Que os homens são de marte a as mulheres são de Vênus eu já sabia. Não li o tal livro famoso, mas na prática compreendi o significado amplo da metáfora. Até aí tudo bem, mas eu sempre tive afinidade com amigos homens, desde os tempos de colégio. Por isso acho que talvez meu planeta seja Saturno, ou Urano, quem sabe. Meu amigo Gabriel, inseparável parceiro dos tempos de Gonzaga, que o diga. Ele conta até hoje que eu era pior que os guris naqueles idos anos 80. Eu até hoje me defendo acusando ele de cúmplice das minhas peripécias.
Uma vez quase fui expulsa do colégio por conta de uma arte. Tínhamos uma colega que era a popozuda da aula. Loira, calça branca colada, unhas pintadas e aquele ar de frágil, que comovia e encantava os seres humanos do sexo oposto. Também pudera, com esse conjunto de atributos. Mas a guria era uma baita dissimulada, e quando chegavam as aulas de educação física, aproveitava os jogos de handebol para empurra, beliscar, puxar cabelo. Mas como tinha cara de santa, na hora que reclamávamos a professora não acreditava.
Até que um belo dia achamos uma calcinha velha no vestiário do colégio. Eu e minha gang resolvemos fazer um plano maquiavélico de vingança. Pintamos a peça íntima com cores chamantes e escrevemos o nome da guria na calcinha. Depois levamos para sala de aula, e logo depois do recreio, o guri mais espalhafatoso da aula abriu o caderno e tchan, tchan, tchan...encontrou-a dentro. Foi aquele alvoroço masculino. A calcinha rodou a sala de mão em mão, até que um dos alunos a colocou esticada na parece do fundo da aula.
O professor de Física entrou e a barulheira não acalmava. Foi então que a nossa colega viu do que se tratava. Levantou chorando, e saiu desenfreada sala a fora. Na mesma hora o professor resolveu chamar o inspetor, figura temida no meio escolar, o famoso Luiz Gonzaga.
Ao entrar na sala de aula ele nos olhos com cara de furioso e disse:
- As meninas estão dispensadas, o assunto aqui é de homem!
E eu sai bem quietinha, faceira por ir mais cedo para casa. No outro dia a coisa complicou. Um dos guris me denunciou e fui chamada com outra colega a depor na direção. Foi um horror. Imaginem em um colégio de padres, uma menina fazer tamanha traquinagem. Chamaram minha mãe e depois de muita conversa eu fui colocada na quarentena. Acabei não sendo expulsa porque na hora da minha defesa pedi a palavra e disse uma frase que comoveu o diretor, utilizando passagens bíblicas para evocar o perdão. Foi tipo Francisco Cuoco no auge da canastrice.
Depois dessa fiquei bem quietinha. Até o dia em que descobri uma obra no edifício ao lado do colégio. Cuidei o movimento dos pedreiros e em determinado momento convidei minha gang para colocarmos a escada e agilizarmos uma fuga em pleno intervalo de aula. Quando estávamos no meio do caminho, alguém espiou pela janela e nos viu em plena travessia. Resultado: fomos levadas de volta ao cárcere privado, sem direito a merenda.
A minha vida escolar não foi de muita dedicação aos estudos, mas a verdade é que era divertido demais. Depois que cresci e virei uma profissional de respeito, fiquei chata e meus dias mais insossos. A única adrenalina dos dias de hoje são prazos pra cumprir e volta e meia alguns vaidosos para enfrentar.
Que saudades dos tempos em que eu era da pá virada!
quarta-feira, 26 de maio de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Terapia de maridos
Terça-feira cinza, fria e chuvosa. Pra completar o cenário, a nossa fiel escudeira, Talita, que se divide entre as tarefas de ser minha secretária e babá da Sofia, estava doente há dois dias. Sem perspectiva de voltar tão cedo, a casa estava ainda com aquele resquício de final de semana. Lavei o rosto, escovei os dentes e fui fazer um café.
O Nauro acorda alguns minutos depois, com cara de poucos amigos. Parecia estampar no rosto todos os ingredientes daquela manhã esquisita. Lacônico, mal deu bom dia e sentou na sala com o mate na mão. Para quem conhece o meu marido, sabe que estar quieto e sério, é sinal de que entrou água nas máquinas. Alguma coisa não está rodando nessa engrenagem.
Abri a internet para fazer o clipping, e me dou de cara com a capa da Zero Hora. Uma foto do repórter da sucursal de Rio Grande, feita com celular. Sinal dos tempos e do que está se transformando o jornalismo. Hoje em dia um celular com câmera e uma dose de vaidade, fazem de qualquer repórter um faz-tudo. Tudo que o departamento financeiro de uma empresa quer. A personificação da redução de custos. Nos olhamos e eu já sabia o que ele estava pensando. Fazer o que? Eu continuo achando que nada substitui o talento. Mas em uma manhã cinza e chuvosa, melhor não contrariar.
Organizamos a casa, me debrucei nos textos do caderno da Fenadoce e ele foi para cozinha. Passamos a manhã cumprindo os deveres domésticos, em um silêncio cúmplice. Sei das fases do meu marido. De quando ele tira todas as dúvidas das gavetas e coloca no sol, como que para tirar o mofo. Só que um dia como aquele não ajudaria a secar nada, muito menos angústias.
Deixamos a Sofia no colégio juntos, tomamos um cafezinho na cantina da escola e o deixei no jornal. Sabia que o compromisso da tarde dele era legal. Iria à casa do querido amigo Schlee, com o Javier, Alex e Vicente.
A tarde passou e quando a noite caiu fui buscá-lo para irmos para casa. O Nauro que entrou no carro parecia recém chegado de uma semana em Porto de Galinha. Animado, sorridente e até mais corado, juro! Perguntei se tinha dado tudo certo lá no Schlee e ele disse:
- Não e sim!
Como assim, perguntei. O Schlee não estava, perderam a viagem? Isso porque ele mora em Capão do Leão, município vizinho a Pelotas.
- Ficamos esperando ele chegar, fizemos um mate e começamos a conversar os quatro. Um papo super bom, sobre as nossas vidas, esposas, rotina. Um papo de homem, sem frescura. Foi tão bom!
Então ele começou a dizer coisas que tinha dito e ouvido, na maior alegria. Como se tivesse ido na terapia. Enxerguei naqueles olhos tristes da manhã, um ar de juventude, de renovação. O Schlee acabou não atendendo eles, por motivos pessoais. Mas sei que os quatro saíram levinhos daquele mate terapêutico.
Pensei no quanto tinha sido legal e necessário aquele momento para eles. Sugeri até que repitam a dose mais vezes. Que façam das manhãs cinzas, tardes de sol.
Mas não dá pra facilitar. Vá que eles comecem a pensar muito nesses encontros e resolvam queimar cuecas em praça pública. Alto lá, vamos devagar com essa terapia de maridos!
O Nauro acorda alguns minutos depois, com cara de poucos amigos. Parecia estampar no rosto todos os ingredientes daquela manhã esquisita. Lacônico, mal deu bom dia e sentou na sala com o mate na mão. Para quem conhece o meu marido, sabe que estar quieto e sério, é sinal de que entrou água nas máquinas. Alguma coisa não está rodando nessa engrenagem.
Abri a internet para fazer o clipping, e me dou de cara com a capa da Zero Hora. Uma foto do repórter da sucursal de Rio Grande, feita com celular. Sinal dos tempos e do que está se transformando o jornalismo. Hoje em dia um celular com câmera e uma dose de vaidade, fazem de qualquer repórter um faz-tudo. Tudo que o departamento financeiro de uma empresa quer. A personificação da redução de custos. Nos olhamos e eu já sabia o que ele estava pensando. Fazer o que? Eu continuo achando que nada substitui o talento. Mas em uma manhã cinza e chuvosa, melhor não contrariar.
Organizamos a casa, me debrucei nos textos do caderno da Fenadoce e ele foi para cozinha. Passamos a manhã cumprindo os deveres domésticos, em um silêncio cúmplice. Sei das fases do meu marido. De quando ele tira todas as dúvidas das gavetas e coloca no sol, como que para tirar o mofo. Só que um dia como aquele não ajudaria a secar nada, muito menos angústias.
Deixamos a Sofia no colégio juntos, tomamos um cafezinho na cantina da escola e o deixei no jornal. Sabia que o compromisso da tarde dele era legal. Iria à casa do querido amigo Schlee, com o Javier, Alex e Vicente.
A tarde passou e quando a noite caiu fui buscá-lo para irmos para casa. O Nauro que entrou no carro parecia recém chegado de uma semana em Porto de Galinha. Animado, sorridente e até mais corado, juro! Perguntei se tinha dado tudo certo lá no Schlee e ele disse:
- Não e sim!
Como assim, perguntei. O Schlee não estava, perderam a viagem? Isso porque ele mora em Capão do Leão, município vizinho a Pelotas.
- Ficamos esperando ele chegar, fizemos um mate e começamos a conversar os quatro. Um papo super bom, sobre as nossas vidas, esposas, rotina. Um papo de homem, sem frescura. Foi tão bom!
Então ele começou a dizer coisas que tinha dito e ouvido, na maior alegria. Como se tivesse ido na terapia. Enxerguei naqueles olhos tristes da manhã, um ar de juventude, de renovação. O Schlee acabou não atendendo eles, por motivos pessoais. Mas sei que os quatro saíram levinhos daquele mate terapêutico.
Pensei no quanto tinha sido legal e necessário aquele momento para eles. Sugeri até que repitam a dose mais vezes. Que façam das manhãs cinzas, tardes de sol.
Mas não dá pra facilitar. Vá que eles comecem a pensar muito nesses encontros e resolvam queimar cuecas em praça pública. Alto lá, vamos devagar com essa terapia de maridos!
domingo, 16 de maio de 2010
Mochila de rodinhas
Tudo ia muito bem até que um belo dia, pouco minutos antes de entrarmos no carro para ir ao colégio, a Sofia me chamou. Pediu para me contar um segredo no ouvido:
- Mamãe, eu não quero ir para o colégio!
Eu achei estranho, mas pensei que fosse alguma coisa daquele dia. Vai ver que está cansadinha, com dor de barriga, qualquer coisa assim. Então prossegui o diálogo:
- Mas por que meu amor, tu que gostas tanto do colégio. O que houve?
Ela se abraçou no meu pescoço e aninhada respondeu:
- Mamãe, eu nunca mais quero ir para o colégio!
Como assim? Pirei na batatinha. Ela não precisou de adaptação. No primeiro dia de aula abanou para nós dois, que tentávamos disfarçar as lágrimas, e seguiu adiante cheia de si. Acordava sábado querendo saber que dia seria segunda-feira, enfim, nada poderia explicar. De um minuto para o outro, meu mundo desabou. E pela frase alguma coisa muito séria tinha acontecido para aquela frase vir tão cheia de certezas.
Busquei nos meus arquivos de mãe o tal manual de crises, mas o capítulo "adaptação na escola" só tinha dicas para crianças com dificuldade para ficar nos primeiros dias. Então fui pela lógica, e imaginei que a melhor coisa naquele momento era levá-la ao colégio mesmo assim. Tentei não valorizar o assunto. Disse que eu também não tinha vontade de trabalhar muitos dias, mas que a vida é assim mesmo. Uns dias com vontade, outros sem, mas o negócio era seguir em frente.
Entramos no carro e ela, sentada na cadeirinha, parecia que ia para forca. Não chorou, só deixou a cabeça cair para o lado, com um ar de tristeza tão explícito, que não teve assunto que mudasse o semblante. Chegamos no colégio e ao estacionar o carro ela já me pediu para ir no colo até a porta da sala. Entrou, e sentou em uma cadeira, como se estivesse na sala de espera de um consultório médico, sem o menor entusiasmo.
Comentei com a professora, perguntei se tinha acontecido alguma coisa diferente, mas ela lembrou apenas de um episódio comum. Uma coleguinha havia levado um bichinho de pelúcia e a Sofia brincando, acabou por sujar de tinta o rabo do tal bicho. Foi repreendida e pediu desculpas, segundo o relato.
Chegando em casa à noite, sentei para conversar com ela. Disse que tinha falado com a “profi” e que ela tinha me dito do acontecido com a colega. Ela me disse que estava triste, porque a “aluninha” (é como ela chama) não a tinha desculpado. Expliquei que não tinha sido nada, que era assim mesmo, comum nas escolas e que ela não precisava se sentir culpada. E ela me retribui:
- Mas mamãe, não é só isso, as "aluninhas" nunca brincam comigo!
Ah, a coisa começava a encrespar e eu já estava pedindo ajuda para os universitários. Daí ela começou a relatar um rosário de situações corriqueiras, e em todas o que pude perceber é que minha princesinha estava se sentindo diferente do todo. Rejeitada para ser mais literal.
Uma vez uma colega disse que a mochila dela era velha. A verdade é que na sala (e acho que em 98,8% do colégio) todas crianças arrastam uma mochila de rodinhas. A dela é uma laranja e marinho, que ganhou no final de ano como presente da empresa pelo pai ser funcionário da RBS. Achei ótima, porque é bem das cores do uniforme e cabe a merendeira com o lanchinho, na medida. O outro lamento foi porque a outra colega disse que o tênis dela era velho. Na verdade é um tênis lindo, mas como moramos para fora, tem cara de quem usa mesmo, com as marcas do dia a dia. E assim foram várias situações que para nossa cabeça podem ser mínimas, mas que no universo infantil e sua “sinceridade”, podem virar um problema.
Percebi que até a minha involuntária idéia criativa de mãe, tinha sido um desastre logo no começo das aulas. Deixa eu contar. Seguinte, era para todos irem fantasiados de algum personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo, uma atividade alusiva ao dia do livro, eu acho. O caso foi que quando me dei conta que a maioria das crianças iriam alugar fantasia, já era tarde demais. Não tinha nada disponível. Então lembrei que a roupa da Tia Anastácia era super fácil de fazer e preparei a Sofia com um vestidinho mimoso, avental, lencinho no cabelo, coloquei base no rosto e como adereço uma colher de pau, finalizando as características de uma das personagens mais amáveis de Monteiro Lobato. Levamos ela pela mão, o Nauro e eu, bem faceiros e orgulhosos da nossa Tia Anastácia. Tiramos foto na sala de aula, mas percebemos que ela estava um pouco tímida, fora do seu estado natural de alegria. Quando fui buscá-la mais tarde, entrou no carro e me disse:
- Mamãe, na próxima vez que quero ir de Narizinho, tá? Todo mundo riu de mim.
Hoje, depois dos últimos relatos, percebo que aquele deve ter sido um dia difícil para Sofia. Ser diferente não é fácil. E o universo infantil é permeado de uma sinceridade muitas vezes cruel. Me dei conta que a Sofia tinha chegado de peito aberto para um mundo novo. E da mesma forma que ainda não tinha anticorpos para as gripes cotidianas da escola, não possuía os antídotos para situações como as que o convívio social nos expõem. Ela foi criada aprendendo que sempre que se errava era preciso pedir desculpas, e que ouviríamos “não foi nada”, do outro lado. Da mesma forma, era preciso agradecer quando alguém nos fazia uma gentileza. E assim por diante, com as famosas “palavrinhas mágicas que abrem as portas do mundo”, como sempre brincávamos em casa.
A verdade é que o mundo não tem mais essas regras como essenciais, e muitas vezes usá-las pode parecer diferente. E assim seguem as situações da mochila, do tênis, da Tia Anastácia...e muitas outras que estarão por vir. Minha cabeça ainda está confusa. Mas depois de uma semana e meia em que a cena do “não querer ir ao colégio” se repetia, sexta-feira minha mãe por sua conta achou uma saída.
Eu estava atucanada com uma pauta e ela foi buscar a Sofia em casa para levá-la ao colégio. Antes disso, passaram no centro e a Sofia escolheu uma mochila de rodinhas, rosa, flamante. A mãe contou que chegaram no estacionamento e ela já zarpou do carro caminhando, sem pedir colo. Empunhou sua mochila de rodinhas e adentrou poderos às dependências do colégio. Como se fosse o Superman recém saído de Kripta. Com um ar de alegria voltando a aparecer, deu um beijo de tchau na avó e seguiu a rotina.
A mãe ligou na mesma hora para contar a novidade. Aquele relato me deu um misto de felicidade e tristeza. Sei que esse é apenas o primeiro passo. Daqui pra frente mundo será assim mesmo. Preciso me preparar para enfrentá-lo da melhor forma. Mas me dei conta que no primeiro round fui nocauteada pela mochila de rodinhas!
Qual será o próximo desafio?
- Mamãe, eu não quero ir para o colégio!
Eu achei estranho, mas pensei que fosse alguma coisa daquele dia. Vai ver que está cansadinha, com dor de barriga, qualquer coisa assim. Então prossegui o diálogo:
- Mas por que meu amor, tu que gostas tanto do colégio. O que houve?
Ela se abraçou no meu pescoço e aninhada respondeu:
- Mamãe, eu nunca mais quero ir para o colégio!
Como assim? Pirei na batatinha. Ela não precisou de adaptação. No primeiro dia de aula abanou para nós dois, que tentávamos disfarçar as lágrimas, e seguiu adiante cheia de si. Acordava sábado querendo saber que dia seria segunda-feira, enfim, nada poderia explicar. De um minuto para o outro, meu mundo desabou. E pela frase alguma coisa muito séria tinha acontecido para aquela frase vir tão cheia de certezas.
Busquei nos meus arquivos de mãe o tal manual de crises, mas o capítulo "adaptação na escola" só tinha dicas para crianças com dificuldade para ficar nos primeiros dias. Então fui pela lógica, e imaginei que a melhor coisa naquele momento era levá-la ao colégio mesmo assim. Tentei não valorizar o assunto. Disse que eu também não tinha vontade de trabalhar muitos dias, mas que a vida é assim mesmo. Uns dias com vontade, outros sem, mas o negócio era seguir em frente.
Entramos no carro e ela, sentada na cadeirinha, parecia que ia para forca. Não chorou, só deixou a cabeça cair para o lado, com um ar de tristeza tão explícito, que não teve assunto que mudasse o semblante. Chegamos no colégio e ao estacionar o carro ela já me pediu para ir no colo até a porta da sala. Entrou, e sentou em uma cadeira, como se estivesse na sala de espera de um consultório médico, sem o menor entusiasmo.
Comentei com a professora, perguntei se tinha acontecido alguma coisa diferente, mas ela lembrou apenas de um episódio comum. Uma coleguinha havia levado um bichinho de pelúcia e a Sofia brincando, acabou por sujar de tinta o rabo do tal bicho. Foi repreendida e pediu desculpas, segundo o relato.
Chegando em casa à noite, sentei para conversar com ela. Disse que tinha falado com a “profi” e que ela tinha me dito do acontecido com a colega. Ela me disse que estava triste, porque a “aluninha” (é como ela chama) não a tinha desculpado. Expliquei que não tinha sido nada, que era assim mesmo, comum nas escolas e que ela não precisava se sentir culpada. E ela me retribui:
- Mas mamãe, não é só isso, as "aluninhas" nunca brincam comigo!
Ah, a coisa começava a encrespar e eu já estava pedindo ajuda para os universitários. Daí ela começou a relatar um rosário de situações corriqueiras, e em todas o que pude perceber é que minha princesinha estava se sentindo diferente do todo. Rejeitada para ser mais literal.
Uma vez uma colega disse que a mochila dela era velha. A verdade é que na sala (e acho que em 98,8% do colégio) todas crianças arrastam uma mochila de rodinhas. A dela é uma laranja e marinho, que ganhou no final de ano como presente da empresa pelo pai ser funcionário da RBS. Achei ótima, porque é bem das cores do uniforme e cabe a merendeira com o lanchinho, na medida. O outro lamento foi porque a outra colega disse que o tênis dela era velho. Na verdade é um tênis lindo, mas como moramos para fora, tem cara de quem usa mesmo, com as marcas do dia a dia. E assim foram várias situações que para nossa cabeça podem ser mínimas, mas que no universo infantil e sua “sinceridade”, podem virar um problema.
Percebi que até a minha involuntária idéia criativa de mãe, tinha sido um desastre logo no começo das aulas. Deixa eu contar. Seguinte, era para todos irem fantasiados de algum personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo, uma atividade alusiva ao dia do livro, eu acho. O caso foi que quando me dei conta que a maioria das crianças iriam alugar fantasia, já era tarde demais. Não tinha nada disponível. Então lembrei que a roupa da Tia Anastácia era super fácil de fazer e preparei a Sofia com um vestidinho mimoso, avental, lencinho no cabelo, coloquei base no rosto e como adereço uma colher de pau, finalizando as características de uma das personagens mais amáveis de Monteiro Lobato. Levamos ela pela mão, o Nauro e eu, bem faceiros e orgulhosos da nossa Tia Anastácia. Tiramos foto na sala de aula, mas percebemos que ela estava um pouco tímida, fora do seu estado natural de alegria. Quando fui buscá-la mais tarde, entrou no carro e me disse:
- Mamãe, na próxima vez que quero ir de Narizinho, tá? Todo mundo riu de mim.
Hoje, depois dos últimos relatos, percebo que aquele deve ter sido um dia difícil para Sofia. Ser diferente não é fácil. E o universo infantil é permeado de uma sinceridade muitas vezes cruel. Me dei conta que a Sofia tinha chegado de peito aberto para um mundo novo. E da mesma forma que ainda não tinha anticorpos para as gripes cotidianas da escola, não possuía os antídotos para situações como as que o convívio social nos expõem. Ela foi criada aprendendo que sempre que se errava era preciso pedir desculpas, e que ouviríamos “não foi nada”, do outro lado. Da mesma forma, era preciso agradecer quando alguém nos fazia uma gentileza. E assim por diante, com as famosas “palavrinhas mágicas que abrem as portas do mundo”, como sempre brincávamos em casa.
A verdade é que o mundo não tem mais essas regras como essenciais, e muitas vezes usá-las pode parecer diferente. E assim seguem as situações da mochila, do tênis, da Tia Anastácia...e muitas outras que estarão por vir. Minha cabeça ainda está confusa. Mas depois de uma semana e meia em que a cena do “não querer ir ao colégio” se repetia, sexta-feira minha mãe por sua conta achou uma saída.
