Semana do lançamento do livro, expectativa e cabeça rodando sem parar. Tropeçamos na emoção e quando nos demos conta já era dia 10 de novembro.
Deu aquela sensação estranha de quando perdemos o ônibus, nos atrasamos para o encontro ou chegamos ao final da festa.
O aniversário de uma amiga querida tinha passado. O dia voou pra longe. Quando olhei no espelho já era manhã de sábado.
Liguei na hora para o celular. Caiu na caixa, meu coração apertou.
Uma amiga tão especial, a data não pode passar em branco. Pensei em mandar flores, reparar minha sensação com um presente.
Em meio a dúvidas me dei conta de que eu estava falando de uma amiga. Uma grande e querida amiga. Pra descrever a presença dela na nossa vida, vou começar pela sua chegada.
Quando a gente ama um amigo profundamente, deseja que ele possa mergulhar no melhor da vida. Que tenha saúde, sucesso profissional, uma família abençoada e um amor para caminhar junto.
Nosso amigo Joca tinha quase tudo. Faltava alguém que o compreendesse na sua complexa simplicidade.
A receita parece de bolo, mas não. Na verdade é de calda. Sabe aquelas caldas de doce, onde acertar o ponto é para os talentosos. Era esse o desafio!
E na procura dessa fórmula mágica apareceu uma alquimista. Especialista em transformar a vida em melodia. Fazer dos sonhos, projetos. Dos bons momentos, canções.
E como uma fada, abriu a porta das nossas vida. Trouxe de volta o nosso Joca. Encheu a vida de magia.
Desse encontro ganhamos essa pessoa especial. E para ela que fez aniversário na sexta-feira passada, envio o meu presente mais caro, minhas letras de carinho. Frases de admiração. Parágrafos de encantamento.
Para ela, que chegou colorindo a paisagem, arou a terra e agora começou a plantar um jardim, desejo que a vida seja leve e linda.
Que tenha o perfume, as cores e o pólen dessa encantadora flor do pampa!
domingo, 11 de novembro de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Sorvete
Estávamos naquele papo gostoso entre amigas. Restaurante legal, clima super primaveril e o burburinho que só uma mesa de mulheres consegue produzir.
A conversa fluia entre comentários cotidianos, dúvidas sobre as fases dos filhos e confissões.
Sim, entre mulheres sempre nos confidenciamos. Seja sobre amenidades ou desejos secretos.
Somos assim, movidas por sentimentos. Compostas por hormônios. Os tais mensageiros químicos do corpo. Regulam mais de nossas vidas que nós mesmos.
E foi nesse vaivém de delícias do universo feminino que uma amiga largou:
- Depois dos 40 somos como um sorvete derretendo!
Socorro! Deu aquele estalo. Na hora me veio na mente a imagem daquele sorvete de casquinha do Mc Donald´s, que derrete num piscar de olhos.
- Calma, disse ela. - detalhando sua metáfora -o problema é que aos 40 nós queremos continuar nos baseando na pessoa que éramos aos 20 anos. Corpo, cabelo, pele...
Bingo! Ela tinha toda razão.
Nosso maior erro é exatamente estarmos competindo com aquele corpo que tínhamos no passado. Barriga de tanquinho. Comer e não engordar. Sol sem protetor.
Muito de tudo e nada de consequências. Pelo menos instantâneas.
O mundo gira, o calendário muda.
Nosso referencial a partir dos 40 deve ser da sessentona enxuta que queremos ser. Ok, mas vamos deixar claro. Sem exageros.
Carregando conosco nossas histórias e marcas. Isso somos nós. O melhor de cada uma. Nossa mais saborosa fatia.
Cuidado sim. Exercícios físicos, óbvio. Mas sem a neurose que transforma mulheres em caricaturas de si mesmo.
Elas estão soltas por aí, assustando pela falta de noção. Meg Ryan, que foi tão incrível em Harry e Sally, hoje não me faria rir. Só chorar.
Isso sem falar naquela lista de famosas (e nem tanto) transformadas nas réplicas do palhaço Bozo.
Então naquela noite, entre borbulhas de espumante e largas risadas, descobrimos a "nossa américa".
A pergunta que não quer calar: como encarar esse momento em que as coisas começam a mudar definitivamente, sem nos perdermos de nós mesmas?
As respostas vieram em doses homeopáticas. Não sabemos. Não temos a menor ideia. Mas queremos.
Somos cria da geração de Renato Russo. Seus versos nos diziam para amar as pessoas como se não tivesse amanhã. E agora Renato, chegou o manhã!
Queremos saber hoje, qual a melhor receita para sermos "nós" amanhã?
Confesso que ainda não sei qual é a mágica. Recebi os primeiros fios de cabelo branco com cortesia. Mas depois, confesso que não fui tão gentil. Arranquei uma a um sem dó nem piedade.
Qualquer dia vou acabar encarando um tonalizade, mês sim, outro também. Mas de nariz torcido. Coisa boa aquela juba dourada que oscilava com tons de acordo com as estações.
O hidratante acaba mais esquecido do que lembrado, na prateleira. Os exercícios físicos estão na lista das “pendências”.
Nossa, quanta demanda chata. Tem gente que gosta, eu não.
Mas enquanto a gente não descobre a fórmula mágica, nosso grupo de amigas continua se reunindo e brindando.
E se o mestre Renato Russo nada nos disse sobre o que fazer. Atacamos de Almir Sater, um sertanejo. Porque um dos bônus da maturidade é a liberdade de pré-conceitos.
E enquanto o sorvete derrete, a gente vai lambendo a vida com muita vontade. Brindando, sorrindo e seguindo a canção!
==============
Velhos Amigos
Velhos Amigos
Quando se encontram
Trocam notícias
E recordações
Bebem cerveja
No bar de costume
E cantam em voz rouca
Antigas canções
Quando se encontram
Trocam notícias
E recordações
Bebem cerveja
No bar de costume
E cantam em voz rouca
Antigas canções
Os velhos amigos
Quase nunca se perdem
Se guardam para
Certas ocasiões
Quase nunca se perdem
Se guardam para
Certas ocasiões
Velhos amigos
Só rejuvenescem
Lembrando loucuras
De outros verões
E brindam alegres
Seus vivos e mortos
E acabam a noite
Com novas canções
Só rejuvenescem
Lembrando loucuras
De outros verões
E brindam alegres
Seus vivos e mortos
E acabam a noite
Com novas canções
Conhecem o perigo
Mas fazem de conta
Que o tempo não ronda
Mais seus corações
Mas fazem de conta
Que o tempo não ronda
Mais seus corações
http://letras.mus.br/almir-sater/597199/
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Castelo de letras
Temos muitos medos. Todos
nós os temos. Ficam guardados em caixas herméticas. Sem janelas. Longe da luz.
