domingo, 16 de maio de 2010

Mochila de rodinhas

Tudo ia muito bem até que um belo dia, pouco minutos antes de entrarmos no carro para ir ao colégio, a Sofia me chamou. Pediu para me contar um segredo no ouvido:

- Mamãe, eu não quero ir para o colégio!

Eu achei estranho, mas pensei que fosse alguma coisa daquele dia. Vai ver que está cansadinha, com dor de barriga, qualquer coisa assim. Então prossegui o diálogo:

- Mas por que meu amor, tu que gostas tanto do colégio. O que houve?

Ela se abraçou no meu pescoço e aninhada respondeu:

- Mamãe, eu nunca mais quero ir para o colégio!

Como assim? Pirei na batatinha. Ela não precisou de adaptação. No primeiro dia de aula abanou para nós dois, que tentávamos disfarçar as lágrimas, e seguiu adiante cheia de si. Acordava sábado querendo saber que dia seria segunda-feira, enfim, nada poderia explicar. De um minuto para o outro, meu mundo desabou. E pela frase alguma coisa muito séria tinha acontecido para aquela frase vir tão cheia de certezas.

Busquei nos meus arquivos de mãe o tal manual de crises, mas o capítulo "adaptação na escola" só tinha dicas para crianças com dificuldade para ficar nos primeiros dias. Então fui pela lógica, e imaginei que a melhor coisa naquele momento era levá-la ao colégio mesmo assim. Tentei não valorizar o assunto. Disse que eu também não tinha vontade de trabalhar muitos dias, mas que a vida é assim mesmo. Uns dias com vontade, outros sem, mas o negócio era seguir em frente.

Entramos no carro e ela, sentada na cadeirinha, parecia que ia para forca. Não chorou, só deixou a cabeça cair para o lado, com um ar de tristeza tão explícito, que não teve assunto que mudasse o semblante. Chegamos no colégio e ao estacionar o carro ela já me pediu para ir no colo até a porta da sala. Entrou, e sentou em uma cadeira, como se estivesse na sala de espera de um consultório médico, sem o menor entusiasmo.

Comentei com a professora, perguntei se tinha acontecido alguma coisa diferente, mas ela lembrou apenas de um episódio comum. Uma coleguinha havia levado um bichinho de pelúcia e a Sofia brincando, acabou por sujar de tinta o rabo do tal bicho. Foi repreendida e pediu desculpas, segundo o relato.

Chegando em casa à noite, sentei para conversar com ela. Disse que tinha falado com a “profi” e que ela tinha me dito do acontecido com a colega. Ela me disse que estava triste, porque a “aluninha” (é como ela chama) não a tinha desculpado. Expliquei que não tinha sido nada, que era assim mesmo, comum nas escolas e que ela não precisava se sentir culpada. E ela me retribui:

- Mas mamãe, não é só isso, as "aluninhas" nunca brincam comigo!

Ah, a coisa começava a encrespar e eu já estava pedindo ajuda para os universitários. Daí ela começou a relatar um rosário de situações corriqueiras, e em todas o que pude perceber é que minha princesinha estava se sentindo diferente do todo. Rejeitada para ser mais literal.

Uma vez uma colega disse que a mochila dela era velha. A verdade é que na sala (e acho que em 98,8% do colégio) todas crianças arrastam uma mochila de rodinhas. A dela é uma laranja e marinho, que ganhou no final de ano como presente da empresa pelo pai ser funcionário da RBS. Achei ótima, porque é bem das cores do uniforme e cabe a merendeira com o lanchinho, na medida. O outro lamento foi porque a outra colega disse que o tênis dela era velho. Na verdade é um tênis lindo, mas como moramos para fora, tem cara de quem usa mesmo, com as marcas do dia a dia. E assim foram várias situações que para nossa cabeça podem ser mínimas, mas que no universo infantil e sua “sinceridade”, podem virar um problema.