Eu estava atucanada com uma pauta e ela foi buscar a Sofia em casa para levá-la ao colégio. Antes disso, passaram no centro e a Sofia escolheu uma mochila de rodinhas, rosa, flamante. A mãe contou que chegaram no estacionamento e ela já zarpou do carro caminhando, sem pedir colo. Empunhou sua mochila de rodinhas e adentrou poderos às dependências do colégio. Como se fosse o Superman recém saído de Kripta. Com um ar de alegria voltando a aparecer, deu um beijo de tchau na avó e seguiu a rotina.
A mãe ligou na mesma hora para contar a novidade. Aquele relato me deu um misto de felicidade e tristeza. Sei que esse é apenas o primeiro passo. Daqui pra frente mundo será assim mesmo. Preciso me preparar para enfrentá-lo da melhor forma. Mas me dei conta que no primeiro round fui nocauteada pela mochila de rodinhas!
Qual será o próximo desafio?
quarta-feira, 12 de maio de 2010
A paineira
A fase introspectiva tem seu lado bom. Sem querer nos perdemos em pensamentos nostálgicos, no meio da tarde, como se voando para um pedaço bom do tempo. E isso na maioria das vezes, é uma delícia.
Então essa semana, entre uma coisa e outra, me peguei com saudades da minhas avó. Pois é, eu sempre fui muito apegada as minhas duas avós.
A Nóris, mãe do meu pai, morou toda vida conosco. Sempre a chamei de Chochó, um apelido inventado aos dois anos, que virou marca registrada da nossa relação. Ela foi morar na charqueada conosco quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Na véspera do meu nascimento, eles ficaram sabendo que meu avô Rafael estava com leucemia, e que tinha pouco tempo de vida. Como moravam na cidade, em uma casa com escadas, optaram por passar aquele último momento perto do arroio, com o ar do campo, na casa que simbolizava tanto para aquele casal (essa é outra linda história!). E foi assim que eu vim ao mundo, em um momento delicado da vida da minha avó, mas que como sempre, ela encarou de peito aberto. A sentença dos seis meses de vida, acabou durando dois anos, e nesse tempo soube que minha presença infantil foi de grande valia para as despedidas do meu avô, a quem intitulei obviamente de Chochô.
Minha avó era uma mulher muito especial. Fora a beleza física, inquestionável, tinha um certo magnetismo naqueles olhos cor de esmeralda. Era uma mulher de hoje nos dias de ontem. Ficou viúva muito jovem. Não sei se tinha 50 anos quando perdeu o amor da sua vida. Mas depois do tempo de luto, sacudiu a poeira e deu a volta por cima.
Ela sempre contava da viagem que fez à Bahia, quando tentava se reerguer e digerir a dor da perda. Ela que sempre amou o mar, foi de navio, e pelo que contava o tempo de viagem foi importante para afogar suas dores nas águas do oceano. Chegando lá foi ao centro da Mãe Meninha do Cantuá. Ela conta que a sala de espera estava lotada de gente, de todos os cantos. Ela já sem esperança de ser atendida, mas nem pensava em desistir. Eis que surge uma mulher de branco e a pega pela mão, levando diretamente ao encontro da Mãe Menininha. Foi um momento de tanta emoção, que foi um marco. A vida precisava seguir sem meu avô, e aquele dia ela entendeu que ainda tinha muito o que fazer nas bandas de cá. Daquele dia em diante ela voltou a sorrir, e espalhar aquela cor dourada por onde passava.
A Chochó tinha tantas histórias incríveis, que eu deveria fazer como a minha amiga Dê sugeriu, escrever um livro sobre essa mulher.
Nós tínhamos um vizinho chamado Donald Marshall, que trocou a Argentina pelo Brasil, e se instalou em uma bela casa vizinha à charqueada. Então ela levou uma muda de paineira para dar boas vindas e desejar que encontrasse muita felicidade naquela nova terra. Plantaram juntos aquela semente, nos idos anos 60 eu acho. A gentileza foi retribuída, e ele deu uma muda de paineira para ela plantar na porteira da nossa casa. Os anos passaram, as árvores cresceram e os dois se foram para outros jardins.
Mas não é que o script dividno está sempre no ponto e o mundo depois de dar voltas, fez com que eu acabasse voltando para esse canto de terra que tanto amo. Nossa casa fica vizinha a do filho do Donald, o Diego, de quem o Nauro comprou o terreno.
Dia desses acordei, e o Nauro em chamou para ver uma coisa no alpendre. Apontou para copa da paineira do vizinho, toda florida. Lembrou que aquela árvore tinha sido plantada pela minha avó, como presente de boas vindas ao pai do nosso vizinho. Me emocionei!
A gente tem tesouros guardados na memória, que tempo algum pode apagar. Assim como a força das paineiras no outono. E foi assim que mudei minha cara naquela manhã. Olhando aquela copa de árvore, colorida e imponente. Impondo alegria naquela manhã cinza. E tenho certeza que naquele momento abracei minha Chochó, e matei um pouco dessa saudade!
Então essa semana, entre uma coisa e outra, me peguei com saudades da minhas avó. Pois é, eu sempre fui muito apegada as minhas duas avós.
A Nóris, mãe do meu pai, morou toda vida conosco. Sempre a chamei de Chochó, um apelido inventado aos dois anos, que virou marca registrada da nossa relação. Ela foi morar na charqueada conosco quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Na véspera do meu nascimento, eles ficaram sabendo que meu avô Rafael estava com leucemia, e que tinha pouco tempo de vida. Como moravam na cidade, em uma casa com escadas, optaram por passar aquele último momento perto do arroio, com o ar do campo, na casa que simbolizava tanto para aquele casal (essa é outra linda história!). E foi assim que eu vim ao mundo, em um momento delicado da vida da minha avó, mas que como sempre, ela encarou de peito aberto. A sentença dos seis meses de vida, acabou durando dois anos, e nesse tempo soube que minha presença infantil foi de grande valia para as despedidas do meu avô, a quem intitulei obviamente de Chochô.
Minha avó era uma mulher muito especial. Fora a beleza física, inquestionável, tinha um certo magnetismo naqueles olhos cor de esmeralda. Era uma mulher de hoje nos dias de ontem. Ficou viúva muito jovem. Não sei se tinha 50 anos quando perdeu o amor da sua vida. Mas depois do tempo de luto, sacudiu a poeira e deu a volta por cima.
Ela sempre contava da viagem que fez à Bahia, quando tentava se reerguer e digerir a dor da perda. Ela que sempre amou o mar, foi de navio, e pelo que contava o tempo de viagem foi importante para afogar suas dores nas águas do oceano. Chegando lá foi ao centro da Mãe Meninha do Cantuá. Ela conta que a sala de espera estava lotada de gente, de todos os cantos. Ela já sem esperança de ser atendida, mas nem pensava em desistir. Eis que surge uma mulher de branco e a pega pela mão, levando diretamente ao encontro da Mãe Menininha. Foi um momento de tanta emoção, que foi um marco. A vida precisava seguir sem meu avô, e aquele dia ela entendeu que ainda tinha muito o que fazer nas bandas de cá. Daquele dia em diante ela voltou a sorrir, e espalhar aquela cor dourada por onde passava.
A Chochó tinha tantas histórias incríveis, que eu deveria fazer como a minha amiga Dê sugeriu, escrever um livro sobre essa mulher.
Nós tínhamos um vizinho chamado Donald Marshall, que trocou a Argentina pelo Brasil, e se instalou em uma bela casa vizinha à charqueada. Então ela levou uma muda de paineira para dar boas vindas e desejar que encontrasse muita felicidade naquela nova terra. Plantaram juntos aquela semente, nos idos anos 60 eu acho. A gentileza foi retribuída, e ele deu uma muda de paineira para ela plantar na porteira da nossa casa. Os anos passaram, as árvores cresceram e os dois se foram para outros jardins.
Mas não é que o script dividno está sempre no ponto e o mundo depois de dar voltas, fez com que eu acabasse voltando para esse canto de terra que tanto amo. Nossa casa fica vizinha a do filho do Donald, o Diego, de quem o Nauro comprou o terreno.
Dia desses acordei, e o Nauro em chamou para ver uma coisa no alpendre. Apontou para copa da paineira do vizinho, toda florida. Lembrou que aquela árvore tinha sido plantada pela minha avó, como presente de boas vindas ao pai do nosso vizinho. Me emocionei!
A gente tem tesouros guardados na memória, que tempo algum pode apagar. Assim como a força das paineiras no outono. E foi assim que mudei minha cara naquela manhã. Olhando aquela copa de árvore, colorida e imponente. Impondo alegria naquela manhã cinza. E tenho certeza que naquele momento abracei minha Chochó, e matei um pouco dessa saudade!
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Talvez
Há algum tempo tenho pensado em mudar radicalmente o rumo das coisas. Por enquanto não passam de pensamentos soltos, no meio de dias cansados. A rotina de um trabalhador autônomo parece linda naqueles livros de auto-ajuda americanos. Eles trabalham em casa, tem escritórios modernos, usam roupas super relax e estão sempre com aquela cara de ócio criativo, com um óculos na ponta do nariz.
Mas a vida real não é bem assim. Desde que abri minha empresa, há quatro anos, soube que era a decisão mais acertada para as circunstâncias. Estar ao lado da Sofia durante esse tempo, foi de um valor imensurável. Neste período a minha pequena agência ganhou espaço e hoje as coisas vão de vento em popa. Clientes ótimos, bons âncoras, rotatividade de assuntos, ou seja, muito mais do que eu planejei para esse capítulo da minha vida profissional.
Nos últimos dias tenho pensado em trocar de profissão, de rotina, de estilo, sei lá... menos de marido (que fique claro!!!). Pensei se não era melhor ter uma lojinha, aprender a cozinhar, vender joias, entrar pro budismo, rapar a cabeça, estudar japonês, sei lá o que mais...
Acho que estou na crise pós-colégio da Sofia.
A verdade é que agora tenho mais tempo pra me olhar. Tenho trabalhado cada vez mais, como se fosse um cachorro correndo atrás do rabo. Me sinto presa dentro de um castelo construído pelas minhas listinhas de compromissos. A empresa cresceu, mas o que sinto com tudo isso é uma angústia cada vez maior. Medo frente a responsabilidade que tenho, com os contratos e prazos à cumprir, o clipping pra fazer, o texto para criar, a matéria pra enviar, a nota para postar, e assim caminha a minha rotina.
Estou com saudades de não ter peso nos ombros, dor na coluna, hora pra acordar, almoçar, dormir. Saudades de passar as tardes comigo mesma. Olhar mais de perto aquelas unhas deixadas por fazer, ou o cabelo sem um reflexo dourado há meses. Quero olhar pra dentro de mim e reencontrar minha fé inabalável, que já removeu montanhas.
Enfim, me dei de cara comigo mesmo. E quando isso aconteceu vi que preciso ser mais minha amiga. Cuidar um pouco mais do meu cotidiano. Ir ao cinema com meu marido, jantar fora de vez em quando, tomar um vinho e ficar meio grogue, dormir até tarde numa quinta-feira, dedicar uma tarde para o cabeleireiro, sei lá o que mais.
Fazer coisas que me façam sentir prazer. Abolir a eterna sensação de estar cumprindo deveres, de estar em dívida. Eu sei que esse não é o assunto mais emocionante para um blog. Mas se é pra ser divã-virtual, os meus psiquiatras-leitores vão ter que fazer hora-extra hoje. Talvez seja apenas uma crise de “meia-idade”. Talvez seja a nostalgia que traz o cinza do inverno. Talvez seja a tosse da Sofia que não dá trégua nos últimos dias.
Talvez, talvez, talvez...
Talvez seja eu que tenha me perdido de mim mesma, e queira achar àquela Gabi livre, leve e solta que eu fui um dia.
Alguém viu ela por aí?
Mas a vida real não é bem assim. Desde que abri minha empresa, há quatro anos, soube que era a decisão mais acertada para as circunstâncias. Estar ao lado da Sofia durante esse tempo, foi de um valor imensurável. Neste período a minha pequena agência ganhou espaço e hoje as coisas vão de vento em popa. Clientes ótimos, bons âncoras, rotatividade de assuntos, ou seja, muito mais do que eu planejei para esse capítulo da minha vida profissional.
Nos últimos dias tenho pensado em trocar de profissão, de rotina, de estilo, sei lá... menos de marido (que fique claro!!!). Pensei se não era melhor ter uma lojinha, aprender a cozinhar, vender joias, entrar pro budismo, rapar a cabeça, estudar japonês, sei lá o que mais...
Acho que estou na crise pós-colégio da Sofia.
A verdade é que agora tenho mais tempo pra me olhar. Tenho trabalhado cada vez mais, como se fosse um cachorro correndo atrás do rabo. Me sinto presa dentro de um castelo construído pelas minhas listinhas de compromissos. A empresa cresceu, mas o que sinto com tudo isso é uma angústia cada vez maior. Medo frente a responsabilidade que tenho, com os contratos e prazos à cumprir, o clipping pra fazer, o texto para criar, a matéria pra enviar, a nota para postar, e assim caminha a minha rotina.
Estou com saudades de não ter peso nos ombros, dor na coluna, hora pra acordar, almoçar, dormir. Saudades de passar as tardes comigo mesma. Olhar mais de perto aquelas unhas deixadas por fazer, ou o cabelo sem um reflexo dourado há meses. Quero olhar pra dentro de mim e reencontrar minha fé inabalável, que já removeu montanhas.
Enfim, me dei de cara comigo mesmo. E quando isso aconteceu vi que preciso ser mais minha amiga. Cuidar um pouco mais do meu cotidiano. Ir ao cinema com meu marido, jantar fora de vez em quando, tomar um vinho e ficar meio grogue, dormir até tarde numa quinta-feira, dedicar uma tarde para o cabeleireiro, sei lá o que mais.
Fazer coisas que me façam sentir prazer. Abolir a eterna sensação de estar cumprindo deveres, de estar em dívida. Eu sei que esse não é o assunto mais emocionante para um blog. Mas se é pra ser divã-virtual, os meus psiquiatras-leitores vão ter que fazer hora-extra hoje. Talvez seja apenas uma crise de “meia-idade”. Talvez seja a nostalgia que traz o cinza do inverno. Talvez seja a tosse da Sofia que não dá trégua nos últimos dias.
Talvez, talvez, talvez...
Talvez seja eu que tenha me perdido de mim mesma, e queira achar àquela Gabi livre, leve e solta que eu fui um dia.
Alguém viu ela por aí?
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Não tem preço
Ontem estivemos em Porto Alegre com a Sofia, para consulta com o especialista que acompanha o caso dela desde os primórdios. Ela estava feliz da vida com a viagem à capital. A guria é cosmopolita, como diz o pai dela. Adora um saracoteio e no alto de seus quatro anos já tinha feito um cronograma de viagem de dar inveja aos guias de mochileiros.
Mas voltando a vaca fria. As nossas idas ao Dr. Fischer sempre foram envoltas de uma certa tensão. A primeira delas foi no final de 2005. Ela tinha uns cinco ou seis meses e depois da saga da UTI seguimos para capital para avaliar com o melhor pneumologista do país, o que havia restado do pulmão direito danossa filha. Com semblante fechado, bem diferente do estilo carinhoso do Dr. Flávio, com quem estávamos acostumados aqui, encontramos um estudioso que se interessou em pesquisar um caso raro da medicina. Naquela época ficamos dias com ela internada no Hospital Santo Antônio, e ele e sua equipe fizeram exames de última geração para chegar a um diagnóstico final. Lembro como se fosse hoje do dia em que ele entrou no quarto do hospital, nos descreveu cada detalhe técnico da doença e disse.
- Pronto, agora retomem as rédeas de vida de vocês!
Simples assim. Com esse conselho voltamos para Pelotas e começamos uma adaptação, procurando sempre proporcionar o máximo de normalidade à rotina da Sofia. Trocamos a enfermeira por uma babá, organizamos uma fisioterapeuta para vir em casa, fomos morar na nossa casinha para fora, cheia de ar puro. Depois disso seguimos com consultas rotineiras ao Dr. Fischer, com o grupo de estudos dele sempre acompanhando o caso. Mas a cada bateria de exames era como reviver nossas dores. Lembro da última ida, há cerca de dois anos, quando fomos fazer uns exames mais delicados.
Combinamos com ela um passeio, que iríamos ao shopping, nos hospedamos em um hotel e ao final fomos para o hospital fazer o tal exame. Na hora em que colocaram o sedativo, o famoso “cheirinho” para iniciar a anestesia geral, ela entrou em pânico. Nunca vou esquecer aqueles olhinhos pedindo socorro. E eu arrasada, me sentindo cúmplice de um plano malvado, que começava com diversão e acabava como sempre, em um hospital. Sentei na sala de espera e chorei muitos baldes de lágrimas, amparada pelo ombro do Nauro.
Então depois dessa ida à capital, eu me fiz de boba e não retornei mais para os exames de rotina. Errado eu sei, mas eu tentava de alguma forma me concentrar em uma qualidade de vida boa para fazê-la crescer e ficar forte. Pedi demissão do emprego, abri minha própria empresa e me dediquei a estar ao lado dela. Vê-la de perto e dar todo suporte necessário foi meu objetivo nesses quatro anos.
Até que este ano a nossa mimosa foi para o colégio e como já era previsto o Dr. Flávio nos pediu uma tomografia com contraste, do pulmão afetado. Eu protelei o que pude, até que decidi que faria o exame em Porto Alegre, porque como na última vez foi preciso entubá-la, teríamos mais suporte lá.
Marquei a tal consulta para o Dr. Fischer, para que ele conduzisse a internação e acompanhasse tudo. E ontem finalmente chegou o dia de revê-lo depois de nosso sumiço.
Nossa consulta, marcada para às 16h, era a primeira da agenda. Enquanto aguardávamos na sala de espera, ele entrou rapidamente para colocar uns peixes novos, que havia comprado, no aquário que fica na recepção. Olhou pelo vidro aquela criança fascinada pelos peixinhos, e conversou alguma coisa, mas não me viu.
Passados alguns minutos, a secretária nos mandou passarmos para consulta. A Sofia foi na frente e eu e minha mãe logo atrás. Quando ele me viu, retornou o olhar para ela e parou alguns segundos no rostinho daquela sapeca sorridente. Buscou ar e disse:
- Eu não acredito que essa é a Sofia!?
No rosto sério daquele que é considerado um dos maiores especialistas em casos raros da medicina na área da pneumologia, vi um misto de incredulidade e satisfação. Discreto como sempre, começou a avaliar os exames que levamos e a fazer algumas perguntas. Examinou a “paciente” e depois me disse que é impressionante o resultado, já que a maioria das crianças com hiplopasia pulmonar não crescem ou se desenvolvem. Tentei esconder minha emoção na hora, mas acho que não consegui.
Cada minuto da nossa rotina, me dedico para que a qualidade de vida da Sofia seja boa. Para que ela seja uma criança como as outras, que não se sinta diferente, que tenha convívio com os amiguinhos, enfim, que se sinta feliz com a vida que tem. Nossa maior preocupação sempre foi ela não achasse que a vida eram agulhas, injeções, dores, remédios, fisioterapia, exames, cheiro de hospital, gente de branco, enfim...Todos os médicos que já a viram por dentro, se surpreendem como ela é por fora.
Por isso, aquele olhar de admiração, vindo de alguém que estuda casos raros da medicina, foi um presente de Dia das Mães.
O melhor de todos os presentes a vida já me deu, e o Papai do Céu foi generoso em caprichar nesse anjo especial, com quem tenho o privilégio de aprender a cada dia. Mas uma coisa eu tenho erteza...
Mega-sena, viagem pelo Caribe, banho de loja, carro novo...para tudo isso existe o tal do Credicard.
Mas um olhar de admiração do Dr. Fischer....ahhhh, isso não tem preço!
Mas voltando a vaca fria. As nossas idas ao Dr. Fischer sempre foram envoltas de uma certa tensão. A primeira delas foi no final de 2005. Ela tinha uns cinco ou seis meses e depois da saga da UTI seguimos para capital para avaliar com o melhor pneumologista do país, o que havia restado do pulmão direito danossa filha. Com semblante fechado, bem diferente do estilo carinhoso do Dr. Flávio, com quem estávamos acostumados aqui, encontramos um estudioso que se interessou em pesquisar um caso raro da medicina. Naquela época ficamos dias com ela internada no Hospital Santo Antônio, e ele e sua equipe fizeram exames de última geração para chegar a um diagnóstico final. Lembro como se fosse hoje do dia em que ele entrou no quarto do hospital, nos descreveu cada detalhe técnico da doença e disse.
- Pronto, agora retomem as rédeas de vida de vocês!
Simples assim. Com esse conselho voltamos para Pelotas e começamos uma adaptação, procurando sempre proporcionar o máximo de normalidade à rotina da Sofia. Trocamos a enfermeira por uma babá, organizamos uma fisioterapeuta para vir em casa, fomos morar na nossa casinha para fora, cheia de ar puro. Depois disso seguimos com consultas rotineiras ao Dr. Fischer, com o grupo de estudos dele sempre acompanhando o caso. Mas a cada bateria de exames era como reviver nossas dores. Lembro da última ida, há cerca de dois anos, quando fomos fazer uns exames mais delicados.
Combinamos com ela um passeio, que iríamos ao shopping, nos hospedamos em um hotel e ao final fomos para o hospital fazer o tal exame. Na hora em que colocaram o sedativo, o famoso “cheirinho” para iniciar a anestesia geral, ela entrou em pânico. Nunca vou esquecer aqueles olhinhos pedindo socorro. E eu arrasada, me sentindo cúmplice de um plano malvado, que começava com diversão e acabava como sempre, em um hospital. Sentei na sala de espera e chorei muitos baldes de lágrimas, amparada pelo ombro do Nauro.
Então depois dessa ida à capital, eu me fiz de boba e não retornei mais para os exames de rotina. Errado eu sei, mas eu tentava de alguma forma me concentrar em uma qualidade de vida boa para fazê-la crescer e ficar forte. Pedi demissão do emprego, abri minha própria empresa e me dediquei a estar ao lado dela. Vê-la de perto e dar todo suporte necessário foi meu objetivo nesses quatro anos.
Até que este ano a nossa mimosa foi para o colégio e como já era previsto o Dr. Flávio nos pediu uma tomografia com contraste, do pulmão afetado. Eu protelei o que pude, até que decidi que faria o exame em Porto Alegre, porque como na última vez foi preciso entubá-la, teríamos mais suporte lá.
