terça-feira, 30 de março de 2010
Meus heróis
Nessa mesma época conheci as aventuras de Amyr Klink, e foi amor à primeira vista. Aquele cara obstinado, tinha cruzado o Atlântico à bordo de um barco a remo, no sabor das correntes. Nossa, que pessoa incrível. Li o seu primeiro livro e sublinhei de caneta marca-texto cada frase impactante. Era uma bíblia da perseverança para mim. Depois disso virei sua fiel seguidora. Inclusive uma vez que ele veio dar uma palestra aqui, no Parque Tênis Clube, fiquei na fila do gargarejo, tirei fotos e obviamente não descolei do cara. Os anos passaram e ele seguiu buscando e realizando sonhos. Típica alma de herói.
Nesse mesmo tempo minhas manhãs de domingo tinham compromisso inadiável com a presença de Ayrton Senna nas pistas do mundo. Como a maioria dos brasileiros, fiquei fã da fórmula um e em pouco tempo discutia até os comentários do Galvão Bueno. As entrevistas do Senna eram sempre permeadas de lições de humildade e bravura.
Ele era o cara!
E estava no ranking dos meus heróis, assim como a Família Schurmann, Renato Russo, Caco Barcellos, entre tantos outros ídolos da minha geração, que me ajudaram a enxergar a vida do melhor ângulo. Me mostraram que eram de carne e osso, tinham chegado lá e seus valores eram verdadeiros. Foram pessoas que com suas atitudes, deram o exemplo.
Hoje faço uma força enorme para pensar em uma lista de cinco nomes de heróis para minha fase de maturidade. Fico pensando também, quem serão os heróis da Sofia. Hoje seu único herói é o papai, mas mais adiante sei que terá seus ícones do mundo.
Mas em um mundo onde o horário nobre exibe o Big Brother e uma cambada de gente vazia, que fala palavrão, prega o preconceito e ainda por cima ganha dinheiro por isso, fico pensando nos futuro heróis da minha filha.
Quem serão eles?
sexta-feira, 26 de março de 2010
Ai vem ela
Mas enfim, vamos ao que interessa.
O verão acabou e o outono já apontou aqui na esquina, com cara cinza e as tais mudanças de temperatura. O reflexo aqui em casa foi imediato. Eu comecei a acordar com rinite e a Sofia já está encatarrada. Quarta-feira fomos à consulta no Dr. Flávio, e pela auscuta no pulmãzinho dela, o sinal amarelo acendeu. Começamos imediatamente um tratamento daqueles, para prevenir complicações típicas dessa época do ano. Até aí tudo dentro da normalidade do nosso cotidiano com a Sofia. Mas quando perguntei ao médico, sobre a vacina da gripe A, ele disse:
- Não vacinaram ainda? Tem que fazer isso imediatamente!
Na hora a tal sensação de medo tomou conta de mim. No ano passado passei meses de angústia, pela companhia constante da sombra dessa tal gripe A, até então desconhecida, mas letal para pacientes com o histórico da minha mimosa. Então, junto com as notícias massificadas pelos veículos de comunicação, apareceu um medinho guardado há quase três anos no meu coração. A sensação de impotência frente a algum mal que poderá atingir um filho. Esse realmente é um sentimento novo, que durante minha vida de filha não sabia que existia. É estranho e gera uma gama maluca de sensações. Então fiquei bem quietinha, sem falar muito no assunto, como se o silêncio fosse afastar esses pensamentos da minha cabeça. Então o inverno passado foi-se, a tal pandemia da gripe de arrasto, e os meus medos voltaram para “caixinha” secreta, bem lá no fundo da alma.
Até que o assunto da gripe retomou a vitrine. Desde a semana passada, quando levo a Sofia no colégio, o assunto recorrente entre as mães é a tal vacina contra a gripe A. Parece que o estado de alerta é geral, entre as leoas de plantão. E eu, obviamente, que tenho uma filha no grupo de risco, saquei imediatamente o meu medo da “caixinha” e tenho convivido secretamente com essa sombra de novo. Já entrei em contato com a clínica que fornece a vacina importada, mas só chega em maio.
Muita procura. Poucas doses. Muitos medos.
Que ótimo, e agora?
A solução do Dr. Flávio foi levarmos a Sofia para vacinar na rede pública. Só que a vacina lá não é a importada, e os efeitos colaterais podem ser maiores. Hoje vou buscar os atestados e ver se consigo me encher de coragem. Vou esperar o final de semana passar. Preciso organizar meu estoque de forças internas e dar um antídoto para esse sentimento chato, angustiante e pesado do medo que me acompanha. Preciso só de um oxigênio, e já estou com meu arsenal pronto, e isso inclui bem um exército de anjinhos amigos que nunca nos deixaram na mão.
*Leia-se, entre o céu e a terra!
Conto com vocês, viu?!
terça-feira, 23 de março de 2010
Carta para minha mãe
Mas voltando a minha mãe, sempre caminhamos juntas. Muitas vezes ela me puxou para frente. Outras tantas eu dei um empurrãozinho para ela seguir na estrada. Mas ela sempre esteve nos momentos mais importantes, com sua presença acolhedora. Com seu jeito prestativo, trazendo uma comidinha mais gostosa, uma meia mais quentinha, ou seja, um detalhe de carinho que sempre fez toda diferença.
Então hoje pensei em escrever um post especialmente para ela. E quando estava começando a traçar as primeiras linhas, achei uma carta que tinha escrito há poucos anos atrás. Foi na época em que engravidei da Sofia, aos 36 anos. Dei para ela de presente de Dia das Mães, em maio de 2005. No final das contas a Sofia nasceu um mês depois, prematura. E durante os infindáveis meses naquela UTI, seu suporte foi essencial. Hoje, quando vejo ela e a Sofia tão amigas e amadas, tenho a certeza de que nosso laços serão eternos. E ao reler esse texto de 2005, percebi que o que eu queria dizer a ela hoje, já tinha sido escrito. E por isso divido aqui hoje, nessa data tão especial, mais essa janelinha da minha alma. Parabéns mãe, por ser assim, tão mãe!
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Carta para minha mãe - maio/2005
Mãe,
Finalmente chegou esse dia: passei de filha à mãe!
Sei que tudo na vida vem na hora certa e sinto que hoje a Sofia chega no momento mais feliz da minha vida. Desta forma me sinto segura para mostrar para ela o mundo lindo que acredito existir. Sei que durante esses 36 anos em que fui só filha, tive uma missão especial nesta “posição”. Sabemos bem quantas passamos juntas e o quanto seguramos várias pontas em momentos delicados.
Hoje, ao lado do Nauro, sinto que encontrei o que sempre buscava: uma pessoa para dividir meus sonhos e construir meus alicerces para toda vida. A Sofia veio como uma confirmação desse momento, e tenho certeza, vai nos dar muitas alegrias. Ao mesmo tempo olho, para vocês dois, meus pais, e sinto que estão finalmente no caminho seguro e feliz. Sei que todas as turbulências dos últimos anos serviram para acertar o rumo, fortalecer os laços e separar o “joio do trigo”.
Hoje somos todos mais felizes !
Nesse nosso primeiro Dia das Mães, em que também vou "ganhar" presente, acho que temos muito a celebrar. Além de comemorarmos nossas conquistas, temos que celebrar o quanto é bom estarmos juntos, esperando com tanta emoção mais uma ‘menina’ para compartilhar dessa vida linda. Nesse cartão, não vou fazer como os de tantos anos... “desejar isso ou aquilo...”.
Hoje, tenho certeza que temos tudo que desejamos na vida e sei que Deus nos privilegiou em ter esses laços tão fortes e seguros. Portanto, hoje é dia de curtir tudo isso. É dia de agradecer. Obrigado!
Feliz Dia das Mães pra gente!
Com amor,
Gabi
domingo, 14 de março de 2010
Recheio
Daí na sexta-feira passada buscamos a Sofia no colégio, e a convidamos para fazer um happy hour em um lugar que ela adora. Chama de “coqueirinho”, porque tem um exemplar da espécie, de plástico verde e com côcos artificiais, dando boas vindas aos clientes. Então sentamos os três nas mesinhas do Cruz de Malta, que tem vista para a avenida Dom Joaquim. Para quem não nasceu em Pelotas, essa é uma das avenidas que corta a cidade e onde se aglutinam dezenas de jovens sarados e famílias com crianças no final do dia. Alguns vão para tomar um mate no final do dia e outros para “expor a figura”, como diziam naquela novela indiana da Globo. Mas enfim, mal sentamos e passa um daqueles guris bombados, todo lustroso, com músculos por todos os cantos do corpo. A barriga um dia deve ter sido tanquinho, mas agora mais parecia uma lavanderia. Além disso, corria com um cabelo estrategicamente descabelado e com um bronzeado SOS Malibú.
O Nauro na hora seguiu com os olhos aquele exemplar da mesma espécie, e comentou:
- Bahh, esses caras passam o dia na academia e depois vem se fazer que estão nessa forma porque dão uma corridinha no final do dia!
Eu ri e comecei a reletir. Me dei conta que desde os tempos de guria, tipos como aquele nunca me chamaram a atenção. Os meus namorados sempre tiveram cara de normal. Daqueles que quando a gente chegava em um restaurante, a mulherada não se coçava na cadeira pra tentar dar uma espiadela no moço em questão. Mesmo que não tenha um currículo tão extenso de namorados, a maioria foi escolhido pelo recheio e não pela embalagem. A escolha se estende às amizades e mesma que tenha muitos “pastéis de vento” à minha volta, os meus amigos de fé tem como grande qualidade a receita dos seus recheios.
Falei isso e começamos a falar exatamente sobre a importância do recheio. Muitas vezes o prato se apresenta com uma cara ótima, mas na primeira garfada a gente sente que aquela pimentinha em excesso vai dar trabalho mais adiante. Em outras situações comemos aquele petisco com cara de gordurento, mas que tem um temperinho caseiro único, que dá todo o charme. Tem também aquele lanche pasteurizado, que além de caro não alimenta nada, mas que o marketing do negócio acaba sempre nos puxando pra lá.
Assim são muitas das relações que nos cercam no cotidiano. E como a vida é uma refeição para ser saboreada com calma e prazer, decidi ser mais seletiva nas provas que ando fazendo. Tenho descoberto sabores exóticos que me cativaram. Afinal de contas, o recheio é tudo!
Manja che te fa bene!
quarta-feira, 10 de março de 2010
Sobre o encontro...
Ufaa, fiquei moída!
O retorno da história é que fui ao encontro com os fantasmas e não foi tão difícil quanto imaginava. A casa a que eu me refiro no texto realmente não existe mais. Encontrei um lugar estranho, sem calor humano e até com os tantos resquícios da história apagados por uma maquiagem global. Uma pena!
Mas é o ciclo natural da vida e afinal de contas uma casa tem a cara de seus donos. Vou cuidar da minha que é muito legal e que me faz feliz demais!
