sábado, 6 de março de 2010

Fantasmas


Foto tirada aos cinco anos, quando aprendi a andar
de bicicleta, no cenário da minha infância

Cheguei à conclusão de que a maturidade não nos trás só rugas e flacidez, mas serenidade para pensar as coisas por diferentes ângulos. A sabedoria dos orientais está baseada nisso, e não é a toa que quanto mais velhos, mais respeitados eles são. Acho que depois dos 40 começamos a engatinhar nesse universo, que pode ter mais prós do que contras, dependendo da evolução desse amadurecimento.

Tem gente que chega aos 50 com cabeça de 18, querendo beber a vida em um gole. Geralmente sofrem mais, porque em alguma das esquinas da vida, se dão de frente com o espelho, e daí não suportam olhar aquela figura refletida. Com as novas tecnologias a serviço da estética, esse se tornou um campo movediço, onde algumas vezes as transformações externas não acompanham as internas. A coisa é totalmente invertida e muita gente em vez de procurar uma terapia, ou um trabalho voluntário, gasta seu tempo e dinheiro com excesso de butox. Nada contra as cirurgias plásticas e melhorias na lataria, longe disso, mas a discrepância entre motor e lataria não podem extrapolar. Senão o Fusca perde seu charme de originalidade e a Ferrari vira lugar comum. Dá pra entender?

Mas esse prefácio abre caminho para uma das melhores coisas que o passar dos anos nos brinda. A coragem para declarar e enfrentar nossos fantasmas. É aquela velha história do espelho, só que quando isso acontece e enxergamos nele bem mais que o visível aos olhos, saímos ganhando. Eu tenho meus medos e mágoas, como todos, e por pensar com carinho neles acabei descobrindo que encará-los de frente é um desafio, mas também pode ser a solução.

Como esse blog nasceu com a missão de ser um divã-virtual, e percebi que escrever me ajuda a exorcizar esses medos, abro aqui uma porta secreta da minha alma. Esse passo também me dá medo, mas me dou ao direito, já que aos 40 anos estamos com um pé na incensatez da juventude e outro na sabedoria dos maduros. Pra resumir, deixo de lado os receios e me jogo aos anseios. E a partir dessa decisão, resolvi encarar de frente um fantasma que só aparece nos meus sonhos e pesadelos mais íntimos.

Em 2003 deixei junto com meus pais, a casa onde nasci e passei a maior parte da minha existência. Meus pais chegaram naquele lugar em um efervescente inverno de 68. Ela com 19 anos e grávida de mim, e ele um guri de vinte e poucos anos, que encarou o desafio precoce de formar sua prole. Ali escrevi 34 anos da minha história. As paredes daquela casa secular, guardaram os meus segredos de menina e minhas saborosas descobertas adolescentes. As raízes da figueira que testemunha séculos, serviu de casa para minhas primeiras bonecas. Fiz comidinha com as folhas e brinquei com os gravetos caídos do bambuzal. Nas águas daquele arroio que muda de cor a cada estação, lavei a alma das primeiras decepções amorosas. E nos cômodos imensos da charqueada, me enxerguei pela primeira vez como mulher. Uma vida mágica, naquela casa que se assemelhava às descritas por Isabel Allende nos seus romances. Mas na estrada da vida não existe ficção, e um belo dia vi acontecer ali, uma daquelas situações que a gente sempre vê na família ao lado, mas jura que nunca vai acontecer na nossa.

Minha avó querida, que sempre morou conosco, faleceu em 2001. Com a ausência da matriarca, a dor que invadiu nossas histórias não foi só da saudade. A divisão de bens trouxe junto a divisão de laços. Com isso, deixamos àquele cenário que povoou meus sonhos de infância de um dia para o outro. Meus pais sofreram muito com todas as mudanças: externas e internas. O peso que sempre demos aos laços de amor, essenciais e valorosos, deixou feridas expostas. Foram tempos difíceis e silenciosos. E como não acontece só nas novelas, a vida real trouxe uma dolorosa e traumática ruptura familiar.