Marquei a tal consulta para o Dr. Fischer, para que ele conduzisse a internação e acompanhasse tudo. E ontem finalmente chegou o dia de revê-lo depois de nosso sumiço.
Nossa consulta, marcada para às 16h, era a primeira da agenda. Enquanto aguardávamos na sala de espera, ele entrou rapidamente para colocar uns peixes novos, que havia comprado, no aquário que fica na recepção. Olhou pelo vidro aquela criança fascinada pelos peixinhos, e conversou alguma coisa, mas não me viu.
Passados alguns minutos, a secretária nos mandou passarmos para consulta. A Sofia foi na frente e eu e minha mãe logo atrás. Quando ele me viu, retornou o olhar para ela e parou alguns segundos no rostinho daquela sapeca sorridente. Buscou ar e disse:
- Eu não acredito que essa é a Sofia!?
No rosto sério daquele que é considerado um dos maiores especialistas em casos raros da medicina na área da pneumologia, vi um misto de incredulidade e satisfação. Discreto como sempre, começou a avaliar os exames que levamos e a fazer algumas perguntas. Examinou a “paciente” e depois me disse que é impressionante o resultado, já que a maioria das crianças com hiplopasia pulmonar não crescem ou se desenvolvem. Tentei esconder minha emoção na hora, mas acho que não consegui.
Cada minuto da nossa rotina, me dedico para que a qualidade de vida da Sofia seja boa. Para que ela seja uma criança como as outras, que não se sinta diferente, que tenha convívio com os amiguinhos, enfim, que se sinta feliz com a vida que tem. Nossa maior preocupação sempre foi ela não achasse que a vida eram agulhas, injeções, dores, remédios, fisioterapia, exames, cheiro de hospital, gente de branco, enfim...Todos os médicos que já a viram por dentro, se surpreendem como ela é por fora.
Por isso, aquele olhar de admiração, vindo de alguém que estuda casos raros da medicina, foi um presente de Dia das Mães.
O melhor de todos os presentes a vida já me deu, e o Papai do Céu foi generoso em caprichar nesse anjo especial, com quem tenho o privilégio de aprender a cada dia. Mas uma coisa eu tenho erteza...
Mega-sena, viagem pelo Caribe, banho de loja, carro novo...para tudo isso existe o tal do Credicard.
Mas um olhar de admiração do Dr. Fischer....ahhhh, isso não tem preço!
domingo, 2 de maio de 2010
Cassino
Ontem fomos ao Cassino para o casamento de uma velha e querida amiga minha. A Lílian e eu nos conhecemos nos idos anos de 80, quando éramos duas compridas desajeitas adolescentes, desfilando pela avenida principal, em meio a uma turma de amigas “petiças”. Foi em um verão de 1982, em plena pré-adolescência. Eu com 14 e ela com 13 anos. Acabamos nos aproximando exatamente por uma questão de “altitude”. Enquanto a turma de gurias desfilava sua estatura compatível com a idade, nós já éramos duas girafas que tinham passado dos 1,70m, como nossos pares de tênis tamanho 38. Imaginem, isso ainda em fase de crescimento, depois chegamos à índices ainda maiores!
Eu costumava veranear com minha querida avó Nóris, a quem eu sempre chamei carinhosamente de Chocho. Era sua companheira de aventura e quando chegava janeiro, nos mandávamos com a mala cheia de amor pelo verão. Nós duas sempre amamos uma praia, um belo bronzeado e aquele balneário, que guarda a maior praia do mundo em extensão. E foi lá que conheci essa amiga tão querida. Depois desse primeiro verão, em que nos olhamos pela primeira vez, nunca mais nos perdemos de vista. Ela morava em Porto Alegre, mas seu pai era pelotense e a família da mãe de Rio Grande. Então os laços afetivos estavam todos pelas redondezas e a nossa amizade foi mais um deles.
Lembro que quando voltamos para nossas casas e retomamos a rotina escolar, continuamos a amizade através de cartas. Nossas correspondência sempre foram originais, e até fitas cassetes vendidas pelos Correios na época usávamos. Era uma curtição e assim foi durante longos anos. Temos todas guardadas e combinamos de um dia escrever um livro dessa história, só através das trocas de confidências.
A Lílian sempre foi do mundo. Lembro que com 17 anos se tocou pra San Diego sozinha. Atinada como só ela, estudava japonês, em uma época em que mal se falava em saber inglês. Formou-se em Oceanologia e Direito ao mesmo tempo, e depois disso rodou o mundo novamente. Morou na Escócia, voltou para o Brasil, retornou para Itália e um dia decidiu largar âncora no Cassino. Foi lá que ela sempre recarregou suas energias. E foi lá que conheceu seu amor. Uma pessoa que é a cara Del, o Renato, ou Gordinho. Os dois tem o mesmo amor cativo pelo Cassino.
E a festa de ontem foi exatamente a cara deles. Em uma casa da tia da Lílian chamada “Vila Avozinha”, um lugar que durante os meses de verão sempre era alugada para estudantes de Oceanologia. Como os detalhes do destino são sempre precisos, o Renato morou por longos anos lá. Então a festa era assim, cheia de simbolismo e de uma simplicidade encantadora. A cerimônia foi nos desse lugar tão representativo, com jardins emoldurados por árvores centenárias e iluminado por tochas e velas. A Lílian, sempre linda, estava com um vestido cor de uva, e uma flor branca no cabelo. Estava exalando felicidade. O buquê foi feito por ele, com astromélias e folhas de louro. Nas badejas além de espumante, os garçons ofereciam uma cachacinha de butiá feita pelo noivo, curtida há dois anos. Para finalizar os bem-casados feitos em casa, de uma velha receita familiar.
Fiquei emocionada com o que vi e senti. E tenho certeza de que a minha querida amiga vai ser muito feliz no seu canto especial desse mundo. O lugar para onde ela sempre voltou. Tenho certeza de que todos nós temos o nosso canto preferido nesse mundo e é lá que está escondido o pote de ouro no final do arco-íris. É o canto que nos encanta!
Vida longa a esse amor!
Eu costumava veranear com minha querida avó Nóris, a quem eu sempre chamei carinhosamente de Chocho. Era sua companheira de aventura e quando chegava janeiro, nos mandávamos com a mala cheia de amor pelo verão. Nós duas sempre amamos uma praia, um belo bronzeado e aquele balneário, que guarda a maior praia do mundo em extensão. E foi lá que conheci essa amiga tão querida. Depois desse primeiro verão, em que nos olhamos pela primeira vez, nunca mais nos perdemos de vista. Ela morava em Porto Alegre, mas seu pai era pelotense e a família da mãe de Rio Grande. Então os laços afetivos estavam todos pelas redondezas e a nossa amizade foi mais um deles.
Lembro que quando voltamos para nossas casas e retomamos a rotina escolar, continuamos a amizade através de cartas. Nossas correspondência sempre foram originais, e até fitas cassetes vendidas pelos Correios na época usávamos. Era uma curtição e assim foi durante longos anos. Temos todas guardadas e combinamos de um dia escrever um livro dessa história, só através das trocas de confidências.
A Lílian sempre foi do mundo. Lembro que com 17 anos se tocou pra San Diego sozinha. Atinada como só ela, estudava japonês, em uma época em que mal se falava em saber inglês. Formou-se em Oceanologia e Direito ao mesmo tempo, e depois disso rodou o mundo novamente. Morou na Escócia, voltou para o Brasil, retornou para Itália e um dia decidiu largar âncora no Cassino. Foi lá que ela sempre recarregou suas energias. E foi lá que conheceu seu amor. Uma pessoa que é a cara Del, o Renato, ou Gordinho. Os dois tem o mesmo amor cativo pelo Cassino.
E a festa de ontem foi exatamente a cara deles. Em uma casa da tia da Lílian chamada “Vila Avozinha”, um lugar que durante os meses de verão sempre era alugada para estudantes de Oceanologia. Como os detalhes do destino são sempre precisos, o Renato morou por longos anos lá. Então a festa era assim, cheia de simbolismo e de uma simplicidade encantadora. A cerimônia foi nos desse lugar tão representativo, com jardins emoldurados por árvores centenárias e iluminado por tochas e velas. A Lílian, sempre linda, estava com um vestido cor de uva, e uma flor branca no cabelo. Estava exalando felicidade. O buquê foi feito por ele, com astromélias e folhas de louro. Nas badejas além de espumante, os garçons ofereciam uma cachacinha de butiá feita pelo noivo, curtida há dois anos. Para finalizar os bem-casados feitos em casa, de uma velha receita familiar.
Fiquei emocionada com o que vi e senti. E tenho certeza de que a minha querida amiga vai ser muito feliz no seu canto especial desse mundo. O lugar para onde ela sempre voltou. Tenho certeza de que todos nós temos o nosso canto preferido nesse mundo e é lá que está escondido o pote de ouro no final do arco-íris. É o canto que nos encanta!
Vida longa a esse amor!
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Um colega meu
Quando éramos pequenas a Kiki (minha irmã) chegava em casa do colégio sempre contando um apanhado de novidades. Eram estórias mirabolantes, que aquela cabecinha infantil imaginava e descrevia com uma riqueza de detalhes singular. Mas nós, de casa, desconfiávamos que o personagem traquinas das estórias, era ela mesma. Só que quando resolvíamos perguntar quem tinha feito tamanha arte, ela arregalava aqueles olhos da cor do mar, e respondia séria:
- Foi um colega meu, ora!
A frase ficou célebre na infância e cruzou a adolescência como uma velha sátira. Muitas risadas foram dadas ao lembrarmos dessa tirada. Imaginem, ao melhor estilo "saindo pela tangente", e criada em plena década de 70.
Mas não é que o mundo gira, e quando menos esperamos “o colega meu” bate novamente à nossa porta?
Semana passada estávamos levando a Sofia no colégio, quando encontramos a mãe de um colega da Sofia. Era sexta-feira e ela perguntou o que achávamos de na saída da aula, Sofia ir direto para casa do Pedro, para brincarem juntos. Dessa vez fui eu quem arregalou os olhos e perguntei:
- Lorena, é a primeira vez que a Sofia vai brincar na casa de alguém, como funciona? Eu não sei nada do assunto ainda!!! A que horas eu busco, o que eu faço?!
Cena ridícula, eu sei. Mas era exatamente assim que eu me sentia: perdida. Trocamos celulares e combinamos que eu ligava mais tarde para buscá-la. Chegou perto da hora de terminar a aula, o meu piloto automático fez com que eu pegasse a chave do carro e me dirigisse à garagem. Foi aí que me liguei que não era para buscá-la, que ela estava na casa de “um colega meu”.
Naquele par de horas fiquei pensando tanta coisa. Imaginando que dali em diante as novidades iam ser cada vez mais intensas. Prazeres como esse, de estar na da casa dos amigos, cheios de autonomia, só iam somar à lista de programas da Sofia . Para mim, que sou uma manteiga derretida, tudo é motivo para crise, e naquelas duas horas de espera tive uma em versão fast food. Viajei tão longe, que cheguei a enxergar a Sofia e o Pedro colocando as mochilas no carro, e indo acampar no Uruguai. Nesse ponto não me contive, e liguei para Kiki me lamentando, em mais um momento pós-cordão umbilical. Ela riu de mim, e aproveitou para lembrar que de agora em diante a coisa só piora.
Legal Kiki, valeu!
Mal bateram às 20h e eu já estava à caminho, pegando o Nauro no jornal para irmos buscar a nossa Cinderela. Chegando na casa do Pedro, encontrei a Lorena e a Geórgia aos risos com as tiradas da duplinha. Eles se divertiram muito e obviamente a Sofia já queria combinar um novo encontro. Na saída, para amenizar a saudades do amigo, ela levou um brinquedo dele emprestado, para passar o final de semana com ela.
Adivinhem o que?
Nada mais simbólico do que o colorido castelo do Pedro. Tudo bem, eu me recupero. Mas o principal dessa história, é que a princesa volta para casa com o castelo do príncipe debaixo do braço, ao melhor estilo das fábulas modernas. E termina o dia são e salva, tomando uma mamadeira de leite com Nescau, no colo da sua mamãe!
Ufaaaaaa!!!!
- Foi um colega meu, ora!
A frase ficou célebre na infância e cruzou a adolescência como uma velha sátira. Muitas risadas foram dadas ao lembrarmos dessa tirada. Imaginem, ao melhor estilo "saindo pela tangente", e criada em plena década de 70.
Mas não é que o mundo gira, e quando menos esperamos “o colega meu” bate novamente à nossa porta?
Semana passada estávamos levando a Sofia no colégio, quando encontramos a mãe de um colega da Sofia. Era sexta-feira e ela perguntou o que achávamos de na saída da aula, Sofia ir direto para casa do Pedro, para brincarem juntos. Dessa vez fui eu quem arregalou os olhos e perguntei:
- Lorena, é a primeira vez que a Sofia vai brincar na casa de alguém, como funciona? Eu não sei nada do assunto ainda!!! A que horas eu busco, o que eu faço?!
Cena ridícula, eu sei. Mas era exatamente assim que eu me sentia: perdida. Trocamos celulares e combinamos que eu ligava mais tarde para buscá-la. Chegou perto da hora de terminar a aula, o meu piloto automático fez com que eu pegasse a chave do carro e me dirigisse à garagem. Foi aí que me liguei que não era para buscá-la, que ela estava na casa de “um colega meu”.
Naquele par de horas fiquei pensando tanta coisa. Imaginando que dali em diante as novidades iam ser cada vez mais intensas. Prazeres como esse, de estar na da casa dos amigos, cheios de autonomia, só iam somar à lista de programas da Sofia . Para mim, que sou uma manteiga derretida, tudo é motivo para crise, e naquelas duas horas de espera tive uma em versão fast food. Viajei tão longe, que cheguei a enxergar a Sofia e o Pedro colocando as mochilas no carro, e indo acampar no Uruguai. Nesse ponto não me contive, e liguei para Kiki me lamentando, em mais um momento pós-cordão umbilical. Ela riu de mim, e aproveitou para lembrar que de agora em diante a coisa só piora.
Legal Kiki, valeu!
Mal bateram às 20h e eu já estava à caminho, pegando o Nauro no jornal para irmos buscar a nossa Cinderela. Chegando na casa do Pedro, encontrei a Lorena e a Geórgia aos risos com as tiradas da duplinha. Eles se divertiram muito e obviamente a Sofia já queria combinar um novo encontro. Na saída, para amenizar a saudades do amigo, ela levou um brinquedo dele emprestado, para passar o final de semana com ela.
Adivinhem o que?
Nada mais simbólico do que o colorido castelo do Pedro. Tudo bem, eu me recupero. Mas o principal dessa história, é que a princesa volta para casa com o castelo do príncipe debaixo do braço, ao melhor estilo das fábulas modernas. E termina o dia são e salva, tomando uma mamadeira de leite com Nescau, no colo da sua mamãe!
Ufaaaaaa!!!!
domingo, 25 de abril de 2010
Pós-Sampa
A ida à São Paulo foi bem legal. Corrida claro, mas deu tudo certo e a cidade de cimento não me raptou. Como sempre alguma coisa engraçada tem que acontecer. No dia da tal reunião, acordei às 6h para fazer tudo com calma. A primeira surpresa foi ter esquecido a pasta de dentes. Tudo bem, enchi minha escova de dentes de xampu e fiz um bochecho pra lá de perfumado. Quase vomitei, mas deu pra despistar. Logo depois do banho me dei conta de que agora era a vez da escova de cabelos. Bingo, tinha esquecido também. Logo eu que sou mega-organizada. Não sei o que aconteceu, acho que foi ato falho mesmo. Me olhei no espelho com aquela cara grunge e pensei:
- Desse jeito não dá!
Daí olhei para o secador de cabelos e tive a brilhante idéia de usar uma piranha de cabelo e o secador para “amainar” as madeixas da Maria Betânia. Exato, era assim que a figura do espelho me abanava. Como a filha de Dona Canô, recém saída da montanha russa. Agora calcule, como diria meu amigo Carlos Etchechury!
Mas fora esse probleminha estético, tudo deu certo e nossa reunião foi um sucesso. Chegando de volta à Pelotas, com a função do feriado, acabei deixando o blog meio de lado. Além de colocar em dias os compromissos de trabalho, estava com a função da vacina da Gripe A, ainda pendente. Tínhamos que fazer, e a coragem ainda estava escondida em algum lugar. Eu pensava que a Sofia poderia ter reações e acabava sempre postergando. Até que na quinta-feira acordamos e decidimos que não dava mais para levar esse assunto adiante.
Com o atestado na mão, nos dirigimos ao postinho de saúde do Areal fundos. A Sofia já estava com os olhos arregalados, esperando a hora “H”. A vacina dela seria na clínica particular, já que me disseram que a conjugada (gripe comum + Gripe A) era importada e com menos chances de efeitos colaterais. A enfermeira chamou nossas fichas e entramos os três na salinha da enfermeira. Ela perguntou quem seria a primeira, e eu me adiantei. Pedi para Sofia me dar a mão e me segundos o caso estava resolvido. Ela seguia com olhos atentos, e assim observou as reações do Nauro, na hora do “pic”. Terminada a primeira etapa seguimos para o centro, onde ela seria a paciente da vez.
A sala de espera da clínica estava cheia de carinhas nervosas, assim como a dela. Para descontrair, puxamos assunto com algumas crianças e seus pais, tão aniosos quanto nós. O primeiro guri da fila entrou sorrindo mas em poucos segundos já ouvimos seus berros angustiados. Foi se como uma sirene de emergência tocasse e todos rostinhos nervosos procuraram o colo de seus pais. Ela se agarrou ao Nauro e não desgrudou mais.
Chamaram o nome dela e entramos conversando, ainda na tática-distração. Ledo engano, ela estava nervosa e chorou compulsivamente até ver a agulha ir para o lixo. A enfermeira era hábil e nem sangrou, o que foi comemorado por ela, já secando as lágrimas e se sentindo a mais corajosa do mundo.
Saímos dali todos aliviados, com a sensação de dever cumprido. Entramos no carro e eu disse:
- Viu só Sofia, todo mundo agüentou firme e nem doeu!
E ela me responde cheia de grau:
- É mamãe, nós aguentamos, mas eu vi a hora em que o papai fechou os olhinhos!
(ahahahhahahahahhahahah, Naurinho amado, eu não poderia deixar de contar essa!!!)
- Desse jeito não dá!
Daí olhei para o secador de cabelos e tive a brilhante idéia de usar uma piranha de cabelo e o secador para “amainar” as madeixas da Maria Betânia. Exato, era assim que a figura do espelho me abanava. Como a filha de Dona Canô, recém saída da montanha russa. Agora calcule, como diria meu amigo Carlos Etchechury!
Mas fora esse probleminha estético, tudo deu certo e nossa reunião foi um sucesso. Chegando de volta à Pelotas, com a função do feriado, acabei deixando o blog meio de lado. Além de colocar em dias os compromissos de trabalho, estava com a função da vacina da Gripe A, ainda pendente. Tínhamos que fazer, e a coragem ainda estava escondida em algum lugar. Eu pensava que a Sofia poderia ter reações e acabava sempre postergando. Até que na quinta-feira acordamos e decidimos que não dava mais para levar esse assunto adiante.
Com o atestado na mão, nos dirigimos ao postinho de saúde do Areal fundos. A Sofia já estava com os olhos arregalados, esperando a hora “H”. A vacina dela seria na clínica particular, já que me disseram que a conjugada (gripe comum + Gripe A) era importada e com menos chances de efeitos colaterais. A enfermeira chamou nossas fichas e entramos os três na salinha da enfermeira. Ela perguntou quem seria a primeira, e eu me adiantei. Pedi para Sofia me dar a mão e me segundos o caso estava resolvido. Ela seguia com olhos atentos, e assim observou as reações do Nauro, na hora do “pic”. Terminada a primeira etapa seguimos para o centro, onde ela seria a paciente da vez.
A sala de espera da clínica estava cheia de carinhas nervosas, assim como a dela. Para descontrair, puxamos assunto com algumas crianças e seus pais, tão aniosos quanto nós. O primeiro guri da fila entrou sorrindo mas em poucos segundos já ouvimos seus berros angustiados. Foi se como uma sirene de emergência tocasse e todos rostinhos nervosos procuraram o colo de seus pais. Ela se agarrou ao Nauro e não desgrudou mais.
Chamaram o nome dela e entramos conversando, ainda na tática-distração. Ledo engano, ela estava nervosa e chorou compulsivamente até ver a agulha ir para o lixo. A enfermeira era hábil e nem sangrou, o que foi comemorado por ela, já secando as lágrimas e se sentindo a mais corajosa do mundo.
Saímos dali todos aliviados, com a sensação de dever cumprido. Entramos no carro e eu disse:
- Viu só Sofia, todo mundo agüentou firme e nem doeu!
E ela me responde cheia de grau:
- É mamãe, nós aguentamos, mas eu vi a hora em que o papai fechou os olhinhos!
(ahahahhahahahahhahahah, Naurinho amado, eu não poderia deixar de contar essa!!!)
sábado, 17 de abril de 2010
Sampa
Domingo embarco para São Paulo, para um compromisso de trabalho na segunda-feira pela manhã.
Adoro ver essa metrópole...mas de longe.
Não sei que sentimento é esse, que os tempos de hoje me fizeram sentir pela cidade do cimento. Quando eu era adolescente, minha prima Andréa morava lá e as férias de julho era esperadas ansiosamente, com o objetivo de passar deliciosos quinze dias em Sampa. Era tempo de fazer programas inusitados para nós, que morávamos quase do outro lado do mundo. Era assim que eu sentia. E nesses quinze dias de deleite, eu assistia desde lançamentos de teatros até visitas à maior feira livre que meus olhos já tinham contemplado. O Tio Onofre era o cicerone, e mostrava cheio de orgulho, todas as cores e sabores de frutas vindas de todos os cantos do Brasil.
Domingo era dia de lasanha na casa dos primos paulistas. Dia de muita gritaria na volta de uma mesa repleta de descendentes italianos. Até hoje não saboreei nada parecido como a receita da tia Luluca. Imbatível! Lembro que eu pegava ônibus, metrô e mesmo assim me achava naquele emaranhado de ruas, buzinas e fumaça. Não sei de que jeito, mas dava tudo certo. Até assistir a aula no Colégio Objetivo, com meu primo Márcio, eu ia. Sem falar nos ensaios das dezenas de bandas de rock que ele teve. Vanguarda na veia!