Então, falando de papos mais amenos... só passei para indicar um post super divertido no blog do Nauro. Pra quem não conhece, é o meu maridão. Ele escreveu sobre carros cor-de-rosa. O escrito acabou na capa da Zerohora.com o dia todo, ontem. Adivinhem? Choveu gente enviando foto de carro a lá Penélope Charmosa, pelo Rio Grande do Sul a fora. Está muito legal. Leiam e divirtam-se!
http://www.zerohora.com/retratosdavida
sábado, 6 de março de 2010
Fantasmas
Cheguei à conclusão de que a maturidade não nos trás só rugas e flacidez, mas serenidade para pensar as coisas por diferentes ângulos. A sabedoria dos orientais está baseada nisso, e não é a toa que quanto mais velhos, mais respeitados eles são. Acho que depois dos 40 começamos a engatinhar nesse universo, que pode ter mais prós do que contras, dependendo da evolução desse amadurecimento.
Tem gente que chega aos 50 com cabeça de 18, querendo beber a vida em um gole. Geralmente sofrem mais, porque em alguma das esquinas da vida, se dão de frente com o espelho, e daí não suportam olhar aquela figura refletida. Com as novas tecnologias a serviço da estética, esse se tornou um campo movediço, onde algumas vezes as transformações externas não acompanham as internas. A coisa é totalmente invertida e muita gente em vez de procurar uma terapia, ou um trabalho voluntário, gasta seu tempo e dinheiro com excesso de butox. Nada contra as cirurgias plásticas e melhorias na lataria, longe disso, mas a discrepância entre motor e lataria não podem extrapolar. Senão o Fusca perde seu charme de originalidade e a Ferrari vira lugar comum. Dá pra entender?
Mas esse prefácio abre caminho para uma das melhores coisas que o passar dos anos nos brinda. A coragem para declarar e enfrentar nossos fantasmas. É aquela velha história do espelho, só que quando isso acontece e enxergamos nele bem mais que o visível aos olhos, saímos ganhando. Eu tenho meus medos e mágoas, como todos, e por pensar com carinho neles acabei descobrindo que encará-los de frente é um desafio, mas também pode ser a solução.
Como esse blog nasceu com a missão de ser um divã-virtual, e percebi que escrever me ajuda a exorcizar esses medos, abro aqui uma porta secreta da minha alma. Esse passo também me dá medo, mas me dou ao direito, já que aos 40 anos estamos com um pé na incensatez da juventude e outro na sabedoria dos maduros. Pra resumir, deixo de lado os receios e me jogo aos anseios. E a partir dessa decisão, resolvi encarar de frente um fantasma que só aparece nos meus sonhos e pesadelos mais íntimos.
Em 2003 deixei junto com meus pais, a casa onde nasci e passei a maior parte da minha existência. Meus pais chegaram naquele lugar em um efervescente inverno de 68. Ela com 19 anos e grávida de mim, e ele um guri de vinte e poucos anos, que encarou o desafio precoce de formar sua prole. Ali escrevi 34 anos da minha história. As paredes daquela casa secular, guardaram os meus segredos de menina e minhas saborosas descobertas adolescentes. As raízes da figueira que testemunha séculos, serviu de casa para minhas primeiras bonecas. Fiz comidinha com as folhas e brinquei com os gravetos caídos do bambuzal. Nas águas daquele arroio que muda de cor a cada estação, lavei a alma das primeiras decepções amorosas. E nos cômodos imensos da charqueada, me enxerguei pela primeira vez como mulher. Uma vida mágica, naquela casa que se assemelhava às descritas por Isabel Allende nos seus romances. Mas na estrada da vida não existe ficção, e um belo dia vi acontecer ali, uma daquelas situações que a gente sempre vê na família ao lado, mas jura que nunca vai acontecer na nossa.
Minha avó querida, que sempre morou conosco, faleceu em 2001. Com a ausência da matriarca, a dor que invadiu nossas histórias não foi só da saudade. A divisão de bens trouxe junto a divisão de laços. Com isso, deixamos àquele cenário que povoou meus sonhos de infância de um dia para o outro. Meus pais sofreram muito com todas as mudanças: externas e internas. O peso que sempre demos aos laços de amor, essenciais e valorosos, deixou feridas expostas. Foram tempos difíceis e silenciosos. E como não acontece só nas novelas, a vida real trouxe uma dolorosa e traumática ruptura familiar.
Junto com a ausência física daquele lugar, sepultei pessoas que foram parte da minha história. E não digo isso porque somos uma família de italianos, mas porque éramos uma família de fato e sou muito definitiva nas minhas decisões. Nada jamais justificaria a opção pelos bens materiais. Ainda mais quando na balança estão sentimentos imensuráveis. Natais compartilhando a mesma felicidade, conquistas celebradas com abraços sinceros e tristezas abrandadas com os laços de sangue. Engoli em seco e sofri muito, sempre com essa gaveta da alma lacrada. Para agüentar, tomei como decisão deixar aquela parte da vida para trás. Desses tempos, guardo apenas um simbolismo. Um único móvel que meus pais tiveram direito de levar, e que por carinho me deram de presente. É uma linda penteadeira antiga que acomodei em lugar de honra da minha casa. Tenho poucas e raras fotos de minha avó. O arquivo que guardo, está em um backup secreto, guardado às sete-chaves, dentro da memória afetiva do meu coração.
Nunca mais voltei naquele lugar, mas confesso que muitas noites acordei de sobressalto, sonhando que estava em algum dos meus cantos preferidos de infância. Alguns amigos de fora, que vieram visitar a cidade, já quiseram ir conhecer a casa, que hoje é ponto turístico. Mas sempre consegui me esquivar, com desculpas discretas, que convenciam a eles, mas não a mim.
Hoje a noite o Rogerinho, um amigo querido, vai festejar seu aniversário lá. Todos os anos a festa acontece no mesmo lugar, e há exatos sete anos invento desculpas superficiais para não ir.
Hoje decidi que vai ser diferente. Resolvi marcar um encontro com meus fantasmas. Sem aviso prévio, deixando a vida acontecer. Quero levar minha filha amada para conhecer o lugar onde a mamãe foi muito feliz. A decisão veio de forma branda, talvez seja sinal desse tal amadurecimento. Lembrei de uma frase de algum poeta que não lembro agora, e que tinha em destaque em uma agenda escolar, aos 17 anos. Dizia:
“Descobri que tenho saudades não daquele lugar, mas daquela felicidade!”.
Hoje sei que aquela bifurcação da vida fez com que eu chegasse até aqui. Nesse meu mundo de hoje, acimentado pelos dois amores da minha vida: Nauro e Sofia. A nossa palafita tem cada pedacinho de nós três, e foi construída com a nossa história. Tudo exatamente como Deus planejou. Por isso agradeço a Ele e a sua sabedoria, que mesmo quando parece escrever a coisa errada, está nos levando para o nosso destino.
Então, que venham os fantasmas e suas respostas!
quarta-feira, 3 de março de 2010
(Dês)assistência
Com a tecnologia dos dias de hoje, a comodidade da comunicação passou a ser imensurável nas nossas vidas. Mas tem uma coisa complicada nisso tudo. Como todo bônus tem seu ônus, viver no mundo moderno faz com que alguns sentimentos novos e estranhos nos acompanhem de perto. Nos últimos tempos tenho percebido uma sensação coletiva de desassistência. Sei lá se essa palavra consta ou não no dicionário, mas é exatamente essa a sensação que tenho em muitos momentos burocráticos da vida. Depois de 41 anos, pela primeira vez estou movendo uma ação na justiça. Sempre achei que existiam formas racionais de resolver as coisas e que nada seria substituído por uma boa conversa olho no olho. Mas esse é um privilégio que o mundo tecnológico nos furtou.
Na semana passada quase cheguei às raias da loucura falando com um desses robôs-humanos contratados pelo Credicard. Já estou movendo uma ação judicial contra eles, e queria apenas conseguir encerrar meu cartão de vez. Depois de resistir a várias investidas da técnica aplicada de “como enlouquecer e desrespeitar seu cliente em menos de cinco minutos”, não consegui o que queria. Todos os empecilhos foram colocados pela robótica treinada. Só faltou ela me pedir a data do meu batizado e a idade do padre naquela época. De resto perguntou tudo e mais um pouco para poder comprovar que eu, era eu mesma. No final me disse:
- Sinto muito senhora Gabriela, mas não vou poder efetivar o seu pedido!
Conste nos autos do processo que isso já fazia mais de 26 minutos de ligação, com uma tensão em nível elevado e palavras sutis que gostariam de dizer bem mais do que o dito. Quando me dei por vencida, exausta pela surra de tele-marketing que acabara de levar, a robótica me diz:
- Credicard agradece a sua ligação e tenha um bom dia!
Eu não pude acreditar. Como assim? Ela bebeu??!
Não resisti e sai da casinha. Peguei o celular e me transformei no incríevl hulk dos episódios de antigamente e gritei:
- E a senhora tenha um péééééééééssimo dia, se possível com dor de cabeça e pra completar que na hora de ir pra casa desabe um temporal em São Paulo e tu fiques presa no trânsito por cinco horas!!!!
Bom gente, depois dessa manhã calamitosa meu dia praticamente acabou. Parecia que eu tinha levado uma surra. Fiquei triste, sentida. Daí comecei a pensar nesse tal sentimento que me invadiu. É a tal desassitência. E se não consta no dicionário vou defini-la aqui:
Desassitência – é o contrário da palavra assistência, que tem origem no verbo assistir que, em sua forma transitiva direta, significa ajudar, auxiliar. Em outras palavras, a assistência é o ato de prestar auxílio, ajuda, para alguém.
A desassistência é o contrário disso e é um mal dos tempos globalizados, ainda sem cura!
terça-feira, 2 de março de 2010
Eliane Brum
Ontem tirei a tarde de folga para curtir com ela. Mas parece que nós as duas sabíamos que precedia a data de hoje. Tentamos fazer com que nada tivesse acontecendo, mas não conseguimos. Passamos a tarde pensativas e contemplativas. A noite o Nauro foi para o quarto dela, e nós as duas dormimos abraçadinhas. Precisávamos disso!
Agora pela manhã, quando pensei em escrever um post sobre isso, recebi do Nauro essa bela crônica de despedida da Eliane Brum. Como nada nessa vida acontece por acaso, ao ler cada parágrafo dessa despedida, encontrei sentimentos meus. Essa vida é mesmo incrível e ter coragem de reiventá-la, é parte de saber vivê-la.
Torçam por (todos) nós e curtam essas sublimes palavras de Eliane Brum!
beijos,
Gabi
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Escrivaninha Xerife
Minha nova vida precisa de gavetas e da coragem de assumir as cicatrizes
ELIANE BRUM
Esta coluna é inteiramente sobre mim. Aviso na primeira linha, que é para nenhum leitor reclamar que estava desavisado. Se achar que não vale a pena, pode parar por aqui e pular para outra.
Desde pequena, eu sonho com uma escrivaninha Xerife. Não sabia que se chamava xerife a escrivaninha dos meus sonhos. Descobri agora. Esta escrivaninha de madeira é cheia de gavetinhas e escaninhos de vários tamanhos e tem uma tampa. Quando você para de trabalhar, você fecha e ninguém sabe o que há lá dentro. Não tenho a menor ideia de onde eu possa ter visto uma dessas na minha cidade, lá no interior do Rio Grande do Sul. O fato é que eu sempre achei que essa era a única escrivaninha que um escritor poderia ter. Por causa das gavetinhas e, especialmente, por causa da tampa.
É mágico. Você está lá, escrevendo, todo escancarado e, de repente, você fecha. E até chaveia. Seus anjos e principalmente seus demônios ficam lá dentro, sem risco de se dependurarem no lustre, esconderem-se em algum lugar onde você não os ache ou mesmo assombrar o resto da família. Tive várias escrivaninhas ao longo da vida, de fórmica à penúltima, toda modernosa, feita com madeira de demolição.