Alguns são maiores, outros
até bobos. Mas todos ficam devidamente lacrados. Guardamos para que não escapem.
Não se transformem em realidade.
Não batam à nossa porta em
uma tarde de inverno.
Domingo assisti a uma
notícia que me paralisou. Gabriel Garcia Márquez não irá mais escrever.
O irmão, Jaime Garcia
Márquez, que vive em Cartagena de Índias, anunciou que o escritor está com
demência senil. Um dos sinônimos da doença de Alzheimer.
Seu corpo continua
saudável. Mas a cortina do mundo das letras se fechou.
O irmão liga todos os dias
para lhe relembrar fatos. Estende a corda além do abismo. Gesto de amor,
esperança.
A primeira vez que tive
contato com a senilidade foi ainda adolescente. A irmã mais moça de minha
Voinha se perdeu no tempo.
Tia Bebete morava no Rio
de Janeiro. Casada com Tio Gregório, um espanhol que parecia ter vindo dos
livros de Maria Dueñas.
Nosso contato com aquela
tia-avó moderna era nos meses de julho. Fugíamos do frio e encontrávamos o
epicentro da terra.
Entre outras revoluções,
nos levou pela primeira vez à confeitaria Colombo. Apresentou um mundo que nem
sonhávamos existir.
Ensinou a não beber durante
as refeições e pediu a primeira Ceasar Salad da minha vida.
Até que numa bela tarde de
outono, veio a notícia. Tia Bebete estava doente. Não lembrava mais das coisas.
Confundia as datas. Criava histórias. Se perdia pelas ruas.
Uma tristeza invadiu minha
Voinha. Mulher de fé, aceitou os desígnios de Deus.
Mas eu não entendia. Como
pode uma pessoa perder-se de si mesmo?
O amadurecimento e o tempo
me trouxeram as respostas. A parte teórica dessas histórias. Mas como aceitar os
últimos capítulos de uma vida em branco?
Esse é um dos medos que
guardo bem lá no fundo da minha caixa secreta.
Gabriel Garcia Marquez, o
Gabo, escreveu que o segredo de uma velhice agradável consiste apenas na
assinatura de um honroso pacto com a solidão.
Será que foi essa a
solidão que ele imaginou?
Seu castelo de letras
desmoronou. Milhões de fãs estão com o coração em suspenso. Sua obra
será eterna, mas seus dias agora são como cometas. Fugazes instantes entre o
real e o imaginário.
Tenho medo, muito medo da
senilidade. Dos que eu amo, dos que admiro, de mim mesma.
Como escreveu Gabo, em O Amor nos Tempos de Cólera:
“As pessoas que a gente
ama deviam morrer com todas as suas coisas”.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
A vida e os ciclos
A correria do cotidiano nos remete a uma sensação de fuga. Andamos com pressa, não temos tempo a perder.
Sorrimos bem menos do que deveríamos. Economizamos abraços. Suprimimos a espontaneidade de falar com o coração.
E assim os dias passam, os meses correm e a vida voa. Até que o inesperado bate à nossa porta.
Meu pai foi embora assim, sem aviso prévio. Um infarto o levou na madrugada de 22 de junho do ano passado. No dia em que o Jockey Club completava mais um ano de existência.
Em um universo de 365 dias, é difícil acreditar que tenha sido coincidência. A entidade que ele fez ressuscitar aniversariava. Ele partia como se tivesse cumprido sua missão. E cumpriu.
Nesse momento um ciclo se fechou. No começo nossa reação de incredulidade nos anestesia. É uma forma de defesa, acredito.
A morte é fria, distante, e ainda incompreensível.
Aos poucos os dias passam, nos carregando para mais adiante. Aquela dor aguda se transforma em saudade.
A vida é finita. Temos certeza disso, mas a perda nos atira o balde de água fria na cara.
Temos sinais o tempo todo de seus ciclos. Mensagens cifradas. Recados explícitos para que a sua fugacidade voraz seja compreendida.
Até enfrentarmos a primeira saudade, imaginamos que temos muito tempo pela frente.
Por isso, cada vez que um ciclo se fecha, precisamos ler a mensagem que esse espaço de tempo imprime na nossa história.
Transformar os ensinamentos em combustível para seguir a estrada. No meu caso conviver com aquela pessoa irreverente, cheia de bom humor, e de cabelo despenteado, foi um presente.
Tivemos mais de quatro décadas juntos. Ele foi o cara mais autêntico que já conheci. Cativou, por ser ele mesmo. Sem falácia, com transparência.
Pensando nas mais diversas formas de homenageá-lo, surgiu essa ideia. Se o principal recado do meu pai foi de viver intensamente, nada melhor do que fazer isso. Saborear até a última gota.
Foi assim que ele fez no seu ciclo, e é assim que eu quero me lembrar dele.Por isso, meu desejo para essa data é simples. Faço um pedido a todos os amigos do querido Carlinhos Mazza.
Que cada um viva essa sexta-feira com toda sua força. Celebrem a vida por completo, sem meias palavras.
Tenho certeza de que essa boa energia chegará até ele, onde quer que esteja!
Sorrimos bem menos do que deveríamos. Economizamos abraços. Suprimimos a espontaneidade de falar com o coração.
E assim os dias passam, os meses correm e a vida voa. Até que o inesperado bate à nossa porta.
Meu pai foi embora assim, sem aviso prévio. Um infarto o levou na madrugada de 22 de junho do ano passado. No dia em que o Jockey Club completava mais um ano de existência.
Em um universo de 365 dias, é difícil acreditar que tenha sido coincidência. A entidade que ele fez ressuscitar aniversariava. Ele partia como se tivesse cumprido sua missão. E cumpriu.
Nesse momento um ciclo se fechou. No começo nossa reação de incredulidade nos anestesia. É uma forma de defesa, acredito.
A morte é fria, distante, e ainda incompreensível.
Aos poucos os dias passam, nos carregando para mais adiante. Aquela dor aguda se transforma em saudade.
A vida é finita. Temos certeza disso, mas a perda nos atira o balde de água fria na cara.
Temos sinais o tempo todo de seus ciclos. Mensagens cifradas. Recados explícitos para que a sua fugacidade voraz seja compreendida.
Até enfrentarmos a primeira saudade, imaginamos que temos muito tempo pela frente.
Por isso, cada vez que um ciclo se fecha, precisamos ler a mensagem que esse espaço de tempo imprime na nossa história.
Transformar os ensinamentos em combustível para seguir a estrada. No meu caso conviver com aquela pessoa irreverente, cheia de bom humor, e de cabelo despenteado, foi um presente.
Tivemos mais de quatro décadas juntos. Ele foi o cara mais autêntico que já conheci. Cativou, por ser ele mesmo. Sem falácia, com transparência.
Elementos raros no mundo das imagens distorcidas que vivemos.