Junto com a ausência física daquele lugar, sepultei pessoas que foram parte da minha história. E não digo isso porque somos uma família de italianos, mas porque éramos uma família de fato e sou muito definitiva nas minhas decisões. Nada jamais justificaria a opção pelos bens materiais. Ainda mais quando na balança estão sentimentos imensuráveis. Natais compartilhando a mesma felicidade, conquistas celebradas com abraços sinceros e tristezas abrandadas com os laços de sangue. Engoli em seco e sofri muito, sempre com essa gaveta da alma lacrada. Para agüentar, tomei como decisão deixar aquela parte da vida para trás. Desses tempos, guardo apenas um simbolismo. Um único móvel que meus pais tiveram direito de levar, e que por carinho me deram de presente. É uma linda penteadeira antiga que acomodei em lugar de honra da minha casa. Tenho poucas e raras fotos de minha avó. O arquivo que guardo, está em um backup secreto, guardado às sete-chaves, dentro da memória afetiva do meu coração.

Nunca mais voltei naquele lugar, mas confesso que muitas noites acordei de sobressalto, sonhando que estava em algum dos meus cantos preferidos de infância. Alguns amigos de fora, que vieram visitar a cidade, já quiseram ir conhecer a casa, que hoje é ponto turístico. Mas sempre consegui me esquivar, com desculpas discretas, que convenciam a eles, mas não a mim.

Hoje a noite o Rogerinho, um amigo querido, vai festejar seu aniversário lá. Todos os anos a festa acontece no mesmo lugar, e há exatos sete anos invento desculpas superficiais para não ir.
Hoje decidi que vai ser diferente. Resolvi marcar um encontro com meus fantasmas. Sem aviso prévio, deixando a vida acontecer. Quero levar minha filha amada para conhecer o lugar onde a mamãe foi muito feliz. A decisão veio de forma branda, talvez seja sinal desse tal amadurecimento. Lembrei de uma frase de algum poeta que não lembro agora, e que tinha em destaque em uma agenda escolar, aos 17 anos. Dizia:

“Descobri que tenho saudades não daquele lugar, mas daquela felicidade!”.

Hoje sei que aquela bifurcação da vida fez com que eu chegasse até aqui. Nesse meu mundo de hoje, acimentado pelos dois amores da minha vida: Nauro e Sofia. A nossa palafita tem cada pedacinho de nós três, e foi construída com a nossa história. Tudo exatamente como Deus planejou. Por isso agradeço a Ele e a sua sabedoria, que mesmo quando parece escrever a coisa errada, está nos levando para o nosso destino.

Então, que venham os fantasmas e suas respostas!

6 comentários:

kiki disse...

Ermã, TE AMO!!!

regina disse...

Incrível como as pessoas desfazem laços em nome da matéria. Nada justifica uma ruptura assim. Mas cada um tem sua maneira de pensar... que bom que prá você ficou a melhor parte. As recordações, essas ninguém vai tirá-las, pois ninguém as viveu como você. Penso que um Lar- "Doce Lar" é feito com amor, com os habitantes da casa, esse lar vai perseguir vocês sempre, mas a casa, essa vira comércio, bens que destroem. Faço do meu lar o meu refúgio, o local onde posso me proteger e desfrutar da convivência com as pessoas que nele habitam. Quando algo te pertubar, as memórias vierem a tona, sente-se na frente de sua "Encantada Penteadeira" e voe no tempo, recordando os momentos felizes que viveram naquele lar. Sejam sempre muito felizes. Beijos!!!

Anônimo disse...

FILHOTA, fico feliz ao ler teu texto...compartilho contigo esta capacidade de guardar no melhor lugar de nosso corpo,(CORACAO)as recordacoes de nossa famila. Que bom ler este texto,ver tua capacidade de superar asmudancas que a vidaproporciona. 1 beijo, Mae

Anônimo disse...

ANONIMO
Ler teu texto está me ajudando a tomar decisões, há muito tempo guardadas com muita dor e mágoa em meu coração.
Obrigada por me permitir participar desta maturidade.
Não te conheço, nem me conheces, mas que diferença faz se podemos compartilhar o crescimento e o amadurecimento.
Felicidades sempre.

Lu Gastal disse...

Ler esse post me remete aos almoços de sábado, naquela mesa enorme, onde nunca faltaram risadas e bom papo! Lembro das noites em que acordava com vontade de fazer xixi e tinh amedo de ir ao banheiro e não achar o quarto, na volta! risos... e, é claro, do aconchego que recebi ao ser adotada naquela época universitária!
ai siamesa, fico feliz em saber que voltastes ao lugar tao especial!

Marilia disse...

Gabi querida , não consigo parara de ler este post ......amo ! já li e reli várias vezes . fico feliz em saber que esse assunto é pagina virada pra ti . Tb passei por isso e as vezes estes fantasmas teimam em me assombrar .........bjs