Na casa da Déia passei momentos especiais e era recebida por ela e pelo Marcos com grandes honrarias. Naquele tempo, o hoje consagrado ator Matheus Nachtergale, era simplesmente o Matheus. Amigo querido da Déia, com quem passávamos horas conversando sobre a vida e sobre a arte. Ele tinha mil dúvidas se queria ou não ser ator. Uma coisa totalmente Shakespeare, bem ao seu estilo. Eles dois tinham começado a estudar com o Antunes Filho, no Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho e assistimos ao primeiro espetáculo da trupe. Lembro que a Déia veio toda animada me perguntando o que eu tinha achado. E eu meio sincera e guasca para as profundezas cênicas, respondi:
- Ah, Déia, eu gostei, mas não entendi muito!
Era um tempo de muitos contrates culturais, onde internet nem existia e para se ver as novidades usávamos os olhos e o coração. O mais incrível disso, é que eu saia do interior do "Areal fundos", diretamente para o coração do progresso, e adorava. Hoje só de pensar que tenho que passar 24 horas no meio desse mundo apressado, me dá um frio na espinha. Estou desde ontem remanchando em fazer a mala. Não organizei nada ainda, e olha que eu faço listinha até para ir à Jaguarão. Mas enfim, deve ser resultado das loucuras do mundo atual. Mas será que naqueles idos anos 90 não tinham coisas tão doidas como as de hoje? Ou será que a nossa cabeça era mais solta e menos preocupada com tudo. Será que envelhecer nos trás sabedoria, ou medo?
Nossa, quantos dilemas e quantas perguntas sem resposta para uma simples viagem de trabalho. Vou e volto num tapa, só pra Sampa não achar que briguei com ela. Mas volto correndo, porque nada se compara a paz que eu encontro nesse pedacinho singelo de mundo.
Viva o Areal fundos!
Adoro ver essa metrópole...mas de longe.
Não sei que sentimento é esse, que os tempos de hoje me fizeram sentir pela cidade do cimento. Quando eu era adolescente, minha prima Andréa morava lá e as férias de julho era esperadas ansiosamente, com o objetivo de passar deliciosos quinze dias em Sampa. Era tempo de fazer programas inusitados para nós, que morávamos quase do outro lado do mundo. Era assim que eu sentia. E nesses quinze dias de deleite, eu assistia desde lançamentos de teatros até visitas à maior feira livre que meus olhos já tinham contemplado. O Tio Onofre era o cicerone, e mostrava cheio de orgulho, todas as cores e sabores de frutas vindas de todos os cantos do Brasil.
Domingo era dia de lasanha na casa dos primos paulistas. Dia de muita gritaria na volta de uma mesa repleta de descendentes italianos. Até hoje não saboreei nada parecido como a receita da tia Luluca. Imbatível! Lembro que eu pegava ônibus, metrô e mesmo assim me achava naquele emaranhado de ruas, buzinas e fumaça. Não sei de que jeito, mas dava tudo certo. Até assistir a aula no Colégio Objetivo, com meu primo Márcio, eu ia. Sem falar nos ensaios das dezenas de bandas de rock que ele teve. Vanguarda na veia!
Na casa da Déia passei momentos especiais e era recebida por ela e pelo Marcos com grandes honrarias. Naquele tempo, o hoje consagrado ator Matheus Nachtergale, era simplesmente o Matheus. Amigo querido da Déia, com quem passávamos horas conversando sobre a vida e sobre a arte. Ele tinha mil dúvidas se queria ou não ser ator. Uma coisa totalmente Shakespeare, bem ao seu estilo. Eles dois tinham começado a estudar com o Antunes Filho, no Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho e assistimos ao primeiro espetáculo da trupe. Lembro que a Déia veio toda animada me perguntando o que eu tinha achado. E eu meio sincera e guasca para as profundezas cênicas, respondi:
- Ah, Déia, eu gostei, mas não entendi muito!
Era um tempo de muitos contrates culturais, onde internet nem existia e para se ver as novidades usávamos os olhos e o coração. O mais incrível disso, é que eu saia do interior do "Areal fundos", diretamente para o coração do progresso, e adorava. Hoje só de pensar que tenho que passar 24 horas no meio desse mundo apressado, me dá um frio na espinha. Estou desde ontem remanchando em fazer a mala. Não organizei nada ainda, e olha que eu faço listinha até para ir à Jaguarão. Mas enfim, deve ser resultado das loucuras do mundo atual. Mas será que naqueles idos anos 90 não tinham coisas tão doidas como as de hoje? Ou será que a nossa cabeça era mais solta e menos preocupada com tudo. Será que envelhecer nos trás sabedoria, ou medo?
Nossa, quantos dilemas e quantas perguntas sem resposta para uma simples viagem de trabalho. Vou e volto num tapa, só pra Sampa não achar que briguei com ela. Mas volto correndo, porque nada se compara a paz que eu encontro nesse pedacinho singelo de mundo.
Viva o Areal fundos!
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Viver a vida
Vou confessar aqui no meu divã-virtual:
Assisto à novela das oito (que é às nove!) todos os dias só pra ver os depoimentos do final. Mas também confesso que quando a novela começou critiquei:
- Que falta de originalidade do Manoel Carlos, ele já fez isso em uma novela anos atrás!
Mordi a língua. E a cada final de capítulo me pego segurando um engasgo. Às vezes chego a soluçar. Muitas histórias puxam a cordinha de algum sentimento guardado nem sei aonde, e fazem fluir uma cachoeira de emoções. A primeira coisa que penso é na coragem daquelas pessoas em expor suas feridas, na maioria ainda abertas, para milhares de pessoas. Milhares de cabeças e seus julgamentos.
Mas me dou conta que quem passa por uma fogueira, sai vendo a vida de outra maneira. Sai mais forte e menos preconceituoso. Sem se preocupar tanto com a pequenez do “o que os outros vão pensar”. Esse sentimento estranho, que nos aprisiona, nos tira a liberdade de ousar. Percebi que na maioria dos depoimentos, as pessoas foram ao fundo do poço, para depois ressurgirem com a força de fênix. São lições cotidianas de vida. Sem grandes roteiros, mas escritas nas esquinas por onde passamos diariamente.
E o mais incrível disso tudo, é que não paramos para pensar no verdadeiro valor de cada dia. Dormimos e acordamos sem agradecer pelo fato de caminharmos. Por termos dois olhos que enxergam. Pelo simples fato de não termos dependência química de nenhuma droga. Por termos nossos entes queridos ao lado. Por nada ter nos acontecido da hora que acordamos até a hora de dormirmos.
Me dou conta a cada capítulo dessa novela, o quando é preciosa essa vida. E o quanto banalizamos sem querer, o seu significado. A honra de estarmos aqui e agora. E me pego pensando coisas malucas, que vão desde a morte até o segredo que se esconde atrás dela.
E quando me dou conta de tudo isso, quero usufruí-la com mais intensidade. Quero amar mais, ter mais paciência, menos intolerância, mais tranqüilidade.
Quero simplesmente ter a exata noção do quanto é urgente Viver a Vida!
Assisto à novela das oito (que é às nove!) todos os dias só pra ver os depoimentos do final. Mas também confesso que quando a novela começou critiquei:
- Que falta de originalidade do Manoel Carlos, ele já fez isso em uma novela anos atrás!
Mordi a língua. E a cada final de capítulo me pego segurando um engasgo. Às vezes chego a soluçar. Muitas histórias puxam a cordinha de algum sentimento guardado nem sei aonde, e fazem fluir uma cachoeira de emoções. A primeira coisa que penso é na coragem daquelas pessoas em expor suas feridas, na maioria ainda abertas, para milhares de pessoas. Milhares de cabeças e seus julgamentos.
Mas me dou conta que quem passa por uma fogueira, sai vendo a vida de outra maneira. Sai mais forte e menos preconceituoso. Sem se preocupar tanto com a pequenez do “o que os outros vão pensar”. Esse sentimento estranho, que nos aprisiona, nos tira a liberdade de ousar. Percebi que na maioria dos depoimentos, as pessoas foram ao fundo do poço, para depois ressurgirem com a força de fênix. São lições cotidianas de vida. Sem grandes roteiros, mas escritas nas esquinas por onde passamos diariamente.
E o mais incrível disso tudo, é que não paramos para pensar no verdadeiro valor de cada dia. Dormimos e acordamos sem agradecer pelo fato de caminharmos. Por termos dois olhos que enxergam. Pelo simples fato de não termos dependência química de nenhuma droga. Por termos nossos entes queridos ao lado. Por nada ter nos acontecido da hora que acordamos até a hora de dormirmos.
Me dou conta a cada capítulo dessa novela, o quando é preciosa essa vida. E o quanto banalizamos sem querer, o seu significado. A honra de estarmos aqui e agora. E me pego pensando coisas malucas, que vão desde a morte até o segredo que se esconde atrás dela.
E quando me dou conta de tudo isso, quero usufruí-la com mais intensidade. Quero amar mais, ter mais paciência, menos intolerância, mais tranqüilidade.
Quero simplesmente ter a exata noção do quanto é urgente Viver a Vida!
terça-feira, 13 de abril de 2010
Anjo da Guarda
Domingo à noite eu estava zapeando com o controle remoto da TV entre as cinco opções de canais que temos aqui fora. Era aquela coisa, de uma tragédia da Globo, para uma bobagem da Rede Tv, passando pelo Silvio Santos de sempre, até que me deparei com uma entrevista na Rede Vida. Era uma mesa-redonda e a entrevistada se chamava Clara, uma atriz que eu não conhecia. O programa era tipo um frente-a-frente com Gabi, mas só que em uma rede de TV que nunca assisto, com uma pessoa que nunca vi antes.
O negócio é que entre tantas coisas íntimas que os entrevistadores iam perguntando, uma resposta da mulher me chamou a atenção. Eles perguntaram se ela lembrava de alguma situação de medo. A moça mudou a fisionomia e começou a relatar um assaltou a mão armada que sofrera dentro da sua casa, com a família presente. Pela transformação das linhas do seu rosto, percebia-se o quanto àquela violência urbana tinha sido impactante. Contraponto dos entrevistadores veio logo, com a pergunta:
- E o que você fez?
Ela tornou a encontrar um ar de doçura e disse em meio a um esboço de sorriso:
- Contei com meu anjo da guarda!
Na hora enchi os olhos de lágrimas, ao ouvir aquela declaração tão singela. Realmente sempre acreditei que todos nós temos um anjo da guarda e sempre tive um contato bem afinado com o meu. Lembro de vários momentos de medo ou tensão, desde os tenros tempos de infância, em que me senti segura depois de pedir o reforço do meu guardião.
Mas nos últimos tempos parece que esqueci dele. Tenho andado absorta em assuntos de trabalho, coisas da casa, filha, marido, supermercado, e não tenho olhado para além das coisas visíveis. Semana passada ainda comentei com o Nauro, que estava sentindo um aperto no peito. Era como se de uma hora para outra, pequenas coisinhas “pesadas” começassem a acontecer na nossa volta, tirando a nossa paz. Como se um círculo de proteção estivesse com falha em algum ponto, e por ali entrassem essas coisas.
Foram alguns mal entendidos com amigos queridos, dedos de decepções com outros, e até sensações indecifráveis, de pensar por que, de uma hora para outra, o equilíbrio se rompe.
Sabe quando a gente se pergunta o porquê de isso vir a acontecer, vindo do nada. No meio de uma tarde qualquer. Eu que prezo tanta a nossa paz. Que curto tanto morar no meio do mato e ver a civilização de vez enquanto, tive dias de tristeza e desânimo. E durante esse período, não procurei meu anjo querido. Tenho certeza de que ele estava ao meu lado, mas não lembrei de pedir seus sábios conselhos.
A tristeza já passou. O desânimo também. Mas disso tudo o que valeu foi lembrar do anjo da guarda. Mesmo que ele não tenha esquecido de mim, quero deixar essa conexão mais afinada. Quero proteção contra coisas ruins, saúde para minha filha, segurança para nossa família, alegria para meus dias, carinho para os amigos e muita luz para essa estrada que seguimos.
Mas também quero agradecer por tudo de bom que a vida nos brinda diariamente. Não quero só pedir, quero que o mensageiro também sinta as coisas boas daqui.
"Santo Anjo do Senhor,
Meu zeloso guardador,
Já que a ti me confiou
A piedade divina,
Sempre me reje, guardes,
governes e ilumines"
Amém
O negócio é que entre tantas coisas íntimas que os entrevistadores iam perguntando, uma resposta da mulher me chamou a atenção. Eles perguntaram se ela lembrava de alguma situação de medo. A moça mudou a fisionomia e começou a relatar um assaltou a mão armada que sofrera dentro da sua casa, com a família presente. Pela transformação das linhas do seu rosto, percebia-se o quanto àquela violência urbana tinha sido impactante. Contraponto dos entrevistadores veio logo, com a pergunta:
- E o que você fez?
Ela tornou a encontrar um ar de doçura e disse em meio a um esboço de sorriso:
- Contei com meu anjo da guarda!
Na hora enchi os olhos de lágrimas, ao ouvir aquela declaração tão singela. Realmente sempre acreditei que todos nós temos um anjo da guarda e sempre tive um contato bem afinado com o meu. Lembro de vários momentos de medo ou tensão, desde os tenros tempos de infância, em que me senti segura depois de pedir o reforço do meu guardião.
Mas nos últimos tempos parece que esqueci dele. Tenho andado absorta em assuntos de trabalho, coisas da casa, filha, marido, supermercado, e não tenho olhado para além das coisas visíveis. Semana passada ainda comentei com o Nauro, que estava sentindo um aperto no peito. Era como se de uma hora para outra, pequenas coisinhas “pesadas” começassem a acontecer na nossa volta, tirando a nossa paz. Como se um círculo de proteção estivesse com falha em algum ponto, e por ali entrassem essas coisas.
Foram alguns mal entendidos com amigos queridos, dedos de decepções com outros, e até sensações indecifráveis, de pensar por que, de uma hora para outra, o equilíbrio se rompe.
Sabe quando a gente se pergunta o porquê de isso vir a acontecer, vindo do nada. No meio de uma tarde qualquer. Eu que prezo tanta a nossa paz. Que curto tanto morar no meio do mato e ver a civilização de vez enquanto, tive dias de tristeza e desânimo. E durante esse período, não procurei meu anjo querido. Tenho certeza de que ele estava ao meu lado, mas não lembrei de pedir seus sábios conselhos.
A tristeza já passou. O desânimo também. Mas disso tudo o que valeu foi lembrar do anjo da guarda. Mesmo que ele não tenha esquecido de mim, quero deixar essa conexão mais afinada. Quero proteção contra coisas ruins, saúde para minha filha, segurança para nossa família, alegria para meus dias, carinho para os amigos e muita luz para essa estrada que seguimos.
Mas também quero agradecer por tudo de bom que a vida nos brinda diariamente. Não quero só pedir, quero que o mensageiro também sinta as coisas boas daqui.
"Santo Anjo do Senhor,
Meu zeloso guardador,
Já que a ti me confiou
A piedade divina,
Sempre me reje, guardes,
governes e ilumines"
Amém
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Blog do Nauro
Bom dia!
Hoje convido à todos para ler um texto que me tocou a alma. Foi escrito pelo Nauro e está no blog dele, Retratos da Vida. Se chama "Três anjos chamados Sofia". Ele publicou ontem, no mesmo dia em que eu deveria estar em SP para um encontro do Instituto Abrace, ONG que integro e onde conheci as pessoas que ele se refere no texto. Por motivos alheios à minha vontade, não pude ir.
Ele conta a história das três Sofias e de nós três, as mães das Sofias. A Maria Julia Miele, que fundou a ONG, é a presidente da entidade e mãe da Sofia que virou luz. A Denise Crispim, mãe da Sofia que aparece na foto com a nossa, é a vice-presidente da ONG e nos deu o prazer de estar aqui no Carnaval, com seu anjo de cadeira roxa.
São duas mulheres incríveis e o nosso encontro há quatro anos atrás foi bem mais que coincidência. O texto do Nauro diz tudo, não preciso falar mais nada. Convido vocês a ler e desejo uma boa semana!
http://wp.clicrbs.com.br/retratosdavida/2010/04/11/tres-anjos-chamados-sofias/?topo=77,1,1#comments
Hoje convido à todos para ler um texto que me tocou a alma. Foi escrito pelo Nauro e está no blog dele, Retratos da Vida. Se chama "Três anjos chamados Sofia". Ele publicou ontem, no mesmo dia em que eu deveria estar em SP para um encontro do Instituto Abrace, ONG que integro e onde conheci as pessoas que ele se refere no texto. Por motivos alheios à minha vontade, não pude ir.
Ele conta a história das três Sofias e de nós três, as mães das Sofias. A Maria Julia Miele, que fundou a ONG, é a presidente da entidade e mãe da Sofia que virou luz. A Denise Crispim, mãe da Sofia que aparece na foto com a nossa, é a vice-presidente da ONG e nos deu o prazer de estar aqui no Carnaval, com seu anjo de cadeira roxa.
São duas mulheres incríveis e o nosso encontro há quatro anos atrás foi bem mais que coincidência. O texto do Nauro diz tudo, não preciso falar mais nada. Convido vocês a ler e desejo uma boa semana!
http://wp.clicrbs.com.br/retratosdavida/2010/04/11/tres-anjos-chamados-sofias/?topo=77,1,1#comments
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Parabéns à você

Hoje meu maridão está de aniversário. Ele adora se gabar que é mais novo do que eu. São seis meses apenas, mas ele usa esse semestre contra mim de outubro a abril, com muita força. Mas então hoje emparelhamos, nos 41 aninhos. Bem vividos, podemos dizer.
Portanto, nada mais justo do que dedicar o post do dia para ele, que foi o maior incentivador para que o “Adoro Melancia” existisse. Resolvi falar um pouco dele, mesmo que sem permissão.
Quando a gente decide ficar velhinho ao lado de alguém, temos que acima de tudo admirar essa pessoa. E esse é um sentimento muito forte entre nós dois. Acho que nos amamos porque nos admiramos. E isso eu descobri com a vida. Entendi na prática, o quanto o amor é feito de sentimentos diversos e complementares.
Nesses anos de convívio, acho que conseguimos fazer uma simbiose positiva. Eu aprendi muito com ele. Com esse lado irreverente de ser. De chegar chegando e ter sempre alguma coisa para dizer. Em contraponto, meu lado mais sensível, fez com que ele direcionasse mais as coisas boas para lançar. As palavras ditas serão sempre as flechas lançadas. Mesmo que ditas em forma de brincadeira.
Uma vez dei um livro de fotografia para ele, que se chama “Esplendor dos Contrários”, de Arthur Omar. Aquele título nos tocou e acabamos nos autodefinindo dessa forma. Nossos caminhos deste cedo foram muito distintos. Enquanto eu brincava de boneca na charqueada, em plena infância, ele assinava sua primeira carteira de trabalho como sapateiro, em Novo Hamburgo. Depois veio a adolescência e minhas aventuras se limitavam a acampamentos no Uruguai, enquanto ele voava as tranças em motos e festinhas bem longe do meu mundo. Aos vinte e pouco anos ele foi pai. Eu rodava o mundo de mochila, querendo descobrir o tamanho do mundo e da liberdade.
Foram histórias de vida distintas, mas que estavam traçadas para um destino em comum. E nesse destino, um dia encontramos a nossa paz. Construímos o nosso castelo e geramos a nossa princesa Sofia.
Por isso, no dia de hoje quero externar aqui minha admiração pelo Nauro.
Pelo fotógrafo maravilhoso que consegue captar instantes de vida a cada clique.
Pelo pai apaixonado, que não esconde nunca o imenso orgulho que tem da sua guerreira Sofia.
Pelo marido especial, que respeita o meu jeito tão diferente de ser.
E acima de tudo, pelo companheiro de dores, desejos e sonhos, o qual tenho o prazer de dividir essa vida tão maravilhosa.
Parabéns meu amor!
Portanto, nada mais justo do que dedicar o post do dia para ele, que foi o maior incentivador para que o “Adoro Melancia” existisse. Resolvi falar um pouco dele, mesmo que sem permissão.
Quando a gente decide ficar velhinho ao lado de alguém, temos que acima de tudo admirar essa pessoa. E esse é um sentimento muito forte entre nós dois. Acho que nos amamos porque nos admiramos. E isso eu descobri com a vida. Entendi na prática, o quanto o amor é feito de sentimentos diversos e complementares.
Nesses anos de convívio, acho que conseguimos fazer uma simbiose positiva. Eu aprendi muito com ele. Com esse lado irreverente de ser. De chegar chegando e ter sempre alguma coisa para dizer. Em contraponto, meu lado mais sensível, fez com que ele direcionasse mais as coisas boas para lançar. As palavras ditas serão sempre as flechas lançadas. Mesmo que ditas em forma de brincadeira.
Uma vez dei um livro de fotografia para ele, que se chama “Esplendor dos Contrários”, de Arthur Omar. Aquele título nos tocou e acabamos nos autodefinindo dessa forma. Nossos caminhos deste cedo foram muito distintos. Enquanto eu brincava de boneca na charqueada, em plena infância, ele assinava sua primeira carteira de trabalho como sapateiro, em Novo Hamburgo. Depois veio a adolescência e minhas aventuras se limitavam a acampamentos no Uruguai, enquanto ele voava as tranças em motos e festinhas bem longe do meu mundo. Aos vinte e pouco anos ele foi pai. Eu rodava o mundo de mochila, querendo descobrir o tamanho do mundo e da liberdade.
Foram histórias de vida distintas, mas que estavam traçadas para um destino em comum. E nesse destino, um dia encontramos a nossa paz. Construímos o nosso castelo e geramos a nossa princesa Sofia.
Por isso, no dia de hoje quero externar aqui minha admiração pelo Nauro.
Pelo fotógrafo maravilhoso que consegue captar instantes de vida a cada clique.
Pelo pai apaixonado, que não esconde nunca o imenso orgulho que tem da sua guerreira Sofia.
Pelo marido especial, que respeita o meu jeito tão diferente de ser.