E hoje, nessa data tão simbólica, tenho esse mosaico de bons momentos. É o meu bálsamo.
Pensando nas mais diversas formas de homenageá-lo, surgiu essa ideia. Se o principal recado do meu pai foi de viver intensamente, nada melhor do que fazer isso. Saborear até a última gota.
Foi assim que ele fez no seu ciclo, e é assim que eu quero me lembrar dele.Por isso, meu desejo para essa data é simples. Faço um pedido a todos os amigos do querido Carlinhos Mazza.
Que cada um viva essa sexta-feira com toda sua força. Celebrem a vida por completo, sem meias palavras.
Tenho certeza de que essa boa energia chegará até ele, onde quer que esteja!
domingo, 17 de junho de 2012
Pequena
Sempre que a data do
aniversário da Sofia se aproxima, meu coração começa aos solavancos. Uma mistura
de sentimentos me invade.
Tenho vontade de dizer
tanta coisa. Mas nada sai.
Talvez seja a
possibilidade de não traduzir literalmente a emoção que sinto. Sem saber por
onde começar, vou contar aqui uma coisa que me aconteceu.
Fui contratada para fazer
a divulgação do disco “Contos de Água e Fogo”, da banda Nenhum de Nós.
Recebi pelo correio alguns
CDs e a missão de entregá-los nas rádios, junto com o release.
Dei início à missão. Enquanto
dirigia para a primeira entrega, coloquei para ouvir no carro a música de
trabalho. No Cd começou a rodar “Pequena”.
Comecei a ouvir e uma
sensação estranha me invadiu. Sem ao menos esperar, uma avalanche de lágrimas
me obrigou a parar o carro.
Estacionei e ali fiquei. Como
se estivesse sentada na poltrona de um cinema, assistindo a um filme dentro de
mim.
Nossa pequena estava
crescendo.
Lembrei daquele bebezinho
frágil, que olhava com intensidade através da incubadora da UTI. No quanto nos
falou aquele olhar.
Disse para não desistirmos. Garantiu que éramos invencíveis.
Disse para não desistirmos. Garantiu que éramos invencíveis.
Naquele tempo ainda não
sabíamos nada da vida. Ela chegou com sabedoria. Chegou sendo Sofia.
E foi ouvindo a música,
debulhada, que entendi isso.
...Me oriento por
Seu inocente amor
Que muito me ensinou...
Seu inocente amor
Que muito me ensinou...
Entendi que os encontros
estão marcados. Até isso acontecer, tudo é preparação.
As pessoas que tocam
nossas vidas. Os amores que cruzam nosso caminho. As amizades que passam.
Chegadas e partidas. Tudo uma
ponte para o encontro. Tudo é uma coisa só
E essa é a certeza que a
Sofia me trouxe. Antes de tê-la ao meu lado, a vida era legal. Hoje, é uma
dádiva. É para ser sugada, vivida, dançada.
E então, para dividir com
todos os anjos que estiveram conosco nesses sete anos, fizemos esse vídeo.
Que sirva para cada um
celebrar a vida. Para viver intensamente o seu grande encontro. E para que possamos
estar aqui, com nossa pequena, desbravando a vida!
Edição: Jacques Douglas (obrigado pelo carinho!)
domingo, 13 de maio de 2012
Confissões
Sempre achei uma chatice aqueles papos de sábado a tarde
sobre gravidez, pós-parto e tudo mais. Elas se reuniam na volta da lareira e
via de regar o assunto era em torno das suas experiências.
- A cesárea é a pior coisa do mundo!
Ela foi dormir direto na UTI. Eu no quarto. Um berço vazio me fez companhia.
Recebi flores, abraços e fui vê-la 18 horas depois do nosso primeiro olhar.
Sentimentos ambíguos. Sentimentos complementares. Arrebatadores.
Eu era mãe e minha vida jamais seria a mesma.
Tudo isso foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
A maternidade é a sensação mais mágica que já tive contato. Nos permite contato com um tipo de amor tão profundo, que precisamos aprender a senti-lo.
O tempo nos ensina. E com ele vamos conhecendo nossas possibilidades. Descobrimos novas grandezas.
O crescimento de um filho nos dá a possibilidade de sentir o sangue pulsando nas veias. Cada descoberta é uma oportunidade de entender a vida na sua mais absoluta simplicidade.
A cada Dia das Mães eu me pego olhando para esses sentimentos todos. Não posso imaginar minha vida sem a Sofia.
Com esse nome que se traduz em sabedoria, ela me ensina a ser uma pessoa melhor a cada dia. Em cada abraço é como se eu pudesse mergulhar na vida profundamente. Feliz vida a pra nós!
- Eu fiquei em trabalho de parto quase seis horas!
- A minha dilatação era de tantos dedos!- A cesárea é a pior coisa do mundo!
- O meu seio ficou na miséria.
Eu simplesmente desligava. Meu pensamento voava para bem
além daquele mundinho que em nada me atraia.
A maternidade para mim era um assunto para bem depois. Não
conseguia me encaixar naquele estilo e nem me imaginava dizendo aquelas frases
algum dia.
Eu gostava de ser filha. Sempre fui independente. Enxergava a relação entre
pais e filhos de sintonia, mas sem qualquer tipo de peso.
Engravidei aos 36 anos, totalmente por acaso. Em dezembro o
exame confirmou e aos poucos fui mergulhando em um novo mundo.
Ficava embasbacada de pensar que uma pessoa estava se
formando dentro de mim. Parecia surreal, por mais falado que fosse aquele
assunto, desde as bonecas da infância.
A vida brotou e naquele momento passei para outra dimensão.
Amei tudo que vivi antes de ser mãe. Mas a sensação que tenho, é que a intensidade
começou a existir naquele instante.
Não tive chá-de fraldas. Não tinha comprado o carrinho. Tive uma cesárea de urgência.Ela foi dormir direto na UTI. Eu no quarto. Um berço vazio me fez companhia.
Recebi flores, abraços e fui vê-la 18 horas depois do nosso primeiro olhar.
Fui trocar suas fraldas bem depois do imaginado. Não pude
embalar seu sono nos primeiros meses. Dei o primeiro banho chorando.
Tive medo. Tive uma força inimaginável. Tive a certeza de
que nunca ia perdê-la.Sentimentos ambíguos. Sentimentos complementares. Arrebatadores.
Eu era mãe e minha vida jamais seria a mesma.
Tudo isso foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
A maternidade é a sensação mais mágica que já tive contato. Nos permite contato com um tipo de amor tão profundo, que precisamos aprender a senti-lo.
O tempo nos ensina. E com ele vamos conhecendo nossas possibilidades. Descobrimos novas grandezas.
