segunda-feira, 27 de junho de 2011

Por enquanto...

Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim tão diferente

Se lembra quando a gente, chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre,
Sem saber, que o pra sempre, sempre acaba

Mas nada vai conseguir mudar o que ficou,
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem

Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar, agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa


*Meu pai querido partiu para ver outras paisagens na madrugada de quarta-feira(22). Por um tempo ainda vamos ter que nos acostumar com a caminhada sem aquele jeito singular de rir da vida. Mas são tantas coisas boas que guardo na memória e no coração, que vão servir de combustível para vivermos cada dia com intensidade!

Volto em breve, quando as palavras começarem a sair de novo...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Bruxinha boa

Foto: Nauro Júnior

Um blog-divã é um lugar para todos os sentimentos que habitam o nosso coração. Aqui divido as delícias e dores do meu cotidiano. Mas desde domingo, uma dor em especial não conseguia se transformar em palavras: a perda.

Depois de um sábado inundado pela alegria da Sofia com o seu aniversário, o domingo nasceu triste. Acordei com a notícia de que a nossa querida amiga Neca tinha partido às 8h10 daquela manhã chuvosa.

Contei aqui, em vários textos, a minha admiração por essa pessoa tão especial (“Tão rara” - fevereiro de 2010, “Um lar” - julho de 2010 e “Fênix” – março de 2011.)

O último deles contava da visita que fizemos para ela em março, no Hospital Moinhos de Ventos, a Kiki e eu. Passamos um dia alegre juntas e deixei com ela a medalinha que acompanhou a Sofia durante a sua luta.

Ela segurou firme e pregou na camisola, bem grudada contra o peito. Era a imagem de Nossa Senhora, que foi nosso amuleto durante a doença da Sofia. Ficou lá, cuidando dela.

Até que chegou a hora. Depois de 14 anos de brava luta ela se foi. Difícil saber o que dizer para nós mesmos nessa hora em que nos deparamos com a finitude da vida.

Sentimos uma saudade estranha. Tão ampla e profunda que não cabe na gente. Passei aquela tarde sentada naquela sala estranha do cemitério pensando em tudo que nos rodeava.

Como é estranho imaginarmos que um dia seremos nós. É uma coisa inusitada demais, não cabe na lógica. E choramos por tudo. Pela amiga que se foi. Pelos medo de perder nossos amores. Pela fugacidade dos nossos momentos aqui. Tão bons!

E para amenizar tantas incertezas, a gente sabe que deve pensar que não é um fim. Eu sei que ela foi para um lugar de paz, onde as dores do câncer não serão mais companheiras.

Mas a ausência para sempre é por demais estranha.

Por isso hoje eu não tenho muito o que dizer. Vou guardar na memória aqueles olhos azuis brilhantes, tão cheios de vida. E no coração as tantas lições de amor à vida que ela nos deu.

E para quem não conheceu essa pessoa rara, achei nos meus arquivos uma foto que traduz exatamente quem foi a Neca.

Era o aniversário da Luisa, minha sobrinha, em 2009. Uma festa à fantasia, e todos os amiguinhos foram à carater. No meio da tarde, eis que chega a Neca. Cheia de energia, vestida de de bruxa.

Uma bruxinha boa, que esteve aqui por um tempo. Nos ensinou muitas coisas, inclusive que o tempo não para. Contaminou todos que cruzaram o seu caminho com a força indelével da vida.

Por isso meus amigos, usufruir cada momento é para hoje. E para homenageá-la, o minímo que podemos fazer aqui é viver intensamente nossas histórias. Com alegria, é claro!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ciclo


A vida é feita de ciclos. Neste sábado um deles se completa. O começo foi em um dia frio de junho.

Era o dia 18 de junho de 2005. Aquele sábado amanheceu com um ar estranho. Alguma coisa no ar.

Não sei exatamente como descrever. Mas os dias que marcam nossas vidas pra sempre, costumam ter essa bruma indelével e inexplicável.

Naquela tarde fria e cinza o Nauro e eu entramos de mãos dadas no HU São Francisco de Paula. A única coisa que fizemos antes foi passar na igreja. Pedimos a Deus que tudo desse certo

Eu estava com 32 semanas de gestação e num piscar de olhos não senti mais a Sofia se mexer. Sem aviso prévio, ela veio ao mundo às 18h54, em uma cesárea de emergência.

Ali foi o marco divisório da minha vida.

Do hospital só saímos definitivamente no dia 17 de setembro. Naqueles meses, muitos sentimentos se misturaram entre os prognósticos médicos. Amor, medo, ansiedade, fé, amizade, esperança. tudo muito intenso. Um reboliço de emoções.

Entre as paredes azuis daquele hospital, tive o maior aprendizado da minha vida. Ali entendi o quanto a vida é rara. E o quanto somos abençoados a cada nova oportunidade.

Também entendi o significado dos anjos. Aprendi que os milagres existem e começam dentro de nós. Eles brotam do amor incondicional. Do invisível, que muitas vezes nos ronda e não enxergamos.

E hoje tudo voltou na minha mente. Na hora do almoço, a Sofia me olhou e disse:

- Mamãe, eu vou ter saudades dos meus cinco anos!

O tempo congelou por alguns segundos na minha cabeça. Eu segurei a mãozinha dela e disse que também iria.

Que sentia saudades de cada ano que passei com ela. De cada momento nosso nessa deliciosa aventura. E que sabia, que depois dos cinco anos, um novo mundo começava a desabrochar.

Não me contive, obviamente. Chorei que nem sempre choro: abundantemente.

E amanhã, quando acordarmos, no sábado do dia 18 de junho de 2011, um ciclo vai se fechar e outro começar.

O Nauro dessa vez estará em uma expedição, navegando pelo Oceano Atlântico, a bordo de um navio. A vida voltou ao seu rumo. Mas mesmo além mar, estaremos pertinho os três. Como sempre estivemos.

E quando aquela carinha iluminada abrir os olhos, eu quero dar um abraço bem apertado, e dizer que eu sou muito feliz de ser a sua mãe. Sua guardiã!

Vou agradecer mais uma vez, a todos os anjos que passaram na nossa vida até aqui. Tiveram inúmeras caras e nomes. Diferentes profissões e intenções. Mas todos souberam entender em algum momento, o quanto somos agradecidos à Deus e a vida por termos a Sofia.

Nesse sábado, 18 de junho, o céu vai estar cinza de novo. O inverno frio mais uma vez. Mas as páginas dessa história, tenho certeza, cada vez mais cheias de vida. Coloridas como a alma da aniversariante do dia!

Obrigado Papai do Céu, por esse presente dos céus!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Mundo das letras


Ontem participei da reunião de avaliação do primeiro trimestre na escola da Sofia. No ano passado a pauta desses encontros era outra.

Ouvíamos sobre as novidades dos nossos pequenos ao circular pelo meio escolar. Falávamos dos avanços cotidianos com os primeiros passos no mundo dos relacionamentos sociais.

Naquela época eu me emocionava muito ao perceber que nossa borboleta criava asas. Com seu jeitinho singular começava a voar além dos limites da nossa palafita na beira do Arroio Pelotas. Escrevi aqui no blog sobre o emaranhado de sensações que rondavam meu coração de mãe (Cordão umbilical).

Foi um tempo de êxtase para ela e de alguma dor maternal para mim. Uma mescla de medos e expectativa. Rompíamos ali um outro cordão umbilical. Ela estava pisando no mundo de todos, não mais no seu universo particular.

Com o passar dos meses e a conduta afetiva das professoras Michele e Ju, tudo foi se acomodando no meu coração. Foi um ano de muitas coisas legais.

A Sofia deu um salto de maturidade impressionante. Mas como diria Chê Guevara, sem perder a ternura jamais!

O ano de 2011 chegou com a expectativa da nova professora e de como seria esse momento de encontro com as letras. Hoje em dia o “pré” já prepara nossos filhos para a primeira série de forma absolutamente intensa.

Nem pense em comparar as nossas cartilhas de "a-e-i-o-u" com a pedagogia dos tempos de hoje. Eles aprendem como mágica. Essas cabecinhas estimuladas pela tecnologia da informação estão bem além das fronteiras do nosso pensamento.

Até aí, a teoria é sabida por uma mãe jornalista. Alguém que se julga esclarecida e que está sempre ligada nos novos acontecimentos do mundo.

Ledo engano!

Na semana passada fui comprar um novo aparelho de 3G e enquanto eu fazia os trâmites com a vendedora a Sofia aguardava impaciente na cadeira.

Olhava curiosa para a loja do outro lado da rua e balbuciava alguma coisa. E num piscar de olhos, me olhou e disse:

- Mamãe, olha o que está escrito lá: L-OOOOOOO-C-AAAAAA-D-OOOOOO-R-AAAAAA!

- Como assim Sofia? Quem te disse isso?????!

- Eu li mamãe...

Ela leu? Fiquei pasma. Paralisada.

Simplesmente aquela história de fazer desenhos coloridos e aprender a dar laço no cordão do tênis não era mais tudo que continha no universo da pré-escola.

E foi aí que começou a cair a ficha.

Essa história começou a fazer sentido ontem, enquanto a professora Karine explicava ao grupo de pais da turminha do “Avançado A" todo processo de alafabetização que estavam vivenciando.

A minha primeira constatação foi de que eles estão muito além do meu imaginário materno. Já enxergam o mundo através da escrita. Totalmente!

E vocês sabem o que isso significa?

Tudo, simplesmente tudo e muito mais. Em um mundo que voa com a velocidade da luz, ler é entrar em uma nave com destino ao universo.

É o passo mais definitivo de nossos pequenos para além das nossas fronteiras domésticas. O roteiro inclui as imensuráveis possibilidades que um conjunto de letras possibilita.

E foi essa constatação, em meio as explicações da "Profi Karine", que romperam no meu coração uma barragem de lágrimas descontroladas. Em suma, foi pagando o maior mico durante a reunião de pais, que constatei que minha borboleta agora voava alto.

Em meio a emoção e o medo, puxei meu lencinho de papel da bolsa e cortei mais um cordão umbilical que teimosamente eu insistia em segurar.

Nessa montanha-russa maternal, foi muito bom contar com uma professora tão especial como a Karine. Que permeia essa tarefa magnífica com amor, carinho e firmeza, em cada uma das etapas.

O conhecimento rompe todas as fronteiras do universo. Mas é preciso doçura para abrir essas comportas. Esse é o profundo significado de ser um professor.

Até então a Sofia lia através de imagens e construía seu universo de sonhos e imaginação. Agora enxerga infinitas formas de construir seus sonhos, desejos e de seguir sua estrada.

E foi por isso que chorei ontem na reunião.

Olhei para minha princesa, no alto de seus cinco anos de idade, e entendi ali o poema de Kalil Gibran.

Realmente nossos filhos vêm através de nós, mas não são nossos. Podemos outorgar o nosso amor, mas não nossos pensamentos. Compreendi o meu papel de arco, que lança a flecha para a vida.

Meu desejo de mãe é que muitas palavras transformadoras escrevam uma bela história na estrada da Sofia. E que a sabedoria que ela leva no nome, construa pontes infinitas de sonhos e magia.