E acima de tudo, pelo companheiro de dores, desejos e sonhos, o qual tenho o prazer de dividir essa vida tão maravilhosa.
Parabéns meu amor!
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Era pequeno
Depois de tantos posts densos, vou dar uma aliviada e contar uma história que me aconteceu há uns sete anos atrás. Foi um episódio daqueles que poderia ser trágico, mas por obra do destino foi cômico. Era o ano de 2003 e eu, recém separada do meu ex-husband, tentava vender meu fusquinha bege-esverdeado, ano 81 (esse era novinho!!). Eu tinha ficado com esta relíquia na “divisão dos bens”. Abri mão até do sofá da sala, mas o meu fusquinha não arredei o pé. Nossa!!! Quantas aventuras ele testemunhou, sempre firme e forte. Nos tempos da faculdade eu só ligava no piloto automático e ele ia sozinha pra Colônia Z-3, onde fazíamos um jornal comunitário para os pescadores.
Mas enfim, eu estava recém-separada, cheia de contas para pagar e o meu fiel escudeiro precisava dar o corpo em sacrifício. Anunciei nos classificados do Diário Popular num domingo. Várias ligações, algumas visitas e muitos olhares indecifráveis. Eu não entendo as caras desses homens que vem olhar carro para comprar. Eles fazem que nem a gente na adolescência. Uma cara de não to nem aí, mas quero muito. Depois de dezenas de espiadinhas no motor, eu cheguei a conclusão que algo muito grave deveria ter por trás daquela tampa.
Com a demora na decisão dos meus compradores em potencial, tive a brilhante idéia de levar o meu Fusca-bala para o “feirão de usados” da avenida Duque de Caxias. Nem achei tão ofensivo o título, já que o meu possante era mesmo usado. Aquela coisa sabe, pobre, mas limpinho. Bueno, então para me acompanhar nessa empreitada é óbvio que convoquei minha amiga-de-fé-minha-irmã-camarada. Sim, a minha querida Moby, ou Gabriela, como de batismo.
A feira era sempre aos domingos pela manhã. Acordamos cedo, nos vestimos bem bonitinhas, pegamos um mate novo, bolachinhas - pra caso de a coisa se estender, e umas cadeirinhas de praia. Parecia até que íamos tomar banho de sol no Laranjal. Mas a missão era mais árdua.
Chegamos por volta das 9h30 na feira, e parecia que já era meio-dia. Aquilo abarrotado de gente. Carros, cadeiras, gente, uma loucura. Na hora percebi que a nossa estratégia foi falha, mas não desistimos. A Moby, com seus olhos de lince, logo localizou um único espaço vazio entre as centenas de carros que nos cercavam. No que ela me mostrou o lugar, eu dei o pisca e fui me enfiando na vaga. Eis que surge um Vectra prateado me cortando a frente e se socando no meu lugar. Na hora de manobrar, o maluco me bateu no lado do carro de leve. Eu parei, abri a janela e chamei.
- Poxa moço, o que é isso, não ta vendo a gente aqui?
O cara todo entonado já saiu do Vectra como quem desce de uma nave na lua. É, porque há sete anos atrás, acho que Vectra era carrão. Ele já veio me peitando e dizendo desaforo e ‘mandando” eu tirar aquela geringonça dali. Eu não acreditei. Perguntei:
- O que???? Essa geringonça é o meeeu carro?? E o senhor ainda me bateu!!
E ele saiu dizendo mais meia dúzia de "delicadezas” pra cima de nós. Já se juntava um bolinho de curiosos na volta dos carros e me subiu o sangue. Eu coloquei a cabeça para fora da janela e disse:
- Pois o senhor, pra estar falando com mulher desse jeito, deve ter o “p..” desse tamanhinho!!! (e mostrei o meu dedo mindinho como "exemplo" do assunto...pra quê?!)
Gente, esse homem se transformou no Incrível Hulk. Ele veio com tudo pra cima de nós. Mandou sairmps do carro e chamou a polícia. Detalhe: ele era a polícia!!! Era um policial de folga, que estava indo vender o carrão.
Pronto, me ferreir. Ele chamou a polícia e os Azuizinhos. Imagina o bafão em pleno feirão da Duque de Caxias. No bolo de curiosos da volta, nós já conseguimos umas testemunhas pra nos defender. Aqueles que ficam repetindo; “eu vi, ele se provaleceu, veio metendo o carro por cima!”.
Bom, pra resumir, o meu carro estava com os documentos atrasados, acho que o IPVA. O danado do cara conseguiu que meu fusquinha bege-esverdeado saísse humilhado em cima de um guincho, direto para um depósito. A Moby e eu, por conseqüência, que não tínhamos levado grana já que nosso veículo estava devidamente preparado, ficamos a pé. Ou seja, tínhamos dinheiro só para uma passagem de ônibus, e como estávamos no Fragata, tivemos que ir cameliando até a Osório, com as cadeiras e o pic-nic de arrasto. E o pior, humilhadas pelo tal policial à paisana.
Chegamos em casa sãs e salvas. Depois de três dias paguei os documentos e recuperei meu carro. Gastei mais do que tinha com toda essa história e continuei sem conseguir vender o Fusca. Mas de uma coisa eu tenho certeza e é o que me conforta até hoje:
Se ele ficou tão brabo, é porque "era pequeno" mesmo!!!
Mas enfim, eu estava recém-separada, cheia de contas para pagar e o meu fiel escudeiro precisava dar o corpo em sacrifício. Anunciei nos classificados do Diário Popular num domingo. Várias ligações, algumas visitas e muitos olhares indecifráveis. Eu não entendo as caras desses homens que vem olhar carro para comprar. Eles fazem que nem a gente na adolescência. Uma cara de não to nem aí, mas quero muito. Depois de dezenas de espiadinhas no motor, eu cheguei a conclusão que algo muito grave deveria ter por trás daquela tampa.
Com a demora na decisão dos meus compradores em potencial, tive a brilhante idéia de levar o meu Fusca-bala para o “feirão de usados” da avenida Duque de Caxias. Nem achei tão ofensivo o título, já que o meu possante era mesmo usado. Aquela coisa sabe, pobre, mas limpinho. Bueno, então para me acompanhar nessa empreitada é óbvio que convoquei minha amiga-de-fé-minha-irmã-camarada. Sim, a minha querida Moby, ou Gabriela, como de batismo.
A feira era sempre aos domingos pela manhã. Acordamos cedo, nos vestimos bem bonitinhas, pegamos um mate novo, bolachinhas - pra caso de a coisa se estender, e umas cadeirinhas de praia. Parecia até que íamos tomar banho de sol no Laranjal. Mas a missão era mais árdua.
Chegamos por volta das 9h30 na feira, e parecia que já era meio-dia. Aquilo abarrotado de gente. Carros, cadeiras, gente, uma loucura. Na hora percebi que a nossa estratégia foi falha, mas não desistimos. A Moby, com seus olhos de lince, logo localizou um único espaço vazio entre as centenas de carros que nos cercavam. No que ela me mostrou o lugar, eu dei o pisca e fui me enfiando na vaga. Eis que surge um Vectra prateado me cortando a frente e se socando no meu lugar. Na hora de manobrar, o maluco me bateu no lado do carro de leve. Eu parei, abri a janela e chamei.
- Poxa moço, o que é isso, não ta vendo a gente aqui?
O cara todo entonado já saiu do Vectra como quem desce de uma nave na lua. É, porque há sete anos atrás, acho que Vectra era carrão. Ele já veio me peitando e dizendo desaforo e ‘mandando” eu tirar aquela geringonça dali. Eu não acreditei. Perguntei:
- O que???? Essa geringonça é o meeeu carro?? E o senhor ainda me bateu!!
E ele saiu dizendo mais meia dúzia de "delicadezas” pra cima de nós. Já se juntava um bolinho de curiosos na volta dos carros e me subiu o sangue. Eu coloquei a cabeça para fora da janela e disse:
- Pois o senhor, pra estar falando com mulher desse jeito, deve ter o “p..” desse tamanhinho!!! (e mostrei o meu dedo mindinho como "exemplo" do assunto...pra quê?!)
Gente, esse homem se transformou no Incrível Hulk. Ele veio com tudo pra cima de nós. Mandou sairmps do carro e chamou a polícia. Detalhe: ele era a polícia!!! Era um policial de folga, que estava indo vender o carrão.
Pronto, me ferreir. Ele chamou a polícia e os Azuizinhos. Imagina o bafão em pleno feirão da Duque de Caxias. No bolo de curiosos da volta, nós já conseguimos umas testemunhas pra nos defender. Aqueles que ficam repetindo; “eu vi, ele se provaleceu, veio metendo o carro por cima!”.
Bom, pra resumir, o meu carro estava com os documentos atrasados, acho que o IPVA. O danado do cara conseguiu que meu fusquinha bege-esverdeado saísse humilhado em cima de um guincho, direto para um depósito. A Moby e eu, por conseqüência, que não tínhamos levado grana já que nosso veículo estava devidamente preparado, ficamos a pé. Ou seja, tínhamos dinheiro só para uma passagem de ônibus, e como estávamos no Fragata, tivemos que ir cameliando até a Osório, com as cadeiras e o pic-nic de arrasto. E o pior, humilhadas pelo tal policial à paisana.
Chegamos em casa sãs e salvas. Depois de três dias paguei os documentos e recuperei meu carro. Gastei mais do que tinha com toda essa história e continuei sem conseguir vender o Fusca. Mas de uma coisa eu tenho certeza e é o que me conforta até hoje:
Se ele ficou tão brabo, é porque "era pequeno" mesmo!!!
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Palavra de amiga
Uma vez, quando eu estava grávida, uma senhora disse para minha mãe que a Sofia viria ao mundo para nos ensinar muitas coisas. Naquela ocasião, minhas preocupações se limitavam em arrumar o seu quartinho e passar óleo de amêndoas na barriga. Com o desfecho que todos já sabem, e sua chegada prematura ao mundo, comecei aos poucos entender melhor a razão de tal prenúncio. Foram muitas lições nesses quatro anos de vida.
A última delas aconteceu nesta Páscoa. A Sofia passou semanas esperando ansiosa pela chegada dessa data especial para ela, e todos que habitam o universo infantil. Junto com a felicidade em aguardar os ovos de chocolate e guloseimas, ela tinha um compromisso sacramentado: entregar os bicos para o Coelho da Páscoa. Desde que entrou para o colégio, no início de março, a pressão externa em função de ela chupar o tal bico, é cada vez maior. Mesmo que ela jamais colocasse o bico na boca durante as aulas, na hora que pisava fora da sala me pedia para alcançá-lo e logo saia acariciando o seu amigo de plástico.
Mas no sábado à noite, depois de prepararmos a bandeja com água e cenoura para o Coelho, e posicionarmos estrategicamente ao lado da porta de entrada, veio o momento tão temido. Ela tinha prometido que daria os bicos ao Coelho. Finalmente chegou o dia. Segurei-a pelas mãozinhas e perguntei:
- Meu amor, tu queres mesmo entregar os biquinhos para o Coelho?
Ela desconversou e engatou numa conversa fiada, tagarelando sem parar sobre qualquer assunto. Eu olhei para ela de novo e pedi para que me olhasse nos olhos. Repeti a pergunta e acrescentei.
- É uma decisão tua minha filha, não tem problema nenhum, é só me dizeres o que queres fazer.
Ela deu um suspiro profundo. Daqueles que busca coragem no fundo da alma, e no alto de seus quatro anos de idade me estendeu a mão decidida.
- Toma mamãe, pode colocar aí pro Coelhinho levar!
Eu juntei os dois amuletos de plástico da minha mimosa e coloquei na cestinha ao lado da água e da cenoura. Ela me olhou fundo, estendeu o dedo mindinho em minha direção, pedindo que eu estendesse o meu também, e disse:
- Bate aqui, palavra de amiga!
E assim se recolheu para o quarto para a primeira noite longe do seu objeto mais caro.
Assim que ela dormiu chamei o Nauro na sala para contar o feito e mostrar a coragem da nossa filha. Nos desatamos a chorar os dois, lembrando da primeira vez que ela teve contato com esse subterfúgio emocional, ainda no hospital. Ela completava um mês de vida na UTI e nunca tinha vestido uma roupinha, já que lá os bebês ficam só de fralda, em berços aquecidos. Naquele dia, ela teria que fazer sua primeira tomografia computadorizada do pulmão, para ver a quantas andava a tal bolha que não parava de crescer dentro dela. Como era muito pequena, o desafio era levarmos até um outro hospital e fazer o exame sem que ela se mexesse na máquina e nem acordasse durante todo procedimento.
Preparamos uma verdadeira operação para levá-la até à Santa Casa, já que decidimos ir de carro, em vez de ambulância, mas com uma enfermeira, oxigênio e o médico ao lado. Preparei com carinho a roupinha que minha Voinha tinha feito para ela e começamos a vesti-la pela primeira vez. Auxiliada por duas técnicas de enfermagem da UTI, percebemos que ela estranhava a roupa e começava a chorar. Foi aí que uma delas trouxe uma luva cirúrgica com um algodãozinho na ponta do dedo e colocou na boquinha da Sofia. Ela recebeu aquele primeiro biquinho como um conforto imensurável. Começou a chupar e em pouco tempo estava calminha.
A última delas aconteceu nesta Páscoa. A Sofia passou semanas esperando ansiosa pela chegada dessa data especial para ela, e todos que habitam o universo infantil. Junto com a felicidade em aguardar os ovos de chocolate e guloseimas, ela tinha um compromisso sacramentado: entregar os bicos para o Coelho da Páscoa. Desde que entrou para o colégio, no início de março, a pressão externa em função de ela chupar o tal bico, é cada vez maior. Mesmo que ela jamais colocasse o bico na boca durante as aulas, na hora que pisava fora da sala me pedia para alcançá-lo e logo saia acariciando o seu amigo de plástico.
Mas no sábado à noite, depois de prepararmos a bandeja com água e cenoura para o Coelho, e posicionarmos estrategicamente ao lado da porta de entrada, veio o momento tão temido. Ela tinha prometido que daria os bicos ao Coelho. Finalmente chegou o dia. Segurei-a pelas mãozinhas e perguntei:
- Meu amor, tu queres mesmo entregar os biquinhos para o Coelho?
Ela desconversou e engatou numa conversa fiada, tagarelando sem parar sobre qualquer assunto. Eu olhei para ela de novo e pedi para que me olhasse nos olhos. Repeti a pergunta e acrescentei.
- É uma decisão tua minha filha, não tem problema nenhum, é só me dizeres o que queres fazer.
Ela deu um suspiro profundo. Daqueles que busca coragem no fundo da alma, e no alto de seus quatro anos de idade me estendeu a mão decidida.
- Toma mamãe, pode colocar aí pro Coelhinho levar!
Eu juntei os dois amuletos de plástico da minha mimosa e coloquei na cestinha ao lado da água e da cenoura. Ela me olhou fundo, estendeu o dedo mindinho em minha direção, pedindo que eu estendesse o meu também, e disse:
- Bate aqui, palavra de amiga!
E assim se recolheu para o quarto para a primeira noite longe do seu objeto mais caro.
Assim que ela dormiu chamei o Nauro na sala para contar o feito e mostrar a coragem da nossa filha. Nos desatamos a chorar os dois, lembrando da primeira vez que ela teve contato com esse subterfúgio emocional, ainda no hospital. Ela completava um mês de vida na UTI e nunca tinha vestido uma roupinha, já que lá os bebês ficam só de fralda, em berços aquecidos. Naquele dia, ela teria que fazer sua primeira tomografia computadorizada do pulmão, para ver a quantas andava a tal bolha que não parava de crescer dentro dela. Como era muito pequena, o desafio era levarmos até um outro hospital e fazer o exame sem que ela se mexesse na máquina e nem acordasse durante todo procedimento.
Preparamos uma verdadeira operação para levá-la até à Santa Casa, já que decidimos ir de carro, em vez de ambulância, mas com uma enfermeira, oxigênio e o médico ao lado. Preparei com carinho a roupinha que minha Voinha tinha feito para ela e começamos a vesti-la pela primeira vez. Auxiliada por duas técnicas de enfermagem da UTI, percebemos que ela estranhava a roupa e começava a chorar. Foi aí que uma delas trouxe uma luva cirúrgica com um algodãozinho na ponta do dedo e colocou na boquinha da Sofia. Ela recebeu aquele primeiro biquinho como um conforto imensurável. Começou a chupar e em pouco tempo estava calminha.
Fizemos o exame e ela dormiu durante todo o tempo, chupando sem parar seu novo amuleto contra as dores do corpo e da alma.
E assim foi durante esses quatro anos. O bico para ela foi bem mais do que um simples vício de criança. Foi uma segurança, um afago, um carinho para enfrentar os exames rotineiros, remédios amargos e fisioterapia constante. Por isso naquele momento de tanta coragem, meu coração ficou apertado e chorei como criança abraçada ao Nauro. Tem que ser muito valente para encarar uma decisão dessas. Eu não sei se conseguiria. Mas como essa figurinha veio realmente ao mundo para nos ensinar, eu prometo que vou ser mais corajosa daqui pra frente.
Palavra de amiga!
terça-feira, 30 de março de 2010
Meus heróis
Quando eu era adolescente sonhava em ser oceanóloga e cruzar os mares do mundo a bordo da Expedição Costeau. Eu era fã de Jaques Yves Costeau e sua trupe de defensores da natureza. Naquela década de oitenta, esse era um assunto ainda raro, e como não existia internet, muito pouca informação chegava às nossas mentes juvenis. Lembro que tinha uma marca de chocolate, que vendia cartelas da coleção do Costeau, com animais aquáticos dos mais variados. Eu juntava e guardava com muito zelo aquele bolo de bichos lindos, entre eles o famoso boto cor-de-rosa da Amazônia, que tinha fascinado o pesquisador. Uma vez minha amiga Lílian, sempre uma cidadã do mundo, morou por um tempo em San Diego e me trouxe de presente um adesivo verde e branco, da Fundação Costeau. Era uma relíquia, que colei com carinho no meu fusquinha 79, cor de cereja. Eu já cursava a faculdade de Educação Física, depois de ter rodado no vestibular da Furg, para oceanologia. Eu rasgava as ruas da cidade cheia de bossa, e imaginava que meu fusquinha era uma espécie de carro-anfíbio da expedição.
Nessa mesma época conheci as aventuras de Amyr Klink, e foi amor à primeira vista. Aquele cara obstinado, tinha cruzado o Atlântico à bordo de um barco a remo, no sabor das correntes. Nossa, que pessoa incrível. Li o seu primeiro livro e sublinhei de caneta marca-texto cada frase impactante. Era uma bíblia da perseverança para mim. Depois disso virei sua fiel seguidora. Inclusive uma vez que ele veio dar uma palestra aqui, no Parque Tênis Clube, fiquei na fila do gargarejo, tirei fotos e obviamente não descolei do cara. Os anos passaram e ele seguiu buscando e realizando sonhos. Típica alma de herói.
Nesse mesmo tempo minhas manhãs de domingo tinham compromisso inadiável com a presença de Ayrton Senna nas pistas do mundo. Como a maioria dos brasileiros, fiquei fã da fórmula um e em pouco tempo discutia até os comentários do Galvão Bueno. As entrevistas do Senna eram sempre permeadas de lições de humildade e bravura.
Ele era o cara!
E estava no ranking dos meus heróis, assim como a Família Schurmann, Renato Russo, Caco Barcellos, entre tantos outros ídolos da minha geração, que me ajudaram a enxergar a vida do melhor ângulo. Me mostraram que eram de carne e osso, tinham chegado lá e seus valores eram verdadeiros. Foram pessoas que com suas atitudes, deram o exemplo.
Hoje faço uma força enorme para pensar em uma lista de cinco nomes de heróis para minha fase de maturidade. Fico pensando também, quem serão os heróis da Sofia. Hoje seu único herói é o papai, mas mais adiante sei que terá seus ícones do mundo.
Mas em um mundo onde o horário nobre exibe o Big Brother e uma cambada de gente vazia, que fala palavrão, prega o preconceito e ainda por cima ganha dinheiro por isso, fico pensando nos futuro heróis da minha filha.
Quem serão eles?
Nessa mesma época conheci as aventuras de Amyr Klink, e foi amor à primeira vista. Aquele cara obstinado, tinha cruzado o Atlântico à bordo de um barco a remo, no sabor das correntes. Nossa, que pessoa incrível. Li o seu primeiro livro e sublinhei de caneta marca-texto cada frase impactante. Era uma bíblia da perseverança para mim. Depois disso virei sua fiel seguidora. Inclusive uma vez que ele veio dar uma palestra aqui, no Parque Tênis Clube, fiquei na fila do gargarejo, tirei fotos e obviamente não descolei do cara. Os anos passaram e ele seguiu buscando e realizando sonhos. Típica alma de herói.
Nesse mesmo tempo minhas manhãs de domingo tinham compromisso inadiável com a presença de Ayrton Senna nas pistas do mundo. Como a maioria dos brasileiros, fiquei fã da fórmula um e em pouco tempo discutia até os comentários do Galvão Bueno. As entrevistas do Senna eram sempre permeadas de lições de humildade e bravura.
Ele era o cara!
E estava no ranking dos meus heróis, assim como a Família Schurmann, Renato Russo, Caco Barcellos, entre tantos outros ídolos da minha geração, que me ajudaram a enxergar a vida do melhor ângulo. Me mostraram que eram de carne e osso, tinham chegado lá e seus valores eram verdadeiros. Foram pessoas que com suas atitudes, deram o exemplo.
Hoje faço uma força enorme para pensar em uma lista de cinco nomes de heróis para minha fase de maturidade. Fico pensando também, quem serão os heróis da Sofia. Hoje seu único herói é o papai, mas mais adiante sei que terá seus ícones do mundo.
Mas em um mundo onde o horário nobre exibe o Big Brother e uma cambada de gente vazia, que fala palavrão, prega o preconceito e ainda por cima ganha dinheiro por isso, fico pensando nos futuro heróis da minha filha.
Quem serão eles?
sexta-feira, 26 de março de 2010
Ai vem ela
Não gosto de sentir medo. Acho esse um sentimento covarde. Pode parecer uma obviedade, mas quando ele chega, acho que perdemos de alguma forma nossa força em essência. Sei que ele também ajuda a termos reações rápidas, e muitas vezes decisivas. Mas pelo que me recordo dos nossos meses de hospital com a Sofia, as decisões mais sábias foram tomadas pela sobriedade e esperança.
