super solicitada. São dias pesados, mas que passam. E aí, nos dias mais leves, te encontro novamente.

Somos cúmplices. Além do mais, estou com o braço enfiado no teu. Assim, que nem faço com meu pai quando andamos na rua. Acho tão mimoso. A gente se engancha, dá uma sensação de cumplicidade mesmo.

Acho que é isso, às vezes tu é meio pai mesmo. Outros dias, meu cúmplice da indignação. Outros da alegria, de saborear essa vida tão rara.

Imagina que quando nasci, tu estavas começando a assinar matéria na Zero Hora. Olha só, e hoje nós os dois abraçados no lugar de maior destaque do meu escritório, fazendo o clipping juntos.

Quanta honra para uma jornalista nascida em pelo ano de 1968.

Acho que foi por isso que achei engraçado. Como esse mundo é pequeno. A gente se acompanha há tanto tempo, mas tu nem imaginas que me estás aqui. Daí achei que tu precisavas saber.

Na verdade a tecnologia não chegou a tanto e ainda não tenho o e-mail da Santa Terezinha. Mas se quiseres posso copiar essa foto e te mandar. Ia ser legal né ?! interatividade total!

Um super abraço meu companheiro de tantos anos!
Com carinho,

Gabi

P.S.: A camisa de listras na vertical é muito alinhada, não esquenta viu?!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

E fez-se a luz...

Uma das minhas maiores amigas completa hoje 40 anos. Para mim se chama Moby, mas de batismo é minha xará: Gabriela.

Nos conhecemos desde pequena, porque ela é prima do Diego, que é meu vizinho desde as fraldas, aqui na zona do Areal fundos. Na adolescência nos afastamos por um tempo e quando nos vimos novamente, ela, com 17 anos, já carregava nos braços a Olívia.

Somos bem diferentes, mas temos muitas coisas em comum.

Testemunhamos juntas as descobertas e conflitos mais importantes de nossas vidas. Rimos e choramos em vários momentos. Sempre soubemos ouvir uma a outra. Mesmo a mais velha sendo eu, é dela que sempre saem as palavras mais maduras. E eu, com aquela cara de colegial, acato suas sábias observações.

Já tivemos passagens hilárias no nosso diário de memórias. Nos demos a mão nos momentos de maior dor de nossas vidas. Ela cuidou da Sofia por mim no hospital, quando minhas forças estavam acabando. Cuidou de mim, quando as forças acabaram. Cuidou do Nauro quando eu não podia mais cuidar de nada.

Dela escutei a frase que precisava para iniciar a revolução mais decisiva da minha vida. Daquelas frases que ficam grudadas na nossa alma e detonam uma série de descobertas interiores. Frases duras que só os amigos de verdade conseguem verbalizar com carinho.

Nossos encontros são sempre regados a chimarrão, sol e muita comida – independente da estação e das condições climáticas. A Moby é totalmente color, e eu absolutamente cáqui. Ela não pisa na rua sem lambuzar um batom marcante na boca e eu, com sorte, me atiro em um brilho rosado. Mas com tudo isso temos muito em comum.

Dividimos sonhos, somos loucas pelas nossas filhas e nossa amizade sempre foi regada por dois ingredientes que germinam afeto: respeito e admiração.

Há dois anos atrás, minha amiga querida passou por momentos de escuridão. Algumas circunstâncias fizeram com que sua vida parasse por algum tempo. Um turbilhão de coisas paralisou o contato com o mundo aqui fora. Nesse período foi como se ela estivesse no exílio. Senti saudades e me questionei por mais de mil vezes se eu não tinha como fazer alguma coisa para tirá-la daquilo.

Até que um anjo luminoso apareceu e fez-se a luz. Um médico fantástico que a trouxe de volta para as cores que tanto gosta. E como acontece em todas as tragédias, podemos escolher em ser vítimas ou sobreviventes delas. Ela por sorte, escolheu sair ainda mais forte. Saiu de salto alto, é claro, linda e loura.

E hoje comemora essa data que tanto gosta com um brilho a mais naquele par de olhos verdes. Já que a vida começa aos 40, um brinde a minha amiga Moby e bem vinda à vida!

sábado, 28 de novembro de 2009

O tal brilho

Ontem, na hora do almoço, combinei com a Sofia que depois de sua tradicional sesta da tarde arrumaríamos a casa com os enfeites de Natal. A notícia já fez um sorriso diferente colorir aquele rostinho lindo. Subi para trabalhar, enquanto ela tentava dormi o mais rápido possível, ansiosa com a notícia.