Percebi que até a minha involuntária idéia criativa de mãe, tinha sido um desastre logo no começo das aulas. Deixa eu contar. Seguinte, era para todos irem fantasiados de algum personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo, uma atividade alusiva ao dia do livro, eu acho. O caso foi que quando me dei conta que a maioria das crianças iriam alugar fantasia, já era tarde demais. Não tinha nada disponível. Então lembrei que a roupa da Tia Anastácia era super fácil de fazer e preparei a Sofia com um vestidinho mimoso, avental, lencinho no cabelo, coloquei base no rosto e como adereço uma colher de pau, finalizando as características de uma das personagens mais amáveis de Monteiro Lobato. Levamos ela pela mão, o Nauro e eu, bem faceiros e orgulhosos da nossa Tia Anastácia. Tiramos foto na sala de aula, mas percebemos que ela estava um pouco tímida, fora do seu estado natural de alegria. Quando fui buscá-la mais tarde, entrou no carro e me disse:

- Mamãe, na próxima vez que quero ir de Narizinho, tá? Todo mundo riu de mim.

Hoje, depois dos últimos relatos, percebo que aquele deve ter sido um dia difícil para Sofia. Ser diferente não é fácil. E o universo infantil é permeado de uma sinceridade muitas vezes cruel. Me dei conta que a Sofia tinha chegado de peito aberto para um mundo novo. E da mesma forma que ainda não tinha anticorpos para as gripes cotidianas da escola, não possuía os antídotos para situações como as que o convívio social nos expõem. Ela foi criada aprendendo que sempre que se errava era preciso pedir desculpas, e que ouviríamos “não foi nada”, do outro lado. Da mesma forma, era preciso agradecer quando alguém nos fazia uma gentileza. E assim por diante, com as famosas “palavrinhas mágicas que abrem as portas do mundo”, como sempre brincávamos em casa.

A verdade é que o mundo não tem mais essas regras como essenciais, e muitas vezes usá-las pode parecer diferente. E assim seguem as situações da mochila, do tênis, da Tia Anastácia...e muitas outras que estarão por vir. Minha cabeça ainda está confusa. Mas depois de uma semana e meia em que a cena do “não querer ir ao colégio” se repetia, sexta-feira minha mãe por sua conta achou uma saída.

Eu estava atucanada com uma pauta e ela foi buscar a Sofia em casa para levá-la ao colégio. Antes disso, passaram no centro e a Sofia escolheu uma mochila de rodinhas, rosa, flamante. A mãe contou que chegaram no estacionamento e ela já zarpou do carro caminhando, sem pedir colo. Empunhou sua mochila de rodinhas e adentrou poderos às dependências do colégio. Como se fosse o Superman recém saído de Kripta. Com um ar de alegria voltando a aparecer, deu um beijo de tchau na avó e seguiu a rotina.

A mãe ligou na mesma hora para contar a novidade. Aquele relato me deu um misto de felicidade e tristeza. Sei que esse é apenas o primeiro passo. Daqui pra frente mundo será assim mesmo. Preciso me preparar para enfrentá-lo da melhor forma. Mas me dei conta que no primeiro round fui nocauteada pela mochila de rodinhas!

Qual será o próximo desafio?

9 comentários:

kiki disse...

Ermã, virão muitos outros round e seremos vencidas várias vezes, mas a essência que plantamos neles sempre fala mais alta no final das contas, é super dificil acertar mas temos que seguir sempre tentando. Essa minha sobrinha é muito especial ela irá vencer todos os obstáculas da vida social.
Mas essa da fantasia de tia anastácia me lembrou da tua fantasia de borboleta hehe te lembra? era uma bolinha com anteninhas e também a minha de palhaço que a nossa mãe me colocou em 2 carnavais seguidos ninguem merece né? e estamos as duas aqui agora dando risada disso, nossa mãe também aprontava umas dessa com a gente. Agora tô me lembrando de cada uma lembra quando tu foste concorrer (não sei o que), lá no São José e todas as meninas estavam de vestido e tu tinhas ido de abrigo hehehe...
Beijos Amo vcs...

cíntia disse...

oi gabi.
pôxa, que coisa chata isso. mas como disseste, o mundo não é como gostaríamos que fosse, cheio de respeito e atitudes bondosas. temos que preparar os pimpolhos pra isso... mas que difícil né? porque ensinamos pelo exemplo, e como dar um exemplo desse mundo que atira a gente no chão na primeira bobeada?
é uma missão que temos que nos esforçar pra saber cumprir!!
beijão

eunice disse...