Mas enfim, vamos ao que interessa.
O verão acabou e o outono já apontou aqui na esquina, com cara cinza e as tais mudanças de temperatura. O reflexo aqui em casa foi imediato. Eu comecei a acordar com rinite e a Sofia já está encatarrada. Quarta-feira fomos à consulta no Dr. Flávio, e pela auscuta no pulmãzinho dela, o sinal amarelo acendeu. Começamos imediatamente um tratamento daqueles, para prevenir complicações típicas dessa época do ano. Até aí tudo dentro da normalidade do nosso cotidiano com a Sofia. Mas quando perguntei ao médico, sobre a vacina da gripe A, ele disse:
- Não vacinaram ainda? Tem que fazer isso imediatamente!
Na hora a tal sensação de medo tomou conta de mim. No ano passado passei meses de angústia, pela companhia constante da sombra dessa tal gripe A, até então desconhecida, mas letal para pacientes com o histórico da minha mimosa. Então, junto com as notícias massificadas pelos veículos de comunicação, apareceu um medinho guardado há quase três anos no meu coração. A sensação de impotência frente a algum mal que poderá atingir um filho. Esse realmente é um sentimento novo, que durante minha vida de filha não sabia que existia. É estranho e gera uma gama maluca de sensações. Então fiquei bem quietinha, sem falar muito no assunto, como se o silêncio fosse afastar esses pensamentos da minha cabeça. Então o inverno passado foi-se, a tal pandemia da gripe de arrasto, e os meus medos voltaram para “caixinha” secreta, bem lá no fundo da alma.
Até que o assunto da gripe retomou a vitrine. Desde a semana passada, quando levo a Sofia no colégio, o assunto recorrente entre as mães é a tal vacina contra a gripe A. Parece que o estado de alerta é geral, entre as leoas de plantão. E eu, obviamente, que tenho uma filha no grupo de risco, saquei imediatamente o meu medo da “caixinha” e tenho convivido secretamente com essa sombra de novo. Já entrei em contato com a clínica que fornece a vacina importada, mas só chega em maio.
Muita procura. Poucas doses. Muitos medos.
Que ótimo, e agora?
A solução do Dr. Flávio foi levarmos a Sofia para vacinar na rede pública. Só que a vacina lá não é a importada, e os efeitos colaterais podem ser maiores. Hoje vou buscar os atestados e ver se consigo me encher de coragem. Vou esperar o final de semana passar. Preciso organizar meu estoque de forças internas e dar um antídoto para esse sentimento chato, angustiante e pesado do medo que me acompanha. Preciso só de um oxigênio, e já estou com meu arsenal pronto, e isso inclui bem um exército de anjinhos amigos que nunca nos deixaram na mão.
*Leia-se, entre o céu e a terra!
Conto com vocês, viu?!
Mas enfim, vamos ao que interessa.
O verão acabou e o outono já apontou aqui na esquina, com cara cinza e as tais mudanças de temperatura. O reflexo aqui em casa foi imediato. Eu comecei a acordar com rinite e a Sofia já está encatarrada. Quarta-feira fomos à consulta no Dr. Flávio, e pela auscuta no pulmãzinho dela, o sinal amarelo acendeu. Começamos imediatamente um tratamento daqueles, para prevenir complicações típicas dessa época do ano. Até aí tudo dentro da normalidade do nosso cotidiano com a Sofia. Mas quando perguntei ao médico, sobre a vacina da gripe A, ele disse:
- Não vacinaram ainda? Tem que fazer isso imediatamente!
Na hora a tal sensação de medo tomou conta de mim. No ano passado passei meses de angústia, pela companhia constante da sombra dessa tal gripe A, até então desconhecida, mas letal para pacientes com o histórico da minha mimosa. Então, junto com as notícias massificadas pelos veículos de comunicação, apareceu um medinho guardado há quase três anos no meu coração. A sensação de impotência frente a algum mal que poderá atingir um filho. Esse realmente é um sentimento novo, que durante minha vida de filha não sabia que existia. É estranho e gera uma gama maluca de sensações. Então fiquei bem quietinha, sem falar muito no assunto, como se o silêncio fosse afastar esses pensamentos da minha cabeça. Então o inverno passado foi-se, a tal pandemia da gripe de arrasto, e os meus medos voltaram para “caixinha” secreta, bem lá no fundo da alma.
Até que o assunto da gripe retomou a vitrine. Desde a semana passada, quando levo a Sofia no colégio, o assunto recorrente entre as mães é a tal vacina contra a gripe A. Parece que o estado de alerta é geral, entre as leoas de plantão. E eu, obviamente, que tenho uma filha no grupo de risco, saquei imediatamente o meu medo da “caixinha” e tenho convivido secretamente com essa sombra de novo. Já entrei em contato com a clínica que fornece a vacina importada, mas só chega em maio.
Muita procura. Poucas doses. Muitos medos.
Que ótimo, e agora?
A solução do Dr. Flávio foi levarmos a Sofia para vacinar na rede pública. Só que a vacina lá não é a importada, e os efeitos colaterais podem ser maiores. Hoje vou buscar os atestados e ver se consigo me encher de coragem. Vou esperar o final de semana passar. Preciso organizar meu estoque de forças internas e dar um antídoto para esse sentimento chato, angustiante e pesado do medo que me acompanha. Preciso só de um oxigênio, e já estou com meu arsenal pronto, e isso inclui bem um exército de anjinhos amigos que nunca nos deixaram na mão.
*Leia-se, entre o céu e a terra!
Conto com vocês, viu?!
terça-feira, 23 de março de 2010
Carta para minha mãe
Hoje, 23 de março, minha mãe completa 62 anos de vida. Durante esses 41 anos e alguns meses, caminhamos sempre juntas. Ela casou grávida de mim, aos 19 anos, e acho que por termos passado por muitos desafios juntas, sempre fomos muito amigas. Imagina a cena, em pleno ano de 1968, uma jovem loura e linda casando de mini-saia e com um barrigão de seis meses. Acho que por ter nascido no ano da efervescência política, acabei incorporando esses sentimentos na minha personalidade.
Mas voltando a minha mãe, sempre caminhamos juntas. Muitas vezes ela me puxou para frente. Outras tantas eu dei um empurrãozinho para ela seguir na estrada. Mas ela sempre esteve nos momentos mais importantes, com sua presença acolhedora. Com seu jeito prestativo, trazendo uma comidinha mais gostosa, uma meia mais quentinha, ou seja, um detalhe de carinho que sempre fez toda diferença.
Então hoje pensei em escrever um post especialmente para ela. E quando estava começando a traçar as primeiras linhas, achei uma carta que tinha escrito há poucos anos atrás. Foi na época em que engravidei da Sofia, aos 36 anos. Dei para ela de presente de Dia das Mães, em maio de 2005. No final das contas a Sofia nasceu um mês depois, prematura. E durante os infindáveis meses naquela UTI, seu suporte foi essencial. Hoje, quando vejo ela e a Sofia tão amigas e amadas, tenho a certeza de que nosso laços serão eternos. E ao reler esse texto de 2005, percebi que o que eu queria dizer a ela hoje, já tinha sido escrito. E por isso divido aqui hoje, nessa data tão especial, mais essa janelinha da minha alma. Parabéns mãe, por ser assim, tão mãe!
==================================
Carta para minha mãe - maio/2005
Mãe,
Finalmente chegou esse dia: passei de filha à mãe!
Sei que tudo na vida vem na hora certa e sinto que hoje a Sofia chega no momento mais feliz da minha vida. Desta forma me sinto segura para mostrar para ela o mundo lindo que acredito existir. Sei que durante esses 36 anos em que fui só filha, tive uma missão especial nesta “posição”. Sabemos bem quantas passamos juntas e o quanto seguramos várias pontas em momentos delicados.
Hoje, ao lado do Nauro, sinto que encontrei o que sempre buscava: uma pessoa para dividir meus sonhos e construir meus alicerces para toda vida. A Sofia veio como uma confirmação desse momento, e tenho certeza, vai nos dar muitas alegrias. Ao mesmo tempo olho, para vocês dois, meus pais, e sinto que estão finalmente no caminho seguro e feliz. Sei que todas as turbulências dos últimos anos serviram para acertar o rumo, fortalecer os laços e separar o “joio do trigo”.
Hoje somos todos mais felizes !
Nesse nosso primeiro Dia das Mães, em que também vou "ganhar" presente, acho que temos muito a celebrar. Além de comemorarmos nossas conquistas, temos que celebrar o quanto é bom estarmos juntos, esperando com tanta emoção mais uma ‘menina’ para compartilhar dessa vida linda. Nesse cartão, não vou fazer como os de tantos anos... “desejar isso ou aquilo...”.
Hoje, tenho certeza que temos tudo que desejamos na vida e sei que Deus nos privilegiou em ter esses laços tão fortes e seguros. Portanto, hoje é dia de curtir tudo isso. É dia de agradecer. Obrigado!
Feliz Dia das Mães pra gente!
Com amor,
Gabi
Mas voltando a minha mãe, sempre caminhamos juntas. Muitas vezes ela me puxou para frente. Outras tantas eu dei um empurrãozinho para ela seguir na estrada. Mas ela sempre esteve nos momentos mais importantes, com sua presença acolhedora. Com seu jeito prestativo, trazendo uma comidinha mais gostosa, uma meia mais quentinha, ou seja, um detalhe de carinho que sempre fez toda diferença.
Então hoje pensei em escrever um post especialmente para ela. E quando estava começando a traçar as primeiras linhas, achei uma carta que tinha escrito há poucos anos atrás. Foi na época em que engravidei da Sofia, aos 36 anos. Dei para ela de presente de Dia das Mães, em maio de 2005. No final das contas a Sofia nasceu um mês depois, prematura. E durante os infindáveis meses naquela UTI, seu suporte foi essencial. Hoje, quando vejo ela e a Sofia tão amigas e amadas, tenho a certeza de que nosso laços serão eternos. E ao reler esse texto de 2005, percebi que o que eu queria dizer a ela hoje, já tinha sido escrito. E por isso divido aqui hoje, nessa data tão especial, mais essa janelinha da minha alma. Parabéns mãe, por ser assim, tão mãe!
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Carta para minha mãe - maio/2005
Mãe,
Finalmente chegou esse dia: passei de filha à mãe!
Sei que tudo na vida vem na hora certa e sinto que hoje a Sofia chega no momento mais feliz da minha vida. Desta forma me sinto segura para mostrar para ela o mundo lindo que acredito existir. Sei que durante esses 36 anos em que fui só filha, tive uma missão especial nesta “posição”. Sabemos bem quantas passamos juntas e o quanto seguramos várias pontas em momentos delicados.
Hoje, ao lado do Nauro, sinto que encontrei o que sempre buscava: uma pessoa para dividir meus sonhos e construir meus alicerces para toda vida. A Sofia veio como uma confirmação desse momento, e tenho certeza, vai nos dar muitas alegrias. Ao mesmo tempo olho, para vocês dois, meus pais, e sinto que estão finalmente no caminho seguro e feliz. Sei que todas as turbulências dos últimos anos serviram para acertar o rumo, fortalecer os laços e separar o “joio do trigo”.
Hoje somos todos mais felizes !
Nesse nosso primeiro Dia das Mães, em que também vou "ganhar" presente, acho que temos muito a celebrar. Além de comemorarmos nossas conquistas, temos que celebrar o quanto é bom estarmos juntos, esperando com tanta emoção mais uma ‘menina’ para compartilhar dessa vida linda. Nesse cartão, não vou fazer como os de tantos anos... “desejar isso ou aquilo...”.
Hoje, tenho certeza que temos tudo que desejamos na vida e sei que Deus nos privilegiou em ter esses laços tão fortes e seguros. Portanto, hoje é dia de curtir tudo isso. É dia de agradecer. Obrigado!
Feliz Dia das Mães pra gente!
Com amor,
Gabi
domingo, 14 de março de 2010
Recheio
O prazer por saborear o recheio deve vir de infância. Dia desses mandei umas bolachinhas “Passatempo” na merenda da Sofia e voltaram soltinhas. Ela lambeu todo recheio e deixou as coitadas das bolachas peladas. Fiquei matutando sobre aquele ato infantil, mas já tão cheio de significados.
Daí na sexta-feira passada buscamos a Sofia no colégio, e a convidamos para fazer um happy hour em um lugar que ela adora. Chama de “coqueirinho”, porque tem um exemplar da espécie, de plástico verde e com côcos artificiais, dando boas vindas aos clientes. Então sentamos os três nas mesinhas do Cruz de Malta, que tem vista para a avenida Dom Joaquim. Para quem não nasceu em Pelotas, essa é uma das avenidas que corta a cidade e onde se aglutinam dezenas de jovens sarados e famílias com crianças no final do dia. Alguns vão para tomar um mate no final do dia e outros para “expor a figura”, como diziam naquela novela indiana da Globo. Mas enfim, mal sentamos e passa um daqueles guris bombados, todo lustroso, com músculos por todos os cantos do corpo. A barriga um dia deve ter sido tanquinho, mas agora mais parecia uma lavanderia. Além disso, corria com um cabelo estrategicamente descabelado e com um bronzeado SOS Malibú.
O Nauro na hora seguiu com os olhos aquele exemplar da mesma espécie, e comentou:
- Bahh, esses caras passam o dia na academia e depois vem se fazer que estão nessa forma porque dão uma corridinha no final do dia!
Eu ri e comecei a reletir. Me dei conta que desde os tempos de guria, tipos como aquele nunca me chamaram a atenção. Os meus namorados sempre tiveram cara de normal. Daqueles que quando a gente chegava em um restaurante, a mulherada não se coçava na cadeira pra tentar dar uma espiadela no moço em questão. Mesmo que não tenha um currículo tão extenso de namorados, a maioria foi escolhido pelo recheio e não pela embalagem. A escolha se estende às amizades e mesma que tenha muitos “pastéis de vento” à minha volta, os meus amigos de fé tem como grande qualidade a receita dos seus recheios.
Falei isso e começamos a falar exatamente sobre a importância do recheio. Muitas vezes o prato se apresenta com uma cara ótima, mas na primeira garfada a gente sente que aquela pimentinha em excesso vai dar trabalho mais adiante. Em outras situações comemos aquele petisco com cara de gordurento, mas que tem um temperinho caseiro único, que dá todo o charme. Tem também aquele lanche pasteurizado, que além de caro não alimenta nada, mas que o marketing do negócio acaba sempre nos puxando pra lá.
Assim são muitas das relações que nos cercam no cotidiano. E como a vida é uma refeição para ser saboreada com calma e prazer, decidi ser mais seletiva nas provas que ando fazendo. Tenho descoberto sabores exóticos que me cativaram. Afinal de contas, o recheio é tudo!
Manja che te fa bene!
Daí na sexta-feira passada buscamos a Sofia no colégio, e a convidamos para fazer um happy hour em um lugar que ela adora. Chama de “coqueirinho”, porque tem um exemplar da espécie, de plástico verde e com côcos artificiais, dando boas vindas aos clientes. Então sentamos os três nas mesinhas do Cruz de Malta, que tem vista para a avenida Dom Joaquim. Para quem não nasceu em Pelotas, essa é uma das avenidas que corta a cidade e onde se aglutinam dezenas de jovens sarados e famílias com crianças no final do dia. Alguns vão para tomar um mate no final do dia e outros para “expor a figura”, como diziam naquela novela indiana da Globo. Mas enfim, mal sentamos e passa um daqueles guris bombados, todo lustroso, com músculos por todos os cantos do corpo. A barriga um dia deve ter sido tanquinho, mas agora mais parecia uma lavanderia. Além disso, corria com um cabelo estrategicamente descabelado e com um bronzeado SOS Malibú.
O Nauro na hora seguiu com os olhos aquele exemplar da mesma espécie, e comentou:
- Bahh, esses caras passam o dia na academia e depois vem se fazer que estão nessa forma porque dão uma corridinha no final do dia!
Eu ri e comecei a reletir. Me dei conta que desde os tempos de guria, tipos como aquele nunca me chamaram a atenção. Os meus namorados sempre tiveram cara de normal. Daqueles que quando a gente chegava em um restaurante, a mulherada não se coçava na cadeira pra tentar dar uma espiadela no moço em questão. Mesmo que não tenha um currículo tão extenso de namorados, a maioria foi escolhido pelo recheio e não pela embalagem. A escolha se estende às amizades e mesma que tenha muitos “pastéis de vento” à minha volta, os meus amigos de fé tem como grande qualidade a receita dos seus recheios.
Falei isso e começamos a falar exatamente sobre a importância do recheio. Muitas vezes o prato se apresenta com uma cara ótima, mas na primeira garfada a gente sente que aquela pimentinha em excesso vai dar trabalho mais adiante. Em outras situações comemos aquele petisco com cara de gordurento, mas que tem um temperinho caseiro único, que dá todo o charme. Tem também aquele lanche pasteurizado, que além de caro não alimenta nada, mas que o marketing do negócio acaba sempre nos puxando pra lá.
Assim são muitas das relações que nos cercam no cotidiano. E como a vida é uma refeição para ser saboreada com calma e prazer, decidi ser mais seletiva nas provas que ando fazendo. Tenho descoberto sabores exóticos que me cativaram. Afinal de contas, o recheio é tudo!
Manja che te fa bene!
quarta-feira, 10 de março de 2010
Sobre o encontro...
Gente, depois desse post dos fantasmas quero dar um tempo nessa história de abrir gavetinhas da alma.
Ufaa, fiquei moída!
O retorno da história é que fui ao encontro com os fantasmas e não foi tão difícil quanto imaginava. A casa a que eu me refiro no texto realmente não existe mais. Encontrei um lugar estranho, sem calor humano e até com os tantos resquícios da história apagados por uma maquiagem global. Uma pena!
Mas é o ciclo natural da vida e afinal de contas uma casa tem a cara de seus donos. Vou cuidar da minha que é muito legal e que me faz feliz demais!
Então, falando de papos mais amenos... só passei para indicar um post super divertido no blog do Nauro. Pra quem não conhece, é o meu maridão. Ele escreveu sobre carros cor-de-rosa. O escrito acabou na capa da Zerohora.com o dia todo, ontem. Adivinhem? Choveu gente enviando foto de carro a lá Penélope Charmosa, pelo Rio Grande do Sul a fora. Está muito legal. Leiam e divirtam-se!
http://www.zerohora.com/retratosdavida
Ufaa, fiquei moída!
O retorno da história é que fui ao encontro com os fantasmas e não foi tão difícil quanto imaginava. A casa a que eu me refiro no texto realmente não existe mais. Encontrei um lugar estranho, sem calor humano e até com os tantos resquícios da história apagados por uma maquiagem global. Uma pena!
Mas é o ciclo natural da vida e afinal de contas uma casa tem a cara de seus donos. Vou cuidar da minha que é muito legal e que me faz feliz demais!
Então, falando de papos mais amenos... só passei para indicar um post super divertido no blog do Nauro. Pra quem não conhece, é o meu maridão. Ele escreveu sobre carros cor-de-rosa. O escrito acabou na capa da Zerohora.com o dia todo, ontem. Adivinhem? Choveu gente enviando foto de carro a lá Penélope Charmosa, pelo Rio Grande do Sul a fora. Está muito legal. Leiam e divirtam-se!
http://www.zerohora.com/retratosdavida
sábado, 6 de março de 2010
Fantasmas
Foto tirada aos cinco anos, quando aprendi a andar
de bicicleta, no cenário da minha infância
Cheguei à conclusão de que a maturidade não nos trás só rugas e flacidez, mas serenidade para pensar as coisas por diferentes ângulos. A sabedoria dos orientais está baseada nisso, e não é a toa que quanto mais velhos, mais respeitados eles são. Acho que depois dos 40 começamos a engatinhar nesse universo, que pode ter mais prós do que contras, dependendo da evolução desse amadurecimento.
Tem gente que chega aos 50 com cabeça de 18, querendo beber a vida em um gole. Geralmente sofrem mais, porque em alguma das esquinas da vida, se dão de frente com o espelho, e daí não suportam olhar aquela figura refletida. Com as novas tecnologias a serviço da estética, esse se tornou um campo movediço, onde algumas vezes as transformações externas não acompanham as internas. A coisa é totalmente invertida e muita gente em vez de procurar uma terapia, ou um trabalho voluntário, gasta seu tempo e dinheiro com excesso de butox. Nada contra as cirurgias plásticas e melhorias na lataria, longe disso, mas a discrepância entre motor e lataria não podem extrapolar. Senão o Fusca perde seu charme de originalidade e a Ferrari vira lugar comum. Dá pra entender?
Mas esse prefácio abre caminho para uma das melhores coisas que o passar dos anos nos brinda. A coragem para declarar e enfrentar nossos fantasmas. É aquela velha história do espelho, só que quando isso acontece e enxergamos nele bem mais que o visível aos olhos, saímos ganhando. Eu tenho meus medos e mágoas, como todos, e por pensar com carinho neles acabei descobrindo que encará-los de frente é um desafio, mas também pode ser a solução.
Como esse blog nasceu com a missão de ser um divã-virtual, e percebi que escrever me ajuda a exorcizar esses medos, abro aqui uma porta secreta da minha alma. Esse passo também me dá medo, mas me dou ao direito, já que aos 40 anos estamos com um pé na incensatez da juventude e outro na sabedoria dos maduros. Pra resumir, deixo de lado os receios e me jogo aos anseios. E a partir dessa decisão, resolvi encarar de frente um fantasma que só aparece nos meus sonhos e pesadelos mais íntimos.
Em 2003 deixei junto com meus pais, a casa onde nasci e passei a maior parte da minha existência. Meus pais chegaram naquele lugar em um efervescente inverno de 68. Ela com 19 anos e grávida de mim, e ele um guri de vinte e poucos anos, que encarou o desafio precoce de formar sua prole. Ali escrevi 34 anos da minha história. As paredes daquela casa secular, guardaram os meus segredos de menina e minhas saborosas descobertas adolescentes. As raízes da figueira que testemunha séculos, serviu de casa para minhas primeiras bonecas. Fiz comidinha com as folhas e brinquei com os gravetos caídos do bambuzal. Nas águas daquele arroio que muda de cor a cada estação, lavei a alma das primeiras decepções amorosas. E nos cômodos imensos da charqueada, me enxerguei pela primeira vez como mulher. Uma vida mágica, naquela casa que se assemelhava às descritas por Isabel Allende nos seus romances. Mas na estrada da vida não existe ficção, e um belo dia vi acontecer ali, uma daquelas situações que a gente sempre vê na família ao lado, mas jura que nunca vai acontecer na nossa.