Pelas 17h, a Talita desceu as caixas e sacolas das nossas bugigangas natalinas e começamos as três a redescobrir os enfeites guardados há um ano. Incrível, mas eu consigo esquecer totalmente das coisas ensacadas e quando abro as caixas, parece que estou vendo os arranjos pela primeira vez. Isso deve ser genético, porque a cada novo Papai Noel que abríamos a Sofia brilhava os olhinhos e escolhia cuidadosamente um lugar de honra na casa. Assim passaram-se algumas horas.

Foi uma tarde deliciosa, de muita sintonia com o tal espírito natalino que nos invade nessa época. Eu não sei exatamente como funciona esse mecanismo e os antropólogos, sociólogos, e demais estudiosos devem ter mil e uma explicações técnicas. Mas no frigir dos ovos o negócio é que nessa época a gente parece que enxerga com mais clareza o tal brilho da vida. Momentos como esse, simples até, revelam um profundo encanto.

Minhas lembranças viajaram para os tempos em que eu era criança, lá na Charqueada, onde a montagem da árvore de Natal era um evento esperado ansiosamente. Lembro de sairmos com a minha avó querida, a Chochó, para escolher o pinheiro do ano. Ela comprava árvore mesmo, de verdade, e eu achava aquilo o máximo. Uma vez, veio aquele monstro pinheiro em cima da Karman Guia amarela dela. Uma cena totalmente filme americano. Depois nos reuníamos no salão e abríamos o tal baú dos enfeites. Eram horas mágicas, onde pareci que o mundo parava e aos poucos íamos transformando a vida em um conto de fadas. Delicadamente montávamos o cenário da fábula e nos sentíamos personagens dela.

Incrível sensação essa, que o tempo e a vida adulta vai nos tirando aos poucos. Vem a chegada da adolescência, depois a juventude e encontramos coisas estranhas para ocupar nosso mundo interior. Até que os anos passam e o sopro de vida aparece nas nossas sementes. Felizmente nossos filhos chegam e nos fazerem reviver tudo de novo. E foi pensando nisso tudo, que terminamos de enfeitar nossa casa. Com luzes, velas, presépio, árvore de Natal e Papai Noéis por todos os cantos. No final, depois da Talita ir para sua casa, sentamos as duas na sala e a Sofia suspirou de alegria:

- Mamãe, como tá linda a nossa casa!

Olhei para aquele rostinho de anjo e vi um brilho lindo e único. Me enxerguei naqueles olhinhos, como nos velhos tempos do pinheirinho da Chochó.

Fantástico e delicioso esse ciclo natural da vida. Fui dormir com a certeza de que alguma coisa brilhou aqui em casa, além das luzinhas natalinas.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Experiências químicas

Quem me conhece sabe que volta e meia acontece algum fato inusitado no meu cotidiano. É assim desde a infância. A lembrança mais remota que tenho foi ao quatro anos, quando a mãe me mando buscar um costureiro no closet dela e me deparei com uma ovelha gritando “Méééééé´” para o espelho. Imaginem o tamanho da ovelha duplicada pelo armário, cheio de espelhos. Contabilizem aí o trauma da criança. Até porque quando voltei chorando minha mãe achou que era fiasco, me sapecou algumas palmadas e mandou que eu voltasse lá, porque não tinha como um “bicho grande” estar no espelho. A história virou tradição na família e me rendeu anos de medos noturnos.

Acho que essa é a lembrança mais remota de causos desse tipo. Depois disso tiveram dores de barrigas em lugares que não tinha sinal de banheiro, brigas de trânsito hilárias e até a venda de um Fusca que acabou apreendido. Mas é assunto para mais adiante.

A mais recente aconteceu em um sábado de novembro, não lembro exatamente qual. O Nauro estava em Porto Alegre para o encontro dos jornalistas da Central do Interior e eu aqui, com o sábado inteirinho pra mim. Adoro sábados, é meu dia da semana preferido, ainda mais se não tenho nenhuma obrigação agendada. Então acordei, fui à feira comprar a geléia de morango da Mari (que será hospede do mezanino em breve!). Passei na farmácia e voltei pra casa com alguns DVDs debaixo do braço. Programinha perfeito para um sábado cinza, com cara de inverno. Aqui ao lado de casa, na Charqueada Boa Vista, uma movimentação intensa desde cedo, de alguma festa empresarial.