No sábado, comprei minha última, a minha própria Xerife. Por que só agora? Porque só agora a mereci. Decidi que vou me enforcar nas cordas da liberdade. Para isso, precisava me reinventar com tudo aquilo que já era meu. Para marcar este ato, queria transformar algo da matéria volátil dos sonhos em existência concreta. A escrivaninha dos devaneios da minha infância materializou-se, com tudo de incontrolável que existe quando nos arriscamos a desentocar os sonhos – com uma vara que é sempre meio curta – e os expomos às intempéries do real. Foi um ato de profundo simbolismo para mim, que adoro rituais de passagem. Um dia antes da compra, na sexta-feira, deixei a redação da revista ÉPOCA, depois de dez anos. Poderia continuar ali por mais 20 (se continuassem me querendo, claro), mas achei que estava na hora de inventar uma nova vida para mim.
Deixei Porto Alegre e a redação do jornal Zero Hora, onde trabalhei por 11 anos, em janeiro de 2000, para vir para São Paulo e para a ÉPOCA. Estava bem confortável lá. Mas há um momento que, pelo menos para mim, o conforto vira desconforto. Na ocasião, me perguntavam por que eu deixaria tanto para ir para uma cidade maluca. Eu estava em um ótimo momento. Tinha acabado de ganhar um prêmio Esso (que para os jornalistas é muito importante), tinha uma coluna de reportagem (A Vida Que Ninguém Vê) que eu amava, adorava a cidade, tinha mais amigos do que conseguia dar conta, meu próprio apartamento quitado etc etc. Eu gostava de tudo, mas estava curiosa com a possibilidade de criar uma nova história para mim. Respondia: estou indo porque não quero saber como será a minha vida daqui a cinco anos. E fui.
Agora, completei dez anos incríveis na ÉPOCA. Fiz reportagens que transformaram a minha vida (e, espero, algumas outras), perambulei por Amazônias desconcertantes (elas são várias e sempre escapam), viajei pelas muitas periferias de São Paulo e testemunhei pequenos grandes milagres de gente. Hoje, sou povoada pelos personagens extraordinários com quem cruzei nesta última década. Sou uma Eliane muito mais rica agora do que quando cheguei. E tudo o que vivi dará sentido à nova Eliane que virá. Não foi uma decisão intempestiva. Ela vem acontecendo dentro – e fora de mim – há um bom tempo. Há cinco anos tenho trabalhado nas férias e finais de semana em projetos paralelos, como documentários, livros, oficinas e palestras. Queria experimentar coisas novas e abrir outros caminhos para fora de mim. Outras maneiras de estar no mundo. Tenho uma convicção comigo: temos uma vida só, mas dentro dessa, podemos viver muitas. E eu quero todas as minhas.
Em 2008, comecei a escrever sobre a morte, de várias maneiras, em minhas reportagens na ÉPOCA. Olhar o rosto da morte, para mim, era desatar o nó que ainda me impedia de viver uma vida mais viva. Desde pequena, eu tenho esta característica. Quando tenho medo de alguma coisa, vou lá e faço. Quase perdi algumas partes do corpo por causa disso. E certamente perdi algumas porções invisíveis de mim mesma. Ao fazer a principal reportagem desta série, quando acompanhei uma paciente de câncer até o fim da sua vida, perdi um naco da minha alma de supetão. Levei um tempão para parar de sangrar, como quem acompanha esta coluna sabe.
Mas, um dos meus muitos apelidos é “Tixa”, de “lagartixa”. Há quem faça fantasias sobre a origem dele. Mas é bem menos picante. Passei a vida deixando a cauda em sustos pelas esquinas de mundo. Sempre acabo me regenerando, ainda que leve tempo. Todos somos lagartixas em alguma medida, apenas que eu abuso um pouco dessa vantagem evolutiva. Minhas incursões no universo da morte deram-me maior clareza sobre a natureza da vida. Algumas pessoas comentavam que eu devia ter algum problema para ser tão mórbida. Bobagem. Morbidez é outra coisa. Não se fala da morte por causa da morte, mas por causa da vida. Lidar bem com a certeza que todos temos de morrer um dia, mais cedo ou mais tarde, é fundamental para viver melhor. E para compreender a natureza fugaz e preciosa da vida.
A vida rugiu com mais força dentro de mim depois dessas várias reportagens sobre a morte. A última delas, que encerra um ciclo, sairá em breve na revista. Faço 44 anos em maio. Fiz uns cálculos e descobri que preciso me apressar se quiser conhecer o mundo inteiro – e eu quero. E também para escrever o tanto que sonho. Como já disse mais de uma vez, escrever não é o que faço, é o que sou. E estava na hora de comprar minha escrivaninha Xerife e mudar de cenário. Vou continuar fazendo reportagem. Apenas de um outro jeito, num outro tempo. Sou repórter até os confins da minha alma – e um pouco além. Se conseguir escrever ficção, como também sonho, só será possível pelo tanto de vida real e personagens de carne e osso que conheci nestes últimos 21 anos de reportagem. Só o real é absurdo. A ficção é sempre possível.
Estou com medo, muito medo. Volta e meia choro com saudade de uma vida que já não há. Mas eu não tenho medo de ter medo. Deixo um emprego seguro, numa revista onde respeitam o que sou e o que faço, com um bom salário e todos os benefícios, para me entregar ao vazio. Sei que tudo pode dar errado, sempre pode. Mas se der, eu invento outro jeito de seguir adiante. Esta é outra convicção que tenho: prefiro fazer as coisas do meu jeito e cometer meus próprios erros. Tanto quanto os acertos, os erros também devem nos pertencer. Esta nova vida que começa hoje vem sendo construída há muito, mas só no final do ano passado descobri que a hora era agora. Não sei como foi. Nem se houve um momento exato. Lembro de dois pequenos episódios, apenas. Num deles eu corria para algum lugar com o João, meu marido, quando ele interrompeu meu passo marcial e disse: “olha”. Eu olhei para todos os lados e nada vi. Até que, com a ajuda dele, localizei uma florzinha diminuta no meio do concreto. Nós nos acocoramos e ficamos olhando o tanto de detalhes que ela tinha. Como era especial e linda e única. Aprendi isso com o João, que se esquece de tudo para passar intermináveis minutos vendo a forma de uma flor ou de uma nuvem ou de uma fatia de bolo de chocolate. Nunca vi ninguém enxergar tanta beleza no mundo quanto ele. Somos tudo o que somos. Mas as pessoas que amamos exacerbam algumas partes de nós, para o bem e para o mal. E o João tem este efeito sobre mim, de me tornar o melhor do que sou. Naquele instante, percebi que corria tanto para fazer as tantas coisas paralelas que tinha inventado, que estava esquecendo daquilo que sempre deu sentido à minha reportagem, à minha vida: estava esquecendo de olhar de verdade.
O outro episódio aconteceu no final do ano. Eu estava com os meus pais na casa de praia que eles alugam a cada verão. E ficava olhando para eles. Me dava enorme prazer ver os dois se mexendo. Observar o jeito que cada um funcionava com relação a si mesmo e naquele casamento tão amoroso. (Eles andam de mãos dadas depois de 56 anos de casados e o pai dá flores pra mãe no aniversário de “conhecimento”). Num certo momento, fiquei olhando para o cabelo da mãe, o cabelo do pai, o jeito que o vento batia neles. E descobri que não podia mais continuar numa vida que eu não tivesse tempo para olhar o cabelo deles se mexendo com o vento. Quando voltei para São Paulo e para a ÉPOCA, soube que tinha chegado a hora de partir. E agora lá vou eu. Não sei bem para onde, mas sei que é para mais perto de mim mesma.
Comecei então a procurar minha escrivaninha. Entrei no Mercado Livre, o site da internet que vende tudo, e coloquei na busca: “escrivaninha antiga”. E aí veio de todo o jeito e de toda época, com pés palitos, forma de bambolê, e também a minha, que descobri que se chama Xerife. Havia vários exemplares, mas gostei particularmente de duas. Uma era do Rio de Janeiro, o frete seria caro. A outra morava em São Paulo. Apostei nesta. O dono me deixou dar uma olhada nela antes de comprar. E lá fui eu na quinta-feira com o João num galpão da Barra Funda. Ela era uma escrivaninha viva. Olhei para ela, ela olhou para mim, e eu soube que era a “minha”. Como na história do Harry Potter, em que é a varinha mágica que escolhe o bruxo – e só há uma varinha, única e singular, para cada bruxo –, a minha escrivaninha era assim, minha. Nasceu antes de mim e pertenceu a outros donos porque precisava me esperar. Examinamos, eu e o João, ela inteira. E descobrimos que ela tinha mais cicatrizes do que nos prometeram. E alguns moradores indesejados. Numa das gavetinhas, havia um ninho de cupins. Nas costas, ela tinha sido quebrada em algum episódio de violência ou mau humor. Mas eu nunca fui uma boa negociante. As coisas práticas não têm muito efeito sobre mim. A escrivaninha também me receberia com mais rugas e feridas fechadas e abertas do que talvez esperasse. Nenhuma de nós nasceu ontem. Ambas queríamos – e precisávamos – nascer de novo. Aceitei as cicatrizes da minha escrivaninha como parte da história de sua vida antes de mim. E fechei o negócio. Ela queria ir embora pra casa comigo já, eu senti isso. E o João também. Mas eu ainda precisava fazer o depósito e acertar o frete. Enquanto isso, o vendedor providenciaria um exterminador de cupins. Ao contar para a Maíra, minha filha, sobre a escrivaninha, eu dizia, toda empolgada: “ela tem cupins, mas também tem uma alma dentro dela!”. Com seu senso de humor peculiar, Maíra comentou: “Se tem alma, não traz para casa!”.
O problema é que eu tenho um fraco por almas. Venho de uma família de mulheres que falam com os fantasmas que vagam pela casa com a maior sem-cerimônia. Dava até pena do meu tio-avô, um homenzinho pequeno que passou a vida inventando objetos mirabolantes e deu a si mesmo um nome de passarinho. Quando ele arrastava os chinelos pelo assoalho, era despachado pela sua viúva: “Vai-te embora, Graúna, já disse que não te quero aqui!”. Para ele, a morte não mudou nada. A mulher continuava mandando em seu melancólico espectro.
Hoje é o primeiro dia da minha nova vida. Tenho que fazer um rearranjo completo na minha cabeça programada em mais de duas décadas de vida de funcionária. Não sigo mais uma lógica de segunda a sexta. Posso escrever às 6h da manhã de domingo, como faço agora. E ir ao cinema no meio da tarde de segunda-feira, como pretendo. Minha semana não terá mais finais e começos. Posso ficar acordada à noite e dormir de dia. Posso almoçar à meia-noite e tomar café ao meio-dia. Posso apenas ouvir a chuva batendo no telhado. Posso permanecer olhando para o teto por horas a fio. O tempo é meu. Esta é a grande mudança. Vou perder dinheiro, segurança, carteira assinada, benefícios, férias remuneradas, décimo-terceiro. Em troca, retomo a propriedade do meu tempo. Me preparei para viver com pouco. Criei minha filha, comprei apartamento, não tenho um real de dívida. Só tenho agora que manter o meu corpinho. E ele é bem barato. Três pratos de feijão o deixam todo feliz.