Minha avó querida, que sempre morou conosco, faleceu em 2001. Com a ausência da matriarca, a dor que invadiu nossas histórias não foi só da saudade. A divisão de bens trouxe junto a divisão de laços. Com isso, deixamos àquele cenário que povoou meus sonhos de infância de um dia para o outro. Meus pais sofreram muito com todas as mudanças: externas e internas. O peso que sempre demos aos laços de amor, essenciais e valorosos, deixou feridas expostas. Foram tempos difíceis e silenciosos. E como não acontece só nas novelas, a vida real trouxe uma dolorosa e traumática ruptura familiar.
Junto com a ausência física daquele lugar, sepultei pessoas que foram parte da minha história. E não digo isso porque somos uma família de italianos, mas porque éramos uma família de fato e sou muito definitiva nas minhas decisões. Nada jamais justificaria a opção pelos bens materiais. Ainda mais quando na balança estão sentimentos imensuráveis. Natais compartilhando a mesma felicidade, conquistas celebradas com abraços sinceros e tristezas abrandadas com os laços de sangue. Engoli em seco e sofri muito, sempre com essa gaveta da alma lacrada. Para agüentar, tomei como decisão deixar aquela parte da vida para trás. Desses tempos, guardo apenas um simbolismo. Um único móvel que meus pais tiveram direito de levar, e que por carinho me deram de presente. É uma linda penteadeira antiga que acomodei em lugar de honra da minha casa. Tenho poucas e raras fotos de minha avó. O arquivo que guardo, está em um backup secreto, guardado às sete-chaves, dentro da memória afetiva do meu coração.
Nunca mais voltei naquele lugar, mas confesso que muitas noites acordei de sobressalto, sonhando que estava em algum dos meus cantos preferidos de infância. Alguns amigos de fora, que vieram visitar a cidade, já quiseram ir conhecer a casa, que hoje é ponto turístico. Mas sempre consegui me esquivar, com desculpas discretas, que convenciam a eles, mas não a mim.
Hoje a noite o Rogerinho, um amigo querido, vai festejar seu aniversário lá. Todos os anos a festa acontece no mesmo lugar, e há exatos sete anos invento desculpas superficiais para não ir.
Hoje decidi que vai ser diferente. Resolvi marcar um encontro com meus fantasmas. Sem aviso prévio, deixando a vida acontecer. Quero levar minha filha amada para conhecer o lugar onde a mamãe foi muito feliz. A decisão veio de forma branda, talvez seja sinal desse tal amadurecimento. Lembrei de uma frase de algum poeta que não lembro agora, e que tinha em destaque em uma agenda escolar, aos 17 anos. Dizia:
“Descobri que tenho saudades não daquele lugar, mas daquela felicidade!”.
Hoje sei que aquela bifurcação da vida fez com que eu chegasse até aqui. Nesse meu mundo de hoje, acimentado pelos dois amores da minha vida: Nauro e Sofia. A nossa palafita tem cada pedacinho de nós três, e foi construída com a nossa história. Tudo exatamente como Deus planejou. Por isso agradeço a Ele e a sua sabedoria, que mesmo quando parece escrever a coisa errada, está nos levando para o nosso destino.
Então, que venham os fantasmas e suas respostas!
quarta-feira, 3 de março de 2010
(Dês)assistência
Esse tal mundo globalizado trouxe muita coisa boa para as nossas vidas. Esse mesmo texto que escrevo sentada na cama, com o ar-condicionado ligado, no século XIX seria escrito pela minha Voinha em uma escrivaninha de mogno, com uma caneta tinteiro em uma mão e um leque na outra. Hoje, essa mesma cena poderia estar acontecendo em qualquer canto, fosse em um banco da praça ou no topo do Aconcágua (Se o 3G da vivo não se fresquiar, é claro!).
Com a tecnologia dos dias de hoje, a comodidade da comunicação passou a ser imensurável nas nossas vidas. Mas tem uma coisa complicada nisso tudo. Como todo bônus tem seu ônus, viver no mundo moderno faz com que alguns sentimentos novos e estranhos nos acompanhem de perto. Nos últimos tempos tenho percebido uma sensação coletiva de desassistência. Sei lá se essa palavra consta ou não no dicionário, mas é exatamente essa a sensação que tenho em muitos momentos burocráticos da vida. Depois de 41 anos, pela primeira vez estou movendo uma ação na justiça. Sempre achei que existiam formas racionais de resolver as coisas e que nada seria substituído por uma boa conversa olho no olho. Mas esse é um privilégio que o mundo tecnológico nos furtou.
Na semana passada quase cheguei às raias da loucura falando com um desses robôs-humanos contratados pelo Credicard. Já estou movendo uma ação judicial contra eles, e queria apenas conseguir encerrar meu cartão de vez. Depois de resistir a várias investidas da técnica aplicada de “como enlouquecer e desrespeitar seu cliente em menos de cinco minutos”, não consegui o que queria. Todos os empecilhos foram colocados pela robótica treinada. Só faltou ela me pedir a data do meu batizado e a idade do padre naquela época. De resto perguntou tudo e mais um pouco para poder comprovar que eu, era eu mesma. No final me disse:
- Sinto muito senhora Gabriela, mas não vou poder efetivar o seu pedido!
Conste nos autos do processo que isso já fazia mais de 26 minutos de ligação, com uma tensão em nível elevado e palavras sutis que gostariam de dizer bem mais do que o dito. Quando me dei por vencida, exausta pela surra de tele-marketing que acabara de levar, a robótica me diz:
- Credicard agradece a sua ligação e tenha um bom dia!
Eu não pude acreditar. Como assim? Ela bebeu??!
Não resisti e sai da casinha. Peguei o celular e me transformei no incríevl hulk dos episódios de antigamente e gritei:
- E a senhora tenha um péééééééééssimo dia, se possível com dor de cabeça e pra completar que na hora de ir pra casa desabe um temporal em São Paulo e tu fiques presa no trânsito por cinco horas!!!!
Bom gente, depois dessa manhã calamitosa meu dia praticamente acabou. Parecia que eu tinha levado uma surra. Fiquei triste, sentida. Daí comecei a pensar nesse tal sentimento que me invadiu. É a tal desassitência. E se não consta no dicionário vou defini-la aqui:
Desassitência – é o contrário da palavra assistência, que tem origem no verbo assistir que, em sua forma transitiva direta, significa ajudar, auxiliar. Em outras palavras, a assistência é o ato de prestar auxílio, ajuda, para alguém.
A desassistência é o contrário disso e é um mal dos tempos globalizados, ainda sem cura!
Com a tecnologia dos dias de hoje, a comodidade da comunicação passou a ser imensurável nas nossas vidas. Mas tem uma coisa complicada nisso tudo. Como todo bônus tem seu ônus, viver no mundo moderno faz com que alguns sentimentos novos e estranhos nos acompanhem de perto. Nos últimos tempos tenho percebido uma sensação coletiva de desassistência. Sei lá se essa palavra consta ou não no dicionário, mas é exatamente essa a sensação que tenho em muitos momentos burocráticos da vida. Depois de 41 anos, pela primeira vez estou movendo uma ação na justiça. Sempre achei que existiam formas racionais de resolver as coisas e que nada seria substituído por uma boa conversa olho no olho. Mas esse é um privilégio que o mundo tecnológico nos furtou.
Na semana passada quase cheguei às raias da loucura falando com um desses robôs-humanos contratados pelo Credicard. Já estou movendo uma ação judicial contra eles, e queria apenas conseguir encerrar meu cartão de vez. Depois de resistir a várias investidas da técnica aplicada de “como enlouquecer e desrespeitar seu cliente em menos de cinco minutos”, não consegui o que queria. Todos os empecilhos foram colocados pela robótica treinada. Só faltou ela me pedir a data do meu batizado e a idade do padre naquela época. De resto perguntou tudo e mais um pouco para poder comprovar que eu, era eu mesma. No final me disse:
- Sinto muito senhora Gabriela, mas não vou poder efetivar o seu pedido!
Conste nos autos do processo que isso já fazia mais de 26 minutos de ligação, com uma tensão em nível elevado e palavras sutis que gostariam de dizer bem mais do que o dito. Quando me dei por vencida, exausta pela surra de tele-marketing que acabara de levar, a robótica me diz:
- Credicard agradece a sua ligação e tenha um bom dia!
Eu não pude acreditar. Como assim? Ela bebeu??!
Não resisti e sai da casinha. Peguei o celular e me transformei no incríevl hulk dos episódios de antigamente e gritei:
- E a senhora tenha um péééééééééssimo dia, se possível com dor de cabeça e pra completar que na hora de ir pra casa desabe um temporal em São Paulo e tu fiques presa no trânsito por cinco horas!!!!
Bom gente, depois dessa manhã calamitosa meu dia praticamente acabou. Parecia que eu tinha levado uma surra. Fiquei triste, sentida. Daí comecei a pensar nesse tal sentimento que me invadiu. É a tal desassitência. E se não consta no dicionário vou defini-la aqui:
Desassitência – é o contrário da palavra assistência, que tem origem no verbo assistir que, em sua forma transitiva direta, significa ajudar, auxiliar. Em outras palavras, a assistência é o ato de prestar auxílio, ajuda, para alguém.
A desassistência é o contrário disso e é um mal dos tempos globalizados, ainda sem cura!
terça-feira, 2 de março de 2010
Eliane Brum
O texto que publico abaixo é de uma mulher a quem muito admiro. Não apenas pelos seus prêmios literários e jornalísticos, mas pela forma que enxerga a vida. Já li todos seus livros e muitas de suas crônicas, mas essa em especial me chega no momento preciso. No mesmo dia em que a Sofia começa o colégio. Como já comentei aqui no post "Cordão umbilical", um dia muito especial nas nossas vidas.
Ontem tirei a tarde de folga para curtir com ela. Mas parece que nós as duas sabíamos que precedia a data de hoje. Tentamos fazer com que nada tivesse acontecendo, mas não conseguimos. Passamos a tarde pensativas e contemplativas. A noite o Nauro foi para o quarto dela, e nós as duas dormimos abraçadinhas. Precisávamos disso!
Agora pela manhã, quando pensei em escrever um post sobre isso, recebi do Nauro essa bela crônica de despedida da Eliane Brum. Como nada nessa vida acontece por acaso, ao ler cada parágrafo dessa despedida, encontrei sentimentos meus. Essa vida é mesmo incrível e ter coragem de reiventá-la, é parte de saber vivê-la.
Torçam por (todos) nós e curtam essas sublimes palavras de Eliane Brum!
beijos,
Gabi
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Escrivaninha Xerife
Minha nova vida precisa de gavetas e da coragem de assumir as cicatrizes
ELIANE BRUM
Esta coluna é inteiramente sobre mim. Aviso na primeira linha, que é para nenhum leitor reclamar que estava desavisado. Se achar que não vale a pena, pode parar por aqui e pular para outra.
Desde pequena, eu sonho com uma escrivaninha Xerife. Não sabia que se chamava xerife a escrivaninha dos meus sonhos. Descobri agora. Esta escrivaninha de madeira é cheia de gavetinhas e escaninhos de vários tamanhos e tem uma tampa. Quando você para de trabalhar, você fecha e ninguém sabe o que há lá dentro. Não tenho a menor ideia de onde eu possa ter visto uma dessas na minha cidade, lá no interior do Rio Grande do Sul. O fato é que eu sempre achei que essa era a única escrivaninha que um escritor poderia ter. Por causa das gavetinhas e, especialmente, por causa da tampa.
É mágico. Você está lá, escrevendo, todo escancarado e, de repente, você fecha. E até chaveia. Seus anjos e principalmente seus demônios ficam lá dentro, sem risco de se dependurarem no lustre, esconderem-se em algum lugar onde você não os ache ou mesmo assombrar o resto da família. Tive várias escrivaninhas ao longo da vida, de fórmica à penúltima, toda modernosa, feita com madeira de demolição.
No sábado, comprei minha última, a minha própria Xerife. Por que só agora? Porque só agora a mereci. Decidi que vou me enforcar nas cordas da liberdade. Para isso, precisava me reinventar com tudo aquilo que já era meu. Para marcar este ato, queria transformar algo da matéria volátil dos sonhos em existência concreta. A escrivaninha dos devaneios da minha infância materializou-se, com tudo de incontrolável que existe quando nos arriscamos a desentocar os sonhos – com uma vara que é sempre meio curta – e os expomos às intempéries do real. Foi um ato de profundo simbolismo para mim, que adoro rituais de passagem. Um dia antes da compra, na sexta-feira, deixei a redação da revista ÉPOCA, depois de dez anos. Poderia continuar ali por mais 20 (se continuassem me querendo, claro), mas achei que estava na hora de inventar uma nova vida para mim.
Deixei Porto Alegre e a redação do jornal Zero Hora, onde trabalhei por 11 anos, em janeiro de 2000, para vir para São Paulo e para a ÉPOCA. Estava bem confortável lá. Mas há um momento que, pelo menos para mim, o conforto vira desconforto. Na ocasião, me perguntavam por que eu deixaria tanto para ir para uma cidade maluca. Eu estava em um ótimo momento. Tinha acabado de ganhar um prêmio Esso (que para os jornalistas é muito importante), tinha uma coluna de reportagem (A Vida Que Ninguém Vê) que eu amava, adorava a cidade, tinha mais amigos do que conseguia dar conta, meu próprio apartamento quitado etc etc. Eu gostava de tudo, mas estava curiosa com a possibilidade de criar uma nova história para mim. Respondia: estou indo porque não quero saber como será a minha vida daqui a cinco anos. E fui.
Agora, completei dez anos incríveis na ÉPOCA. Fiz reportagens que transformaram a minha vida (e, espero, algumas outras), perambulei por Amazônias desconcertantes (elas são várias e sempre escapam), viajei pelas muitas periferias de São Paulo e testemunhei pequenos grandes milagres de gente. Hoje, sou povoada pelos personagens extraordinários com quem cruzei nesta última década. Sou uma Eliane muito mais rica agora do que quando cheguei. E tudo o que vivi dará sentido à nova Eliane que virá. Não foi uma decisão intempestiva. Ela vem acontecendo dentro – e fora de mim – há um bom tempo. Há cinco anos tenho trabalhado nas férias e finais de semana em projetos paralelos, como documentários, livros, oficinas e palestras. Queria experimentar coisas novas e abrir outros caminhos para fora de mim. Outras maneiras de estar no mundo. Tenho uma convicção comigo: temos uma vida só, mas dentro dessa, podemos viver muitas. E eu quero todas as minhas.
Em 2008, comecei a escrever sobre a morte, de várias maneiras, em minhas reportagens na ÉPOCA. Olhar o rosto da morte, para mim, era desatar o nó que ainda me impedia de viver uma vida mais viva. Desde pequena, eu tenho esta característica. Quando tenho medo de alguma coisa, vou lá e faço. Quase perdi algumas partes do corpo por causa disso. E certamente perdi algumas porções invisíveis de mim mesma. Ao fazer a principal reportagem desta série, quando acompanhei uma paciente de câncer até o fim da sua vida, perdi um naco da minha alma de supetão. Levei um tempão para parar de sangrar, como quem acompanha esta coluna sabe.
Mas, um dos meus muitos apelidos é “Tixa”, de “lagartixa”. Há quem faça fantasias sobre a origem dele. Mas é bem menos picante. Passei a vida deixando a cauda em sustos pelas esquinas de mundo. Sempre acabo me regenerando, ainda que leve tempo. Todos somos lagartixas em alguma medida, apenas que eu abuso um pouco dessa vantagem evolutiva. Minhas incursões no universo da morte deram-me maior clareza sobre a natureza da vida. Algumas pessoas comentavam que eu devia ter algum problema para ser tão mórbida. Bobagem. Morbidez é outra coisa. Não se fala da morte por causa da morte, mas por causa da vida. Lidar bem com a certeza que todos temos de morrer um dia, mais cedo ou mais tarde, é fundamental para viver melhor. E para compreender a natureza fugaz e preciosa da vida.
A vida rugiu com mais força dentro de mim depois dessas várias reportagens sobre a morte. A última delas, que encerra um ciclo, sairá em breve na revista. Faço 44 anos em maio. Fiz uns cálculos e descobri que preciso me apressar se quiser conhecer o mundo inteiro – e eu quero. E também para escrever o tanto que sonho. Como já disse mais de uma vez, escrever não é o que faço, é o que sou. E estava na hora de comprar minha escrivaninha Xerife e mudar de cenário. Vou continuar fazendo reportagem. Apenas de um outro jeito, num outro tempo. Sou repórter até os confins da minha alma – e um pouco além. Se conseguir escrever ficção, como também sonho, só será possível pelo tanto de vida real e personagens de carne e osso que conheci nestes últimos 21 anos de reportagem. Só o real é absurdo. A ficção é sempre possível.
Estou com medo, muito medo. Volta e meia choro com saudade de uma vida que já não há. Mas eu não tenho medo de ter medo. Deixo um emprego seguro, numa revista onde respeitam o que sou e o que faço, com um bom salário e todos os benefícios, para me entregar ao vazio. Sei que tudo pode dar errado, sempre pode. Mas se der, eu invento outro jeito de seguir adiante. Esta é outra convicção que tenho: prefiro fazer as coisas do meu jeito e cometer meus próprios erros. Tanto quanto os acertos, os erros também devem nos pertencer. Esta nova vida que começa hoje vem sendo construída há muito, mas só no final do ano passado descobri que a hora era agora. Não sei como foi. Nem se houve um momento exato. Lembro de dois pequenos episódios, apenas. Num deles eu corria para algum lugar com o João, meu marido, quando ele interrompeu meu passo marcial e disse: “olha”. Eu olhei para todos os lados e nada vi. Até que, com a ajuda dele, localizei uma florzinha diminuta no meio do concreto. Nós nos acocoramos e ficamos olhando o tanto de detalhes que ela tinha. Como era especial e linda e única. Aprendi isso com o João, que se esquece de tudo para passar intermináveis minutos vendo a forma de uma flor ou de uma nuvem ou de uma fatia de bolo de chocolate. Nunca vi ninguém enxergar tanta beleza no mundo quanto ele. Somos tudo o que somos. Mas as pessoas que amamos exacerbam algumas partes de nós, para o bem e para o mal. E o João tem este efeito sobre mim, de me tornar o melhor do que sou. Naquele instante, percebi que corria tanto para fazer as tantas coisas paralelas que tinha inventado, que estava esquecendo daquilo que sempre deu sentido à minha reportagem, à minha vida: estava esquecendo de olhar de verdade.
O outro episódio aconteceu no final do ano. Eu estava com os meus pais na casa de praia que eles alugam a cada verão. E ficava olhando para eles. Me dava enorme prazer ver os dois se mexendo. Observar o jeito que cada um funcionava com relação a si mesmo e naquele casamento tão amoroso. (Eles andam de mãos dadas depois de 56 anos de casados e o pai dá flores pra mãe no aniversário de “conhecimento”). Num certo momento, fiquei olhando para o cabelo da mãe, o cabelo do pai, o jeito que o vento batia neles. E descobri que não podia mais continuar numa vida que eu não tivesse tempo para olhar o cabelo deles se mexendo com o vento. Quando voltei para São Paulo e para a ÉPOCA, soube que tinha chegado a hora de partir. E agora lá vou eu. Não sei bem para onde, mas sei que é para mais perto de mim mesma.
Comecei então a procurar minha escrivaninha. Entrei no Mercado Livre, o site da internet que vende tudo, e coloquei na busca: “escrivaninha antiga”. E aí veio de todo o jeito e de toda época, com pés palitos, forma de bambolê, e também a minha, que descobri que se chama Xerife. Havia vários exemplares, mas gostei particularmente de duas. Uma era do Rio de Janeiro, o frete seria caro. A outra morava em São Paulo. Apostei nesta. O dono me deixou dar uma olhada nela antes de comprar. E lá fui eu na quinta-feira com o João num galpão da Barra Funda. Ela era uma escrivaninha viva. Olhei para ela, ela olhou para mim, e eu soube que era a “minha”. Como na história do Harry Potter, em que é a varinha mágica que escolhe o bruxo – e só há uma varinha, única e singular, para cada bruxo –, a minha escrivaninha era assim, minha. Nasceu antes de mim e pertenceu a outros donos porque precisava me esperar. Examinamos, eu e o João, ela inteira. E descobrimos que ela tinha mais cicatrizes do que nos prometeram. E alguns moradores indesejados. Numa das gavetinhas, havia um ninho de cupins. Nas costas, ela tinha sido quebrada em algum episódio de violência ou mau humor. Mas eu nunca fui uma boa negociante. As coisas práticas não têm muito efeito sobre mim. A escrivaninha também me receberia com mais rugas e feridas fechadas e abertas do que talvez esperasse. Nenhuma de nós nasceu ontem. Ambas queríamos – e precisávamos – nascer de novo. Aceitei as cicatrizes da minha escrivaninha como parte da história de sua vida antes de mim. E fechei o negócio. Ela queria ir embora pra casa comigo já, eu senti isso. E o João também. Mas eu ainda precisava fazer o depósito e acertar o frete. Enquanto isso, o vendedor providenciaria um exterminador de cupins. Ao contar para a Maíra, minha filha, sobre a escrivaninha, eu dizia, toda empolgada: “ela tem cupins, mas também tem uma alma dentro dela!”. Com seu senso de humor peculiar, Maíra comentou: “Se tem alma, não traz para casa!”.
O problema é que eu tenho um fraco por almas. Venho de uma família de mulheres que falam com os fantasmas que vagam pela casa com a maior sem-cerimônia. Dava até pena do meu tio-avô, um homenzinho pequeno que passou a vida inventando objetos mirabolantes e deu a si mesmo um nome de passarinho. Quando ele arrastava os chinelos pelo assoalho, era despachado pela sua viúva: “Vai-te embora, Graúna, já disse que não te quero aqui!”. Para ele, a morte não mudou nada. A mulher continuava mandando em seu melancólico espectro.