E com os acordes de uma estrofe de Toquinho, eu me despeço. Sem lágrimas, mas com sorrisos!

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
Muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Palavras estranhas


Sabe aquelas palavras da língua portuguesa que a gente acha bonita, mas nunca usa?

Não sei por que, mas eu tenho a minha listinha de “palavras estranhas”. São chamadas assim por não serem corriqueiras no nosso diálogo. Por soarem diferente ao falar. Em alguns casos não usamos até porque o significado causa dúvida ao interlocutor.

Enfim, por tudo e por nada, são estranhas. Simplesmente estranhas. E costumamos não usá-las.

Pois bem, na minha lista delas está o verbo “titubear”. Diferente do seu significado, o dicionário não poupa objetividade para resumi-lo:

v.i. Cambalear, vacilar sobre as pernas: bêbado que titubeia.
Hesitar, exprimir-se com indecisão

Todos nós temos momentos de indecisão, dúvida, mas titubear é algo além disso. É realmente quando vacilamos sobre as pernas.

Mas e daí?

Daí que há duas semanas fiz a assessoria de imprensa do show do Fábio Júnior aqui em Pelotas. É sempre o mesmo esquema. Faço credenciamento da imprensa, acompanho a entrada do pessoal, organizo a coletiva e o atendimento de pessoal no camarim.

Em se tratando de Fábio Júnior, participei pela manhã de uma reunião com o secretário particular dele para me repassar todos os detalhes da missão. Tudo milimetricamente orquestrado: coletiva, atendimento das fãs e show.

Para registrar o momento ele me solicitou a contratação de um fotógrafo. Chamei o Felipe Nyland para a pauta e na hora certa tudo começou a funcionar, conforme o cronograma do secretário.

Mesmo que eu não concorde, o Fábio Júnior continua levando uma legião de mulheres ao delírio. De todas as faixas etárias, classes sociais, uma coisa impressionante.

Mesmo com botox na bochecha, com o cabelo cada vez mais ralo e sem bunda, como sempre foi. Mas isso são mistérios do mundo feminino que não vou entrar no mérito agora.

Eis que, depois da coletiva, as fãs afoitas começam a adentrar ao sagrado camarim. Era um ambiente impessoal, iluminado por uma lâmpada de cor azul onde as mulheres entravam sorrindo e saiam histéircas.

Vá entender!

Mas assim que a fila com cerca de 20 pessoas acabou, o Felipe sai lá de dentro. Me olha com uma cara apavorada e conta que o bonitão tinha dado um tapinha na bunda de uma morena.

Estávamos os dois dando risada do causo, quando avistamos o tal secretário do Fábio Júnior tendo um “lero” com a morena. Era uma conversa em tom baixo, quase confissional, mas cheia de argumentações.

Na hora nos demos conta de que o bonitão tinha enviado o seu fiél escudeiro para trazer de volta a escolhida da noite. O papo seguia e nós os dois de olhos cravados na cena.

Eis que olhamos para os lábios da popozuda e enxergamos sair aquela frase:

- Pois é, mas é que eu sou casaaaaaada...

Uma coisa meio melosa, quase como uma sentença. Na hora dei um cotovelaço no Felipe e caímos na risada. Ela parou pensou, e depois de alguns segundos infinitos...evaporou na multidão.

Na hora me veio à cabeça a melhor definição para cena: a morena titubeou!

Ela cambaleou nas piores intenções, vacilou sobre as pernas, ficou bêbada de vontade, mas por fim, depois de hesitar, exprimiu-se com indecisão e disse que era casada.

Ela definitivamente TITUBEOU!!!

A cena seguinte foi ela sentada na primeira fila do show, com uma dúzia de amigas na volta. Foi seu momento de glória. Ela estava quase dando autógrafos para as menos sortudas, que além de não terem ido no camarim, não ganharam o tapinha na bunda e não tiveram a oportunidade única de titubear frente a um convite irresistível do Jorge Tadeu.

Depois disso tudo, o show finalmente começou. Público animado, mulherada gritando e eu fui ficando. O repertório era de interpretações de músicas da Marina Lima, Tim Maia, tinha até Kleiton e Kledir.

Eu tinha dito para o Nauro que assim que acabasse a função do camarim iríamos para casa. Era sexta-feira, estava frio e a Sofia na casa da minha mãe.

Mas não é que o show começou a ficar bom. Ouvi as duas primeiras músicas, veio a quarta, o intervalo...

A verdade é que naquela noite o meu bom gosto musical também titubeou. Pode acreditar!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Doce alma



Na terça-feira passada fui convidada pela equipe do HU São Franciso de Paula, onde a Sofia nasceu, para assistir a uma palestra. O médico pediatra Luís Alberto Mussa Tavares, do Rio de Janeiro, estaria falando sobre os direitos dos bebês prematuros.

Como de costume, quando soube que ele se dedicava a essa tão nobre causa, fui direto ao google para saber um pouco mais sobre essa pessoa. Pude perceber, já à primeira “lida”, que se tratava de alguém especial.

Autor de vários livros, é uma médico que fala com a alma.

Fizemos um primeiro contato por mail e apresentei a ele nosso Instituto Abrace (www.instutoabrace.org.br) onde está nossa história com o Mundo de Sofia.

Na terça-feira cheguei quase na hora da palestra, e não tive tempo de me apresentar. O Dr. Luis começou a falar enquanto mostrava em um power point fotos de prematuros e poemas de sua autoria.

Já de começo, nas primeiras palavras, começou a se emocionar. Eu também. A cada palavra, comparação, constatação, percebia que estava diante de um ser humano e tanto.

O seu trabalho é todo voltado a dismistificar os “decretos” da medicina. Ele escreveu a Declaração Universal de Direitos do Prematuro (http://slidesha.re/F88Iq) . Tem um olhar atento aos profissionais que participam de cada décimo de vida nas UTIs. Olha para o todo. Enxerga o bebê, a mãe, o pai, o ambiente, a história, a vida.

Mostrou para ao auditório lotado, que o prematuro sente dor, e precisa ser tratado com o máximo de cuidado. Para quem não sabe, a medicina acreditava que isso não acontecia.

Foi muito bom ouvir de alguém que veio de longe e estuda profundamente o assunto, o que impiricamente defendemos na prática.

Ao final da palestra eu obviamente estava em lágrimas. Fui abraçar aquele hobin hood da medicina e falar da minha satisfação em conhecê-lo pessoalmente. Com receptividade mútua, combinamos de trocar novos contatos.

Antes mesmo disso acontecer, recebi da Mariana (acadêmica de enfermagem), irmã da querida Paula Blaas, um poema feito pelo Dr. Luis, após sua estada em Pelotas.

Divido aqui com vocês um pouco da visão desse home de alma doce:

O doce mais doce de Pelotas

Voce já provou dos doces de Pelotas?
Gostou?
Ja reparou como são feitos com cuidado e atenção?

A impressão que a gente tem é que são preparados para sua boca, para seu degustar...
Como são ternos, como seu paladar é marcante...
O Pastel de Santa Clara, o Bem-casado, o Bom bom de Morango, a Queijadinha, o Beijo de Mulata...

Ah, sim, claro...
São bem gostosinho também...
Vale até a pena escolher alguns deles pra levar pra casa...
Garantia de sucesso...

Mas os doces de Pelotas, os verdadeiros, os doces mais doces dessa terra gaucha voce já conhece?
Já provou?

Ja visitou o Hospital Universitario São Francisco de Paula?
Ja conversou com a Rejane, nutricionista responsavel pela coordenação das açoes amigas da criança no Hospital e pela costura geral das normas de amamentação naquela casa?

Ja recebeu um abraço da Mariana, academica de Enfermagem que tem se dedicado ha 2 anos ao trabalh o com as puerperas e com seus bebes em aleitamento?

Ja sorriu para a Carla, Assistente Social que vislumbra a criança e seu entorno e percebe a importancia do vinculo como elemento apoiador de primeira grandeza?

Ja parou para escutar Dr. Gil que aos 41 anos de magistério tem o vigor de um menino e a avidez de um verdadeiro idealista?

Ja provou da gentileza e receptividade do Dr. Silvio que percebendo a importancia das ações cuidadoras de proteção e apoio à mãe e ao bebe tem dirigido aquela casa com apoio incessante à causa do acolhimento?

Ja experimentou conversar com toda uma equipe que trabalha ali naquela casa e se emocionar varias vezes?

Ja reverenciou a história de Sofia e da Gabriela e do Nauro? Ja leu o Diario de Sofia? Ja marejou seus olhos diante da magestade materna da Gabriela e de seu exemplo para nossa especie?

Já visitou dona Adelma na Enfermaria para ajuda-la no procedimento da translactação? Ja falou com a mãe da Adelma, avó do pequeno Lázaro, mamiferozinho gaucho de olhos claros e sucção promissora?

Já ouviu falar da Casa da Gestante?
Já passou pela sua cabeça que a equipe inteira trabalha com ordenha manual, não usa bombas mecanicas e fazendo assim se permite coletar mais de 14 litros de leite materno por mes?

Ja entrevistou a mãe do Pedro, auxiliar de enfermagem que sofreu uma cesariana com 31 semanas de gestação e que bdepois de ter usado formula por copinho por 3 longos meses reassumiu aleitamento exclusivo com o qual permanece ate hj?
Amigo?

Tem certeza que vc já provou dos doces de Pelotas?
Do sabor seu materno?
Da sua coloração lactea?

Já se sentiu acolhido por uma equipe de um Hospital que não poderia ter outro nome que não São Francisco?
Ainda não?

Eu te asseguro que voce não sabe o que está perdendo.
E como se não bastasse a doçura inesgotavel da Rejane e sua turma voce pode ter ainda a feli cidade de conversar com a Maria Amália e com a Jamile, que tornam o doce mais doce e fazem o frio pelotense transformar-se em calor e aquecimento verdadeiramente aconchegantes.

Então, meu amigo, minha amiga...
Nada contra o Pastel de Santa Clara, o Bem-casado, o Bom bom de Morango, a Queijadinha, o Beijo de Mulata...

Mas quando voce for a Pelotas, eu recomendo:
Não se esqueça de provar seus doces mais doces...
Voce não vai conseguir parar de provar e se fartar deles...

Aos amigos do Hospital Universitario São Francisco de Paula representados nessa mensagem pela querida Rejane, meu agradecimento, minha reverencia e minha desde já saudade grande.

Com carinho,

Luis Tavares,

Campos, RJ.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Diálogo


Terça-feira, 11h35min do dia 12 de abril de 2011. Em uma estrada de chão batido do bairro Areal. Eu dirigindo. Ela na cadeirinha.

- Mamãe, eu tava pensando uma coisa...como seria legal a vida se ninguém nunca morresse né?!

- É verdade Sofia, seria maravilhoso!

- Daí mamãe, o Cacá e a Cacú, não iam ficar velhinhos. E o Vô Nauro e a Vó Perci nunca iam morrer né?