Então almoçamos e a Sofia foi logo assistir seus filminhos, bem faceira. Eu aproveitei para colocar a vida em dia. Fiz as unhas com toda calma do mundo, ouvindo meu CD preferido da Legião Urbana. Depois decidi dar um jeito naquele tom amarelado que meu cabelo tinha adquirido após algumas mechas mal sucedidas.

*Em tempo: Eu insisto em fazer experiências químicas desde a adolescência. Algumas amigas devem lembrar da receita de chá de camomila, leite e água oxigenada, que deixava o cabelo com um fedor horroroso e que nos melecava até a raiz do cabelo, literalmente. Pois então, mais de duas décadas depois eu ainda insisto em fazer esse tipo de porcaria. Se for nos meus arquivos do banco de dados, o percentual de eventos dessa natureza bem sucedidos ainda deve ser o de 0,37% alcançado em 1988. Foi quando consegui fazer uns reflexos dourados com um mistura de iogurte, limão e pingos de H2O2, que hoje seria proibido pela ANVISA.

Mas voltando a tarde de sábado até então perfeita. Depois de pés e mãos feitos, decidi colocar um tonalizante para unificar o tom tricolor da cabeleira. Estava me achando com aquelas caras de dançarinas de funk, sabe?! Pensei até que daria para escolher um nome de fruta, mas dadas as delineações corporais, o máximo que conseguiria seria uma “Gabi-bananinha”. Pelo comprimento da pessoa, óbvio!!!

Então avisei a Sofia que iria estar no banheiro com a porta fechada e fui ao trabalho. Umedeci o cabelo e lambuzei a cabeça daquela mistura gosmenta. Coloquei uma touquinha plástica e nunca foi tão fácil aplicar o tal Casting. Olhei no relógio para marcar os 20 minutos e fui assistir o Caldeirão do Huck. Estava frio e resolvi até pegar um edredon para ficar mais aconchegante. Me distraí, e quando vi já era tempo de correr para o banho. Avisei novamente a Sofia e me fui para o chuveiro. Caíram três pingos de água e o danado do chuveiro quase desligou. Daí me dei conta que estávamos com a conta da água em atraso e que possivelmente tivessem vindo cortá-la na sexta-feira.

- Não, isso não pode ser! ; pensei.

Chamei novamente a Sofia, coloquei um maiô e disse para ela carregar duas toalhas porque eu teria que tomar banho no cano da rua urgente, e ela seria minha assistente. Saí na porta e um golpe de vento já me deu o recado de que não seria nada fácil a missão. Ela, coisa mais mimosa, sentadinha na escada, me metralhando de perguntas sobre a inusitada situação. A mamãe de maiô, com a cabeça toda marrom, tomando banho na rua. Como assim? Daí eu disse para ela ir se acostumando, que quando crescesse iria encarar muitas frias como aquela. Ah, tem que preparar!

Foi aí, ao ligar o cano, já na segunda tentativa, que me deu o tamanho do desespero. Dessa vez caíram dez humildes gotinhas de água. O suficiente para tinta nojenta escorrer nos olhos e atingir as minhas lentes de contato. Os olhos começaram a arder sem parar. Comecei uma gritaria histérica e corri para uma poça de água no chão, já que não tinha mais alternativa de qualquer líquido potável ao entrono. Agachei que nem a Schimia (nossa “cã” oficial!) e comecei a tentar livrar os olhos daquela ardência terrível, em uma cena no mínimo hilária. Depois de alguns minutos de pavor, consegui enxergar a Sofia e pensei, estou salva. O que fazer então, já que não tinha qualquer resquício de água na volta.

Foi aí que levantei o pescoço e me deparei com o Arroio Pelotas, esbanjando suas águas turvas e históricas para todas as margens.

- Ah não, mas com esse frio é demais!!!; pensei.