Mantenho esta coluna exatamente aqui onde está. Ela faz parte do meu projeto de liberdade. Queria muito continuar, não sabia se queriam que eu continuasse. A ÉPOCA e a Editora Globo quiseram. Sou grata por isso. Assim como pela forma extremamente respeitosa com que a ÉPOCA e a Editora Globo trataram minha saída e meu desejo de reinventar minha vida. Eu adoro escrever para vocês. E amo a internet. Então, toda segunda-feira estarei aqui, como sempre, logo de manhã, para pensarmos juntos sobre essa confusão que é a vida do mundo e a de todos nós. Agora, vou abrir minha escrivaninha Xerife. Estaremos, eu e ela, com todas as gavetas de nossas almas escancaradas. De peito aberto, no vazio. Vamos ver o que conseguimos fazer juntas.
Torçam por mim! (Por nós!)
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Luxo
Então parei para olhar para minha vida e analisar se ultimamente eu estava me dando a alguns luxos. A resposta foi: mais ou menos. A correria do cotidiano acaba nos fazendo atropelar alguns detalhes que são puro luxo. Mas confesso que algumas coisas que não abro mão seguem fazendo parte desses elementos fundamentais para gente se sentir vibrando. Para mim o momento do café da manhã é um verdadeiro luxo. Não pelo conjunto de tentações da mesa, mas pelo prazer de tomar o meu café passado, olhando para a vista da minha janela, na mesa colocnial que escolhi com carinho para nossa casinha. Quando sento ali, todas as manhãs, tenho alguns minutos para olhar para dentro de mim. Me enxergo no cenário que sonhei e isso me dá uma paz infinita. Considero esse um momento de luxo do meu dia, já que a vida de hoje não permite muitas regalias como a introspecção, por exemplo.
Não gosto de roupas de marca, nunca fui chegada. Nem nos tempos de adolescente. Também não tenho aquela tara por comprar sapatos, como grande parte das mulheres. Não sou nada consumista para esse tipo de artigo. Mas não abro mão de um sábado a tarde sem nada para fazer. De um papo despretensioso, regado a um mate novo, na vista do alpendre. Luxo é tudo isso e está em todos os cantos e horas da nossa história. Alguns em especial me fazem sentir recompensada. Como ter visto a formação do meu pequeno serzinho nestes quatro anos de vida. Foram tantas as descobertas da Sofia pela vida que ser a espectadora de cada minuto dessa magia me fez muito feliz. Quando optei por deixar de trabalhar fora e abrir minha própria empresa, em casa, sabia que corria riscos. Estar perto dela nesses primeiros e decisivos anos, foi um grande luxo, e confesso que tive momentos de verdadeiro deleite. Foram muitas tardes de inverno que interrompi o trabalho para nos aninharmos no tapete, lendo livrinhos em frente à lareira. Tantos os momentos gostosos, que no meio da tarde fui surpreendida por um cheirinho de bolo no forno. Luxos que a Talita, minha fiél escudeira, sabe presentear como ninguém. São momentos simples, mas que dão a dimensão da certeza dessa escolha. Se eu não estivesse perto, não enxergaria sua grandeza.
Luxo é a cumplicidade com aquela amiga que te conhece só no olhar. É a expressão singular que vejo no rosto dos meus pais quando enxergam a Sofia. É a faceirice do Nauro quando ganha uma massagem nas costas. É poder escrever esse texto em um sábado ensolarado de fevereiro, sem pressa, em um “espaço” que está me ajudando a me fazer mais feliz. E o melhor de tudo, é saber que a lista de luxos não termina aqui, e que depois de ler esse post, os meus visitantes virtuais também vão fazer suas listas pessoais e dar mais valor aos seus luxos pessoais. Afinal de contas, a vida é um luxo!
P.S.: E para não deixar de me dar ao luxo, hoje a tarde vou cortar a grama e depois comer uma melancia bem gelada. Que luuuuxo!!!!
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Mundo animal
A Sofia as batizou de Taliba, Luluca e Nine. Tínhamos também a Bira-bira, mas foi dada como desaparecida na enchente de janeiro do ano passado. Testemunhas ouviram seus gritos de socorro nas proximidades da figueira, mas com a força das águas o pessoal da Defesa Civil achou melhor incluí-la na lista dos desaparecidos. Bom, mas voltando a vaca fria. Ou melhor, ao galo Pedro. Isso mesmo, minha filha quis homenagear seu primo mimosos dando esse lindo nome ao penoso-histérico. Ele é mais um dos animais que o Nauro insiste em colecionar. Aqui em casa já tivemos uma ovelha chamada “Me”. Isso mesmo, super original!!! Ela foi convidada a “não fazer mais parte da família” depois que comeu 98,8% das árvores que plantamos com carinho, por longos meses. Foi preciso isso para o Nauro se convencer que seria mais apropriado doá-la. Mas, quem pensa que a Mé virou churrasco, está redondamente enganado. Mesmo que nossos animais gerem desavenças familiares e causem transtornos, depois que pisam nesse terreno, passam a fazer parte da família. Então, demos a ovelha para um senhor com cara de honesto, que assinou um termo de compromisso de que nunca olharia para ela de um “jeito diferente”.
Essa casa vive num entra e sai de bichos. Na última Expofeira foi a vez da coelha Luluca. Seguindo a tradição imposta pela Sofia ela recebeu o mesmo nome da galinha, re-homenageando a prima Luisa, de Jaguarão. Pois então, a Luluca veio para casa em pleno inverno. Primeiro morou no alpendre, mas como fazia muita sujeira, passou para parte térrea da casa. Conheceu aquele universo verde e se deslumbrou. Em menos de uma semana entrou na lista dos desaparecidos. Só que desta vez, suspeitamos que tenha sido um caso passional, já que tinha uma lebre rondando a casa durante a noite. Tudo bem, o que importa é que ela seja feliz. Sem preconceitos.
Mas tudo isso para chegar novamente ao galo Pedro. Eu tenho um sono super leve, qualquer coisa me acorda. Ultimamente o Nauro achou mais produtivo deixar o pessoal do galinheiro solto todo dia e a noite. Com isso, as galinhas colocam ovos nos lugares mais inusitados. Dia desses, tinha um dentro da gaveta de uma escrivaninha velha, no porão. O Nauro adora, e tem mil teorias sobre a psicologia animal. Para se ter uma idéia, outra noite, quando o Pedro começou a cantar destemperado, ele atirou um resto de bauru para o galo. O bicho não só calou a boca como se regalou.
Mas essa manhã o mundo animal me atormentou além dos limites. Eu estava no bom do sono, daqueles necessários, já que o ritmo de trabalho dos últimos meses tem sido intenso. Com o calor que tem feito, uma noite fresca como a de hoje é quase um presente dos céus. Eu estava literalmente nas nuvens. Até acordar com aquela goela desafinada, em um tom grave:
- Cuuuucuruuucuuuuu!!!
Pequei o relógio e constava: 5h43. Abri os olhos com uma fúria e me atinei só fechar a janela. Não foi suficiente para o danado do Pedro conter o seu show matinal. Eu não sei como ele sabe, mas se abala lá do galinheiro e fica postado exatamente na minha janela. Como ele sabe, tem um GPS no meio daquelas penas?
Coloquei um travesseiro na cabeça, esbravejei, e nada adiantou. Não consegui mais dormir e acordei num baita mau-humor. Até meia hora atrás eu estava pensando maneiras cruéis de me vingar do Pedro. Mas como esse é um espaço terapêutico e prometi a mim mesma que seria um blog-divã, estou mais calma. Agradeço aos ouvidos de vocês. Foi bom desabafar. Mas sei que caso ele suma misteriosamente serei a primeira suspeita da lista. Posso até vir a ser indiciada. Tudo bem, só não posso deixar de gritar beeeeeeemm altoooo:
- Mata esse galo e faz uma canja!!!!
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Encontro de Sofias
Sofia gaúcha (E) e Sofia paulista (D), apreciando a Lagoa dos Patos, na praia do LaranjalFoto: Nauro Júnior
Na semana que precedeu ao carnaval recebemos uma visita há muito aguardada e prometida nas bandas do sul. Há cerca de quatro anos, logo depois que saímos do hospital com a Sofia, conhecemos o trabalho, na época embrionário, do Instituto Abrace (www.institutoabrace.org.br).
Na época estávamos organizando a exposição Mundo de Sofia e fazendo uma via-sacra hospitalar para avaliar as possíveis seqüelas do período pós-UTI da Sofia. Era como aquela sensação de esperar ver o nome na lista do resultado do vestibular.
A cada novo exame, uma angústia velada, que Nauro e eu tentávamos disfarçar com um silêncio cúmplice. Era uma espécie de medo de falar e alguma coisa acontecer. Estávamos exaustos pelo período hospitalar e aliviados por tentar segurar novamente as rédeas da nossa vida.
Até que numa bela manhã de março, a minha amiga Maira liga para dizer que tem uma mulher fantástica, dando uma entrevista no programa da Ana Maria Braga. Era dia 8 de março e o programa apresentava mulheres especiais, indicadas por alguma personalidade masculina, representando o que eles achavam da condição feminina.
Eis que surge uma moça loira, magra e alta, indicada pelo jornalista Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo, contando sua saga com a filha na UTI. O relato de mãe virou o livro “Mãe de UTI – amor incondicional” e plantou a semente da ONG que aquela mulher acabara de fundar.
O livro era o diário de Maria Julia Miele, que contava a brava luta de sua filha Sofia, que depois de um ano e três meses entre UTI e home care, faleceu. A instituição que ela começava, tinha como objetivo dar alento e força a pais que estivesses com seus filhos em UTIs, mostrando através da experiência vivida, a importância do amor no contexto hospitalar.
Nós aqui no sul, entre um exame e outro, montávamos a exposição Mundo de Sofia que iria para o Hospital Universitário São Francisco de Paula, para dividir nossa história com pais que ainda estivessem na luta.
A intenção era a mesma: dar uma luz a quem estivesse na escuridão.
Na mesma hora escrevi um mail para Maria Julia e começamos a trocar ideias. Ela me convidou para integrar a ONG e colocar a exposição disponível no site, para distribuir esperança a pais de todos os cantos.
Mas as mãos de Deus movem os peões do destino com tamanha precisão, que algumas coincidências chegam a nos arrepiar. Paralelamente, em Sorocaba, uma jornalista chamada Denise Crispim, fazia contato com a Maria Julia.
Também tinha passado longos meses na batalha. A filha Vivi não resistiu, mas a gêmea Sofia, nascida a menos de 10 dias de minha Sofia, estava na mesma via-sacra que nós.
O trio se formou. Três mães de Sofia, com suas dores e vontades. Dividindo experiências e aprendendo lições com cada nova história que nos chegava ao Instituto Abrace.
De cara sentimos uma identificação profunda e começou ali uma forte amizade, escrita pelo destino e pelas lições que as nossas Sofias vieram nos trazer. Percorremos a tal via-sacra dos exames pós-seqüela juntas, acompanhadas de perto pelos sábios conselhos da amiga Maju.
Nossas Sofia hoje estão lindas e felizes, com uma luz que nenhuma seqüela física jamais poderá apagar. E foi esse encontro de Sofias, que coloriu nossos dias de carnaval. Como diz na frase que é lema da nossa ONG:
“O caminho de cada um é feito pelos próprios passos, mas a beleza da caminhada depende dos que vão conosco”.