- Ah, seria o máximo mesmo Sofia. Mas então, nesse caso tu terias que ter cinco anos pra sempre, né?

- ........ (silêncio)

- O que foi, tá pensando?

- É mamãe, eu pensei outra ideia. Então, eu acho que seria melhor, se eu crescesse até os sete anos. Daí, depois disso, todo mundo continuaria do mesmo tamanho, sem morrer nunca.

- Ah, que ótima ideia Sofia. Então se fosse assim eu congelaria aos 44 anos. Ia ficar uma mamãe novinha pra sempre? Adorei...

- ...... (silêncio)

- ...que maravilha...e o Vô Cacá então, nunca ia ter cabelo todo branco. Se ele está recém começando a ter uns fiozinhos, ia ficar sempre bonitão. Ele iria amar!!!

- ...Espera aí mamãe. Eu tava pensando uma coisa...E a tua Voinha que já morreu??? Como ela ia fazer pra me conhecer se ela já foi á pro céu?!

- ...... (silêncio)

- Hein mamãe, como?

- Bom Sofia, eu acho que a Voinha já te conhece, e não é de hoje. Ela deve ser a comandante dos anjinhos da guarda que moram lá no céu. E cada vez que a gente pede ajuda para o anjinho, ou para eles nos cuidarem, é ela que está organizando tudo por lá e nos manda algum bem eficiente para dar conta do recado. Nesse caso, eu acho que ela poderia continuar lá em cima, cuidando de todos nós, tu não achas?

- É, pode ser...

- E tem outra coisa minha mimosa, tu podes ter certeza absoluta de que a Voinha já te cuidou muitas vezes enquanto a mamãe descansava. Pode acreditar!

- Eu sei mamãe!

(chegamos em casa)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Carinho bom


Hoje é comemorado o Dia do Jornalista. Acordei sem saber da data, até ver pipocar um verdadeiro entrelaçamento de mensagens entre colegas no twitter

Logo depois abri o site do G1 e vi a tragédia que acabava de acontecer em uma escola no Rio de Janeiro. Um louco abateu crianças como um verdadeiro massacre que só assistimos na ficção. Fiquei perplexa e triste.

O jornalismo é também a notícia mais surreal. E assim passei o dia. Mais para triste do que feliz. Lá pelo final da tarde recebi um telefone com prefixo 51. Logo vi que era da capital.

Do outro lado da linha a voz do Beto, um velho amigo dos tempos em que fazíamos o jornal "O Pescador", na colônia de pesca Z-3. Naquele tempo eu era uma estudante, ele um líder da comunidade.

Com amáveis palavras ele queria me parabenizar pelo dia. Fiquei muito feliz com a lembrança e olhei para nós dois hoje com orgulho. Eu jornalista, ele vereador.

O sol já coloria o horizonte quando um mail pulou na minha caixa de entrada do outlook. Era a Greice e seu jeitinho todo especial. Li e me debulhei em lágrimas. Divido abaixo com você esse último capítulo do meu "Dia do Jornalista".

----- Original Message -----
From: Greice Pich
To: Satolep - Gabriela Mazza
Sent: Thursday, April 07, 2011 5:59 PM
Subject: Dia do Jornalista

Tem gente que gosta de ler.

Tem gente que gosta de escrever.

Tem gente que gosta de ler e de escrever.

Tem gente que lê tragédia e consegue escrever sobre amor. Tem gente que lê sobre amor e faz da vida uma tragédia.

Há os que escrevem por escrever... e constroem poemas.

Muitos têm muito a dizer...mas não conseguem escrever. E há os que quando escrevem, perderam a oportunidade de ficar sem algo a dizer.

Assim é vida de jornalista.

E hoje, Gabi, nessa pequena homenagem que eu mesma criei e escrevi quero te parabenizar pelo profissionalismo, pelas palavras doces, pelas histórias que insistes em contar. Por transformar experiências em belos poemas, por escrever quando se têm algo a dizer, por retratar a tragédia de forma bela.

Marta Medeiros deve ser tua fã, pois escreve como tu!

Bjs!
Te adoro!

=======

----- Original Message -----
From: Satolep - Gabriela Mazza
To: Greice Pich
Sent: Thursday, April 07, 2011 6:05 PM
Subject: Re: Dia do Jornalista

Amiga querida, me deixasses em lágrimas!! Que coisa mais linda!!! Essas palavras doces e sinceras encheram meu coração de alegria, em um dia em que a notícia amanheceu cheia de tristeza com o assassinato das crianças do Rio. Obrigado por cada uma delas, na sua grandeza e significado. E obrigado por me lembrar o quanto tenho prazer em ser jornalista!

super beijo...e com a tua permissão, essa vai pro blog!

Gabi

sábado, 2 de abril de 2011

Eu e meus fuscas



Rodei muitos quilômetros de juventude a bordo de um fusca. Ou melhor, de vários fuscas.

O meu primeiro carro, aos 18 anos, foi um fusca bege, ano 60, que tinha pára-choque de aço. O coitado nasceu em plena ditadura militar, mas comigo viveu momentos de intensa liberdade.

Dei a ele a honra de testemunhar episódios inesquecíveis e tenho certeza de que também teve um final de vida digno. Mas, como já era esperado, durou o tempo de três estações e muitas histórias.

Lembro de uma vez, que levei uma fechada de uma F1000 e resolvi sair em disparada atrás do motorista, num surto de vingança. Em meio aqueles minutos de desvario insano, a minha co-pilota disse:

- Mas Gabi, tu ta louca, ele tem um caminhonetão, vai destruir o teu carro!!!

E eu cheia de grau, no alto daquela fase em que nos achamos imbatíveis, revidei:

- Ahhhh não, mas o meu fusca tem para-coque de aço!!!

Santa inocência e enorme inconseqüência. Juro que hoje sou uma motorista bem mais pacífica e consciente.

Mas voltando a uma noite estrelada de verão dos anos 90.

Naquele ano, o point do momento era um barzinho na Praia do Laranjal. Como de costumes, nos reunimos no apartamento da Andrade Neves, onde morávamos minha irmã e eu. Era lá o centro do nosso universo juvenil.

Com aquele calor gostoso de dezembro, todos os caminhos levavam para um show do Procurado Vulgo (a banda do momento!) no tal barzinho da praia.

Cabelo desalinhado, ombros ardidos do sol da tarde, brilho nos lábio e lá fomos nós, acotoveladas no fusquinha bege, rumo aos melhores momentos da vida.

Já no caminho o coitadinho começou a passar mal. Tossiu, engasgou, começou a tremer. Mas segurou firme até uma rua de areia mais próxima à orla da Lagoa dos Patos. Ele não iria nos deixar na mão.

E foi em frente a uma casa branca, de muro verde, que meu primeiro fusquinha veio a óbito. Ali, exatamente naquele lugar, o seu motor fundiu de vez. Nos despedimos para sempre.

Depois dessa notícia triste, a noite só foi recompensada pela carona de volta. O falecimento do pobre fusca serviu de gancho para conhecer um gatinho da festa, que teve pretexto para me levar em casa e acabou virando meu namorado alguns dias depois.

Como sempre fui politicamente correta, no caso do fusca bege decidimos doar seus órgãos para um ferro-velho das redondezas. O mecânico disse que a pobre carcaça não serviria para mais nada, além de boas lembranças ou uma floreira de jardim.

Optamos pelas lembranças.

Com a venda das peças, meu pai deu entrada no mais especial de todos os meus fuscas, o “Cerejinha”. Na verdade esse era meu e de minha irmã. Ganhamos juntas e dividíamos as despesas e o uso desse encantador modelo 1979.

Pela fase das nossas vidas, foi ele quem presenciou os melhores momentos das nossas descobertas. Voávamos as tranças para todos os cantos, sempre lotado de gente.

Era a unidade móvel oficial da nossa parceria.

Por mais que caprichássemos no perfume, sempre chegávamos nas festas com aquele cheirinho de motor, que entrava pelas ventarolas da frente. Típico de fusca!

Entre as peripécias do cerejinha, teve uma vez que o motor pegou fogo, em pleno centro. A minha irmã gritava e batia na casa de uma mulher para pedir água.

A inútil criatura só dizia que o nosso carro ia explodir, e não dava a bendita água. Até que um cidadão de bem estacionou o carro ao lado, e em dois segundos apagou o fogo com o extintor.

Que susto!

Lembro do radinho dele, que só pegava AM. Então saíamos para noite ouvindo as rancheiras daqueles programas noturnos. Era o embalo para nossas baladas na sequência, movidas à Legião Urbana, U2 e muita música boa.

Com o passar dos anos chegou o dia em que minha irmã casou e foi morar em Jaguarão. Eu comprei a parte dela e fiquei de majoritária no cerejinha. Rodei mais alguns sonhos, até que o coitado pediu aposentadoria por tempo de trabalho.

Nada mais justo.

Cumpriu com êxito a sua missão na terra. Foi testemunha dos melhores momentos de muita gente que conviveu com ele. Ah, se foi! Muitas passarão os olhos nessas linhas e terão mais episódios do cerejinha pra contar. Aposto!

Depois desse, comprei um fusca verde desmaiado. Era uma cor meio indefinida. O motor era bom, tinha cara de novo e devia ser ano 1981, ou mais. Teve muita serventia, mas viveu mais o lado prático do cotidiano.

Esteve comigo nos tempos da faculdade e cruzou muitas vezes as estradas de chão batido rumo à colônia Z-3. Eu fazia um jornal experimental para colônia de pescadores e obviamente o meu fusca era nossa condução oficial.

Um sábado por mês eu parava o verdinho em frente ao Diário Popular e pegávamos os exemplares do “O Pescador” recém impressos e lotávamos o porta-malas do fusca. Dali, seguíamos para Z-3 distribuir os jornais de casa em casa.

Foi um tempo bom. De grandes amigos e muito aprendizado!

Mas com a despedida do verdinho, um vazio ficou dentro do meu peito. Quando casei com o Nauro ele só ouvia lamentações sobre a saudade que eu senti dos meus fuscas. Chegou até a me dar um fusca marrom, chamado de “Choquito”, mas que em pouco tempo quebrou o cabeçote e nos deixou a pé.

Hoje, duas décadas depois do meu primeiro fusca, tudo parece diferente.

Compramos recentemente um fusquinha. Com o fato de moramos pra fora e termos um carro apenas, o vai-e-vem do cotidiano acaba dificultando as coisas.

O “negócio” envolveu um iphone e mais alguns trocados. Por ai vocês já imaginam o estado do tal fusquinha. Ele é azul calipso e tem vidro com insulfilm. Para culminar, é rebaixado e tem uma daquelas direções minúscula, que mais parecem um pires.

Então, como a tal da Rural do Nauro é quase que para enfeite porque não funciona, o remédio foi comprar esse fusca para ele ir e voltar da faculdade à noite.

Até aí tudo bem, ele andava esporadicamente no fusca e eu sempre no nosso Palio.

Mas como na semana passada nosso carro novo ia chegar, e o Palio era parte do pagamento do zero, tivemos que entregá-lo à concessionária.

