terça-feira, 21 de junho de 2011

Bruxinha boa

Foto: Nauro Júnior

Um blog-divã é um lugar para todos os sentimentos que habitam o nosso coração. Aqui divido as delícias e dores do meu cotidiano. Mas desde domingo, uma dor em especial não conseguia se transformar em palavras: a perda.

Depois de um sábado inundado pela alegria da Sofia com o seu aniversário, o domingo nasceu triste. Acordei com a notícia de que a nossa querida amiga Neca tinha partido às 8h10 daquela manhã chuvosa.

Contei aqui, em vários textos, a minha admiração por essa pessoa tão especial (“Tão rara” - fevereiro de 2010, “Um lar” - julho de 2010 e “Fênix” – março de 2011.)

O último deles contava da visita que fizemos para ela em março, no Hospital Moinhos de Ventos, a Kiki e eu. Passamos um dia alegre juntas e deixei com ela a medalinha que acompanhou a Sofia durante a sua luta.

Ela segurou firme e pregou na camisola, bem grudada contra o peito. Era a imagem de Nossa Senhora, que foi nosso amuleto durante a doença da Sofia. Ficou lá, cuidando dela.

Até que chegou a hora. Depois de 14 anos de brava luta ela se foi. Difícil saber o que dizer para nós mesmos nessa hora em que nos deparamos com a finitude da vida.

Sentimos uma saudade estranha. Tão ampla e profunda que não cabe na gente. Passei aquela tarde sentada naquela sala estranha do cemitério pensando em tudo que nos rodeava.

Como é estranho imaginarmos que um dia seremos nós. É uma coisa inusitada demais, não cabe na lógica. E choramos por tudo. Pela amiga que se foi. Pelos medo de perder nossos amores. Pela fugacidade dos nossos momentos aqui. Tão bons!

E para amenizar tantas incertezas, a gente sabe que deve pensar que não é um fim. Eu sei que ela foi para um lugar de paz, onde as dores do câncer não serão mais companheiras.

Mas a ausência para sempre é por demais estranha.

Por isso hoje eu não tenho muito o que dizer. Vou guardar na memória aqueles olhos azuis brilhantes, tão cheios de vida. E no coração as tantas lições de amor à vida que ela nos deu.

E para quem não conheceu essa pessoa rara, achei nos meus arquivos uma foto que traduz exatamente quem foi a Neca.

Era o aniversário da Luisa, minha sobrinha, em 2009. Uma festa à fantasia, e todos os amiguinhos foram à carater. No meio da tarde, eis que chega a Neca. Cheia de energia, vestida de de bruxa.

Uma bruxinha boa, que esteve aqui por um tempo. Nos ensinou muitas coisas, inclusive que o tempo não para. Contaminou todos que cruzaram o seu caminho com a força indelével da vida.

Por isso meus amigos, usufruir cada momento é para hoje. E para homenageá-la, o minímo que podemos fazer aqui é viver intensamente nossas histórias. Com alegria, é claro!

3 comentários:

Peri disse...

Belo texto. As pessoas que se vão pela vida sempre deixam um vazio, pela falta que fazem, mas deixam também um legado, seja de amizade, de companheirismo ou qualquer outro predicado que lhes siva. Nao escrevo tão bem quanto tu, mas fiz um post há algum tempo que diz mais ou menos isso. Se te interessar... http://semacessos.blogspot.com/2011/05/renova-se-vida.html

Peri disse...

Gabriela. É inexplicável como as coisas se encaixam nessa vida. Nunca poderia imaginar que o link que te enviei fosse fazer tanto sentido um dia depois. No fundo, nós sempre sabemos que a lógica da vida é que nossos pais faleçam antes de nós, mas nunca queremos, nem esperamos que este dia chegue. Não há preparação para isto. De fato, eu entendo o que vocês estão sentido hoje e sei o quanto é ruim e doloroso o vazio que se forma. Esse sentimento dura um tempo, mas como eu falei no post, vai amenizando com o tempo. Amigos e família são importantíssimos neste momento. São neles que tu vais conseguir enxergar que este evento (ou estes eventos) é parte da vida, infelizmente. Cada um vê e sente a morte de uma maneira diferente. No meu caso, não ignorei meus sentimentos de tristeza e dor. Convivi com eles e os encarei, com ajuda da minha esposa, do meu irmão, amigos e outros familiares. Acho que esta é a melhor forma de aceitar e de entender a morte.
Não sei qual tua orientação religiosa, mas algumas explicações do espiritismo fazem muito, muito sentido e nos tranquilizam.
Apesar de termos no visto uma única vez (fui convidado pelo Lorea para jantar com vcs no lançamento do livro no Nauro em Porto Alegre) posso dizer que tu, o Nauro e Sofia são uma família extremamente unida e é neles que vais ver uma nova perspectiva para a vida.
Bom, sei que nenhuma palavra tranquiliza neste momento, mas receba o meu abraço e meus sentimentos, extensivos ao Nauro e à Sofia. Se eu puder ajudar de alguma forma, seguem meus contatos: peri.batera@gmail.com ou (51) 9984-9009.

Paula Blaas disse...

Minha amiga querida! Nessas horas a gente nunca sabe bem o que dizer, nenhuma palavra muda a realidade. Mas sei que o apoio dos amigos nos ajudam a suportar a dor e a saudade.
Hoje, depois de te ver, passei o dia com um aperto no peito, chorei muito na tv e quando cheguei em casa.
Mesmo assim, de certa forma, fiquei feliz. Quando a gente sente a dor do outro como se fosse nossa, é porque temos ali um grande amigo. E um amigo nada mais é que um tesouro, um porto seguro.
Amo vocês! Contem comigo, nas alegrias e tristezas!
mil beijos