O crescimento de um filho nos dá a possibilidade de sentir o sangue pulsando nas veias. Cada descoberta é uma oportunidade de entender a vida na sua mais absoluta simplicidade.
A cada Dia das Mães eu me pego olhando para esses sentimentos todos. Não posso imaginar minha vida sem a Sofia.
Com esse nome que se traduz em sabedoria, ela me ensina a ser uma pessoa melhor a cada dia. Em cada abraço é como se eu pudesse mergulhar na vida profundamente. Feliz vida a pra nós!
sábado, 17 de março de 2012
Breve como um suspiro
Escrevo quase que diariamente para mim mesma que temos que viver o aqui e agora. Quem me lê no Facebook oi aqui percebe esse sentimento que volta e meia transborda.Não sei lidar com a dor nem com a tragédia. Não consigo imaginar de forma consciente que o lindo dia de sol de uma sexta-feira possa ser o último.
Preciso me espiritualizar mais. Sentir o que na teoria imagino ser a verdade. Não acaba aqui, isso é uma passagem.
Quero tomar um elixir que me acalme frente às incompreensíveis surpresas do cotidiano.
Eu me envolvo. Mergulho. Fico imersa na dor alheia.
Sei toda teoria acadêmica do jornalismo. Mas não me encaixo no distanciamento que protege. Sou uma eterna "foca", como se diz no meio.
Não por acaso, ontem ganhei uma correntinha com o espírito santo da minha mãe. Minutos depois de colocá-la no pescoço o telefone tocou.
Sou assessora de imprensa de uma concessionária de rodovias. A primeira a saber dos acidentes nas estradas. Cabe a mim a missão de avisar à imprensa.
Ontem o acidente foi muito próximo. Das nossas vidas, da nossa casa, dos nossos sonhos.
A tarefa não se limitou a informar o número de óbitos, vítimas ou condições de tráfego. Pelo celular chegaram prantos desesperado de amigos e parentes em busca da confirmação de informações.
As notícias pipocavam desencontradas.
Atendi a coordenadora do hospital que o grupo de amigos trabalhava. Não consegui ser profissional. Ela me perguntava se eu sabia se a van era de funcionários do hospital.
Não consegui me conter. Chorei com ela.
Enquanto as notícias se confirmavam fechei os olhos e fiquei pensando. Imaginando o que aquela gente jovem tinha imaginado quando acordou naquela sexta-feira ensolarada.
Um dia comum e especial. Com as cores únicas do verão que se despede. O céu fica mais azul, o vento suave refresca a alma.
Eram mães jovens, que como eu, não saem de casa sem um beijo demorado na cria. Deixam as recomendações e partem para a labuta pensando na hora do reencontro.
Como não doer ao imaginar que aquele momento foi o último?
Uma tempestade de dor invadiu a vida de muitos. Mesmo quem não conhecia as vítimas parou o relógio e olhou ao redor.
A verdade é simples: todos os dias acordamos sem saber o fim da história.
Eu sei da teoria. Mas queria criar um mundo a parte. Como no filme “A vida é bela”. Não temos como impedir que as coisas aconteçam.
Só podemos viver e aceitar. Ter ânimo. Ir adiante e viver a vida com urgência. Porque ela é assim mesmo, breve como um suspiro.
sábado, 3 de março de 2012
La ninã e a vida
Foto: Nauro JúniorNunca consigo assistir às películas anunciadas na TV por assinatura. Sempre penso em me programar, mas a nossa rotina de solavancos não deixa.
Essa semana a TNT anunciava uma série de filmes ligados à intensidade da vida e da morte. Estranha definição, mas foi assim que entendi.
Não consegui assistir a todos, mas dois deles me deixar em pleno turbilhão.
O primeiro foi “Noites de tormenta”, com Richard Gere e a Daiane Lane. O filme é extremamente simples, mas daqueles que nos deixa com uma família de pulgas atrás da orelha.
Além da fotografia maravilhosa do Affonso Beato, que estará pelas bandas do sul com “O Tempo e o Vento”, o argumento se baseia nas nossas escolhas.
Ela faz o papel de uma esposa, que depois de traída, resolve tirar uns dias na praia para pensar no rumo que dará à sua vida. Enquanto isso o marido arrependido fica em casa com os dois filhos, insistindo por telefone em que a mulher o perdoe.
Nessa casa de praia ela hospeda um médico desconhecido, que vai até o vilarejo à procura do perdão da família de uma paciente. A mulher morreu durante a cirurgia e a família move uma ação contra ele, acusando de negligência.
O encontro dos dois acontece ao mesmo tempo em que o lugar espera a chegada de um furacão.
Na noite em que os ventos assolam a região os dois se enxergam de verdade. O romance começa. Ali ambos se despedem de um caminho da vida e começam outro.
Não vou contar todo filme. Mas posso garantir que naquele ponto da vida eles fizeram uma escolha. Decidiram descer na estação e pegar o mesmo trem.
O outro filme é "Antes de partir", com a dobradinha magnífica formada por Morgan Freeman e Jack Nickolson.
Os dois se conhecem no quarto do hospital. Recebem ao mesmo tempo a notícia de que estão com câncer terminal. Com a sentença do médico decidem chutar o balde. Fazem juntos uma lista de coisas que sonham em fazer antes de morrer.
E com esse propósito se livram dos catéteres, quimioterapias, aventais azuis e se jogam de bunge jump na vida.
Em ambos os filmes os protagonistas seguiram juntos a partir daquele momento de encontro. Um novo caminho. Independente do que tenha acontecido no final do filme, eles partiram juntos.
E foi exatamente isso que me tocou. As metáforas diárias da nossa vida. Os encontros e partidas.
Como no filme do Richard Gere, o vento volta e meia varre as nossas certezas. Leva adiante aquela caixinha de argumentos que criamos para justificar nossas decisões.
Quantas vezes calafetamos a casa para que a água não entre. Mas a vida é exatamente como a natureza, não tem previsões. Por mais que aponte para dias ensolarados, La niña pode chegar com seus caprichos.
E então a enxurrada nos surpreende.
No roteiro da dupla que descobre o câncer, a espinha dorsal do filme nos inspira a fazer uma lista imediatamente. Por que esperar a tempestade?
Mas assim caminha a humanidade e por mais que saibamos, permanecemos inertes. Com medo de alguma coisa. De algo que nem mesmo sabemos.
Os dois filmes têm o poder de remexer nas frestas que acreditamos tapar com buchas de algodão. No final do filme meu quarto foi inundado obviamente.
Por mais que a gente insista em perpetuar a vida, ela está em constante ebulição. São as tais chegadas e partidas, sempre à frente da nossa estrada.
Sem mais nada a declarar, deixo o final para o Milton Nascimento...
“São só dois lados da mesma viagem,
O trem que chega é o mesmo trem da partida,
A hora do encontro é também de despedida,
A plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar,
É a vida!"