Então, durante uma semana, ficamos dividindo o uso do fusquinha azul calipso.

Eu não sei se é a idade, ou o tempo que muda nossos interesses. Ou também se aos 20 anos a gente não tem nada na cabeça mesmo, mas eu passei um sufoco danado com o tal fusca.

No primeiro dia que dirigi, até achei um quê de romantismo. Aquele cheirinho de óleo, os bancos estofados como antigamente, sei lá. Mas depois dos primeiros dez quilômetros, eu já comecei a pedir penico.

Minha coluna ficou em pandarecos. O barulho do motor, aliado ao vento na cara, me dava uma baita dor de cabeça. Sem falar no cheiro a óleo que me fazia sentir levando uma borracharia nas costas.

- Socorrooooooooooooooooo!!!!

Mas como tudo na vida, foi uma catarse necessária.

Foi bom me dar conta de que cada fase tem seus símbolos e que hoje, aos 42 anos, eu quero mais é ter o fusquinha nas boas lembranças dos meus vinte e poucos anos.

Na sexta-feira, quando o cara da San Marino ligou para avisar que podíamos buscar o carro novo, dei pulos de alegria. Fomos todos bem faceiros receber o mais novo membro da família.

Sentei naquele carro novinho, confortável e agradeci. Agradeci por todos os meus fusquinhas, porque sem eles, eu nunca teria chegado até o tal do “Idea”.

Tenho certeza de que se não tivessem sido os meus fusquinhas e suas histórias incríveis, a vida hoje não teria a mesma graça. E eu certamente não seria quem eu sou.

Tudo na vida tem seu tempo. Até os fuscas!

sábado, 19 de março de 2011

Fênix


Uma querida amiga está no hospital. Ela luta contra um câncer há alguns anos. É jovem, bonita, tem um marido que ama e uma filha que ilumina seus dias.

Acompanhamos nesses anos a sua brava batalha com imensurável admiração e orgulho. Aquele corpo franzino, já derrubou vários decretos da medicina com sua alma de leoa. Simplesmente rasgou os prognósticos que afirmavam, sentenciavam e assustavam.

Não foi uma nem duas vezes. Foram várias.

Agora ela está lá de novo. Naquele quarto inóspito, com cheiro de álcool gel e cores pastéis. Os decoradores de hospitais acham que são cores próprias para esses momentos.

No caso da nossa querida amiga, isso é um ledo engano. Ela merece paredes cor de carmim, flores multicoloridas em um vaso vistoso e lençóis de cama tão bonitos quanto os seus olhos azuis.

Sua alma é assim.

Um tempo atrás escrevi sobre a admiração que tinha por essa pessoa. Foi em fevereiro de 2010, no post “Tão rara”. Naquela época as coisas ficaram complicadas. E mais uma vez ela deu a volta por cima.

Conversando agora há pouco no telefone com minha irmã, decidimos ir à Porto Alegre passar um dia com ela na semana que vem. Quero levar na mala a medalha de Nossa Senhora que ganhei de uma vizinha-amiga.

O amuleto acompanhou essa querida vizinha quando o marido sofreu de um câncer complicado. Daí, quando a Sofia estava no hospital, ela achou por bem me dar.

Era véspera da cirurgia. Situação mais que crítica. A Sofia com menos de dois quilos, com infecção hospitalar e sem chance de esperar mais um dia para se operar.

Completando o quadro da dor, eu estava internada em um quarto do mesmo hospital, infectada por outra bactéria gravíssima, com mil e um cuidados.

Na entrada do bloco cirúrgico o Nauro entregou a medalha na mão de uma das enfermeiras que seguiu com ela e recomendou que trouxesse de volta. A Sofia e a medalha!

Durante a anestesia, ela teve uma parada cardiorespiratória. O médico ficou dois minutos massageando aquele minúsculo corpinho. Quando estava quase desistindo, a Sofia voltou. E o mais incrível: sem seqüela neurológica.

Por isso hoje, quando falei com minha irmã, não tive dúvidas. Preciso passar a medalhinha a diante. E para quem tem alguma dúvida de que milagres existem, eu conto que nesse instante tem uma menina peralta, de cinco anos, dando cambalhotas em cima da cama.

Amiga Neca, segura firme que estamos chegando na quarta-feira para passarmos o dia juntas. Vamos dar boas risadas e colocar a medalhinha bem perto do teu coração.

A força da vida é algo inexplicável. E a medicina cada vez mais se curva para essa verdade que transforma os destinos.

Teu poder de fênix é a maior prova disso!

terça-feira, 1 de março de 2011

Tempo

Fiquei um tempo longe do blog. Não tirei férias do trabalho. Ser autônomo tem dessas coisas. Algumas vantagens, mas também a necessidade de administrar o tempo no revés do calendário.

E já que tive de continuar na labuta, optei por me dar um tempo. Nessa pausa íntima, fiquei bem quietinha, espiando as frestas do cotidiano. Deliciosos momentos comuns, que no correr dos dias nos escorrem pelas mãos.

Olhei para a Sofia no mágico reboliço das primeiras férias de sua vida. As tardes andando no balanço de corda, os banhos de arroio, os cabelos dourados irradiando a grama verde. Vi o quanto cresceu minha pequena. Já não é mais nossa bebezinha. Enxerga o mundo. Questiona. Nos pega de surpresa.

- Como surgiram as estrelas mamãe?

E lá vamos nós, as duas para a internet. Eu com receio da imprecisão, recorro à tecnologia. Expliquei a ela que a mamãe não sabe de tudo, mas que por sorte, hoje temos o Google para dar uma mãozinha (ou azar!).

Também tive tempo para ver mais de perto as características tão próprias do meu marido. A força bruta que em um dia de folga vira cimento e constrói uma churrasqueira é também de pura sensibilidade. São dele as mesmas mãos que mergulham a máquina fotográfica no detalhe do dia que se esvai.

Vem da alma esse olhar que congela instantes magníficos do cotidiano. Muitas vezes não tenho tempo de apreciar essa metamorfose tão singular. Tão ele.

Enxerguei com carinho, os cantos do nosso espaço. Essa casa feita de retalhos da nossa história. Repleta de cores e símbolos, de gente que passou mas ficou. Como disse nosso amigo Sancler, mais parece cênica.

E foi caminhando por esse cenário tão nosso que vi o quanto o jardim plantado em grande parte pelo Nauro e pela Sofia, já dá frutos. Comi o primeiro caqui que nasceu no calor desse verão.

Vi os brotos de pitanda e o florir prematuro do maricá. Sinal de inverno rigoroso, como dizem os antigos. Teve gosto da mais pura felicidade.

Encontrei tempo para tardes ociosas e bolo morno. Li alguns livros que estavam a minha espera na estante. Viajei pela literatura de Isabel Allende, descobri novos autores e me peguei sonhando em um dia publicar uma obra minha.

O verão já está com cara de outono. Amanhã recomeçam as aulas da Sofia. O cotidiano vai atropelar muitos detalhes que temos a sorte de enxergar mais de perto quando estamos desconectados.

Como tudo na vida, tem os dois lados da moeda. A correria começa e com ela nosso radar fica atento, apontado para todos os lados. Nos debruçamos em semear, arar a terra para plantar mais sonhos. É um ciclo e cumpri-lo está na nossa essência.

Que venham então os assuntos da vida e sirvam de inspiração para nossos deliciosos encontros por aqui. Nesse espaço virtual, onde tudo é permitido. Desde não saber como nascem as estrelas, até a liberdade para daqui se ausentar!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Esperança


Há algumas semanas um pensamento não sai da minha mente. Ando divagando sobre aqueles que lutam contra um câncer. Sobre a batalha dessa brava gente.

Ele não está longe. Ronda as casas e as famílias. Espreita a felicidade alheia. Assombra sonhos. Abrevia futuros.

Posso vê-lo em rostos bem próximos. Em pessoas que admiro. No meu pai que tanto amo. Em amigos virtuais e reais.

Cada um de nós tem a sua lista de rostos nesse instante.

Ele chega sem avisar e desorganiza a ordem natural. Coloca à prova. Faz a queda de braço.

Em alguns corpos está adormecido. Em outros mostrando sua empáfia. Se impõem na angústia de olhos jovens. Questiona. Deixa incerteza no amanhã.

E enquanto esse turbilhão me faz perder o sono, vi um documentário impressionante no GNT, The Gerson Miracle. É uma história instigante.

O Dr. Max Gerson foi um médico judeu que descobriu a cura para essa implacável doença em 1928. O tratamento é alternativo e a cura se dá através de uma dieta de sucos de frutas orgânicas e da desintoxição por inoculação de café orgânico.

Depois disso assisti a vários vídeos e depoimentos no youtube. Fiquei impressionada. Fiquei esperançosa. Quem sabe não é um caminho.

Um jeito de reinventar tantas histórias.

Enquanto isso, peço ao tempo que tenha calma. Que não dê passos largos. E que novas ideias se apressem.

É o mínimo que esses tantos implacáveis guerreiros de hoje merecem. Que a esperança seja então a bola da vez.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Alex Atala


Fotos: Marcos Vilas Boas

Nos últimos cinco anos o Nauro e eu nos debruçamos em construir a nossa lista de desejos todo dia 31 de dezembro. Quem já veio aqui em casa viu um papel todo rabiscado, colado na lateral da geladeira.

O ritual é sempre o mesmo. No final da tarde do último dia do ano, fazemos um mate, sentamos na sala, e começamos a avaliar os itens riscados nos 364 dias anteriores.

É comum sair alguma briga. Eu por exemplo achando que um sofá novo para sala é prioridade e ele defendendo a compra de uma lente melhor para o nosso equipamento fotográfico.

E assim passamos pelo menos uma hora em meio a debates e risadas. O conteúdo dos desejos da lista varia. Vão desde coisas simples e possivelmente banais, até ousadias, ou quem sabe “sonhos”.

Não sei se é psicológico, ou se Freud teria alguma explicação, mas a coisa funciona bem.

Só para situar e até mesmo contabilizar os resultados: ambos tivemos casamentos anteriores e quando ficamos juntos tínhamos meia dúzia de quinquilharias para juntar, além das tais escovas de dentes.

Eu, além do meu fusquinha, ainda cheguei com uma fatura do Credicard com parcelas a perder de vista. Ele tinha um barco velho e um tal sofá preto horroroso, mas cheio dos valores sentimentais (custei a convencê-lo a desapegar da tal relíquia, mas ano passado consegui - ufaaaa!)

E assim foi nosso começo de vida.

Realmente não sei que mágica fomos fazendo ao longo dos anos, mas quando olho para trás vejo que alguma estrela brilhou no nosso céu.

Nos primeiros anos contamos muito com a sorte e alguns chutes na lua. Um bom exemplo foi a forma com que compramos nosso terreno (que aos poucos cresceu). Em um mesmo ano (2004) ele ganhou dois concursos de fotografia nacionais.

Com a grana dos prêmios, arrebatamos nosso chão. Tá certo que o artista é talentoso, mas se eu não tivesse inscrito as fotos...nada feito meu amigo!

E assim seguimos até a lista de 2011, da qual quero falar.