O tempo passando, a tinta coçando e me fui de maiô e tolha para beira do arroio. A correnteza não convidava para um mergulho e depois de reavaliar a necessidade real, visualizei um balde velho em cima do barco do Nauro. Não tive dúvidas, subi no barco, enchi o balde e atirei aquela água barrenta por cima da tinta melequenta. Que cena linda! Imaginem se o pessoal da festa ao lado resolve espiar pela cerca o motivo da gritaria. Imaginem o mico.

Depois de repetir a dose mais três vezes, já com o corpo gelado, voltei para o aconchego do lar. Ufa, são e salva.

Com aquele cheiro de tonalizante exalando pelos poros resolvi me olhar no espelho.

- Socoooooooooooooooorro!!!!!, gritei.

Não sei se foi a demora na retirada da tinta ou a água barrenta do arroio, mas meu cabelo ficou cor de “capincho”, como bem definiu o Nauro. Depois de alguns dias como se fosse um periquito belga, e já com o fornecimento de água regularizado, comprei uma tinta castanho claro e voltei as minhas origens. Dessa vez pra garantir, fiz a experiência química na casa da mãe. Supervisionado por ela, é claro!

Nota da redação: a cor de cima está saindo a cada nova lavagem e o periquito belga dá sinais de vida. Ninguém merece!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Incondicional

Algumas palavras da língua portuguesa são lindas. Sempre quando leio livros, paro no meio do texto pensando nas palavras bonitas que acho no caminho. Muitas delas ficam guardadas, a espera de uma oportunidade para usá-las em algum material jornalístico que produzo.

Comparo a vida como uma viagem muito divertida e nada planejada.


E como está longe de ser um pacote fretado da CVC (sorte nossa!), a gente nunca sabe qual o destino do nosso avião. Se vamos encontrar um céu de brigadeiro, ou se tem alguma turbulência no caminho. Muito menos de está previsto algum pouso forçado no mar.

E foi esse o itinerário que nosso avião fez em meados de 2005. Eu tinha 36 anos e exibia uma barriguinha charmosa de 32 semanas. Dentro dela guardava meu tesouro mais precioso. Era uma manhã de sábado qualquer e o único compromisso daquele dia era o aniversário da Miriam Marroni à noite - com quem eu trabalhava na época. Eis que me acordo sem sentir qualquer movimentação da serelepe Sofia. Daí até a cesárea de urgência foram algumas horas.

Foi aí então, que no dia 18 de junho de 2005, nosso avião fez um pouso forçado no mar. O Comandante sabia com destreza usar os instrumentos manuais, e lá do céu instruiu Dr. Flávio e Dra. Graça para que tudo saísse perfeito. Depois disso todos sabem o que sucedeu nos nossos três intermináveis meses de UTI, no Hospital São Francisco de Paula, em Pelotas. Muitas vezes comentamos, o Nauro e eu, que nos sentíamos como se estivéssemos à deriva, sem saber em que ilha aportaríamos.


Relato isso para chegar até a palavra mais bonita da língua portuguesa: incondicional. Foi durante os meses que passamos na luta pela sobrevivência (de nós os três!), dentro daquele hospital, que entendi a beleza dessa palavra. Foi lá que conheci na prática o que a literatura por mais que se esforçasse não conseguia me traduzir.

Incondicional.

Foi o amor incondicional de nós dois, como casal, que nos fez ter forças nessa jornada.

Foi o amor incondicional do Dr. Flávio pela medicina, que o fez buscar soluções para diagnósticos insolúveis.

Foi o amor incondicional da Sofia pela vida que nos fez entender o profundo significado desta dádiva. Por ter aprendido isso, é que curtimos cada minuto do aqui e agora, incondicionalmente.

Incondicional é sem dúvida a palavra mais linda da língua portuguesa.

P.S.: E se o Comandante permitir, queremos colocá-la em prática por muitos e muitos anos ainda!!!

A tal crônica dos 30 anos

Mexendo nos meus alfarrabos achei aquele escrito que fiz pouco antes de compeltar 30 anos. Mais de uma década atrás. Que loucura! Nem vamos contabilizar o tempo senão o meu divã-virtual vai precisar receitar algum tarja preta. Mas a verdade é que essa crônica, na época publicada no Diário Popular, rendeu identificação com muitas amigas. Lembro da Lelela (Daniela Ferreira, hoje morando em SP) que um dia me falou que guardava na carteira. Como publiquei aqui a dos 40, resolvi catar a dos 30 já que meu universo infinito tem uma variedade bem ampla de gerações. Coisa boa, amigas dos 20 aos 80 ensinam muito sempre!