Visite o site do Instituto Abrace:
http://www.institutoabrace.org.br/
Clique em Mundo de Sofia, no rodapé da página e conheça a história da nossa Sofia!
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Cordão umbilical
O cordão umbilical é um laço que a vida jamais consegue cortar. As mães que perderam seus filhos sabem o quanto. As que diariamente acordam, alimentam, vestem e mimam seus rebentos também. Nesse kit singular de que fomos abençoadas, ainda tem a amamentação e a intuição, aquele sentimento que não sabemos explicar e que o mundo batizou de “instinto materno”. Escrevo tudo isso para dizer que meu coração anda apertado nos últimos dias. É uma bobagem, coisa de mãe babona, sei lá. Não é por nada ruim, a Sofia está ótima, há meses sem nenhuma intercorrência, feliz e saudável. Mas na semana que vem finalmente vai para o colégio. Depois de quatro anos debaixo das nossas asas, vai dar seu primeiro passo no mundo coletivo. Vai pisar no universo regido por diferentes modos, gostos e filosofias de vida. Provar refrigerante, comer chiclete, ouvir gente que fala palavrão. Mas sei também que vai descobrir o convívio dos amigos, aprender o mundo das letras e construir o seu mundinho de sonhos. Nesses quatro anos de vida, procuramos mostrar a ela o quanto essa vida vale a pena.
Daqui para frente sei que será um piscar de olhos até a faculdade. Meu peito se enche de angústia e felicidade, se é possível que estes sentimentos antagônicos possam ser companheiros. Me arrepia ter a certeza de que a partir da próxima segunda-feira o tempo vai voar. Minha “minhoca” vai vestir o uniforme do “pré” e pisar o mundo cheia de autonomia. Sei que vai ser muito feliz. Que essa luz que ilumina nosso cotidiano vai irradiar por outros pagos também.
Estou feliz e triste. Mas me vem na memória o texto de um quadro que tinha no corredor da charqueada que nasci e cresci. Era o famoso poema do Kalil Gibran, que durante minha infância li e reli milhares de vezes, sem compreender. Hoje penso na profundidade daquelas frases e me apego a elas para amenizar meus medos. Desejo com todo meu amor que o mundo trate minha amada filha com carinho e que ela siga tendo a certeza de que essa vida é maravilhosa.
P.S.: E quando menos a gente imaginar, ela vai trazer aquele cabeludo, todo tatuado, para apresentar à família. Socorro!!!!
"Seus filhos não são seus filhos.
São os filhos e filhas da vida, desejando a si mesma.
Eles vêm através de vocês, mas não de vocês. E embora estejam com vocês, não lhes pertencem.
Vocês podem lhes dar amor, mas não seus pensamentos, pois eles têm seus próprios pensamentos.
Vocês podem abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas vivem na casa do amanhã, que vocês não podem visitar, nem mesmo em seus sonhos.
Vocês podem lutar para ser como eles, mas não procurem torná-los iguais a vocês. Pois a vida não volta para trás, nem espera pelo passado.
Vocês são o arco de onde seus filhos são lançados como flechas vivas. O arqueiro vê o alvo no caminho do infinito, e Ele curva vocês com Seu poder, para que suas flechas possam ir longe e rápido. Deixem que o seu curvar-se na mão do arqueiro seja pela alegria: Pois mesmo enquanto ama a flecha que voa, Ele também ama o arco que é firme."
KALIL GIBRAN
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Tão rara
Então ontem, quando minha irmã Kiki ligou à noite, pedindo que eu falasse com minha “santinha” para dar ânimo à Neca, eu fiquei pensando. A Kiki sabe que aqui em casa temos um altarzinho repleto, com todos os anjos e santos que integraram nossa corrente pela vida da Sofia. Uma em especial, a Nossa Senhora Desata Nós, estava presente na UTI e pelos corredores do hospital durante a odisséia toda. Nos olhou com firmeza nos momentos mais complicados. Parecia que dizia com o olhar: “Nem pensem em desistir”. Depois da batalha vencida, passou a ser padroeira da ONG que nos engajamos (www.institutoabrace.org.br). Nessa trajetória entre Sofia e a ONG ela já desatou cada nó, que merece o nosso respeito! Por isso então, a Kiki que sabe da história, me ligou ontem pedindo que eu acionasse a santa. Eu disse na hora que já estaria entrando em contato com as “instâncias superiores”.
Fui fazer o jantar e enquanto pensava na vida, seus mistérios e belezas, a Sofia aparece. Ela estava todo tempo no quarto assistindo à Branca de Neve. Daí chegou na cozinha com um anjo na mão, me olhou com aquelas bolitas cor de terra e sentenciou:
- Toma mamãe, é para a gente rezar!
E eu meio tonta perguntei, mas como assim? Quem disse que era para rezar. E ela respondeu com a mesma cara:
- O anjo, ora bolas!
Naquele momento não tive dúvidas de que iríamos rezar. Também tive a certeza de que existe muito mais entre o céu e a terra que possa supor nossa humilde sabedoria ou vã filosofia. Por isso querida Neca, respira fundo e segue firme. Mesmo que não possamos dimensionar tuas dores, conseguimos enxergar tua grandeza, tão rara!
========
Paciência (Lenine)
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
2010 desculpas
Que venham as melancias geladas desse verão!
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
A geléia de morango

Nessa linha profissional de fazer fotos de casamento, que iniciamos timidamente em 2009, acabamos por participar de momentos muito importantes das vidas das pessoas. Estar presente, registrando isso para sempre, é uma responsabilidade muito grande. Mais que fotógrafos e produtores do álbum dos noivos, sei que estamos acompanhando pessoas prestes a pisar em um sonho muito esperado. Para estarmos ali sem interferir na cena daquelas vidas, procuramos ser expectadores.
Mas nem sempre acontece dessa forma. E foi assim que no último domingo passamos momentos muito felizes ao lado de duas famílias sensacionais. O casamento da Renata e do Dani, nos rendeu mais do que boas fotos, mas momentos singulares. Acompanhei a preparação da noiva, ao lado do Gustavo. Durante toda tarde conheci melhor uma menina suave, sensível e extremamente bela. Daquelas belezas que começam por dentro, e acabam coroando um físico belíssimo. Durante a sessão de fotos no salão, fomos conversando e fui entendendo melhor aquele amor que em poucas horas seria sacramentado. Enquanto isso o Nauro estava com o Dani, já no local do casamento. Assim como a Renata, ele é daquelas pessoas que falam na altura da calma. Que passam paz interior pelo tom de voz. Uma duplinha rara, nos agitados dias de hoje.
A cerimônia de casamento foi o retrato disso tudo. As duas irmãs foram responsáveis por dividir com os convidados a história do casal, desde o começo. Cada uma com sua cor e seu estilo, duas irmãs que tinham em comum bem mais do que o ar despojado. Mas sim um carinho e admiração imensa pelos seus irmãos. Finalizaram aquele momento com uma frase linda, do poeta Mário Quintana. Celebraram aquele amor, de verdade, e tive o privilégio de assistir a uma das mais belas cerimônias de casamento que já vi.
Nesse mesmo clima e intensidade, rolou a festa. Com cardápio vegetariano, guitar play, muitos flashes, cup cakes fantásticos e...a geléia de morango da Ceres. Naquele cenário de tantos detalhes simbólicos, a lembrancinha do casório não poderia ser mais apropriada. A Ceres é a mãe do noivo, e fez pequenos potinhos de geléia de morango para os convidados levarem aquele doce-carinho para suas mesas de café. Ganhei dois potinhos e trouxe para o meu momento preferido entre todas as refeições.
Ontem, a Sofia inventou de fazermos um pic-nic na sala, e lembramos de colocar a geléia entre as “deliciuras”. Quando botei aquele pedacinho de doce na boca, senti o sabor das tardes inesquecíveis na casa da Voinha. Foi uma viagem ao encontro da minha avó mimosa, com quem vivi momentos que estão impressos nas minhas melhores páginas de vida.
A Voinha morreu com 91 anos, muito bem vividos, diga-se de passagem. A história dela vale muitos posts, mas resumo aqui a história de uma costureira que ficou viúva cedo e tinha sete filhos para sustentar. Começou a costurar para fora para alimentar a prole. Ao longo de muitas décadas, fez a “Regalo”, uma confecção de lingerie que foi um verdadeiro sucesso. Depois de aposentada, começamos as duas juntas a inventar outras “modas”.
De início pensei em uma forma de manter a Voinha conectada com o mundo. Mera ilusão, ela não só se conectou ao mundo como começou a produzir geléias deliciosas, que eu vendia na Prefeitura, para meus colegas na época. A coisa cresceu tanto, que fizemos embalagens personalizadas. Ela costurava as “saias” para os potinhos e eu fiz uma etiqueta personalizada, que tinha até o SAC para os clientes. Abaixo divido com vocês essa divertida lembrança, que hoje serve para matar a saudade de uma pessoa muito especial, que tive o prazer de dividir momentos únicos da vida.
Por isso te agradeço Ceres, porque a geléia de morango me alimentou a alma nesse finalzinho de 2009. São essas as verdadeiras delícias da vida!
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Paz + Saúde
Olhando para 2009 vejo que foi um bom ano. A Sofia atravessou o inverno e a ficou imune à gripe A. Teve apenas uma pneumonia, o que é considerado um saldo mais que positivo. Ingressou na fase das descobertas do mundo e me levou junto a lugares tão mágicos, que nem lembrava mais que existiam. São as grutas do mundo infantil, que com o tempo esquecemos que existem. Muitas lições aprendi esse ano, assistindo aos desenhos antigos e novos, mas que nos fazem relembrar que a vida sem magia fica sem graça.
O Nauro realizou um grande feito, publicando seu primeiro livro, com sucesso absoluto de vendas. Além disso, ajudou de certa forma muita gente a digerir a dor da tragédia do acidente xavante. No ano em que completou 40 anos acho que meu marido amadureceu muito. Como todo grande passo, precede de alguma dor, acho que ele soube encarar os problemas do início do ano e vencer os desafios. Hoje vejo poucos cabelos brancos na sua cabeleira negra, mas contemplo no meu parceiro de vida uma certa calma de espírito que me faz muito bem. Continuamos sonhando juntos, e isso é muito bom.
Nesses doze meses ganhamos novos amigos, compramos um carro novo, perdemos nosso cachorro-amigo, viajamos pouco, compramos mais um pedaço de terreno pra nossa casa, trabalhamos feito doidos, descansamos quase nada, economizamos muito e comecei esse blog-terapia. Acho que só essa listinha que me ocorreu rapidamente, já justifica uma bela despedida para 2009.
E tu 2010, o que nos prepara?!
O Nauro tem fé de que vai ser um ano nota 10.
Eu desejo, de coração, que seja um ano com paz e saúde. E não é jargão de cartão de livraria. Sem esses dois elementos, todo o resto não faz sentido. Por isso meus amigos queridos, são esses os meus desejos para todos que fazem parte da minha vida real ou virtual.
