quarta-feira, 12 de maio de 2010

A paineira

A fase introspectiva tem seu lado bom. Sem querer nos perdemos em pensamentos nostálgicos, no meio da tarde, como se voando para um pedaço bom do tempo. E isso na maioria das vezes, é uma delícia.

Então essa semana, entre uma coisa e outra, me peguei com saudades da minhas avó. Pois é, eu sempre fui muito apegada as minhas duas avós.

A Nóris, mãe do meu pai, morou toda vida conosco. Sempre a chamei de Chochó, um apelido inventado aos dois anos, que virou marca registrada da nossa relação. Ela foi morar na charqueada conosco quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Na véspera do meu nascimento, eles ficaram sabendo que meu avô Rafael estava com leucemia, e que tinha pouco tempo de vida. Como moravam na cidade, em uma casa com escadas, optaram por passar aquele último momento perto do arroio, com o ar do campo, na casa que simbolizava tanto para aquele casal (essa é outra linda história!). E foi assim que eu vim ao mundo, em um momento delicado da vida da minha avó, mas que como sempre, ela encarou de peito aberto. A sentença dos seis meses de vida, acabou durando dois anos, e nesse tempo soube que minha presença infantil foi de grande valia para as despedidas do meu avô, a quem intitulei obviamente de Chochô.

Minha avó era uma mulher muito especial. Fora a beleza física, inquestionável, tinha um certo magnetismo naqueles olhos cor de esmeralda. Era uma mulher de hoje nos dias de ontem. Ficou viúva muito jovem. Não sei se tinha 50 anos quando perdeu o amor da sua vida. Mas depois do tempo de luto, sacudiu a poeira e deu a volta por cima.

Ela sempre contava da viagem que fez à Bahia, quando tentava se reerguer e digerir a dor da perda. Ela que sempre amou o mar, foi de navio, e pelo que contava o tempo de viagem foi importante para afogar suas dores nas águas do oceano. Chegando lá foi ao centro da Mãe Meninha do Cantuá. Ela conta que a sala de espera estava lotada de gente, de todos os cantos. Ela já sem esperança de ser atendida, mas nem pensava em desistir. Eis que surge uma mulher de branco e a pega pela mão, levando diretamente ao encontro da Mãe Menininha. Foi um momento de tanta emoção, que foi um marco. A vida precisava seguir sem meu avô, e aquele dia ela entendeu que ainda tinha muito o que fazer nas bandas de cá. Daquele dia em diante ela voltou a sorrir, e espalhar aquela cor dourada por onde passava.

A Chochó tinha tantas histórias incríveis, que eu deveria fazer como a minha amiga Dê sugeriu, escrever um livro sobre essa mulher.

Nós tínhamos um vizinho chamado Donald Marshall, que trocou a Argentina pelo Brasil, e se instalou em uma bela casa vizinha à charqueada. Então ela levou uma muda de paineira para dar boas vindas e desejar que encontrasse muita felicidade naquela nova terra. Plantaram juntos aquela semente, nos idos anos 60 eu acho. A gentileza foi retribuída, e ele deu uma muda de paineira para ela plantar na porteira da nossa casa. Os anos passaram, as árvores cresceram e os dois se foram para outros jardins.

Mas não é que o script dividno está sempre no ponto e o mundo depois de dar voltas, fez com que eu acabasse voltando para esse canto de terra que tanto amo. Nossa casa fica vizinha a do filho do Donald, o Diego, de quem o Nauro comprou o terreno.

Dia desses acordei, e o Nauro em chamou para ver uma coisa no alpendre. Apontou para copa da paineira do vizinho, toda florida. Lembrou que aquela árvore tinha sido plantada pela minha avó, como presente de boas vindas ao pai do nosso vizinho. Me emocionei!

A gente tem tesouros guardados na memória, que tempo algum pode apagar. Assim como a força das paineiras no outono. E foi assim que mudei minha cara naquela manhã. Olhando aquela copa de árvore, colorida e imponente. Impondo alegria naquela manhã cinza. E tenho certeza que naquele momento abracei minha Chochó, e matei um pouco dessa saudade!

3 comentários:

Marilia disse...

Gabi querida , tammbém matei as saudaes de meus vós com essa história linda . parece q quando tudo está triste e agente tá meio sem rumo eles dão um jeitinho de nos mostrar q tão lá olhando e torcendo por nós né . tinha me prometido q não ia mais ler teu blog de tanto q eu choro depois . são rios e rios , hehehte confesso amiga , q não me arrependi de descumprir minha promessa , teu post alegrou meu dia . muitos bjs !!!

regina disse...

Que delícia reviver essas emoções. Ainda bem que não há fórmulas ainda, para deletar nossa capacidade de registrar e relembrar fatos assim. Eu adoro recordar a infância, os bons momentos vividos com meus avós, tio, primos... As famílias eram enormes e conviviam sempre. Doces lembranças!!! Tenho certeza que temos uma sintonia com o plano do além, pois essas recordações nos aproximam daqueles que um dia convivemos e que já estão em outro plano, espero que eles também captem nossos pensamentos de saudades e alegria por reviver essas lembranças. Beijos

eunice disse...

Revivi muita coisa com este teu texto!
Saudades....velhos tempos....belos dias....
Bjooooooooooooooo!