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Relicário de verão
Meu horário de verão acaba de acabar. Estou de volta. Abrindo aos poucos as janelas da alma. Espiando por debaixo da poeira essa pessoas que quero conhecer melhor.Sim, eu mesma!
Pois é, sumi do mapa. Deixei o blog às moscas.
Optei por ficar em órbita, sem nada a declarar. Sem olhar pra dentro. Mas são coisas do verão, que tudo pode. Estação das sensações mais coloridas.
Tempo onde a dor fica mais abafada. A saudade mais ventilada. A alegria estampada.
Sinto isso desde os verões da minha infância. Naquele tempo onde a única preocupação era se poderíamos tomar banho de arroio depois do almoço.
E melancia com uva, pode?
Lembro que o ano letivo terminava no começo de dezembro. Depois das festas familiares minha nave partia para o espaço sideral. Rumo ao mundo encantado dos dias ensolarados.
O tempo tinha uma dimensão maravilhosa. Longos meses nos separavam do passado e do futuro. Era como se a vida abrisse uma lacuna, e naquele período só coisas boas aconteciam.
Não tenho uma memória de tristeza dos verões da minha infância.
Nossa casa, de pé direito alto, era sempre fresquinha. As janelas de tela abertas, o postigo azul reservado para hora da sesta.
Pés descalços, cabelo enredado, pele dourada. Os quartos de hóspedes recebiam seus habitantes, a casa passava a pulsar de gente.
A Charqueada São João deixava se der a nossa casa e virava o ponto de veraneio de muita gente.
Mas isso não me incomodava, eu tinha meu mundo. Brincava de subir nas árvores com a Mimi. Quebrar coquinho, barquinho com palha de bambu, amarelinha.
Corríamos o dia todo. Horário de verão não existia. Os dias pareciam ter as horas precisas para serem inesquecíveis.
Mergulhada no arroio, a melancia aguardava pacientemente sua hora de ser devorada. Rosto melado, metralhadora de sementes, barriga estufada. Depois: banho de arroio de novo. O ciclo se repetia.
São tantas lembranças boas. Um planeta especial, com infância e charqueada.
Pescaria de lambari, passeio de lancha, pic-nic nas areias, picolé na padaria, noite de histórias assustadoras, jogo de War no salão, guerra de bexiguinha...
E foi dando uma pausa nesses dois últimos meses, que olhei para esse passado com mais calma.
Lavei e sequei cada uma dessas boas lembranças. Tomamos banho de arroio. De cano. De chuva.
Depois dobrei cuidadosamente as lembranças do passado. Coloquei nas gavetas da minha alma. Saudade boa, sem dor.
Resolvi olhar para frente. Construir com carinho o relicário desse verão. Nós os três. Na nossa palafita. Nesse planeta que hoje habitamos.
Um planeta diferente daquele da infância. Na mesma galáxia. Mas em um universo que cabem todos os relicários de verão.
Os que foram e os que virão!
sábado, 31 de dezembro de 2011
Carta para 2011
O trem já vai partir. Não consigo te pedir que vás.
Passei os últimos dias dizendo a todos o quanto tu fosses difícil. Dor, saudade, lágrimas, cinza, medo. Vontade de te ver de longe, nas lembranças do passado.
Mas eu estava sendo injusta.
Hoje me dei conta do equívoco, e em tempo peço desculpas. Minha filha teve saúde e descobriu o mundo das letras. Eu tive bastante trabalho, ganhei novos amigos e revi alguns velhos conceitos.
Tua metade guarda meus últimos momentos com meu pai.
Sendo assim, tu és o meu tesouro mais valioso de memória afetiva. Na outra metade a sensação de perda me ensinou muitas coisas.
Compreendi que na dor o tempo é um aliado. Um ombro amigo é um bálsamo. E as lágrimas limpam angústias e medos. Lubrificam a alma.
Aprendi que para um inverno implacável, o melhor lugar é um colo de mãe. Na vida à dois o melhor caminho é sempre a verdade. E a melhor escolha é sempre a que te fizer sorrir
Entendi que perdoar é difícil. Que mesmo querendo fazer, é preciso ter força. É necessário abri mão um pouco de nós mesmos.
Por isso meu querido 2011, acabei me apegando a ti. A esse mundo de lições que me ensinasses, mesmo sem eu saber que estava aprendendo.
Obrigado pelas dores, saudades e verdades.
Nessa nossa despedida singela, quero acima de tudo te dizer o quanto valeu a pena. Não sou mais a mesma pessoa que brindou o reveilon passado. Tenho certeza.
A vida mudou. Eu mudei.
Antes de nosso abraço final, quero te fazer um pedido:
- Que teu amigo 2012 nos traga mais chegadas do que partidas.
Obrigado, e siga em paz!
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Mosaico de vida
Tem duas coisas que me encantam. Uma delas é a vista que o janelão de vidro nos proporciona. Nas noites de lua cheia é como se fosse a porta do paraíso. A outra é o piso de ladrilhos, formando um mosaico de cores, feitios e sensações.
Quando estávamos finalizando a obra, naquele momento em que qualquer prego custa um contado tostão, fomos presenteados pelo querido Rudelger com os tais ladrilhos hidráulicos. Marca da arquitetura pelotense, além de lindos, são um pedaço da nossa terra.
Foi ele quem deu a ideia de fazermos um mosaico no piso da cozinha, já que a miscelânea de peças pedia algo impactante. O Nauro e eu passamos uma manhã tentando compor uma figura harmônica.
Os dois sentados no cimento cinza da obra, cobertos de pó. Mudamos uma centena de vezes as peças de lugar. Lembro que chegou uma hora em que a mistura de imagens nos deixou mareados.
No final olhamos para o resultado e nos emocionamos com a beleza.
Nossa cozinha tinha a nossa cara. Uma mescla de formas, cores e desenhos. Assim como enxergo nosso jeito de galgar a vida. Temos histórias, personalidades e "formas" distintas.
Dia desses li no blog da querida Juliana Spanevello, um post dela fazendo uma retrospectiva do ano de 2011. Esse foi um ano cheio de conquistas para ela.
E assim como a Ju, cada um que lê estas linhas tem o seu balanço. Escrevi para ela que para cada um de nós o ano deixa uma marca diferente.
Para mim foi o ano que perdi meu pai. Junto foram mais alguns amigos. Para ela, um marco de tantas maravilhosas conquistas profissionais. Cada um com a sua enorme soma de sentimentos, compondo a figura.
E todas elas estão impressas no relevo da nossa alma. Como eu disse pra Ju, não importa o acontecimento, mas sim que estamos escrevendo nossas histórias.
E cada história é feita de diferentes momentos: tristes, alegres, descobertas, encontros, despedidas...