2010 + paz + saúde = Tudo de bom!
sábado, 26 de dezembro de 2009
O espírito da coisa
Hoje assistindo a humildade daquela mulher, lembrei das minhas muitas idas naquele barraco de madeira. Eu ia na casa da Dona Conceição em busca de um auxílio espiritual, que ela tão bem sabia dar. Foi naquela salinha escura, e repleta de imagens de santos, que ouvi os sábios conselhos do meu avô Rafael. Ele faleceu de leucemia quando eu tinha dois anos, e sua doença foi descoberta alguns dias antes de eu nascer. Me criei ouvindo coisas boas sobre ele, onde quer que eu andasse e sempre sentia por não ter me cruzado com ele nessa vida. Mas foi através da mediunidade da Dona Conceição, que meu avô me disse coisas lindas e acalmou um coração juvenil, doído pelas primeiras decepções amorosas.
Lembro que quando isso aconteceu fiquei assustada. Cheguei em casa atônita e fui correndo contar para minha avó, a Chocho. Descrevi as palavras que tinha escutado e ela encheu os olhos de lágrimas. Disse que era ele mesmo, e que podia ouvir aquelas expressões, bem do jeito dele de dizer as coisas. Os dois viveram um daqueles amores que ultrapassam o céu e a terra, lindo e intenso. Mas como ele se foi muito cedo, minha avó sempre transpareceu com sua alegria de viver, o privilégio que teve em estar aqui por um tempo com ele. Foi um amor singular, como sempre digo, e ela sempre soube disso.
E foi depois de ouvir o recado através de Dona Conceição, que procurei conhecer mais o quê aquela mulher “mensageira” fazia de tão incrível. Ela acolhia cada anjo deixado na sua casa, abrindo aquele vasto coração de mãe e instalando o que recebia de Deus, com o maior carinho. Naquele tempo eram cerca de 40, hoje vi que já passam dos 50.
Hoje ela recebeu uma casa reformada, um microônibus e algum dinheiro. Mas a gente podia ver nos olhos dela, que em alguns momentos ficava até constrangida. Vai ser maravilhoso poder dar esse conforto para todos seus filhos. Foi um grande presente e tenho certeza de que eles vão saber desfrutar. Mas ela é tão incrível, que sempre que pôde, ressaltou no ar que o que importa não é só isso na vida. E foi essa mensagem que fez desse programa tão especial. Aqui em casa nos emocionamos de início ao fim. E ficamos com o coração cheio de orgulho por saber que esse bom exemplo, está bem pertinho, na nossa tão amada Pelotas. Isso serve para aproveitarmos o ensejo e pensarmos um pouco mais no que realmente importa. Afinal de contas a vida está rolando e a festa é nossa, 2010 está chegando. Mas não podemos esquecer o espírito da coisa!
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Alfarrabos - parte III
Uma infância no sul do Rio Grande do Sul tem lá suas peculiaridades, e não é pela geografia mais plana ou pela churrasqueira cativa no quintal. Nossa infância de guria é povoada na maior parte por uma trilha sonora muito típica: o zunido do vento Minuano. Lembro bem da dimensão que tinha o tempo e de como os invernos eram longos. Quase intermináveis.
Na espera de estações mais amenas já acordávamos enroupados. Depois da caneca de louça com café-com-leite, e antes de corrermos para o pátio, tínhamos que trocar a ceroula por várias camadas de agasalho, antes de encarar o “friozão”. Na primeira meia hora de aventura, já tínhamos alguns blusões amontoados no pé de alguma árvore. Só ficávamos com a “baxeira” - nome dado à camiseta de baixo, que até hoje povoa guarda-roupas de todas as idades.
Cada estação, por ser bem definida, tinha sua atração especial. A minha preferida sempre foi o outono, não por anteceder ao inverno, mas por inundar a goiabeira de frutos apetitosos. O cheiro da fruta até hoje me remete a boas sensações. Quando cruzo o corredor de algum supermercado, me pego com aquela sensação deliciosa que os aromas de infância nos proporcionam.
Acho que a relação entre o vento minuano a goiabeira e eu foi muito profunda. Ainda hoje, ao ouvir o zunido do vento sul ou cruzar com alguma goiaba lembro o quanto foi bom ser criança. No pé da goiabeira descobri muitas coisas sobre a vida.
Aprendi que mesmo as melhores coisas da vida têm seu tempo de chegar e partir. São como os outonos que trazem as goiabas e as primaveras que levam os Minuanos!
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Alfarrabos - parte II
Tempos bicudos, diriam nossos avós. Para dizer a verdade, acho que naqueles tempos crise mesmo era de asma, o resto era apenas uma variação no peso das vacas: às vezes mais magras , às vezes mais gordas , mas sempre pastando. Hoje, não dá para jantar e simultaneamente assistir a televisão. Corre-se o risco de um engasgo entre a CPI dos bancos, o vaivém do dólar* e o ataque histérico do Ratinho. (*isso foi escrito em 2000!)
Este é o Brasil ! Apesar dos pesares, pátria amada Brasil. Seguimos firmes e fortes, só não podemos perder o bom humor - nossa maior arma. Mesmo que o inverno este ano esteja "de lascar", que você e o cheque-especial tenham formado uma dupla sertaneja e que o papel-higiênico acabe sempre na sua vez ... Coragem! Ainda existem muitas coisas "legais" para se fazer.
Para começar, descubra coisas simples que, às vezes, nem lembramos existir. Que tal ler aquele livro de cuja capa você gostou? Pode ser um bom começo – pelo menos uma maneira de elevar o nº de livros lidos ao ano por brasileiro . Se ainda não lhe pareceu uma boa saída, que tal uma caminhada pela rua , sem pressa , ouvindo o som de cada esquina ? Ou tomar um mate com o porteiro do seu prédio e ouvir a estória daquela pescaria que ele fez no final de ano ?
São muitas as alternativas: tomar uma taça de vinho tinto na sexta, um cafezinho com o vizinho no sábado ou uma xícara de chocolate-quente no domingo. Se quiser esquentar o coração, experimente convidar um moleque de rua para comer um lanche e conversar . Você vai querer repetir o papo e ele com certeza o cachorro-quente.
Se você curte uma boa conversa, ouça alguém com mais de 70 anos, viaje no tempo e sinta a emoção de quem o conduz.
A atividade pouco importa, mas sim , que você resgate, lá dentro, uma corzinha alegre para pintar estes dias tão cinzas. Como diz a música...
"Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo".
Carpe Diem !
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Alfarrabos - parte I
* Este foi publicado no jornal Diário Popular de 30 de dezembro de 1998.
Querido Papai Noel
Por mais que o tempo passe, não consigo esquecer aquele tempo em que acreditava no senhor. Guardo às sete-chaves, a deliciosa sensação que eu, e mais meia dúzia de primos, sentíamos nos dias 25 de dezembro de muitos anos atrás. Era sempre depois do almoço, no apartamento da nossa Voinha. Engolíamos a comida natalina rapidamente e fingíamos não ver os sinais disfarçados de nossos tios e pais, que entre mímicas e frases enigmáticas, preparavam a tua chegada.
Ao ouvirmos o toque da campainha, corríamos sem saber para onde, procurando esconderijos estratégicos entre a porta de entrada e a árvore de Natal, onde alguns se entrincheiravam até sentir que a situação estava realmente confiável e que o senhor era de fato um “bom velhinho”. O som da sinetinha se aproximando pela escada fazia com que nossos corações atingissem um ritmo alucinado. Quando, por fim, visualizávamos o senhor com aquela roupa vermelha, todo suado, carregando no ombro o saco onde estavam materializados todos os nossos sonhos...nossa!!! Era a própria essência da felicidade! Olhávamo-nos com excitação e cumplicidade, cada um dos primos esperando ouvir seu nome ser chamado para depois correr para o abraço e merecer o honra de dar um beijo no Papai Noel.
Com o passar dos anos chega o dia em que “aquele” primo mais velho que já se acha “grande” resolve dar um pontapé no teu castelo de areia e conta que o senhor de fato não existe. Acho que é a primeira sensação de desilusão que conhecemos na vida. Depois desta, jamais olhamos o Coelhinho da Páscoa da mesma maneira. Mas, para ser sincera, acho que nunca deixamos de acreditar no senhor, mesmo que os anos transformem nossos sonhos e que nossa vida ao vivo seja bem menos excitante.
Sobrevivemos ao trivial e sempre que chega época de Natal uma luzinha acende dentro de nós e faz com que vejamos o verdadeiro significado do Natal, mesmo que seja cada vez mais a “salvação da lavoura” para maioria dos lojistas, a época de entrar de vez no cheque-especial, e a folga liberada para os nossos amigos do Congresso. Com todos esses “poréns” paralelos, mesmo assim eu sei que muita gente enxerga além do seu próprio umbigo. Pode ser naquele cartão com o mesmo desenho do ano passado que se envia para algum amigo esquecido, naquela briguinha com o vizinho perdoada com uma cervejinha na sacada ou no carinho espontâneo naquele moleque que te entrega o mesmo panfleto todos os dias, na mesma esquina. As formas são muitas, mas o sentido é um só. Por isso e por mais milhares de crianças que ainda brilham os olhinhos ao ver o senhor nas lojas, ou mesmo de longe, é que acredito que o senhor existe sim, e que neste Natal vai fazer muito marmanjo feliz.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Por que?
- Por que os meninos têm tico e as meninas pepeca mamãe?!
Mas nos últimos dias a Sofia entrou com tudo nessa fase instigante, e nem me deu tempo de pesquisar as últimas tendências comportamentais na Internet.
Pois é, porque no meu tempo a gente perguntava essas coisas. No máximo alguma extravagância como:
- Por que os caranguejos caminham para trás?
Era o máximo da esperteza. Mas o mundo mudou, como todos nós sabemos, e com ele além da tecnologia e do efeito estufa, ascrianças vieram pensando bem mais do que a gente pensava. Sei lá, deve ser alguma coisa na composição do oxigênio ou efeito colateral da nossa alimentação, não sei, mas que mudou, ah mudou.
Olhem essa. Em pleno domingo a tarde, eu quase pegando no sono, e a Sofia dispara:
- Mamãe, o que significa “sensível”?
Pensei na hora, mas de onde essa guria me tira isso. Agora mesmo estava assistindo aos Backyardigans no quarto. Não acredito que o Tyrone tenha trocado algum diálogo com a Oníqua sobre a sensibilidade da raça humana. Bom, mas vamos lá, mãos à obra. Não basta ser mãe, tem que participar.
- Bom Sofia, sensível é uma pessoa que se emociona com as coisas. Que assiste por exemplo a uma propaganda na TV, e chora quando sente que é emocionante.
Ela olhou calmamente e rebateu:
- Mas o que é emocionante mamãe?
Ah meu santo, mas não é que presta atenção em toda frase mesmo e ainda redige outra pergunta.
- Bom Sofia, é quando alguma coisa toca o coração da gente, sabe?!
- Claro que sei mamãe.
Que bom, pensei eu, assunto resolvido e encerrado.Passou a tarde e ela seguiu suas brincadeiras de boneca e desenhos. Até que no cair da noite estávamos, o Nauro e eu, sentados no quarto, e ela veio:
- Mamãe, por que as meninas têm medo e os meninos não?
Eu pulei.
- Sofia, quem disse isso. As meninas são muito corajosas sim.
- Mas mamãe, as meninas têm medo de uma lagartixa, por exemplo. Lembra quando entrou um morcego aqui em casa? Nós ficamos com medo e o papai teve que matar ele. Nós sempre temos medo das coisas e eles não.