Hoje é o primeiro dia da minha nova vida. Tenho que fazer um rearranjo completo na minha cabeça programada em mais de duas décadas de vida de funcionária. Não sigo mais uma lógica de segunda a sexta. Posso escrever às 6h da manhã de domingo, como faço agora. E ir ao cinema no meio da tarde de segunda-feira, como pretendo. Minha semana não terá mais finais e começos. Posso ficar acordada à noite e dormir de dia. Posso almoçar à meia-noite e tomar café ao meio-dia. Posso apenas ouvir a chuva batendo no telhado. Posso permanecer olhando para o teto por horas a fio. O tempo é meu. Esta é a grande mudança. Vou perder dinheiro, segurança, carteira assinada, benefícios, férias remuneradas, décimo-terceiro. Em troca, retomo a propriedade do meu tempo. Me preparei para viver com pouco. Criei minha filha, comprei apartamento, não tenho um real de dívida. Só tenho agora que manter o meu corpinho. E ele é bem barato. Três pratos de feijão o deixam todo feliz.
Mantenho esta coluna exatamente aqui onde está. Ela faz parte do meu projeto de liberdade. Queria muito continuar, não sabia se queriam que eu continuasse. A ÉPOCA e a Editora Globo quiseram. Sou grata por isso. Assim como pela forma extremamente respeitosa com que a ÉPOCA e a Editora Globo trataram minha saída e meu desejo de reinventar minha vida. Eu adoro escrever para vocês. E amo a internet. Então, toda segunda-feira estarei aqui, como sempre, logo de manhã, para pensarmos juntos sobre essa confusão que é a vida do mundo e a de todos nós. Agora, vou abrir minha escrivaninha Xerife. Estaremos, eu e ela, com todas as gavetas de nossas almas escancaradas. De peito aberto, no vazio. Vamos ver o que conseguimos fazer juntas.
Torçam por mim! (Por nós!)
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
Ontem tirei a tarde de folga para curtir com ela. Mas parece que nós as duas sabíamos que precedia a data de hoje. Tentamos fazer com que nada tivesse acontecendo, mas não conseguimos. Passamos a tarde pensativas e contemplativas. A noite o Nauro foi para o quarto dela, e nós as duas dormimos abraçadinhas. Precisávamos disso!
Agora pela manhã, quando pensei em escrever um post sobre isso, recebi do Nauro essa bela crônica de despedida da Eliane Brum. Como nada nessa vida acontece por acaso, ao ler cada parágrafo dessa despedida, encontrei sentimentos meus. Essa vida é mesmo incrível e ter coragem de reiventá-la, é parte de saber vivê-la.
Torçam por (todos) nós e curtam essas sublimes palavras de Eliane Brum!
beijos,
Gabi
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Escrivaninha Xerife
Minha nova vida precisa de gavetas e da coragem de assumir as cicatrizes
ELIANE BRUM
Esta coluna é inteiramente sobre mim. Aviso na primeira linha, que é para nenhum leitor reclamar que estava desavisado. Se achar que não vale a pena, pode parar por aqui e pular para outra.
Desde pequena, eu sonho com uma escrivaninha Xerife. Não sabia que se chamava xerife a escrivaninha dos meus sonhos. Descobri agora. Esta escrivaninha de madeira é cheia de gavetinhas e escaninhos de vários tamanhos e tem uma tampa. Quando você para de trabalhar, você fecha e ninguém sabe o que há lá dentro. Não tenho a menor ideia de onde eu possa ter visto uma dessas na minha cidade, lá no interior do Rio Grande do Sul. O fato é que eu sempre achei que essa era a única escrivaninha que um escritor poderia ter. Por causa das gavetinhas e, especialmente, por causa da tampa.
É mágico. Você está lá, escrevendo, todo escancarado e, de repente, você fecha. E até chaveia. Seus anjos e principalmente seus demônios ficam lá dentro, sem risco de se dependurarem no lustre, esconderem-se em algum lugar onde você não os ache ou mesmo assombrar o resto da família. Tive várias escrivaninhas ao longo da vida, de fórmica à penúltima, toda modernosa, feita com madeira de demolição.
No sábado, comprei minha última, a minha própria Xerife. Por que só agora? Porque só agora a mereci. Decidi que vou me enforcar nas cordas da liberdade. Para isso, precisava me reinventar com tudo aquilo que já era meu. Para marcar este ato, queria transformar algo da matéria volátil dos sonhos em existência concreta. A escrivaninha dos devaneios da minha infância materializou-se, com tudo de incontrolável que existe quando nos arriscamos a desentocar os sonhos – com uma vara que é sempre meio curta – e os expomos às intempéries do real. Foi um ato de profundo simbolismo para mim, que adoro rituais de passagem. Um dia antes da compra, na sexta-feira, deixei a redação da revista ÉPOCA, depois de dez anos. Poderia continuar ali por mais 20 (se continuassem me querendo, claro), mas achei que estava na hora de inventar uma nova vida para mim.
Deixei Porto Alegre e a redação do jornal Zero Hora, onde trabalhei por 11 anos, em janeiro de 2000, para vir para São Paulo e para a ÉPOCA. Estava bem confortável lá. Mas há um momento que, pelo menos para mim, o conforto vira desconforto. Na ocasião, me perguntavam por que eu deixaria tanto para ir para uma cidade maluca. Eu estava em um ótimo momento. Tinha acabado de ganhar um prêmio Esso (que para os jornalistas é muito importante), tinha uma coluna de reportagem (A Vida Que Ninguém Vê) que eu amava, adorava a cidade, tinha mais amigos do que conseguia dar conta, meu próprio apartamento quitado etc etc. Eu gostava de tudo, mas estava curiosa com a possibilidade de criar uma nova história para mim. Respondia: estou indo porque não quero saber como será a minha vida daqui a cinco anos. E fui.
Agora, completei dez anos incríveis na ÉPOCA. Fiz reportagens que transformaram a minha vida (e, espero, algumas outras), perambulei por Amazônias desconcertantes (elas são várias e sempre escapam), viajei pelas muitas periferias de São Paulo e testemunhei pequenos grandes milagres de gente. Hoje, sou povoada pelos personagens extraordinários com quem cruzei nesta última década. Sou uma Eliane muito mais rica agora do que quando cheguei. E tudo o que vivi dará sentido à nova Eliane que virá. Não foi uma decisão intempestiva. Ela vem acontecendo dentro – e fora de mim – há um bom tempo. Há cinco anos tenho trabalhado nas férias e finais de semana em projetos paralelos, como documentários, livros, oficinas e palestras. Queria experimentar coisas novas e abrir outros caminhos para fora de mim. Outras maneiras de estar no mundo. Tenho uma convicção comigo: temos uma vida só, mas dentro dessa, podemos viver muitas. E eu quero todas as minhas.
Em 2008, comecei a escrever sobre a morte, de várias maneiras, em minhas reportagens na ÉPOCA. Olhar o rosto da morte, para mim, era desatar o nó que ainda me impedia de viver uma vida mais viva. Desde pequena, eu tenho esta característica. Quando tenho medo de alguma coisa, vou lá e faço. Quase perdi algumas partes do corpo por causa disso. E certamente perdi algumas porções invisíveis de mim mesma. Ao fazer a principal reportagem desta série, quando acompanhei uma paciente de câncer até o fim da sua vida, perdi um naco da minha alma de supetão. Levei um tempão para parar de sangrar, como quem acompanha esta coluna sabe.
Mas, um dos meus muitos apelidos é “Tixa”, de “lagartixa”. Há quem faça fantasias sobre a origem dele. Mas é bem menos picante. Passei a vida deixando a cauda em sustos pelas esquinas de mundo. Sempre acabo me regenerando, ainda que leve tempo. Todos somos lagartixas em alguma medida, apenas que eu abuso um pouco dessa vantagem evolutiva. Minhas incursões no universo da morte deram-me maior clareza sobre a natureza da vida. Algumas pessoas comentavam que eu devia ter algum problema para ser tão mórbida. Bobagem. Morbidez é outra coisa. Não se fala da morte por causa da morte, mas por causa da vida. Lidar bem com a certeza que todos temos de morrer um dia, mais cedo ou mais tarde, é fundamental para viver melhor. E para compreender a natureza fugaz e preciosa da vida.
A vida rugiu com mais força dentro de mim depois dessas várias reportagens sobre a morte. A última delas, que encerra um ciclo, sairá em breve na revista. Faço 44 anos em maio. Fiz uns cálculos e descobri que preciso me apressar se quiser conhecer o mundo inteiro – e eu quero. E também para escrever o tanto que sonho. Como já disse mais de uma vez, escrever não é o que faço, é o que sou. E estava na hora de comprar minha escrivaninha Xerife e mudar de cenário. Vou continuar fazendo reportagem. Apenas de um outro jeito, num outro tempo. Sou repórter até os confins da minha alma – e um pouco além. Se conseguir escrever ficção, como também sonho, só será possível pelo tanto de vida real e personagens de carne e osso que conheci nestes últimos 21 anos de reportagem. Só o real é absurdo. A ficção é sempre possível.
Estou com medo, muito medo. Volta e meia choro com saudade de uma vida que já não há. Mas eu não tenho medo de ter medo. Deixo um emprego seguro, numa revista onde respeitam o que sou e o que faço, com um bom salário e todos os benefícios, para me entregar ao vazio. Sei que tudo pode dar errado, sempre pode. Mas se der, eu invento outro jeito de seguir adiante. Esta é outra convicção que tenho: prefiro fazer as coisas do meu jeito e cometer meus próprios erros. Tanto quanto os acertos, os erros também devem nos pertencer. Esta nova vida que começa hoje vem sendo construída há muito, mas só no final do ano passado descobri que a hora era agora. Não sei como foi. Nem se houve um momento exato. Lembro de dois pequenos episódios, apenas. Num deles eu corria para algum lugar com o João, meu marido, quando ele interrompeu meu passo marcial e disse: “olha”. Eu olhei para todos os lados e nada vi. Até que, com a ajuda dele, localizei uma florzinha diminuta no meio do concreto. Nós nos acocoramos e ficamos olhando o tanto de detalhes que ela tinha. Como era especial e linda e única. Aprendi isso com o João, que se esquece de tudo para passar intermináveis minutos vendo a forma de uma flor ou de uma nuvem ou de uma fatia de bolo de chocolate. Nunca vi ninguém enxergar tanta beleza no mundo quanto ele. Somos tudo o que somos. Mas as pessoas que amamos exacerbam algumas partes de nós, para o bem e para o mal. E o João tem este efeito sobre mim, de me tornar o melhor do que sou. Naquele instante, percebi que corria tanto para fazer as tantas coisas paralelas que tinha inventado, que estava esquecendo daquilo que sempre deu sentido à minha reportagem, à minha vida: estava esquecendo de olhar de verdade.
O outro episódio aconteceu no final do ano. Eu estava com os meus pais na casa de praia que eles alugam a cada verão. E ficava olhando para eles. Me dava enorme prazer ver os dois se mexendo. Observar o jeito que cada um funcionava com relação a si mesmo e naquele casamento tão amoroso. (Eles andam de mãos dadas depois de 56 anos de casados e o pai dá flores pra mãe no aniversário de “conhecimento”). Num certo momento, fiquei olhando para o cabelo da mãe, o cabelo do pai, o jeito que o vento batia neles. E descobri que não podia mais continuar numa vida que eu não tivesse tempo para olhar o cabelo deles se mexendo com o vento. Quando voltei para São Paulo e para a ÉPOCA, soube que tinha chegado a hora de partir. E agora lá vou eu. Não sei bem para onde, mas sei que é para mais perto de mim mesma.
Comecei então a procurar minha escrivaninha. Entrei no Mercado Livre, o site da internet que vende tudo, e coloquei na busca: “escrivaninha antiga”. E aí veio de todo o jeito e de toda época, com pés palitos, forma de bambolê, e também a minha, que descobri que se chama Xerife. Havia vários exemplares, mas gostei particularmente de duas. Uma era do Rio de Janeiro, o frete seria caro. A outra morava em São Paulo. Apostei nesta. O dono me deixou dar uma olhada nela antes de comprar. E lá fui eu na quinta-feira com o João num galpão da Barra Funda. Ela era uma escrivaninha viva. Olhei para ela, ela olhou para mim, e eu soube que era a “minha”. Como na história do Harry Potter, em que é a varinha mágica que escolhe o bruxo – e só há uma varinha, única e singular, para cada bruxo –, a minha escrivaninha era assim, minha. Nasceu antes de mim e pertenceu a outros donos porque precisava me esperar. Examinamos, eu e o João, ela inteira. E descobrimos que ela tinha mais cicatrizes do que nos prometeram. E alguns moradores indesejados. Numa das gavetinhas, havia um ninho de cupins. Nas costas, ela tinha sido quebrada em algum episódio de violência ou mau humor. Mas eu nunca fui uma boa negociante. As coisas práticas não têm muito efeito sobre mim. A escrivaninha também me receberia com mais rugas e feridas fechadas e abertas do que talvez esperasse. Nenhuma de nós nasceu ontem. Ambas queríamos – e precisávamos – nascer de novo. Aceitei as cicatrizes da minha escrivaninha como parte da história de sua vida antes de mim. E fechei o negócio. Ela queria ir embora pra casa comigo já, eu senti isso. E o João também. Mas eu ainda precisava fazer o depósito e acertar o frete. Enquanto isso, o vendedor providenciaria um exterminador de cupins. Ao contar para a Maíra, minha filha, sobre a escrivaninha, eu dizia, toda empolgada: “ela tem cupins, mas também tem uma alma dentro dela!”. Com seu senso de humor peculiar, Maíra comentou: “Se tem alma, não traz para casa!”.
O problema é que eu tenho um fraco por almas. Venho de uma família de mulheres que falam com os fantasmas que vagam pela casa com a maior sem-cerimônia. Dava até pena do meu tio-avô, um homenzinho pequeno que passou a vida inventando objetos mirabolantes e deu a si mesmo um nome de passarinho. Quando ele arrastava os chinelos pelo assoalho, era despachado pela sua viúva: “Vai-te embora, Graúna, já disse que não te quero aqui!”. Para ele, a morte não mudou nada. A mulher continuava mandando em seu melancólico espectro.
Hoje é o primeiro dia da minha nova vida. Tenho que fazer um rearranjo completo na minha cabeça programada em mais de duas décadas de vida de funcionária. Não sigo mais uma lógica de segunda a sexta. Posso escrever às 6h da manhã de domingo, como faço agora. E ir ao cinema no meio da tarde de segunda-feira, como pretendo. Minha semana não terá mais finais e começos. Posso ficar acordada à noite e dormir de dia. Posso almoçar à meia-noite e tomar café ao meio-dia. Posso apenas ouvir a chuva batendo no telhado. Posso permanecer olhando para o teto por horas a fio. O tempo é meu. Esta é a grande mudança. Vou perder dinheiro, segurança, carteira assinada, benefícios, férias remuneradas, décimo-terceiro. Em troca, retomo a propriedade do meu tempo. Me preparei para viver com pouco. Criei minha filha, comprei apartamento, não tenho um real de dívida. Só tenho agora que manter o meu corpinho. E ele é bem barato. Três pratos de feijão o deixam todo feliz.
Mantenho esta coluna exatamente aqui onde está. Ela faz parte do meu projeto de liberdade. Queria muito continuar, não sabia se queriam que eu continuasse. A ÉPOCA e a Editora Globo quiseram. Sou grata por isso. Assim como pela forma extremamente respeitosa com que a ÉPOCA e a Editora Globo trataram minha saída e meu desejo de reinventar minha vida. Eu adoro escrever para vocês. E amo a internet. Então, toda segunda-feira estarei aqui, como sempre, logo de manhã, para pensarmos juntos sobre essa confusão que é a vida do mundo e a de todos nós. Agora, vou abrir minha escrivaninha Xerife. Estaremos, eu e ela, com todas as gavetas de nossas almas escancaradas. De peito aberto, no vazio. Vamos ver o que conseguimos fazer juntas.
Torçam por mim! (Por nós!)
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Luxo
Uma vez li uma matéria na revista Vida Simples sobre o que é o luxo. Na minha opinião essa resposta, aparentemente simples, traduz bem mais do que uma opinião pessoal, mas o espírito da vida de cada um. Ela mostra o que guardamos dentro das entranhas da alma. Os alicerces que dão ânimo aos nossos sonhos. A filosofia que norteia nossas vidas.
Então parei para olhar para minha vida e analisar se ultimamente eu estava me dando a alguns luxos. A resposta foi: mais ou menos. A correria do cotidiano acaba nos fazendo atropelar alguns detalhes que são puro luxo. Mas confesso que algumas coisas que não abro mão seguem fazendo parte desses elementos fundamentais para gente se sentir vibrando. Para mim o momento do café da manhã é um verdadeiro luxo. Não pelo conjunto de tentações da mesa, mas pelo prazer de tomar o meu café passado, olhando para a vista da minha janela, na mesa colocnial que escolhi com carinho para nossa casinha. Quando sento ali, todas as manhãs, tenho alguns minutos para olhar para dentro de mim. Me enxergo no cenário que sonhei e isso me dá uma paz infinita. Considero esse um momento de luxo do meu dia, já que a vida de hoje não permite muitas regalias como a introspecção, por exemplo.
Não gosto de roupas de marca, nunca fui chegada. Nem nos tempos de adolescente. Também não tenho aquela tara por comprar sapatos, como grande parte das mulheres. Não sou nada consumista para esse tipo de artigo. Mas não abro mão de um sábado a tarde sem nada para fazer. De um papo despretensioso, regado a um mate novo, na vista do alpendre. Luxo é tudo isso e está em todos os cantos e horas da nossa história. Alguns em especial me fazem sentir recompensada. Como ter visto a formação do meu pequeno serzinho nestes quatro anos de vida. Foram tantas as descobertas da Sofia pela vida que ser a espectadora de cada minuto dessa magia me fez muito feliz. Quando optei por deixar de trabalhar fora e abrir minha própria empresa, em casa, sabia que corria riscos. Estar perto dela nesses primeiros e decisivos anos, foi um grande luxo, e confesso que tive momentos de verdadeiro deleite. Foram muitas tardes de inverno que interrompi o trabalho para nos aninharmos no tapete, lendo livrinhos em frente à lareira. Tantos os momentos gostosos, que no meio da tarde fui surpreendida por um cheirinho de bolo no forno. Luxos que a Talita, minha fiél escudeira, sabe presentear como ninguém. São momentos simples, mas que dão a dimensão da certeza dessa escolha. Se eu não estivesse perto, não enxergaria sua grandeza.
Luxo é a cumplicidade com aquela amiga que te conhece só no olhar. É a expressão singular que vejo no rosto dos meus pais quando enxergam a Sofia. É a faceirice do Nauro quando ganha uma massagem nas costas. É poder escrever esse texto em um sábado ensolarado de fevereiro, sem pressa, em um “espaço” que está me ajudando a me fazer mais feliz. E o melhor de tudo, é saber que a lista de luxos não termina aqui, e que depois de ler esse post, os meus visitantes virtuais também vão fazer suas listas pessoais e dar mais valor aos seus luxos pessoais. Afinal de contas, a vida é um luxo!
P.S.: E para não deixar de me dar ao luxo, hoje a tarde vou cortar a grama e depois comer uma melancia bem gelada. Que luuuuxo!!!!
Então parei para olhar para minha vida e analisar se ultimamente eu estava me dando a alguns luxos. A resposta foi: mais ou menos. A correria do cotidiano acaba nos fazendo atropelar alguns detalhes que são puro luxo. Mas confesso que algumas coisas que não abro mão seguem fazendo parte desses elementos fundamentais para gente se sentir vibrando. Para mim o momento do café da manhã é um verdadeiro luxo. Não pelo conjunto de tentações da mesa, mas pelo prazer de tomar o meu café passado, olhando para a vista da minha janela, na mesa colocnial que escolhi com carinho para nossa casinha. Quando sento ali, todas as manhãs, tenho alguns minutos para olhar para dentro de mim. Me enxergo no cenário que sonhei e isso me dá uma paz infinita. Considero esse um momento de luxo do meu dia, já que a vida de hoje não permite muitas regalias como a introspecção, por exemplo.
Não gosto de roupas de marca, nunca fui chegada. Nem nos tempos de adolescente. Também não tenho aquela tara por comprar sapatos, como grande parte das mulheres. Não sou nada consumista para esse tipo de artigo. Mas não abro mão de um sábado a tarde sem nada para fazer. De um papo despretensioso, regado a um mate novo, na vista do alpendre. Luxo é tudo isso e está em todos os cantos e horas da nossa história. Alguns em especial me fazem sentir recompensada. Como ter visto a formação do meu pequeno serzinho nestes quatro anos de vida. Foram tantas as descobertas da Sofia pela vida que ser a espectadora de cada minuto dessa magia me fez muito feliz. Quando optei por deixar de trabalhar fora e abrir minha própria empresa, em casa, sabia que corria riscos. Estar perto dela nesses primeiros e decisivos anos, foi um grande luxo, e confesso que tive momentos de verdadeiro deleite. Foram muitas tardes de inverno que interrompi o trabalho para nos aninharmos no tapete, lendo livrinhos em frente à lareira. Tantos os momentos gostosos, que no meio da tarde fui surpreendida por um cheirinho de bolo no forno. Luxos que a Talita, minha fiél escudeira, sabe presentear como ninguém. São momentos simples, mas que dão a dimensão da certeza dessa escolha. Se eu não estivesse perto, não enxergaria sua grandeza.
Luxo é a cumplicidade com aquela amiga que te conhece só no olhar. É a expressão singular que vejo no rosto dos meus pais quando enxergam a Sofia. É a faceirice do Nauro quando ganha uma massagem nas costas. É poder escrever esse texto em um sábado ensolarado de fevereiro, sem pressa, em um “espaço” que está me ajudando a me fazer mais feliz. E o melhor de tudo, é saber que a lista de luxos não termina aqui, e que depois de ler esse post, os meus visitantes virtuais também vão fazer suas listas pessoais e dar mais valor aos seus luxos pessoais. Afinal de contas, a vida é um luxo!
P.S.: E para não deixar de me dar ao luxo, hoje a tarde vou cortar a grama e depois comer uma melancia bem gelada. Que luuuuxo!!!!
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