Pois querida comadre....o mundo não dá e nem empresta nada.... assim é.. o que importa é que a pequena mais uma vez conseguiu expressar seus sentimentos e com rodinhas, ou sem rodinhas lá está ela novamente na parada e pronta para a próxima....Essa é a Sofia!
Abç....Nice

Anônimo disse...

Amiga, eu sei bem do que tu tá falando (sabes porquê)e fico apavorada!!!!Realmente é uma pena que tenhamos que conviver diariamente com essas regrinhas ridículas que dizem que nossos filhos devem seguir. Mas muito disso vem de alguns pais que incentivam esses valores "rosa pink" e as crianças acabam exercendo isso, principalmente na escola. Mas mais uma vez te digo com toda a certeza, que a gente tem mais é que incentivar as nossas mimosas que preferem o marinho e vermelho, marinho e marfim ao rosa e liláz. E cabe a nós fazermos elas entenderem que podem e devem seguir assim desse jeitinho que é muito mais legal e autêntico. Quanto à Tia Anastácia, vou mandar umas fotos da Rafa quando ela também representou essa personagem lindamente lá na Fenadoce. Tu não tava comigo?????
Mas é isso...como disse a Kiki, o que importa é a essência de vcs. Segue em frente sempre assim, do teu jeito. Beijo enorme pros 3. Dica.

regina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
regina disse...

Incrível o que fazem com as crianças, eles próprios ditam as regras a serem seguidas e quando alguém está "diferente" pronto, é a bola da vez. Eu lecionei por 12 anos e ficava muito intrigada com a capacidade das crianças em excluir. Lembro-me de alguns alunos muito queridos, que sempre eram as vítimas, claro que o papel do prof. é interferir, mediar, e ajudar, quando percebia coisas desse tipo, sempre vinha com histórias prá que eles próprios refletissem na "moral da história" e percebessem como estavam reagindo de forma errada. Infelizmente, é preciso ficar alerta e observar sempre, como são os tênis, as mochilas os penteados, prá que nossos filhos não se sintam excluídos. Crianças sem a devida atenção em casa, costumam ser cruéis com os amiguinhos. Que pena! Beijos prá vcs e felicidades prá Sofia e sua nova mochila de rodinhas

Marilia disse...

poxa gabi, q coisa né . qdo acontece de um filho se sentir excluido da vontade de chorar né1 e pior ir falar c os amiguinhos q fizeram isso c eles e por os pingos nos is . daí a gente se dá conta q a culpa n é das crianças .muitos adultos sabem bem como ser cruéis assim . O legal disso tudo é q a sofia soube te explicar direitinho o porque da mágoa dela e então a gente vai ajudando e explicando como funcionam as coisas . qdo tem uma vó q dá uma forçinha então ....... tudo vai se resolvendo , hehe .bjs querida

Anônimo disse...

Filha, que encanto os copmentários deesta tua turma... sei que é dificil ser diferente, conseguir ser OUTRO é complicado, mas podem ter certeza, tens plena conciência disto (por experiência própria, com as minhas "invenções)que a vida futura presenteia aqueles que foram diferentes, neste sentido que falaste. VAi em FRENTE, não te assusta que tudo dá certo, e estarei sempre perto para resolver, outro casos de MOCHILA DE RODINHA..e olha que a escolhida não foi a das "Princesas, Mari etc..."
1 beijo, Mãe.

Anônimo disse...

muito bom...estou viciada nas tuas escritas, quero um livro com todas. bjs mil, karine.