Este ano elencamos muitas coisas práticas, como pintar a lareira, colocar um portão eletrônico na porteira, comprar uma geladeira nova, enfim, necessidades materiais.

Mas a melhor parte da lista são os desejos que enchem a alma, e é deles que eu mais gosto. Um dos meus sonhos para esse ano é jantar no restaurante do Alex Atala, em São Paulo.

Sou louca por gastronomia e a cada ano fico mais encantada com a relação da comida com a vida. É uma coisa mesmo de tempero dos sentimentos, sabor de lembranças, olfato da memória. Sei lá o que, mas mexe por dentro.

Um dos livros que mais me encantou foi o “Afrodite”, da Isabel Allende. Eu já era fã de carteirinha, mas quando ela se jogou em uma verdadeira incursão sobre a comida e os sentimentos, não resisti.

E foi aí que comecei a colecionar vontades ligadas à gastronomia. Hoje me delicio assistindo a programas de chefs malucos, certinhos ou exóticos. Adoro filmes relacionados a vida e comida.

E foi por isso que o meu grande desejo de 2011 está relacionado a esse contexto. Já resolvi:

- Este ano vou jantar no D.O.M. e bater na cozinha do Alex Atala para conhecê-lo pessoalmente.

Não sei ainda que mágica vou fazer, mas a verdade é que antes do dia 31 de dezembro deste ano vou ter o prazer de riscar esse item da lista. Podem acreditar!

Enquanto isso não acontece, deixo aqui uma foto desse cara fantástico, que revolucionou a culinária moderna e seu restaurante está entre os 50 melhores do mundo.

Mas não se preocupem, ele não atende assim como está nas fotos Esse foi um ensaio para a Revista Trip.

(Se bem que não seria de todo mal...ahahahahahah!)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Esplendor dos contrários


Foto: Paulo Rossi
Ontem no final do dia eu estava especialmente cansada. Ando numa semana puxada, cheia de probleminhas de trabalho, que andam deixando meu estômago enrolado.

No final do dia fui buscar a Sofia na aula de tênis, e com aquele lindo fim de tarde ela me pediu para dar um último mergulho na piscina. Aproveitei a deixa e pedi cervejinha bem gelada, no bar do clube, acompanhada de uma porção de iscas de peixe à milanesa.

Era tudo o que eu precisava para achar o epicentro da minha tempestade naquela quarta-feira.

Dei um afobado gole de cerveja. Ela parecia ter fermentado especialmente para aquele momento. As iscas de peixe estavam crocantes e, com o molhinho de pimenta, fizeram me sentir em uma propaganda da CVC.

Tudo estava de cinema, até que o meu celular tocou.

Do outro lado um marido impaciente, reclamava que estava cansado, louco para ir para casa. Como só temos um carro e moramos lá onde o Joãozinho perdeu as meias, tive que editar o roteiro desse filminho.

Tirei a Sofia da piscina sob protestos, sequei, vesti e abandonei as minhas iscas (que só em descrever já me deixam com água na boca) e fui buscá-lo no jornal.

Embarcaram no carro ele e minha enteada. Antes de pegar o rumo das casas, ele me diz:

- Vamos dar uma passadinha ali na Balsa?!

Para quem não é de Satolep, esse é o nome de um bairro na zona do Porto, onde ficam pequenos estaleiros de barcos. A intenção, revelada no decorrer do percurso, era ver se a nossa lanchinha estava pronta, depois de uns reparinhos no motor.

(Agora uma pausa para localizar os leitores no tempo.)

O Nauro tem um fascínio, que não sei explicar, por duas coisas: indiadas e parafernálias. Eu não posso dizer velharias, porque a definição viraria contra mim. Ele brinca que é por isso que se casou comigo, já que tenho míseros seis meses a mais do que ele.

Mas a verdade é que desde que casamos ele já comprou uma lista interminável de cacareco. Sempre com argumentos incríveis e convincentes. Não sei como!

E isso entre veículos de água e terra. Por sorte nunca pintou um teco-teco modelo Santos Dumont de barbada. Melhor nem dar a idéia!!!

Nesse currículo de veículos - que de preferência dêem muito trabalho e pouco uso - posso citar: uma moto Java do tempo das cavernas – acho que era do Fred Flinston, um reboque velho que foi praticamente “içado” de Novo Hamburgo até Pelotas, uma Kombi a diesel que quase virou floreira do jardim, além da Rural bipolar, que só liga quando está de bom humor. Esta, no momento, repousa na nossa garagem se querem saber!!!

E como com os barcos não poderiam ser diferentes. Voltemos então ao longo dia ontem...

Deixei-o no tal estaleiro para que trouxesse de volta, ao aconchego do nosso trapiche, a lanchinha nova. Ela é fruto de um câmbio, feito há alguns meses, por outro barco, o Inca

*Nota da redação: não é fácil compreender esse emaranhado de “aquisições”, seria necessário fazer uma verdadeira árvore genealógica das quinquilharias, para melhor compreensão dos leitores.

Cheguei em casa, fiz o jantar, comi, coloquei a camisola...e nada. Até que lá pelas cansadas ele liga:

- Oi meu amor...fiquei empenhado, a lancha parou aqui na boca do Arroio Pelotas!

Pronto, pensei, o programa ficou completo!

Mas ele só queria avisar para eu não me preocupar. Já tinha acionado o socorro do nosso vizinho Diego, que iria rebocá-lo. A estas alturas os mosquitos faziam procissão pelas redondezas.

Quando chegou, eu já estava quase dormindo. Mas não me contive quando vi a cara dele. Chegou faceiro, animado, como se estivesse vindo de uma festa.

Dei uma risada e percebi que aquilo que a meu ver seria um problemão, pra ele foi pura diversão.

Ele curte o “ficar empenhado”. O legal é exatamente isso, a busca pela solução. Catar um mecânico tarde da noite, achar um barco pra rebocar, puxar um canivete do Magaiver, engraxar a roupa limpa e, se bobear, ainda fazer uma canoa com meia dúzia de juncos pra chegar em casa.

É uma coisa incompreensível, mas é a mais pura tradução do meu marido. O legal é exatamente achar graça dessas diferenças. Esse é o verdadeiro esplendor dos contrários.

Com o convívio, percebi que a gente passa muito tempo buscando a perfeição no casamento. Perde-se muito tempo e se gasta muita energia inutilmente. Na verdade, o bom dessa comunhão, é o diferente.

Imagina se fossemos iguais? Não ia ter graça.

Além do mais teríamos que adquirir mais alguns hectares de terra para guardar a sucata que arrebataríamos por aí afora!!!

(Desculpa meu gordinho, não resisti!! Ahahahahahahha)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Fruto



Sabe aquela história que o fruto nunca cai longe do pé?

No caso da paixão pela melancia, a carga genética caprichou na dose. Enquanto não publico o novo post, deixo essa foto clicada pela querida Miza Limões durante o Desgarrados de Satolep 2011.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Recomeço

Foto: Nauro Júnior

Depois de algumas semaninhas de recesso estou de volta ao blog. Acordei disposta ao retorno. Acho que o fato de ter lido logo cedo a mais recente crônica da jornalista Eliane Brum, na Revista Época, me ajudou.

Ela reproduziu, em meio a uma profunda análise sobre a vida, alguns trechos de uma entrevista de Clarice Lispector ao psicanalista Hélio Pellegrino. Em dado momento ele diz:

"Escrever e criar constituem, para mim, uma experiência radical de nascimento. A gente, no fundo, tem medo de nascer, pois nascer é saber-se vivo – e, como tal, exposto à morte".

Adoro ler coisas que pareçam traduzir na palheta os meus sentimentos. Alguns autores têm esse talento exageradamente. Comigo a Eliane Brum é um caso de “nunca te vi, sempre te entendi”. É uma simbiose incrível, de sentimentos parecidos e fases paralelas.

Obviamente que ela nem sonha da minha existência. Mas voltando a vaca fria.

Um bom recomeço exige sonhos frescos. Por isso quero eles à granel nesta nova jornada. Lindos, gordos, lustrosos e prontos para serem consumidos.

Mas nada muito exagerado e impossível. Vou deixar a mega-sena para outra encarnação. Quero me dedicar a causas palpáveis, pelo menos com o fio terra no chão. O resto do corpo pode levitar.

Me contendo com algumas tardes de happy hours quando a semana estiver tensa. Também seria bom “chutar o balde” vez que outra, para pegar um cineminha no meio da tarde.

Não sou consumista, mas talvez invista em algum supérfluo. Depois da sandália de salto alto de 2010, quem sabe uma bota de inverno para ver o frio das alturas?

Quero chorar aos quilos, mas rir às toneladas. Não quero hibernar no inverno, nem esperar a primavera para florescer. Quem sabe descobrir onde fica o termostato e ajustá-lo à beleza de cada estação.

Ah, e a gastronomia. Quero me dedicar mais aos prazeres da vida. E a comida tem ligação direta com a alma. Seja em casa, debaixo de uma paineira, ou no restaurante do Alex Atala. Não interessa o contexto. O que importa é não deixar de sentir o sabor singular das confissões que surgem na volta de uma mesa.

Quero brindar a vida. Beber estrelas. Tomar milhares de litros refrescantes da mais pura e cristalina água.

Nesses 300 e poucos dias que ainda temos em 2011, quero renascer muitas vezes. Aqui, escrevendo, e lá fora, sentindo o vento no rosto.

E depois de chorar bem alto, aprender a caminhar. Descobrir as palavras mais legais e soltá-las ao vento. Não deixar de dizer.

Em suma, quero tudo ao mesmo tempo. Dias de paz, mas cheios de intensidade.

E como disse o Hélio Pellegrino a Clarice Lispector:

“Viver bem é consumir-se, é queimar os carvões do tempo que nos constitui. Somos feitos de tempo, e isso significa: somos passagem, somos movimento sem trégua, finitude. A cota de eternidade que nos cabe está encravada no tempo. É preciso garimpá-la, com incessante coragem, para que o gosto do seu ouro possa fulgir em nosso lábio. Se assim acontece, somos alegres e bons, e a nossa vida tem sentido".

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Recesso

Gente querida!

Tirei uns dias de férias do meu divã-virtual. Em alguns instantes estarei de volta.

bjs e saudades

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Centro do universo



Essa época do ano não passa indiferente. Afora os significados religiosos, existe certa magia oculta no ar.

Incrível eu estar escrevendo isso depois de ter passado a semana na maior correria. Estive atucanada, me dividindo entre os afazeres profissionais e os maternos.

A Sofia está de férias. A babá dela também. Capitou?

Com isso minha semana andou na corda bamba, entre o prazer de estar todo dia ao lado de minha filha mimosa, e o estresse de tentar conjugar isso ao trabalho. Equação que não tem ciência exata que feche.

Junto com isso, este ano atrasei minha lista de presentes. Eu que sou toda organizada e em novembro já estou com a lista de presentes quase liquidada, me dei mal este ano.

Hoje, quase véspera de Natal, finalmente estacionei meu trenó no centro. Em alguns segundos me vi em meio a multidão de errantes, suando em lojas, em busca de presentes que já foram vendidos há horas.