E olhando ontem para o meu lugar preferido da casa, enxerguei uma parte da nossa vida. Cada ladrilho é como se fosse um pedaço de nós.
Uma obra de arte, com suas belezas, tristezas, cores e encantos. Assim como essa jornada que cumprimos pelas bandas da terra.
Desejo que a gente não esqueça nunca de olhar bem de perto para cada figura que construiu. A diversidade das peças é que faz o encantamento do desenho.
Feliz mosaico de vida para cada um de nós!
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Começar o recomeço
Essa época de Natal é como um teste de resistência para nossas dores. Antes eu chorava até em propaganda de supermercado. Agora desabo na primeira música melequenta de Papai Noel de camelô.
Um paradoxo de sentimentos me assola. A situação é crítica companheiros!
Não sou da tribo que curte reclamar da vida. É preciso acima de tudo, respeitar a sua preciosidade. Mas o ano de 2011 fez uma marca indelével no relevo da minha alma.
A ausência de um ser que amamos é estranha. A falta cotidiana do jeito daquela pessoa que habita nossa história é quase incompreensível.
Os dias passam, faço listas e mais listas. Ocupo minha cabeça e procuro atordoar minha rotina. Mas um mínimo rastro de ócio, e me vejo nessa nova perspectiva.
Esse ano tudo mudou.
Perder meu pai foi como me perder um pouco. Mas sem dramas, eu entendo a complexidade da vida. O causo é que depois que uma peça do tabuleiro se vai, precisamos reinventar o jogo.
A nova configuração da nossa existência exige profunda compreensão.
A presença da morte em um ano, nos faz ter medo de encontrá-la novamente. Regamos nossos amores quase que com insanidade, com medo do dia em que não os teremos.
Mas repito, isso não é triste, é apenas intenso.
E sei que temos uma oportunidade em cada dor. A verdadeira chance de enxergar a raridade da vida.
Com essa certeza, acordamos com mais vontade para sacudir nossos tapetes. Arejar a alma sempre é a melhor escolha.
Coloco aqui minhas dores, saudades, inseguranças, medos e tudo mais que puder ser sacudido, deitado ao sol. Quero tirar o mofo, chorar sem culpa, escrever o que vier.
Só assim vou conseguir me olhar no espelho e encontrar o novo caminho. Quero começar o meu recomeço!
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
29 de outubro

Nasci às 19h10 de um dia 29 de outubro do ano que não terminou. Minha mãe, no alto de seus 19 anos, encarou um parto normal, na raça. Coisa que não se vê mais hoje em dia.
Ela conta que a Casa de Saúde Santa Tereza não tinha obstetrícia na época, e por isso deu a luz no quarto. Enquanto ela fazia força, driblando as contrações, uma torcida de parentes e amigos assistia o momento da sacada.
Cena pra lá de insólita. Era um dia de primavera como não se faz mais hoje em dia. Enquanto isso, em algum lugar do país, estudantes desafiavam a ditadura com a cara e a coragem. O ano de 1968 estava em ebulição e eu chegava sem passaporte.
Enquanto fervia a revolução estudantil, minha mãe olhava para aquela "carinha de joelho", tirada a fórcepes, e achava lindo o que via. Como não existia ultrasonografia, no portão de desembarque todos esperavam pelo Rafael.
Quando aquela polpa rosada apontou em direção à parteira, os olhares surpresos perguntaram para minha mãe qual seria o nome da menina.
Ela pensou por um instante e disse:
- Gabriela, em homenagem ao anjo Gabriel, o mensageiro!
Depois dessa inspiração ela disse que estava com desejo de comer uma canja. O tio Rubenzinho foi encarregado de materializar o pedido da parturiente.
Reza a lenda que ele buscou um bem servido prato no tradicional Restaurante Gago, muito conhecido na época. Enquanto isso meu pai se encarregava de fumar um charuto com o Dindo Bebeto, como era de tradição.
Depois dessa chegada triunfal, só me restou ter uma infância também atípica. Saímos do hospital e ali começou a minha história.
Pode não parecer muito longe, mas nasci em uma geração de transformação. A década de 70 seguiu quebrando paradigmas, revolucionando uma vida que até então parecia ser linear.
Quando paro pra pensar nas delícias da minha infância, me dou conta de que o tempo de ontem era verdadeiramente mais lento. Tive a sorte de brincar sem vídeo-game, computador ou qualquer coisa que emitisse barulhos artificiais.
O auge dos meus brinquedos modernos foi o tal do Manequinho, que tomava mamadeira e fazia xixi. Ganhei do tio Ricardo.
Mas antes disso tive o meu jipe vermelho, as fazendinhas feitas com batata e palitos, o jogo de sapata, esconde-esconde e outras deliciosas brincadeiras que hoje raramente ouvimos falar.
Assim se passaram os tranqüilos anos da minha infância, supervisionados pela “Mãe Cema”, que nos cuidava enquanto minha mãe fazia a faculdade. Difícil resumir esse tempo tão rico em poucas linhas. Mereceria um livro.
Veio a adolescência e com ela os primeiros conflitos. Confesso que não achei nenhuma graça nessa fase, exceto pela trilha sonora que nunca mais se repetiu. Se pudesse pular, teria feito de bom grado, desde que pudesse levar meus discos do Legião Urbana debaixo do braço.
Meu primeiro namorado era um chato. Dele ganhei o primeiro beijo e a primeira decepção. Chorei mais por pena de ter perdido meu tempo com ele, do que por qualquer outra coisa.
Depois do primeiro tombo fiquei mais esperta e não entrei em canoa furada tão facilmente. Fui mais seletiva e aprendi rapidamente as regras do jogo. Mesmo assim, muitas lágrimas escorpianas inundaram meu travesseiro.
Na verdade a fase de juventude foi recebida com aplausos. Ter carteira de motoristas, viajar sozinha para Garopaba e administrar o meu próprio salário, foram conquistas incríveis. Nessa época éramos guiados pelo sabor do vento e a liberdade nos dava asas.
Incrível como nesse pedaço da vida a gente acha que a barriga sempre vai ser de tanquinho, o cabelo vai resistir a qualquer experiência química e que filtro solar é bobagem. Todos acham, é inevitável!
Mas por isso o tempo é sábio e com o rodar do relógio nos aponta nossos vacilos.
Difícil ser adulto, eu sei, mas sem dúvida é muito melhor. Reclamamos de muitas coisas, mas a maturidade é o melhor dos presentes. Com ela enxergamos a vida, por dentro e por fora. A imensidão das galáxias que habitam nosso universo interior.
Saímos da superfície e mergulhamos no mar dos grandes sentimentos.
Priorizamos um amor parceiro e enxergamos nossos pais com compreensão. Descobrimos que o amor por um filho é o sentimento mais generoso que existe. Queremos dar, simplesmente amar.