- Alto lá meu amor. A mamãe vai te explicar, que os meninos também têm medo. E tem coisas que só as meninas têm força e coragem pra fazer. Por exemplo, tu lembras que tu saísses de dentro da barriga da mamãe né?
- Sim, eu lembro.
- Pois então, só as meninas têm a força e a coragem de carregar os nenês na barriga e depois, na hora do parto, fazerem força e agüentar firme, até os bebezinhos virem ao mundo. Os meninos teriam medo, tenho certeza.
- Ah é mamãe, é verdade.
- E tu lembras quando a mamãe usa aquela fraldinha e sai um sanguezinho durante uns dias? Pois então, só as meninas tem a força e a coragem para segurar firme as cólicas, e agüentar aquele desconforto todo o mês.
- Ah é mamãe, é verdade.
Bom, depois disso ela se acalmou e saiu do quarto pensativa. Achei que tinha dado uma grande lição e que ela se daria por satisfeita por semanas. Fui colocar meu pijama e fazer a mamadeira. Quando entrego o leite ela me olha e diz:
- Mas mamãe, o que é a mentira?
Ahhhhh nãoooooo!!! Eu preciso de mais alguns dias para responder.
-Sofia, vamos dormir e amanhã eu te respondo, pode ser? Na hora do café da manhã a mamãe te explica. Boa noite!
Saí rapidinho antes que ela resolvesse me perguntar o que era um “relacionamento” ou alguma coisa desse gênero. Socorro. Fui dormir e na manhã seguinte acho que ela esqueceu que eu tinha ficado com essa dívida. Ainda bem, vai dar tempo de fazer aquela pesquisa dinâmica e me preparar para as próximas perguntas cabeludas!!!
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Refuerzo
Na verdade, nos últimos anos elas tinham parado um pouco de acontecer. Eu já estava me achando uma senhora madura, com quatro décadas de estrada, mãe de família. Achei que essas coisas tinham ficado nas memórias da juventude.
Ledo engano!
Este ano o meu aniversário (29 de outubro) caiu bem no dia em que o Nauro, a Mari e o Etchuchiry (Chuchu) recebiam uma homenagem na Casa de Cultura de Jaguarão. Como a programação envolvia uma palestra com os aventureiros da Expedição Lagoa Mirim, programamos ir para Jaguarão depois do almoço e depois da função terminada, sairmos juntos para jantar no Restaurante Batuva, de Rio Branco. Adorei a idéia de passar o aniversário no “exterior”, ainda mais que poderia reunir minha irmã que mora lá, sobrinhos, cunhado e mais a Mari e o Chuchu.
Chegamos no meio da tarde e fomos direto para casa da Kiki, minha mana querida. Deixei o Nauro no hotel descansando e seguimos as duas e mais a Sofia para as compras. Não adianta, por mais que não tenhamos nada para comprar, a proximidade com um free shop parece que suga a gente. Não sei que atração é essa, mas acontece com todo mundo que se aproxima da Ponte Mauá, é estatístico.
Então cruzamos a tal da fronteira e seguimos pela avenida principal de Rio Branco. Até que vi um lugar livre bem em frente à Tenda Montevideo, minha preferida. Dito e feito, dei o pisca no meio da rua e estacionei o carro no oblíquo, como era indicado para o local. Descemos as três bem faceiras. A Sofia já apontando para uns tênis rosa na vitrine, imitação de All Star. Olhei para o flanelinha que me acenava e gritei da porta da loja:
- Ok, pode cuidar!
Paramos para olhar melhor as ofertas, eu achando lindo o tênis e fazendo o câmbio, quando escuto o insistente chamado:
- Senhorita, senhorita, veni a cá!
Olhei para o meu carro e vi um flanelinha parado ao lado, com dedo em riste, me chamando. Pensei cá com meus botões: Que flanelinha abusado esse, quer acertar o preço antes de eu voltar. Mas, como era meu aniversário, decidi que não queria me estressar. Desci até a calçada e perguntei:
- O que o senhor quer?
Ele me olhou com os olhos faiscando e disse:
- Su habilitación, senhorita!
Foi quando subi os olhos para aquele bonezinho cáqui surrado e li:
Po-li-cí-a.
Nisso minha irmã já vem com a Sofia pela mão e com os olhos arregalados. Eu peguei a carteira de motorista e me dei conta de que ele deveria estar querendo o meu fígado, porque achei que com aquela farda esfarrapada e o “X” desbotado no meio do peito, ele mais parecia os nosso flanelinhas daqui. O cidadão furioso, depois de olhar a carteira de habilitação, pediu os documentos do carro.
A estas alturas a Sofia já estava no meu colo, apavorada. Morre de medo da polícia e já tinha se dado conta (antes de mim) de que se tratava de uma “autoridade policial”. Peguei o documento do carro e na hora que ele segurou, saiu em disparada para o meio da rua. Nisso minha irmã caça ele pelo braço e diz:
- Ah não, levar os documentos não. O senhor tem que provar que é policial mesmo, senão não pode levar!
Pra quê! Esse homem começou a ficar verde e por alguns segundos achei que se transformaria no Incrível Hulk. Começou aquele bate-boca bilíngüe no meio da rua. Minha irmã e eu perguntando pra ele o que tínhamos feito afinal de contas, e dizendo que ele não tinha o direito de levar os documentos. Ele dizendo sei lá o que em um espanhol mais ligeiro do que nossas mentes insanas pudessem acompanhar. Nisso o homem levanta o braço, prende o apito na boca e grita:
- Refuerzo!!!
Socorro! O guarda estava pedindo reforço para nos levar presas em pleno Rio Branco. Parecia que aquilo não estava acontecendo. A Sofia grudada feito um carrapato no meu pescoço e nós as duas entrando na Delegacia, do outro lado da rua, para prestar esclarecimentos. Se é possível que se possa esclarecer essa confusão toda.
Fomos recebidas por uma senhora enorme, vestida em uma farda marrom, com as duas mãos no bolso e um olhar de baixo para cima. Era a delegada. Muda. Não falava uma palavra, só olhava a cena. Enquanto isso o flanelinha, ops, o guardinha e minha irmã seguiam naquela convulsão de palavras.
Resumo da ópera. No Uruguai é proibido dobrar no meio da rua, mesmo que para estacionar, entrar em uma garagem, qualquer coisa desse tipo. Só se pode dobrar em esquinas (nunca mais esqueço!). No Brasil pode, e daí?
Daí que depois de muito papo, a situação parecia não ter saída. Até que a Kiki lembrou do meu aniversário e veio com o velho papo:
- Mas o senhor vai nos deter no dia do aniversário dela? Imagine o trauma para essa criança e para mãe dela...
E assim debulhou um rosários de lamentações que acabou comovendo aquele coração Hermano. Fomos liberadas depois de atestar a data de 29/10/1968 na carteira de motorista. Ele olhou, levantou uma das sobrancelhas e disse:
- Está bien, pero en la próxima vez no hay perdon!
E assim nos despedimos do guarda mais mal vestido do Uruguay. Nos enfiamos rapidamente em uma loja, antes que ele mudasse de ideia e me fizesse passar um cumpleaño inesquecível, no xadrez.
Nota da redação: Ontem fomos à Jaguarão para o lançamento do livro do Nauro e adivinha quem eu encontrei em Rio Branco? Ele mesmo, e o pior, tive a sensação de que estava me seguindo!!!!
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Carta ao Luís Fernando Veríssimo
Querido Veríssimo,Pode parecer estranho essa carta, mas por mais que pareça, não é mais esquisito do que te olhar diariamente ao lado da Santa Terezinha.
Calma, eu vou explicar!
Vocês os dois me acompanham diariamente. Desde a primeira xícara de café, às 7h, quando subo para o escritório ainda de pijama e pantufas. Eu nem tenho vergonha de chegar escabelada, vocês já são de casa.
Ainda sonolenta, começo a fazer o tal clipping de notícias para aquela agência de São Paulo. São sete jornais, tenho que ler todos de cabo a rabo.
Às vezes comento contigo aquelas notícias que parecem mais anedotas de tão improváveis. Tu só me olhas com aquela cara de quem não tem nada a ver com isso. A Santa Terezinha é diferente, fica me fitando com um olhar firme, sério.
Aquelas mãos lindas, parecem até de pianista. Fica tesa, segurando o ramo de rosas e o crucifixo. O que será que ela pensa? Deve achar que esse mundo está mesmo perdido. Daí me olha com cara de quem vai mandar redobrar os cuidados nas áreas de risco.
São 7h30 e minha filha Sofia acorda. Peço para cuidares um pouco do computador e desço pra levar a mamadeira de leite com Nescau. Tem que ser “morninho”, ela sempre lembra.
Volto correndo, não posso passar das 8h30. O contrato com a tal agência é bem claro. Quanto mais apuro para terminar o clipping, mais tu me distrais.
Te olho de novo e fico pensando por que homens barrigudos gostam tanto de usar colete ? Esse teu colete azul marinho tem cara de roupa escolhida pra “afinar”, como dizia minha avó. Ela adorava vestir uma roupa que a deixasse mais delgada.
Olhando melhor, acho que foi tudo planejado com essa intenção. A camisa é listrada. Listras na vertical. Sempre me disseram que são ideais nessa estratégia da minha avó, de adelgaçar.
O clipping está no final. O café já está esfriando e a Sofia já chamou três vezes. Mas antes de descer meus olhos são puxados pela estrela.
Me vejo de jaqueta jeans, bolsa atravessada, e a estrela no peito. Isso foi lá por 2001, eu acho, quando viesses com teu grupo de jazz para uma apresentação noturna.
Não que me lembre direito, digo isso pelo tamanho da estrela. Com o passar dos anos ela foi diminuindo. Hoje está guardada lá na caixinha de brincos do banheiro. Nada pessoal, só que com tanta bandalheira para os lados de Brasília, ela virou tesouro do passado.
Mas voltando ao início, é assim que nos encontramos todo dia, no porta-retrato da minha escrivaninha. Sempre nessa correria. Às vezes nem nos olhamos.
Outros dias, meu papo é mais com a Santa Terezinha. Tem épocas que só dá ela. Fica super solicitada. São dias pesados, mas que passam. E aí, nos dias mais leves, te encontro novamente.
Somos cúmplices. Além do mais, estou com o braço enfiado no teu. Assim, que nem faço com meu pai quando andamos na rua. Acho tão mimoso. A gente se engancha, dá uma sensação de cumplicidade mesmo.
Acho que é isso, às vezes tu é meio pai mesmo. Outros dias, meu cúmplice da indignação. Outros da alegria, de saborear essa vida tão rara.
Imagina que quando nasci, tu estavas começando a assinar matéria na Zero Hora. Olha só, e hoje nós os dois abraçados no lugar de maior destaque do meu escritório, fazendo o clipping juntos.
Quanta honra para uma jornalista nascida em pelo ano de 1968.
Acho que foi por isso que achei engraçado. Como esse mundo é pequeno. A gente se acompanha há tanto tempo, mas tu nem imaginas que me estás aqui. Daí achei que tu precisavas saber.
Na verdade a tecnologia não chegou a tanto e ainda não tenho o e-mail da Santa Terezinha. Mas se quiseres posso copiar essa foto e te mandar. Ia ser legal né ?! interatividade total!
Um super abraço meu companheiro de tantos anos!
Com carinho,
Gabi
P.S.: A camisa de listras na vertical é muito alinhada, não esquenta viu?!