Para amenizar meu desespero, contei com a presença solidária do meu maridão. Ele fez as vezes de motorista, carregador e conselheiro, dependendo da necessidade.

O último item da maratona natalina era, nada mais, nada menos, do que um “ranchinho básico” no hipermercado local. Depois de vencido o acotovelamento na fila da verdura, o “sai da frente” dos carrinhos atravancados no meio do corredor e a fila interminável do “caixa em treinamento”, finalmente um oásis apareceu.

Fizemos uma parada estratégica na lanchonete do Treichel, para repor a sanidade mental e comer o melhor cachorro-quente da cidade. Enquanto eu traçava o dito cujo e o Nauro degustava uma torta mineira, uma mensagem chegou no celular dele.

Era nosso amigo Cadré, jornalista, radicado atualmente em Frederico Westfalen. Ele dizia:

- Já estou aqui, no centro do universo!

A frase foi dita em uma mesa do Cruz de Malta, tradicional bar da cidade, onde se toma a cerveja mais gelada do mundo e se come o melhor croquete do planeta.

E foi degustando a satisfação do Cadré, com aquele tão esperado momento de retorno ao berço, que fiquei pensando no profundo significado desses dias de final de ano.

Sei que assim como ele, hoje nossa amiga Daniela Xu deve fazer a mesma coisa. Não sem antes, passar no balcão do Café Aquários e sentir o peito inundar de prazer ao saborear aquele café carioquinha.

É exatamente isso. É o momento em que cada um de nós volta para o seu canto. Busca as suas origens. Cata suas referências de paladar, olfato, carinho. Resgata saudades, brinda amizades.

São essas e tantas outras razões que fazem desses dias, tão especiais. Talvez Natal e Ano Novo sejam exatamente isso: uma oportunidade de estarmos no centro do nosso próprio universo. Seja ele em Satolep ou em qualquer canto do mundo.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Guga forever

Sábado à noite assisti ao desafio entre Guga e Agassi no Maracanãzinho. O jogo tinha caráter filantrópico e saudosista ao mesmo tempo. Enquanto a bola rolava viajei no tempo.

Há dez anos, no mesmo período, Guga alcançava o topo do ranking da ATP. Foi em Lisboa, quando venceu Agassi por triplo 6/4 na final, conquistando o Masters Cup de 2000. Com isso foi confirmado como novo número 1 do mundo do tênis.

Naquele tempo eu já era fã de carteirinha do “Manézinho” e já tinha impresso no currículo o meu grande feito. Foi dois anos antes, em 1998, quando eu morava em Florianópolis. Já cursava jornalismo e estava no segundo ano de faculdade.

A expectativa nacional sobre Guga era enorme. Éramos um povo carente de ídolos e órfãos de Ayrton Senna. Isso por si só já era um peso e tanto para o guri dos cabelos cacheados. Seu jeito simples, carismático e cativante reunia os ingredientes que precisávamos para encontrar no tênis uma mania nacional.

Como boa fã que se preze, eu vivia lendo tudo que saia sobre Guga na imprensa. Ele recém tinha sido derrotado nas rodadas preliminares de Roland Garros, pelo então desconhecido Marat Safin. Com a pressão para que conquistasse o bi-campeonato, Guga voltou para o Brasil carregando nos ombros o peso das frustrações de um povo.

Nesse tempo ficou recluso, evitando contatos com a imprensa. Queria simplesmente ficar no seu canto. Na sua ilha, literalmente. E eu nessa época sabia toda a vida dele. Onde morava, treinava, lugares que gostava de freqüentar, surfar e etc. Era inverno em Floripa, e numa manhã cinza resolvi pegar o carro e percorrer as pistas atrás de Guga

Imagina a pretensão!

Mas como diz o ditado, jornalista precisa de uma boa dose de sorte. Mesmo sendo uma estudante, não podia imaginar que naquele dia o meu potinho estaria cheio. Desci o morro da Praia Brava e me deparei com uma série de edifícios altos, à beira-mar. Estava tudo deserto. Ninguém pelas ruas, a não ser um grupo de crianças recém saídas do colégio.

Dobrei a primeira rua e estacionei. Minha intenção era pedir informação para algum vivente que cruzasse caminho. Queria perguntar se sabiam onde era o apartamento do Guga naquela praia.

E foi aí que ouvi aquele som mágico:

- Ploc, ploc, ploc, ploc,...

Pensei que deveria ser algum tenista, e por isso saberia informar. Dei alguns passos em direção àquele som familiar e me deparei com uma miragem. Era o Larry e o Guga, em carne e osso. Eles me olharam e eu sorri, pensando instantaneamente no que faria com aquela situação.

Dois minutos depois pararam o bate-bola e o Larry veio em minha direção. Me apresentei como “jornalista” e perguntei se poderia fazer uma rápida entrevista com eles. A palavra “Pelotas” foi a senha. Larry disse que tinha sido casado com uma pelotense e que tinha boas lembranças da terra. Pediu que eu esperasse o final do treino para começar.

Foi aí que o pânico tomou conta. Imagina só, entrevistar o Guga, naquele minuto. Pra começo de conversa eu não tinha papel nem caneta. Na mesma hora saí em busca da criançada do colégio. Praticamente assaltei os guris e consegui duas folhas de papel e uma caneta. Vencida a primeira etapa, fui direto para a quadra fazer algumas fotos.

Em pouco tempo eu estava sentada no chão de saibro, ao lado da dupla. Como era minha primeira entrevista, e o interlocutor era um ídolo, eu não sabia se anotava as respostas ou ficava admirando ele falar. Fiz as duas coisas ao mesmo tempo e depois de meia hora tinha uma entrevista exclusiva com o cara mais procurado do momento.

Voltei para casa em êxtase. Passei tudo para o computador e liguei para o Cabral, editor de esportes do DP. A entrevista virou matéria de página no dia 9 de junho de 1998, Dia do Tenista.

A odisséia se transformou em episódio do quadro “Retrato Falado”, do Fantástico. A atriz Denise Fraga fez às vezes da estudante atrapalhada, que realizou o grande sonho de entrevistar Guga Kuerten.

E neste sábado, durante o jogo no Maracanãzinho, todas essas lembranças escondidas na minha caixinha de pandora voltaram. Esse episódio vai estar pra sempre guardado. É aquele tipo de sonho bom, que o tempo não apaga.

Assim como ele. Nosso Guga forever!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Melhor que o Jabuti


Foto: Nauro Júnior - Teatro Guarany

Dependendo do ponto de vista a inveja pode ser uma dádiva. Cheguei a essa conclusão depois de ler o blog da Martha Medeiros ontem.

Ela acabou de lançar sua mais recente obra, o livro “Fora de Mim”, que por sinal estou louca para ler. Adoro seus textos desde os tempos do “Strip-Tease”, em 1985.

Ela foi minha confidente da adolescência até agora, quando pisei nas quatro décadas. Aquele tipo de texto em que a gente se identifica. Parece estar sendo ouvida, compreendida, acolhida.

Naquele tempo eu nem sonhava em ser jornalista. Dividia minha rotina entre as cadeiras de Educação Física e muitas descobertas. Voava as minhas tranças a bordo de uma bicicleta, pelas ruas de paralelepípedo de Satolep.

A vida era uma mistura de sanduíche natural, lágrimas, festas, e muitos sonhos. Típico de uma escorpiana passional, em pleno desvendar de cortinas.

Desde então a Martha Medeiros é minha amiga-telepática. Com ela debati as primeiras decepções amorosas, passando por primordiais dicas literárias até chegarmos hoje nas aflições da maternidade.

Sintonizamos sempre. Na verdade eu liguei meu rádio no dial dela, e fique feliz em acompanhar o seu crescimento profissional.

Antes era uma escritora daqui. Hoje ultrapassou as fronteiras dos pampas.

E como tudo que é nosso, muitas vezes só percebemos isso quando esse território universal já ganhou novos patamares. E foi o que me aconteceu quando li ontem a coluna que o Toni Bellotto escreveu sobre ela: Quem tem medo de Martha Medeiros?

A crônica está bárbara, ao seu melhor sabor titânico. Ele fala da inveja que sentiu ao chegar na sessão de autógrafos da nossa gaúcha, em uma livraria do RJ. A “bicha”, como dizemos por aqui, invadia as calçadas. A fila era monumental, contou.

A história termina quando, quase cinco horas depois, ele e a esposa conseguem finalmente chegar à nossa diva literária.

Quando terminei de ler fiquei saboreando por alguns minutos aquele momento. Imaginando a cena e viajando. Cheguei à conclusão de que a inveja boa é uma delícia. Ainda mais se vinda do Toni Bellotto.

Então hoje tomei uma decisão.

Quando lançar o meu primeiro livro, o Toni e a Martha vão estar no topo da minha lista de convidados. E já aviso à dupla: podem trazer o mate porque a fila vai ser longa. Esse gostinho é mais ou menos como ganhar o Prêmio Jabuti.

Espero vocês um dia. Em breve!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Valores

Hoje de manhã recebi um mail falando sobre uma campanha publicitária que o Citibank fez em São Paulo. Eles espalharam outdoors por toda cidade, com frases fortes sobre a relação entre dinheiro e vida.

A primeira frase diz:

“Crie filhos em vez de herdeiros”

Simples assim.

Os nascidos no final da década de 60, como eu, cresceram em meio a ebulição dos novos conceitos. Passamos de uma geração que pensava em deixar herdeiros, para uma que queria liberdade e muita felicidade.

Na verdade, acho que somos a metamorfose ambulante nesse desabrochar de novos conceitos. Mesmo assim, a frase acima permanece intocável. Todos nós queremos criar seres humanos felizes, acima de tudo.

Mas a verdade é que educar um filho não é tarefa fácil. Não tem bula. Muito menos manual, e quando toca a nossa vez, parte das teorias aprendidas por anos vão por água abaixo.

Tudo requer uma dose de sabedoria e muitas de intuição. Caso contrário a coisa vira um estresse bárbaro e o melhor do cotidiano se perde nas pequenices.

Como já escrevi aqui, no início do ano a Sofia entrou para o colégio. No meu primeiro embate de valores encarei de frente a tal mochila de rodinhas. Foi o primeiro golpe nas minhas certezas.

Aos poucos fui entendendo como dosar o que penso da vida frente a esse novo universo. Tudo isso sem agredir, chocar, parecer rabugenta.

Nada fácil essa tarefa de mãe. Nada fácil equalizar os valores verdadeiros dos financeiros nesse mundo que gira mais rápido que o nosso.

Tarefa árdua a de educar, mas ao mesmo tempo fascinante e deliciosa. Talvez o melhor dos paradoxos da vida cotidiana. A eterna interrogação que me persegue do acordar ao dormir.

Nunca pensei em ter conta no Citibank, mas confesso que se eles queriam a minha simpatia, ganharam. E mesmo que eu tenha a certeza, mais que absoluta, de que eles preferem que os nossos filhos fiquem ricos e engordem os seus balanços anuais, eu finjo que acredito.