E com essa fase adulta, quando alcançamos as quatro gerações, começamos a correr riscos.
Invariavelmente passamos a ter perdas. Primeiros nossos avós, depois nossos pais. O choque da finitude bate a nossa porta. Taí a parte ruim da maçã.
Esse é meu primeiro aniversário sem meu pai. Passei a semana choramingando. Como disse uma amiga: vivi intensamente o meu inferno astral. Vai ser o primeiro 29 de outubro sem aquela voz me dizendo: "Fili, parabéns, aniversariante!"
Era assim que ele fazia. E vou sentir essa falta!
Pra completar, tudo aconteceu essa semana. Emoções concentradas e minha coluna em frangalhos.
Procurei um ombro amigo, uma acupuntura e por fim uma massagem. Com essa receitinha básica me preparei para receber os 43 anos de vida.
A Tatá coloriu a casa com as flores do nosso jardim e eu fui fazer as unhas.
Vou passar em casa, quietinha, deixando que os abraços cheguem com o vento. Quero comemorar em silêncio, olhando mais pra dentro do que pra fora.
A fase é contemplativa. Quantos dias 29 de outubro ainda me restam? Não quero dramas, mas a vida parece que começa a escorrer das nossas mãos com rapidez.
Qual a receita para segurá-la?
Sou otimista, nunca fumei, odeio ginástica, tomo água, acredito em Deus, tô aprendendo a perdoar, tenho medo de altura, não uso batom, gosto de ler, como salada, sou fiel, uso cinto de segurança, estou ficando surda, amo praia e, obviamente...adoro melancia.
Então cá pra nós, que venham mais 43. No mínimo!
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Mundo das Letras II
Escolhemos uma escola com nome de poeta. Esse simbolismo me deu uma sensação boa, meio mística. Como não se sentir atraída por um nome que povoou meus encantos literários?
Então decidimos seguir a filosofia do Mário Quintana. Como ele mesmo pregou, a resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
Os primeiros passos daquela nova aventura contaram com um anjo da guarda chamado carinhosamente por seus discípulos de “Profi Michele”. Aquela guria novinha, com cara de amiga da minha irmã, conquistou minha confiança e despertou profunda admiração.
Consegui enxergar naqueles olhos amendoados a certeza de que minha filha estava bem guardada. A doçura e firmeza de uma profissional de primeira linha foram essenciais nesse processo de rompimento umbilical.
Junto com essa entrega, tive várias crises. A cada cena pouco civilizada no engarrafamento do colégio, dúvidas me assolavam. Me perguntava se o colégio estaria caminhando de mãos dadas com os valores que pregamos em casa.
Incertezas mil, nos mais pequenos detalhes do cotidiano escolar.
Como entender um colégio que tem a filosofia de que o importante é ser “o melhor”? Em tempos de globalização, muita competição e pouca gentileza, sentia falta da singeleza nas entranhas dos corredores.
Mas aos poucos fui me adaptando e entendendo os prós e contras da escola. Ao longo desse primeiro ano a figura dessa professora, tão jovem e tão experiente, foi fundamental.
Para amenizaram o contraponto desse mundo novo, conversei, refleti e esperei a poeira baixar. Vi muitos profissionais apaixonados pela pedagogia circularem pelas paredes coloridas daquele mundo estudantil.
Mas aquele rostinho seguro da primeira professora da Sofia, foi a chave desse primeiro passo do mundo que gira.
No começo desse ano, de novo o frio no estomago. Minha sensação de acolhimento estava diretamente ligada a uma pessoa, e não ao ambiente em si.
Fui para reunião de apresentação dos professores com a respiração em suspenso. Sentei no auditório e aguardei as tradicionais falas e recados do início do trimestre.
Feitas as primeiras apresentações, surge uma pessoa colorida, com sorriso rasgado no rosto. Entre os cachos escuros e a pele branca, se percebia um brilho intrigante no olhar.
A professora se chamava Karine e antes de finalizar o protocolo pedagógico pediu a palavra.
Disse que queria que soubéssemos que ela tinha total entendimento da responsabilidade que lhe chegava a partir daquele momento. Falou que pensou em uma forma de traduzir para nós, pais, essa certeza.
Foi aí que tirou de um saquinho várias pedrinhas coloridas. Explicou que aquele pequeno tesouro simbolizava os nossos filhos. Pediu que cada um retirasse uma pedra e repetisse para ela o nome da criança.
Olhei para aqueles olhos brilhantes, e disse emocionada:
- Sofia, esse é o meu maior tesouro!
Ela sorriu e sem precisar falar nada, me deu a senha de que mais uma vez o anjo certo tinha caído na minha rede.
A Karine abriu as portas de um novo mundo para os nossos filhos. Apresentou as letras e todo o significado que a leitura tem aos nossos ávidos aprendizes.
Semanas atrás, tivemos a última reunião de pais, antes da formatura dos nossos pequenos. Na platéia uma legião de pais embasbacados com o progresso dos filhos.
Essa pessoa de sorriso largo, ensinou bem mais do que o alfabeto. Ela soprou a alma de cada um. Coloriu seus talentos e ajudou a subir o degrau mais simbólico da vida: o da liberdade.
Mostrou através de sua sensibilidade, os verdadeiros valores que importam na vida. Trabalhou as diferenças e evidenciou a importância de cada um individualmente.
Mais do que entender que somos de várias cores, classes e estilos, ela ensinou aos nossos filhos o quanto é importante o respeito. Aprender todo mundo aprende, mas sentir não é para todos.
Terminada a reunião não tive coragem de traduzir tudo que queria dizer. Fiquei muda, engasgada e emocionada.
Decidi por não falar e tentar escrever. Como a Karine ensinou aos nossos filhos, cada uma tem seu talento, e aprendi que fala não é para mim.
Sai dali e minha cabeça viajou por cada mudança da Sofia nesses meses de transformação. Olhei para a filha que tinha e para aquela menina decidida que estava sentada na cadeirinha do banco de trás do carro.
Minhas dúvidas e críticas a alguns valores da escola continuam existindo. Mas a esperança de que os administradores aprendam com esses exemplos que eles têm no seu quadro de funcionários, permanece.
Quem sabe um dia esses “anjos” não conseguem mostrar que o importante não é ser o melhor, mas sim o mais feliz.
A vida é rápida demais para se gastar toda energia na busca do pódium mais alto. Talvez lá de cima não se consiga contemplar o horizonte com a mesma magnitude.
A pedrinha que ganhei na primeira reunião de pais continua na minha carteira. Hoje tenho a certeza de que meu tesouro foi lapidado com carinho.
Não que ela tenha mudado sua essência, jamais. Mas aquele brilho no olhar que enxerguei na “Profi Karine” em março, estava nos olhos da minha filha quando arrancamos o carro para casa.