Divirtam-se!


A sede dos Trinta


Pensei que seria diferente, que meu guarda-roupa seria povoado por tailleurs elegantes e scarpins distintos. Meu banheiro exalaria perfumes doces e minhas unhas seriam finas e longas realçadas por um marrom nobre. Nossas fantasias juvenis são incríveis mesmo.

Tão incríveis que continuam construindo diariamente nossos sonhos e fantasias de um futuro que nos surpreende sendo o presente. Lembro-me que aos 15 anos imaginava se não haveria um meio de se saber como seria nosso rosto aos 30 - que mágica seria esta que nos transformaria em pessoas "adultas".

Hoje, 30 anos depois de revoluções e lutas, sinto-me feliz . Meu cabelo ainda não tem aquele corte channel imaginado para tal idade, mas minhas Havaianas relaxam meus pés e ocupam menor espaço na sapateira do guarda-roupas. Minhas calças jeans já tem lugar cativo no armário e minhas unhas curtas conseguiram a honra de passar pela manicure a cada dois meses e saem revigoradas por um tom areia, muito bonitinho. O cabelo continua o mesmo, depois de algumas “experiências químicas” é claro, mas com aquele eterno ar indefinido.


Meu banheiro já evoluiu um bocado: na prateleira principal dois cremes, um para o dia, outro para noite – o difícil é lembrar de colocá-los. Como imaginamos coisas entre os anos de nossas vidas. Na verdade cada dia que passa faz com que vivamos outro capítulo das novelas de nossas idades. Na infância começamos como um “Sítio do Pica-pau Amarelo”, temos fantasias coloridas e sempre com um final feliz. Quando começamos a adolescência, nossas vidas viram uma novela das seis: problemas comuns aos olhos do mundo, mas insolúveis para nossas cabecinhas ainda desmioladas. Aos 20 achamos que já aprendemos tudo que a vida tinha a ensinar, levantamos o nariz e desafiamos qualquer pobre mortal com nossas teorias sem prática – ao melhor estilo de uma novela das sete.

Finalmente o horário nobre. Chegamos aos trinta com um pouco de receio, mas muita sede da prática. Finalmente nos sentimos no lugar certo, na hora exata. Olhamos para trás com ares de quem percorreu o deserto e encontrou uma máquina de coca-cola.

Resta-nos agora descobrir onde comprar a fichinha para saborear o delicioso líquido gelado e matar a sede dos trinta !

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As gurias e a mesa da cozinha

A personagem desse texto não faz sentido para muita gente, apenas para quem teve o prazer de ser coadjuvante da existência deste móvel, de quatro patas, comum nas cozinhas do mundo inteiro, mas muito especial para nós: “as gurias”.
Realmente a mesa da cozinha do apartamento da Andrade Neves não tinha nada de especial. Era de madeira comum, com o tampo de azulejos bege, tinha de um lado um banco com encosto de madeira e do outro duas cadeiras, longe de serem confortáveis. O segredo de ser tão especial era a cumplicidade com nossa juventude pulsante. Ali sentávamos (nós, as gurias) para sonhar, chorar e curar as bebedeiras da noite anterior, regada a velha e saborosa sopinha de legumes.
Foi sentada na cadeira desconfortável da mesa da cozinha que descobri o quanto era feliz, só porque o colega bonitinho da faculdade tinha me ligado pra sair. Foi lá também que descobri que eu era a pessoa mais infeliz do mundo, só porque a minha franja era crespa e a moda era cabelo liso, escorrido (* naquele tempo não existia chapinha)
Foram tantas as nossas histórias na mesa da cozinha, que extravasaria uma crônica e viraria livro de contos. Foram muitos os cafés passados na hora para começar o papo da sexta-feira, até chegar a hora da “produção”, e olha que a coisa era demorada. Enquanto uma das gurias ia tomar banho, as outras seguiam o papo na cozinha, já trocando o café por uma cervejinha e planejando as “pautas” da noite.
Nossa cúmplice, a mesa da cozinha, só descansava quando o bando, já com alegorias e adereços, partia Andrade Neves a fora rumo a mais uma noite de muitas emoções (*naquele tempo se podia ir a pé para qualquer lugar!). Depois de protagonizarmos nossas sessões de amor ou desilusão, começava o retorno. A volta era sempre em conta-gotas, as primeiras a chegar geralmente “faziam cera” até a chegada das últimas e começávamos a contar tudo que tinha acontecido e o que “não tinha acontecido”. Todas sentadas na mesa da cozinha.
Foi alí que cheguei as melhores conclusões da minha vida. Foi alí que dediquei seis meses de devoção ao pão integral e onde compartilhei um sentimento que a vida adulta nos rouba: a leveza. Com o tempo perdemos essa espontânea sensação que permeia nossas descobertas juvenis.
As gurias que sentaram na volta da mesa da cozinha estão espalhadas por aí. Cada uma seguiu seu rumo, sua profissão, seu caminho. Estão sentadas em outras mesas, de outras cozinha, construindo suas histórias e a de seus filhos. Eu também segui o meu caminho mas ainda convivo de perto com “aquela mesa da cozinha”. Ela faz parte do mobiliário da casa da minha mãe e testemunha a bagunça que minha filha Sofia faz com os primos Pedro e Luisa a cada encontro. Em alguns anos vai estar escrevendo a história deles. É o ciclo natural da vida e das mesas das cozinhas de todos os cantos do mundo. Mas até hoje, quando sento nela, relembro daqueles momentos tão especiais da vida, onde éramos simplesmente as gurias !