A essência do que eles disseram não tem preço!

"Crie filhos em vez de herdeiros"

"Dinheiro só chama dinheiro, não chama para um cineminha, nem para tomar um sorvete"

"Não deixe que o trabalho sobre sua mesa tampe a vista da janela"

"Não é justo fazer declarações anuais ao Fisco e nenhuma para quem você ama"

"Para cada almoço de negócios, faça um jantar à luz de velas"

"Por que as semanas demoram tanto e os anos passam tão rapidinho?"

"Quantas reuniões foram mesmo esta semana? Reúna os amigos"

"Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça, vírgulas significam pausas..."

"...e quem sabe assim você seja promovido a melhor (amigo / pai / mãe / filho / filha / namorada / namorado / marido / esposa / irmão / irmã.. etc.) do mundo!"

"Você pode dar uma festa sem dinheiro. Mas não sem amigos."


E para terminar, mensagem afixada na parede de uma farmácia:

"Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz. Assim, ele saberá o valor das coisas e não o seu preço”

domingo, 21 de novembro de 2010

Pipoca de mel

Me criei correndo e brincando em meio as escadas e bancos do Hipódromo da Tablada. Minhas fotos de infância mesclam entre aniversários, natais, e fotos ao lado de cavalos, jóqueis e todo aquele universo que foi meu cenário de menina.

Posso dizer que desde que me entendo por gente meu pai faz parte dessa história. No ano passado, quando ele decidiu formar uma chapa, e se candidatar à presidência do Jockey Club de Pelotas, fiquei receosa. Ele estava em plena luta contra um câncer, que já tinha levado seu rim direito.

Enquanto isso a antiga diretoria estava atolada em estórias muito mal contadas. O abacaxi não era pequeno e ainda por cima muito azedo. Cheguei a comentar se aquele seria um bom momento, já que imaginei que teria um desgaste além do imaginável. Pensei que não seria o melhor remédio.

Com seu estilo singular, meu pai me respondeu:

- Eu sou homem de morrer lutando!

Acatei sua decisão e durante este ano e meio o apoiei incondicionalmente. Foi uma árdua batalha pela revitalização do nosso querido “prado”. Liminares na justiça e pressão por todos os lados.

Depois de muita água rolar por debaixo da ponte, este domingo foi marcado pela reabertura da Tablada. Apoiado por um grupo de fiéis escudeiros e pela força impressionante da minha mãe, eles conseguiram. O Jockey Club de Pelotas reconquistou a Carta Patente, ganhou novos ares e estava de volta, ainda mais especial.

Quando nos aproximamos de carro e vi aquele pavilhão repleto, comecei a me emocionar. Eu não imaginava que tanta gente estaria lá. Eram pessoas das mais variadas idades. Famílias inteiras, amigos, desconhecidos. Eram os velhos freqüentadores do prado, que estavam órfãos do seu programa de domingo. Eram os jovens, empolgados como a retomada de um patrimônio de todos.

Percorri as velhas escadas da Tablada inebriada com a alegria daquele público. Vi lágrimas escorrendo dos olhos de gente para quem o Jockey era parte de sua vida. Entre abraços e sorrisos, enxerguei o quanto tinha valido à pena aquela batalha. Senti um orgulho enorme transbordar do meu peito.

Desci para comprar uma pipoca para Sofia. Contei que quando eu tinha a idade dela, sempre comia uma pipoca com mel, que vendia atrás do pavilhão dos remates. Nos dirigimos para carrocinha e uma moça simpática nos atendeu. Pedi uma salgada para Sofia e nisso vi que ela tinha a tal da pipoca com mel, uma raridade entre os pipoqueiros modernos.

Comentei com a menina que quando eu era pequena sempre comia aquele tipo de pipoca, e que me dava um gosto de infância na boca. Falei que tinha um pipoqueiro que sempre ficava naquele local e que era uma referência para o meu tempo de criança. Foi então que ela brilhou os olhos e me disse:

- Era o meu pai!

Enchi os olhos de água e sai com a Sofia pela mão, saboreando aquele gosto maravilhoso de domingo.

Eu não disse pra ela, mas tive a certeza de que meu pai tinha feito a coisa certa!



sábado, 20 de novembro de 2010

Carmim


Foto: Nauro Júnior

Cada fase da vida tem suas descobertas. No meu caso, em especial, elas invariavelmente não seguiram a cronologia típica das idades apropriadas. Desde o primeiro beijo, que foi aos 15 anos (pasmem!), até o último feito desta manhã.

Hoje, 20 de novembro de 2010, eu pintei as unhas de vermelho pela primeira vez.

Sim, é fato! Tenho 42 anos de idade, uma filha, três cachorros, uma empresa que vai completar cinco anos, e só hoje pintei as unhas de carmim. Uma cor de esmalte chamada “40 graus”. É tão vermelho, que o tom vibrante está atrapalhando a minha desenvoltura no teclado neste momento. Acreditem!

Durante essas quatro décadas, o máximo que vi nas mãos e nos pés foi um verniz esbranquiçado, quase que protegendo as unhas. Informação nada relevante, se pode pensar.

Não, se este simples ato não estivesse permeado de significados. O passo de hoje foi bem mais do que um certo retardo de iniciativa.

Todos nós temos coisas que nunca fizemos na vida. Desde bobagens, como essa que estou contando, até atos fortes, tão intensos quanto a coragem que necessitamos para quebrar paradigmas. Mesmo que estes sejam impostos pela nossa cabeça.

Na lista de 2010, ainda conquistei a primeira sandália de salto alto. Essa foi comprada na véspera do meu aniversário, para alegria do meu marido. Ele sempre sonhou em me ver além de uma rasteirinha. Então deixei os tênis no armário e fui em busca de um desafio.

Com a sandália comprada e o Nauro realizado, o primeiro paradigma da minha caixinha da pandora foi quebrado. Ele se animou tanto com a novidade, que na viagem à Gramado me deu mais uma sandália, com salto ainda maior. O desafio agora é caminhar mais que 500 metros sem achar que corri uma maratona. Não é mole!

Mas voltando a coisas que nunca fizemos na vida...

Quando completei meus 40 anos, idade emblemática, pensei nesse assunto pela primeira vez. Cogitei cortar o cabelo bem curtinho. Mas não tive coragem, acho que não combina com o meu rosto e podia gerar uma frustração no primeiro passo dessa aventura.

Depois pensai em fazer uma tatuagem no pé, que sempre sonhei. Não tive coragem. Daí imaginei comemorar meu aniversário pulando um bung jump, mas adivinha...não tive coragem.

Amadureci essa ideia, e nesse final de ano resolvi começar uma lista de coisas que até hoje não fiz para começar a mudar essa história. Com um déficit de dois anos, é claro, mas decidi.

Quero chegar no final da estrada sem frustrações ou medos.

Comecei com as coisas mais superficiais, como as unhas cor de carmim. Neste momento confesso que estou me achando a pessoa mais estranha do mundo. Mas tudo bem, o que importa é que consegui riscar o primeiro item da minha lista. Não sei se agüento até amanhã, a sorte é que hoje à noite vamos à uma festa de casamento e minhas unhas vão se misturar na multidão.

Mas já aviso que a tatuagem deve vir ainda no verão de 2011. Depois disso, o céu é o limite.

E aí, gostou da idéia? Quem sabe a gente não cria um "movimento carmim”, e a vontade de fazer o inusitado não se alastra por aí.

O primeiro passo é simples....vai por mim!


domingo, 14 de novembro de 2010

Meteoro


Tenho a mania de colocar um Cd no carro e deixar derreter, de tanto tocar. Fico dias, até semanas, com o mesmo repertório. Uma mistura de preguiça de trocar e ao mesmo tempo saudade da velha trilha das minhas fases da vida.

Semana passada achei uma raridade que ganhei da minha mãe há tempos. Trata-se do disco dos 30 anos de carreira da Mercedes Sosa, uma verdadeira relíquia.

Ouvi La Negra pela primeira vez no long play da minha mãe, que ficava na sua salinha de som. Pois então, minha mãe tinha um canto só pra se deleitar com seus Lps. Eles tocavam em um aparelho quase do meu tamanho, levando em conta que eu devia ter uns sete anos.

Aprendi desde pequena a ouvir e sentir a força da música. E por sorte, minha mãe sempre teve bom gosto musical. Lembro de duas passagens que me dão essa certeza. Uma delas foi quando a Mercedes Sosa se apresentou aqui, em um show histórico, nos idos de 88, em pleno palco do Teatro Avenida. Minha mãe totalmente inebriada pela música de La Negra, estava na fila do gargarejo, cantando e dançando.

A outra foi quando Chico Buarque esteve no espetacular Latino-Música, aqui em Pelotas. Um festival daqueles de arrepiar, com o melhor da música latina. O show do Chico caiu bem no dia do meu aniversário. Não teve problema. Lá pelas sete da noite, minha mãe “convidou” os convidados a irem para suas casas e me levou pela mão para o espetáculo. Tivemos que "rasgar" um segurança para conseguir entrar. Ela conseguiu um banquinho e me colocou em cima, para ver de perto o "cara".

Na época já pude dimensionar o tamanho do presente que ela me deu naquele dia.

Mas voltando ao meu rally musical.

Tenho rodado a cidade, no leva-e-traz de colégio, supermercado, clientes e afazeres domésticos, sempre ao som de alguma música. A Sofia, na sua cadeirinha, já selecionou os repertórios que mais gosta. E assim cruzamos as ruas da cidade acompanhadas de Marisa Monte, Vitor Ramil, Zé Ramalho, Mercedes Sosa e muitos outros. Ela faz perguntas e canta algumas estrofes.

Mas nos últimos tempos, me veio com uma surpresinha.

Do nada, começou a cantar um repertório estranho:

Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração.
Você é raio de saudade,
Meteoro da paixão,
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar.
Ah! Como é bom poder te amar!


Socorro! Mas o que é isso criança???!!

Na hora fui indagar de onde tinha saído aquela pérola musical. Até porque ela sabia toda letra, e o pior, no ritmo. A resposta veio rapidinho. Tratava-se do tal de Luan Santana, o queridinho das pré-adolescentes, entre elas a prima Luísa, sua “ídola”.

E agora??!!

Bueno, em um primeiro momento eu disse que não achava muito legal a tal música. Mas mesmo longe do período adolescente, a pirralha de cinco anos gritou.

- Mas eu adoro mamãe, e vou cantar!

Democracia tem disso. Então deixei a psicologia de lado e tive que ser enérgica.

- Música sertaneja aqui nesse carro nãooooooooooooooo!!!

E a danadinha só pra me provocar começou a cantar mais alto ainda. Assim fomos até chegar ao estacionamento do colégio. Cada uma com o seu repertório, e eu com menos de cinco anos de idade. Confesso que fui infantil, não tive habilidade!

Não sei como será o desenrolar dessa história. Mas a verdade é que nos meus tempos de infância a qualidade musical era melhor. Até o pior não era ruim. Não lembro de nada que se assemelhasse a “boquinha da garrafa” ou “funk da mulher qualquer coisa”. Música era feita com consistência e talento. Longe da miscelânea midiática que entra pelas frestas das nossas casas e contamina nossos filhos.