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
E fez-se a luz...
Nos conhecemos desde pequena, porque ela é prima do Diego, que é meu vizinho desde as fraldas, aqui na zona do Areal fundos. Na adolescência nos afastamos por um tempo e quando nos vimos novamente, ela, com 17 anos, já carregava nos braços a Olívia.
Somos bem diferentes, mas temos muitas coisas em comum.
Testemunhamos juntas as descobertas e conflitos mais importantes de nossas vidas. Rimos e choramos em vários momentos. Sempre soubemos ouvir uma a outra. Mesmo a mais velha sendo eu, é dela que sempre saem as palavras mais maduras. E eu, com aquela cara de colegial, acato suas sábias observações.
Já tivemos passagens hilárias no nosso diário de memórias. Nos demos a mão nos momentos de maior dor de nossas vidas. Ela cuidou da Sofia por mim no hospital, quando minhas forças estavam acabando. Cuidou de mim, quando as forças acabaram. Cuidou do Nauro quando eu não podia mais cuidar de nada.
Dela escutei a frase que precisava para iniciar a revolução mais decisiva da minha vida. Daquelas frases que ficam grudadas na nossa alma e detonam uma série de descobertas interiores. Frases duras que só os amigos de verdade conseguem verbalizar com carinho.
Nossos encontros são sempre regados a chimarrão, sol e muita comida – independente da estação e das condições climáticas. A Moby é totalmente color, e eu absolutamente cáqui. Ela não pisa na rua sem lambuzar um batom marcante na boca e eu, com sorte, me atiro em um brilho rosado. Mas com tudo isso temos muito em comum.
Dividimos sonhos, somos loucas pelas nossas filhas e nossa amizade sempre foi regada por dois ingredientes que germinam afeto: respeito e admiração.
Há dois anos atrás, minha amiga querida passou por momentos de escuridão. Algumas circunstâncias fizeram com que sua vida parasse por algum tempo. Um turbilhão de coisas paralisou o contato com o mundo aqui fora. Nesse período foi como se ela estivesse no exílio. Senti saudades e me questionei por mais de mil vezes se eu não tinha como fazer alguma coisa para tirá-la daquilo.
Até que um anjo luminoso apareceu e fez-se a luz. Um médico fantástico que a trouxe de volta para as cores que tanto gosta. E como acontece em todas as tragédias, podemos escolher em ser vítimas ou sobreviventes delas. Ela por sorte, escolheu sair ainda mais forte. Saiu de salto alto, é claro, linda e loura.
E hoje comemora essa data que tanto gosta com um brilho a mais naquele par de olhos verdes. Já que a vida começa aos 40, um brinde a minha amiga Moby e bem vinda à vida!
sábado, 28 de novembro de 2009
O tal brilho
Pelas 17h, a Talita desceu as caixas e sacolas das nossas bugigangas natalinas e começamos as três a redescobrir os enfeites guardados há um ano. Incrível, mas eu consigo esquecer totalmente das coisas ensacadas e quando abro as caixas, parece que estou vendo os arranjos pela primeira vez. Isso deve ser genético, porque a cada novo Papai Noel que abríamos a Sofia brilhava os olhinhos e escolhia cuidadosamente um lugar de honra na casa. Assim passaram-se algumas horas.
Foi uma tarde deliciosa, de muita sintonia com o tal espírito natalino que nos invade nessa época. Eu não sei exatamente como funciona esse mecanismo e os antropólogos, sociólogos, e demais estudiosos devem ter mil e uma explicações técnicas. Mas no frigir dos ovos o negócio é que nessa época a gente parece que enxerga com mais clareza o tal brilho da vida. Momentos como esse, simples até, revelam um profundo encanto.
Minhas lembranças viajaram para os tempos em que eu era criança, lá na Charqueada, onde a montagem da árvore de Natal era um evento esperado ansiosamente. Lembro de sairmos com a minha avó querida, a Chochó, para escolher o pinheiro do ano. Ela comprava árvore mesmo, de verdade, e eu achava aquilo o máximo. Uma vez, veio aquele monstro pinheiro em cima da Karman Guia amarela dela. Uma cena totalmente filme americano. Depois nos reuníamos no salão e abríamos o tal baú dos enfeites. Eram horas mágicas, onde pareci que o mundo parava e aos poucos íamos transformando a vida em um conto de fadas. Delicadamente montávamos o cenário da fábula e nos sentíamos personagens dela.
Incrível sensação essa, que o tempo e a vida adulta vai nos tirando aos poucos. Vem a chegada da adolescência, depois a juventude e encontramos coisas estranhas para ocupar nosso mundo interior. Até que os anos passam e o sopro de vida aparece nas nossas sementes. Felizmente nossos filhos chegam e nos fazerem reviver tudo de novo. E foi pensando nisso tudo, que terminamos de enfeitar nossa casa. Com luzes, velas, presépio, árvore de Natal e Papai Noéis por todos os cantos. No final, depois da Talita ir para sua casa, sentamos as duas na sala e a Sofia suspirou de alegria:
- Mamãe, como tá linda a nossa casa!
Olhei para aquele rostinho de anjo e vi um brilho lindo e único. Me enxerguei naqueles olhinhos, como nos velhos tempos do pinheirinho da Chochó.
Fantástico e delicioso esse ciclo natural da vida. Fui dormir com a certeza de que alguma coisa brilhou aqui em casa, além das luzinhas natalinas.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Experiências químicas
Acho que essa é a lembrança mais remota de causos desse tipo. Depois disso tiveram dores de barrigas em lugares que não tinha sinal de banheiro, brigas de trânsito hilárias e até a venda de um Fusca que acabou apreendido. Mas é assunto para mais adiante.
A mais recente aconteceu em um sábado de novembro, não lembro exatamente qual. O Nauro estava em Porto Alegre para o encontro dos jornalistas da Central do Interior e eu aqui, com o sábado inteirinho pra mim. Adoro sábados, é meu dia da semana preferido, ainda mais se não tenho nenhuma obrigação agendada. Então acordei, fui à feira comprar a geléia de morango da Mari (que será hospede do mezanino em breve!). Passei na farmácia e voltei pra casa com alguns DVDs debaixo do braço. Programinha perfeito para um sábado cinza, com cara de inverno. Aqui ao lado de casa, na Charqueada Boa Vista, uma movimentação intensa desde cedo, de alguma festa empresarial.
Então almoçamos e a Sofia foi logo assistir seus filminhos, bem faceira. Eu aproveitei para colocar a vida em dia. Fiz as unhas com toda calma do mundo, ouvindo meu CD preferido da Legião Urbana. Depois decidi dar um jeito naquele tom amarelado que meu cabelo tinha adquirido após algumas mechas mal sucedidas.
*Em tempo: Eu insisto em fazer experiências químicas desde a adolescência. Algumas amigas devem lembrar da receita de chá de camomila, leite e água oxigenada, que deixava o cabelo com um fedor horroroso e que nos melecava até a raiz do cabelo, literalmente. Pois então, mais de duas décadas depois eu ainda insisto em fazer esse tipo de porcaria. Se for nos meus arquivos do banco de dados, o percentual de eventos dessa natureza bem sucedidos ainda deve ser o de 0,37% alcançado em 1988. Foi quando consegui fazer uns reflexos dourados com um mistura de iogurte, limão e pingos de H2O2, que hoje seria proibido pela ANVISA.
Mas voltando a tarde de sábado até então perfeita. Depois de pés e mãos feitos, decidi colocar um tonalizante para unificar o tom tricolor da cabeleira. Estava me achando com aquelas caras de dançarinas de funk, sabe?! Pensei até que daria para escolher um nome de fruta, mas dadas as delineações corporais, o máximo que conseguiria seria uma “Gabi-bananinha”. Pelo comprimento da pessoa, óbvio!!!
Então avisei a Sofia que iria estar no banheiro com a porta fechada e fui ao trabalho. Umedeci o cabelo e lambuzei a cabeça daquela mistura gosmenta. Coloquei uma touquinha plástica e nunca foi tão fácil aplicar o tal Casting. Olhei no relógio para marcar os 20 minutos e fui assistir o Caldeirão do Huck. Estava frio e resolvi até pegar um edredon para ficar mais aconchegante. Me distraí, e quando vi já era tempo de correr para o banho. Avisei novamente a Sofia e me fui para o chuveiro. Caíram três pingos de água e o danado do chuveiro quase desligou. Daí me dei conta que estávamos com a conta da água em atraso e que possivelmente tivessem vindo cortá-la na sexta-feira.
- Não, isso não pode ser! ; pensei.
Chamei novamente a Sofia, coloquei um maiô e disse para ela carregar duas toalhas porque eu teria que tomar banho no cano da rua urgente, e ela seria minha assistente. Saí na porta e um golpe de vento já me deu o recado de que não seria nada fácil a missão. Ela, coisa mais mimosa, sentadinha na escada, me metralhando de perguntas sobre a inusitada situação. A mamãe de maiô, com a cabeça toda marrom, tomando banho na rua. Como assim? Daí eu disse para ela ir se acostumando, que quando crescesse iria encarar muitas frias como aquela. Ah, tem que preparar!
Foi aí, ao ligar o cano, já na segunda tentativa, que me deu o tamanho do desespero. Dessa vez caíram dez humildes gotinhas de água. O suficiente para tinta nojenta escorrer nos olhos e atingir as minhas lentes de contato. Os olhos começaram a arder sem parar. Comecei uma gritaria histérica e corri para uma poça de água no chão, já que não tinha mais alternativa de qualquer líquido potável ao entrono. Agachei que nem a Schimia (nossa “cã” oficial!) e comecei a tentar livrar os olhos daquela ardência terrível, em uma cena no mínimo hilária. Depois de alguns minutos de pavor, consegui enxergar a Sofia e pensei, estou salva. O que fazer então, já que não tinha qualquer resquício de água na volta.
Foi aí que levantei o pescoço e me deparei com o Arroio Pelotas, esbanjando suas águas turvas e históricas para todas as margens.
- Ah não, mas com esse frio é demais!!!; pensei.
O tempo passando, a tinta coçando e me fui de maiô e tolha para beira do arroio. A correnteza não convidava para um mergulho e depois de reavaliar a necessidade real, visualizei um balde velho em cima do barco do Nauro. Não tive dúvidas, subi no barco, enchi o balde e atirei aquela água barrenta por cima da tinta melequenta. Que cena linda! Imaginem se o pessoal da festa ao lado resolve espiar pela cerca o motivo da gritaria. Imaginem o mico.
Depois de repetir a dose mais três vezes, já com o corpo gelado, voltei para o aconchego do lar. Ufa, são e salva.
Com aquele cheiro de tonalizante exalando pelos poros resolvi me olhar no espelho.
- Socoooooooooooooooorro!!!!!, gritei.
Não sei se foi a demora na retirada da tinta ou a água barrenta do arroio, mas meu cabelo ficou cor de “capincho”, como bem definiu o Nauro. Depois de alguns dias como se fosse um periquito belga, e já com o fornecimento de água regularizado, comprei uma tinta castanho claro e voltei as minhas origens. Dessa vez pra garantir, fiz a experiência química na casa da mãe. Supervisionado por ela, é claro!
Nota da redação: a cor de cima está saindo a cada nova lavagem e o periquito belga dá sinais de vida. Ninguém merece!