A linha da onça

Cheguei a uma conclusão. Acho que as mulheres se dividem entre as que amam ou odeiam roupa de oncinha. Cheguei a esta conclusão no sábado, depois de ir ao casamento de um prima.

Nós mulheres somos totalmente vulneráveis em alguns temas polêmicos como silicone, bronzeamento artificial ou tatuagem. A gente não tem a opinião formada e dependendo da retórica podemos mudar. Mas em alguns temas acho que a paixão por determinado simbolismo nos separa, nos segmenta.

É o caso das roupas de oncinha. E olha que elas estão vindo com tudo no verão. Para meu desespero, mas para alegria da minha mãe e duas tias muito queridas.

Elas estavam as três enfiadas nas suas onças, felizes da vida, se achando lindas e de fato...muito elegantes no tal casamento. Eu obviamente preferi um modelito básico, mais suave. Mas todas nós nos divertimos e dançamos muito.

Mas como entender isso? O sentido que aguça nosso gosto ou “desgosto” por certas identificações. Não sei e por isso estou aqui dividindo com o meu divã virtual essa dúvida cruel. Qual a linha tênue que divide o amor e o ódio pelas roupas de oncinha?

Será que Freud faria relação com soltar a fera que existe dentro de nós? Socorro! Nesse caso prefiro ir direto para o zoológico, mas blusa de oncinha nãooooooooooooooooooooooooooo!!!!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A vida aos 40...

Quando completei 30 anos escrevi uma crônica falando sobre aquela idade, tão mágica. Ao mesmo tempo em que temia chegar às três décadas, tinha um certo fascínio por aquele número que nos abria as portas para vários mundos. O tempo continua me ensinando. Hoje, depois de completar 40, resolvi pensar melhor sobre aquela crônica de anos atrás e escrever sobre essa tão esperada esquina da vida!



A vida aos 40...

Acho que se Balzac vivesse nos dias de hoje, certamente iria transferir sua versão ideal de mulher para as quarentonas. Se aos vinte anos não sabíamos nada da vida e nos achávamos um misto de mulher-maravilha e Joana D´arc, aos trinta pensamos que sabemos tudo, e almejamos no mínimo alcançar o topo do Aconcaguá. Mera ilusão!

A vida aos trinta é como olharmos um raio-X. Nossa tolerância diminui e só queremos reciclar o que não nos satisfaz. É a hora da virada, de trocar seis por duas dúzias, e querer mais, muito mais da vida. Na verdade, aos trinta nos deparamos com um grande e enorme espelho. Ai resolvemos mudar! Renovamos, melhoramos, trocamos o corte de cabelo, o perfume e às vezes até o marido. Olhamos para trás e pensamos em tudo e todos. Choramos, nos despedaçamos e por fim, chegamos à conclusão de que ainda é muito cedo.