Talvez tenha sido mais fácil para minha mãe nos dar o norte musical. Mas a verdade é que enquanto eu dirigir aquele carro e escolher o cd, o meu repertório musical vai prevalecer. A Sofia que me desculpe.

Enquanto isso, fico na esperança que o sertanejo teen seja mais um “meteoro” no cenário musical, e que rapidinho resolva estudar no exterior ou virar budista.

Tomara! Porque a danada da música não sai da minha cabeça.

Que saco!






segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Nhoque da sorte


Tem duas coisas que me remetem a afetos. O paladar e a música.

No dia do meu aniversário fomos a uma cantina lá em Gramado. Era dia 29, e eu pedi para que naquela noite nossa janta fosse um “nhoque da sorte”.

Além de ter a tal tradição italiana, essa sempre foi a comida que minha avó Nóris fazia para o meu aniversário.

A Chochó, essa avó que morava conosco, tinha esse ritual, de que o aniversariante escolhia a comida no seu dia. E cada dia 29 de outubro que passei com ela, me fartei em travessas de nhoque recheadas com molho ao sugo. Inigualável. Era sempre a mesma coisa, e eu amava.

Então voltando aos dias de hoje. Chegamos a uma cantina um pouco vazia, recém inaugurada, nas redondezas da Avenida das Hortênsias. O garçom simpático, logo veio puxando assunto e contando que a casa era nova. Entre uma informação e outra, não deixou de ressaltar que o chef era um renomado gourmet, e que vinha da cozinha da famosa Cantina Pastasciutta em busca de abrir seu negócio próprio.

Contei então que eu estava de aniversário naquele dia, e que iríamos comemorar jantando ali, e testando o chef. Falei do prato que minha avó me homenageava, e resolvi pedir esse menu nostálgico para celebrar os 42 aninhos de vida.

Enquanto comíamos o antepasto, com um vinho da serra, comecei a viajar no passado. Tentei lembrar daquele sabor singular, que me fazia sentir tão querida pela minha Chochó. Lembrei da toalha de olhado, com estampa de frutas, que ficava na mesa da sala de jantar. Enxerguei os descansos de talheres, que causavam espanto nas minhas amiguinhas de colégio, já que eram um tanto incomuns nas mesas cotidianas.

Vi como se estivesse ao meu alcance, o passador de pratos de madeira, pintado de azul colonial, que ficava atrás da cadeira da cabeceira, e que tinha toda uma explicação histórica do tempo dos charqueadores. Aquele meu cenário infantil me veio à mente com clareza e raros detalhes, coisa que minha péssima memória não me brinda quase nunca.

E como num filme, nesse momento, o garçom deita em minha frente uma travessa de nhoque com molho ao sugo.

Como num ritual indígena, fechei os olhos e abri a boca para perceber o sabor com toda sua intensidade. O garfo recheado daquela porção mágica me levou para uma dimensão que só o paladar pode conduzir

A textura do nhoque estava idêntica. Nem mais, nem menos. O molho tinha a quantidade exata de tomates e a pitada de manjericão na medida para me levar a um outro lugar do tempo e do espaço. Lá, naquela noite chuvosa de Gramado, pude sentir minha avó querida.

Matei a saudade e recebi um abraço de aniversário mergulhada em molho ao sugo.

Terminada a refeição peguei a nota de um dólar debaixo do prato para guardar na carteira e fui até a cozinha apertar a mão do tal chef. No final, dei um abraço apertado e disse a ele que o prato estava perfeito. Ele me respondeu dizendo que a comida e o afeto são uma coisa só.

Realmente!

Ele talvez não tenha entendido a profundidade daquele momento pra mim, mas como todo bom chef, sentiu. Me disse que estava ansioso em saber se a cantina ia de fato decolar.

Pelo que vi acontecer ali, acho que tem tudo para dar certo. Ainda mais se minha avó continuar dando o tempero nos pratos dele. Tenho certeza de que será um sucesso!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Presente



Na sexta-feira estou de aniversário. Aliás, eu a Julia Roberts, a Paulinha Blass e a Maria Amália, do Tholl. Deu pra ver que é data pra nascer mulher fumeta, né?!

Brincadeiras a parte, quero dividir aqui um sentimento bom que tenho. O de gratidão por todos os presentes que a vida me deu nessas décadas.

Passar dos 40 com pai e mãe cheios de saúde é um presente e tanto. Quem já os perdeu sabe do que estou falando. E para completar, são dois grandes amigos, com quem sempre pude contar e com quem divido meu cotidiano. Nossas dificuldades só serviram para que nos aproximássemos cada vez mais.

Minhas duas avós, com quem convivi por longo tempo e de forma intensa, foram outros dois grandes presentes. A minha Chochó, com quem vivi sob o mesmo teto por anos, e com quem aprendi que os bons momentos merecem ser celebrados sempre. E a minha Voinha, que com sua simplicidade mostrou o quanto podemos ser fortes e implacáveis, sempre. Basta ter a preciosa fé!

Minha irmã, Kiki é também um regalo do destino. Nossas personalidades são distintas e complementares. E nossa amizade é daquelas que dispensa palavras. Nos sentimos, e isso nos basta.

Também tive a sorte de nunca perder um amigo próximo, nem alguém que rompesse a ordem natural das perdas. Como já disse aqui, tenho amigos de todos os pelos e cada um com seu jeito e encanto. Pessoas que guardam capítulos importantes da minha história e com quem eu sei que sempre posso contar. Independente do tempo ou da geografia.

A vida me deu mais que presentes. Deu tesouros. Responsáveis pela coisa mais rara que tenho hoje: a minha família. Meu marido, que chegou como nas navegadas que ele tanto gosta. Veio de forma inesperada, mas a certeza que tenho, é que já nos esperávamos há muito tempo.

Com esse amor tão absoluto, veio a razão do meu viver. Tenho certeza de que cheguei até aqui para ser a mãe da Sofia. Para aprender com ela. Para agradecer a vida através dela. Esse presente de valor imensurável, me fez ser uma pessoa melhor. Cada pequena lição que aprendo com ela, me faz entender melhor a grandeza de tantas coisas que até então eram incompreensíveis.

E com tantos presentes nesses anos de vida, eu quero dizer para o Papai do Céu, que a única coisa que eu quero de presente nesse dia 29 de outubro de 2010, é um dia ensolarado.

Se não for pedir demais, quando anoitecer eu gostaria de um céu estrelado. E nessa hora eu vou dar a mão para os meus dois amores, e vou agradecer por todos os presentes que a vida me deu nesses anos.

Obrigado por cada segundo dessa vida tão boa Papai do Céu!

sábado, 16 de outubro de 2010

Carta ao novo(a) presidente


Escrevo como quem larga palavras ao vento, eu sei. Mas mesmo assim Sr(a). novo(a) presidente, não vou me furtar de enviar-lhe essas palavras tão sinceras.

Sempre gostei da política. Talvez porque tenha vindo ao mundo no polêmico ano de 1968. Sai do conforto do ventre materno, para um mundo que convulsionava em meio a históricos acontecimentos que sacudiam certezas.

"...no tempo em que os sonhos começavam a se realizar e até as utopias deixavam de ser utopias..." como disse Zuenir Ventura.

Era um ano enigmático, marcado pelo assassinato do maior líder negro da história, ao mesmo tempo em que a Guerra do Vietnã decepava a paz. Talvez apenas por isso, eu ainda carregue comigo um gosto estranho pela política.

Sempre imagino a cena de minha mãe amamentando, e ao mesmo tempo ouvindo no radinho de pilha as últimas notícias das manifestações estudantis que revolucionavam o centro do país. Estudantes na rua que assustavam as mentes autoritárias.

E assim o tempo foi passando.

Enquanto o minuano soprava aqui nas bandas do sul, vi pela televisão a contagiante mobilização pelas Diretas Já. Meu corpo tomava novas formas e a tal da adolescência chegava. Logo depois desabrochei para a juventude e pisei deveras no mundo democrático, votando pela primeira vez.

Lembro com orgulho daquele dia 15 de novembro de 1989.

Depois disso, nunca mais deixei de expressar meus ideais políticos. Mesmo que muitas vezes tenha me custado calorosas discussões familiares. Meu pé no mundo profissional também foi em um ambiente permeado de sonhos. O primeiro emprego como jornalista foi na assessoria de imprensa política da Prefeitura Municipal de Pelotas/RS.

Respirei o jornalísmo político por cerca de cinco anos, até que minha filha Sofia nasceu, e com sua sabedoria - implícita até no nome - mudou o rumo das coisas.

Mesmo desconectada do cotidiano desta roda-viva, sempre mantive um dos olhos abertos. E assim muita água rolou por debaixo da ponte, trazendo à tona uma política míope e distorcida.

Mas confesso que mesmo com tantos dissabores, como os recentes escândalos do Planalto, ainda guardo dentro do peito um fio de emoção. Um sentimento que ganha força quando ouço um discurso mais carregado de certezas. Aquele conjunto de palavras, ditas com tal contundência, que nos fazem acreditar nas mudanças.

Mas ando deveras descrente nos últimos tempos. E por isso Sr(a). novo(a) presidente, escrevo esta singela carta como forma de fazer as pazes com a política.

Sou uma brasileira que, assim como a maioria, canta o hino nacional quase que por inteiro. Volta e meia acabo tropeçando. Por mais lindo que seja, às vezes troco alguma estrofe. Estou confessando uma coisa muito íntima, com a esperança de que a sinceridade seja uma recíproca entre nós.

Mas não fique preocupado(a), em contrapartida, pago os meus impostos em dia. E olha que não são poucos. Tenho uma pequena agência de comunicação, e lhe digo que não é barbada fazer o cheque no início do mês para pagar os tais "tributos". Sempre me deparo com um número com mais de três dígitos. Mas faço sem reclamar, e por isso me sinto mais a vontade em lhe dizer algumas palavras.

Quero deixar bem claro entre nós, que deposito no meu voto a esperança de que se varra de Brasília esse latente espírito de impunidade. Assim como nossos pais nos colocaram limites na infância, é a hora de alguém puxar as orelhas dos que não aprenderam até agora a ser “bem educados”.

Também vai nele, minha certeza de que a economia tem que ser cada vez mais forte, e que nosso salário tem que ter valor de verdade. Meu voto é também lembrando que os que têm fome, também têm pressa, e que a saúde precisa cuidar de seus doentes.

Meu voto sempre será a minha voz. Minha certeza de que mesmo com tantas coisas erradas nos últimos tempos, a democracia sempre será o melhor dos ganhos. E por isso Sr(a) novo(a) presidente antecipei minhas férias, agendadas com tanto carinho. Tudo isso para voltar a tempo de votar no dia 31 de outubro.

Não quero e não posso me isentar de usufruir desse direito conquistado com tanto sangue e suor. Acho que isso deve estar no sangue dos que nasceram no “ano que não terminou”. Porque como disse Martin Luther King, o que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons!