sábado, 2 de abril de 2011

Eu e meus fuscas



Rodei muitos quilômetros de juventude a bordo de um fusca. Ou melhor, de vários fuscas.

O meu primeiro carro, aos 18 anos, foi um fusca bege, ano 60, que tinha pára-choque de aço. O coitado nasceu em plena ditadura militar, mas comigo viveu momentos de intensa liberdade.

Dei a ele a honra de testemunhar episódios inesquecíveis e tenho certeza de que também teve um final de vida digno. Mas, como já era esperado, durou o tempo de três estações e muitas histórias.

Lembro de uma vez, que levei uma fechada de uma F1000 e resolvi sair em disparada atrás do motorista, num surto de vingança. Em meio aqueles minutos de desvario insano, a minha co-pilota disse:

- Mas Gabi, tu ta louca, ele tem um caminhonetão, vai destruir o teu carro!!!

E eu cheia de grau, no alto daquela fase em que nos achamos imbatíveis, revidei:

- Ahhhh não, mas o meu fusca tem para-coque de aço!!!

Santa inocência e enorme inconseqüência. Juro que hoje sou uma motorista bem mais pacífica e consciente.

Mas voltando a uma noite estrelada de verão dos anos 90.

Naquele ano, o point do momento era um barzinho na Praia do Laranjal. Como de costumes, nos reunimos no apartamento da Andrade Neves, onde morávamos minha irmã e eu. Era lá o centro do nosso universo juvenil.

Com aquele calor gostoso de dezembro, todos os caminhos levavam para um show do Procurado Vulgo (a banda do momento!) no tal barzinho da praia.

Cabelo desalinhado, ombros ardidos do sol da tarde, brilho nos lábio e lá fomos nós, acotoveladas no fusquinha bege, rumo aos melhores momentos da vida.

Já no caminho o coitadinho começou a passar mal. Tossiu, engasgou, começou a tremer. Mas segurou firme até uma rua de areia mais próxima à orla da Lagoa dos Patos. Ele não iria nos deixar na mão.

E foi em frente a uma casa branca, de muro verde, que meu primeiro fusquinha veio a óbito. Ali, exatamente naquele lugar, o seu motor fundiu de vez. Nos despedimos para sempre.

Depois dessa notícia triste, a noite só foi recompensada pela carona de volta. O falecimento do pobre fusca serviu de gancho para conhecer um gatinho da festa, que teve pretexto para me levar em casa e acabou virando meu namorado alguns dias depois.

Como sempre fui politicamente correta, no caso do fusca bege decidimos doar seus órgãos para um ferro-velho das redondezas. O mecânico disse que a pobre carcaça não serviria para mais nada, além de boas lembranças ou uma floreira de jardim.

Optamos pelas lembranças.

Com a venda das peças, meu pai deu entrada no mais especial de todos os meus fuscas, o “Cerejinha”. Na verdade esse era meu e de minha irmã. Ganhamos juntas e dividíamos as despesas e o uso desse encantador modelo 1979.

Pela fase das nossas vidas, foi ele quem presenciou os melhores momentos das nossas descobertas. Voávamos as tranças para todos os cantos, sempre lotado de gente.

Era a unidade móvel oficial da nossa parceria.

Por mais que caprichássemos no perfume, sempre chegávamos nas festas com aquele cheirinho de motor, que entrava pelas ventarolas da frente. Típico de fusca!

Entre as peripécias do cerejinha, teve uma vez que o motor pegou fogo, em pleno centro. A minha irmã gritava e batia na casa de uma mulher para pedir água.

A inútil criatura só dizia que o nosso carro ia explodir, e não dava a bendita água. Até que um cidadão de bem estacionou o carro ao lado, e em dois segundos apagou o fogo com o extintor.

Que susto!

Lembro do radinho dele, que só pegava AM. Então saíamos para noite ouvindo as rancheiras daqueles programas noturnos. Era o embalo para nossas baladas na sequência, movidas à Legião Urbana, U2 e muita música boa.

Com o passar dos anos chegou o dia em que minha irmã casou e foi morar em Jaguarão. Eu comprei a parte dela e fiquei de majoritária no cerejinha. Rodei mais alguns sonhos, até que o coitado pediu aposentadoria por tempo de trabalho.

Nada mais justo.

Cumpriu com êxito a sua missão na terra. Foi testemunha dos melhores momentos de muita gente que conviveu com ele. Ah, se foi! Muitas passarão os olhos nessas linhas e terão mais episódios do cerejinha pra contar. Aposto!

Depois desse, comprei um fusca verde desmaiado. Era uma cor meio indefinida. O motor era bom, tinha cara de novo e devia ser ano 1981, ou mais. Teve muita serventia, mas viveu mais o lado prático do cotidiano.

Esteve comigo nos tempos da faculdade e cruzou muitas vezes as estradas de chão batido rumo à colônia Z-3. Eu fazia um jornal experimental para colônia de pescadores e obviamente o meu fusca era nossa condução oficial.

Um sábado por mês eu parava o verdinho em frente ao Diário Popular e pegávamos os exemplares do “O Pescador” recém impressos e lotávamos o porta-malas do fusca. Dali, seguíamos para Z-3 distribuir os jornais de casa em casa.

Foi um tempo bom. De grandes amigos e muito aprendizado!

Mas com a despedida do verdinho, um vazio ficou dentro do meu peito. Quando casei com o Nauro ele só ouvia lamentações sobre a saudade que eu senti dos meus fuscas. Chegou até a me dar um fusca marrom, chamado de “Choquito”, mas que em pouco tempo quebrou o cabeçote e nos deixou a pé.

Hoje, duas décadas depois do meu primeiro fusca, tudo parece diferente.

Compramos recentemente um fusquinha. Com o fato de moramos pra fora e termos um carro apenas, o vai-e-vem do cotidiano acaba dificultando as coisas.

O “negócio” envolveu um iphone e mais alguns trocados. Por ai vocês já imaginam o estado do tal fusquinha. Ele é azul calipso e tem vidro com insulfilm. Para culminar, é rebaixado e tem uma daquelas direções minúscula, que mais parecem um pires.

Então, como a tal da Rural do Nauro é quase que para enfeite porque não funciona, o remédio foi comprar esse fusca para ele ir e voltar da faculdade à noite.

Até aí tudo bem, ele andava esporadicamente no fusca e eu sempre no nosso Palio.

Mas como na semana passada nosso carro novo ia chegar, e o Palio era parte do pagamento do zero, tivemos que entregá-lo à concessionária.

Então, durante uma semana, ficamos dividindo o uso do fusquinha azul calipso.

Eu não sei se é a idade, ou o tempo que muda nossos interesses. Ou também se aos 20 anos a gente não tem nada na cabeça mesmo, mas eu passei um sufoco danado com o tal fusca.

No primeiro dia que dirigi, até achei um quê de romantismo. Aquele cheirinho de óleo, os bancos estofados como antigamente, sei lá. Mas depois dos primeiros dez quilômetros, eu já comecei a pedir penico.

Minha coluna ficou em pandarecos. O barulho do motor, aliado ao vento na cara, me dava uma baita dor de cabeça. Sem falar no cheiro a óleo que me fazia sentir levando uma borracharia nas costas.

- Socorrooooooooooooooooo!!!!

Mas como tudo na vida, foi uma catarse necessária.

Foi bom me dar conta de que cada fase tem seus símbolos e que hoje, aos 42 anos, eu quero mais é ter o fusquinha nas boas lembranças dos meus vinte e poucos anos.

Na sexta-feira, quando o cara da San Marino ligou para avisar que podíamos buscar o carro novo, dei pulos de alegria. Fomos todos bem faceiros receber o mais novo membro da família.

Sentei naquele carro novinho, confortável e agradeci. Agradeci por todos os meus fusquinhas, porque sem eles, eu nunca teria chegado até o tal do “Idea”.

Tenho certeza de que se não tivessem sido os meus fusquinhas e suas histórias incríveis, a vida hoje não teria a mesma graça. E eu certamente não seria quem eu sou.

Tudo na vida tem seu tempo. Até os fuscas!

6 comentários:

cíntia disse...

hhahahahahaha, adorei as histórias!
lá no instituto o nauro mostrava as chaves do fusquinha novo cheio de alegria!
acho engraçado essa coisa dos homens com carros antigos. te contei do corcelzinho aqui da esquina né... hehehehe
beijos pra vocês, e um especial pra sofia. conta pra ela que o artur adorou as brincadeiras aquela noite!

Gisa disse...

É, lembranças tem seus símbolos, mas esses só funcionam na memória gostosa dos tempos idos...
Adorei tuas histórias.
Um bj querida amiga

Luiz Carlos Vaz disse...

Então o trocadilho infame é assim: "Vocês não tem nem Idea... se meu fusca falasse"

Nicenhah disse...

E até eu que detesto fusca me deliciei viajando neles. Na leitura, porque a carona deles eu continuo dispensando! eiuaehiaheiuh

Ana Cândida disse...

há,há,há tbém adorei! Mas os fuscas sempre acompanharam nossa juventude. Até ouco tempo meu velho pai no alto de seus 77a teve seu último fusca verde-abacate. Mas porque será que eles inspiram tantos apelidos? abços Ana Cândida

bel disse...

gabi, adorei as historias! fiquei me lembrando dos meus fuscas dos vinte e poucos anos... beijos!