Começamos então a preparação para o verdadeiro ápice da vida. Reconstruímos nossos desejos. Reavaliamos nossos sonhos e revitalizamos nossa vontade de alcançá-los, com métodos práticos e viáveis. Enquanto isso uma briga diária com aquela parte do corpo que acusa. Que nos aponta. Que nos impede de colocar as blusinhas de mil anos atrás. Nossa barriguinha jamais será a mesma. As famosas “bordas de catupiry” chegaram para ficar e não tem “choquinho” ou drenagem linfática que resolva. É fato, e daí?!

Ao mesmo tempo o rosto transparece aquele ar de mulher. Um misto de suavidade e astúcia. Começa também uma intensiva de cremes noturnos, sempre com a ilusão de que as marcas do tempo vão ser “atenuadas”. Na maioria das vezes o ritual dura uma semana e os cremes mofam na prateleira do banheiro. Mas tudo bem, mesmo assim o placar é largamente favorável e temos como vantagem o gosto apurado por um programinha mais cult. Seja um DVD caseiro ou uma aventura em Três Coroas. Nosso espírito continua aventureiro e agora temos a vantagem de ter como bancá-lo.

Finalmente a data se aproxima e nossa vontade é de fazer um festão para esperar o mito. O implacável e tão esperado aniversário de 40 anos é como um marco na vida de uma mulher do século XXI. Temos experiência e autonomia suficientes para transformar nossos sonhos em realidade. Temos sensibilidade para entender o valor de nossos pais e paciência para compreender a intolerância de nossos filhos. Temos um parceiro escolhido a dedo para saborear nossas conquistas e dividir a melhor fatia do bolo. Ou, a autonomia para não querer esse parceiro.

Então é isso, chegamos finalmente ao topo do Aconcágua! Agora temos condições de ver a amplitude do caminho percorrido. Olhamos para trás com satisfação e para frente com tranqüilidade. Sabemos o quanto é importante celebrar cada momento da vida. Chegou a hora da festa e a melhor coisa a fazer é pegar aquela taça linda de cristal, tirar o sapatos e saborear cada bolhinha de champanhe, ouvindo uma música suave e olhando para o céu estrelado de primavera. Enfim, aaborear a vida!

(Nada disso sem antes tomar o velho e bom Engov, porque a ressaca é coisa para quem ainda não sabe as “manhas” da vida!)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O porquê do “Adoro melancia”

Bom, começo minha terapia "bloguiana" explicando o porquê da escolha do nome "Adoro melancia" para o meu blog. Estou relutando há mais de um ano em ter meu espaço sideral no mundo virtual. Meu marido já listou todos os benefícios possíveis do poder terapêutico desta ferramenta, mas eu resistia. Até que as primeiras vitrines de Natal me alertaram para a proximidade do fim do ano. Algum neurônio neurótico avisou aos meus sentimentos, e em poucos dias eu já estava a flor da pele. Aquela melaçada de final de ano, sabe? Choro com música natalina, lembro da infância, enfim...Bom, aí tudo que acontecia era motivo de reflexão.

Até que numa manhã de segunda-feira, tomando banho (mais tarde falo sobre isso, mas adoro ter ideias e tomar decisões tomando banho!) decidi que ter um blog seria mais que uma terapia, mas uma forma de guardar fases. É, porque mesmo aos 41 anos sou uma pessoa cheia de fases. Muitas delas engraçadas, outras estranhas e algumas incompreensíveis. Pensei que se escrevesse sobre tudo que surge na minha “caixola”, talvez começasse a entendê-la melhor. Acho que mais ou menos o motivo que pelo menos sete em cada dez blogueiros resolve começar a fazer esse tal diário virtual. Pra que e para quem a gente escreve exatamente eu não sei. Hoje acredito que seja pra mim. Mas se mudar de idéia aviso aqui tá!?

Mas e o nome? Depois de desvendar a chave do self-service tecnológico de como criar o layout do blog, fiquei pensando no nome. Me vieram as coisas mais esquisitas na cabeça. Queria algo que me identificasse, que fosse uma tradução literal da minha pessoa. O mais perto disso que cheguei foi minha paixão por melancia, desde pecurrucha. Então para quem esperava grandes explicaçãoes, sinto muito. É só pra ir acostumando. A coisa aqui é assim mesmo. Nada é tudo e tudo é nada. Assim como quando mordemos uma melancia!

Bem vindos!