Afinal de contas, tudo realmente vale a pena, se a alma não é pequena. Salve o poeta e as professoras de verdade!
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
O Dindo e os gansos
Quantas pessoas vocês conhecem que nadam com os gansos?
Acredito que a maioria responda que, nenhuma. Mas eu conheço e esse cara singular é o meu Dindo Bebeto. Para entender isso, que a princípio parece uma maluquice, é preciso saber um pouco mais sobre essa pessoa no centro da foto acima.
Imagine uma Belina carregada de malas, crianças e uma vianda de fazer inveja a farofeiro profissional. Assim partíamos nos anos 70, de Pelotas rumo à Montenegro, onde moravam Tia Carmem e nossos primos.
Cada aniversário era a mesma caravana. Uma verdadeira operação, com o carro entulhado de coisas, parando a cada novo pedido de xixi. Quando chegávamos na cidade o Dindo começava o festejo.
Tirava para fora do carro foguetes e começava uma verdadeira festa de ano novo fora de época. Assim avisávamos à “parentada” que a turma do Bebeto estava chegando.
Essa é só uma das inúmeras lembranças inesquecíveis desse meu padrinho e tio muito especial. Não conheço uma criança da nossa geração que não tenha uma história preciosa protagonizada por ele. Por certo, guardada na caixinha das pérolas de sua infância.
O Dindo era amigo do meu pai desde jovem. Eram da pá virada. Aprontavam tudo e mais um pouco juntos. Foi ele que apresentou o meu pai para mãe. Nsmorava a tia Vera, e desse casamento nasceram os meus três queridos primos: Bel, Otávio e Marta (Pata Amada).
Como sou a filha mais velha, quando nasci meu pai não teve dúvidas na escolha do padrinho.
- O Bebeto, claro, é mais que um irmão!
Durante toda vida sempre nos divertimos demais ouvindo as histórias hilárias dessa dupla, que não veio ao mundo a passeio. Entre os dois eu vi as mais lindas demonstrações de amizade e carinho.
O Dindo sempre beijou meu pai no rosto. Era a pessoa a quem meu pai mais ouvia. Na madrugada em que meu pai faleceu repentinamente, o Dindo foi dos primeiros a chegar na Unimed. Me deu o abraço mais apertado que pôde e perguntou:
- Cadê o Carlinho?
Entrou na sala de enfermagem e a primeira coisa que disse foi:
- Como é que tu faz uma dessas Carlinhos? Tu, o meu amigo!
Foi a cena mais triste e linda que já vi na minha vida. Se é que esse antagonismo pode ser compreendido.
Depois de um tempo, disse que precisávamos arrumar o meu pai. Que ele não estava bem daquele jeito. Começou a conversar como se meu pai estivesse ali.
Com a ajuda do Nauro arrumou a boca, o cabelo, ajeitou-o melhor na maca, e seguiu conversando. Não tive coragem de seguir participando daquele momento.
Quando chegamos para o velório, já no cemitério, olhei novamente para o meu pai. A expressão de dor e tensão daquele corpo que havia me impressionado na Unimed havia desaparecido.
Um rosto plácido e um ar de paz irradiavam da cena fúnebre. Não tenho dúvidas de que as palavras ditas e sentidas ocuparam um espaço entre dois mundos. Um amor entre amigos, além do céu e da terra.
Na sexta-feira passada o Dindo sofreu um AVC hemorrágico. Estava ótimo, na casa da namorada. Sentiu-se mal, e em um piscar de olhos o derrame aconteceu. Foi imediatamente atendido.Desde então trava uma brava luta pela vida na UTI do HU São Francisco de Paula.
Os boletins médicos já oscilaram entre melhoras e pioras. Desde ontem ele está em coma induzido, na tentativa de estabilizar o quadro. Temos rezado, pensado coisas boas, feito correntes de boas energias, tudo o que acreditamos que possa ajudar na sua recuperação.
Ele é um homem forte, sempre levou uma vida saudável. Tem tudo a seu favor.
Por isso, quando penso no Dindo fecho os olhos e mentalizo aquela cena tão única. Acontecia no arroio em frente a sua casa, na Marinha Ilha Verde.
Ele colocava os pés de patos e mergulhava no arroio em qualquer estação. Saia nadando e atrás dele um bando de gansos, criados desde pequenos por ele. Seguiam arroio a fora, em total sintonia.
Essa cena que mais parece de filme, é o mais belo retrato dessa pessoa que descrevo. Um ser genuíno, original. Por isso tenho pedido muito para que tudo dê certo. Quero tanto que ele continue com a gente!
Segura firme Dindo, nós e os gansos te esperamos aqui para muitas aventuras!
*Na foto: Gorda, Bel (esquerda), Dindo, eu e o Mão (direita), em 1975, em alguma festa da nossa infância, na Charqueada São João.
O Dindo e os gansos
Quantas pessoas vocês conhecem que nadam com os gansos? Imagino que a maioria responda que, nenhuma. Mas eu conheço e esse cara singular é o meu Dindo Bebeto.
Para entender isso, que a princípio parece uma maluquice, é preciso conhecê-lo um pouco mais.
Imagine uma Belina carregada de malas, crianças e uma vianda de fazer inveja a farofeiro profissional. Assim partíamos de Pelotas rumo à Montenegro, onde moravam Tia Carmem e nossos primos.
Cada aniversário era a mesma caravana. Uma verdadeira operação, com o carro entulhado de coisas, parando a cada novo pedido de xixi. Quando chegávamos na cidade o Dindo começava o festejo.
Tirava para fora do carro foguetes e começava uma verdadeira festa de ano novo fora de época. Assim avisávamos à “parentada” que a turma do Bebeto estava chegando.
Essa é só uma das inúmeras lembranças inesquecíveis desse meu padrinho e tio muito especial. Não conheço uma criança da nossa geração que não tenha uma história preciosa, protagonizada por ele, guardada na caixinha da sua infância.
O Dindo era amigo do meu pai quando eram jovens. Foi o meu pai, quando já namorava a mãe, que apresentou a Tia Vera para ele. Dali saiu um namoro e como fruto os meus três queridos primos: Bel, Otávio e Marta (Pata Amada).
Como sou a filha mais velha, quando nasci meu pai não teve dúvidas na escolha do padrinho.
- O Bebeto, claro, é mais que um irmão!
Durante toda vida sempre nos divertimos demais ouvindo as histórias hilárias dessa dupla, que não veio ao mundo a passeio. Entre os dois eu vi as mais lindas demonstrações de amizade e carinho.
O Dindo sempre beijou meu pai no rosto. Era a pessoa a quem meu pai mais ouvia.
Na madrugada em que meu pai faleceu repentinamente, o Dindo foi dos primeiros a chegar na Unimed. Me deu o abraço mais apertado que pôde e perguntou:
- Cadê o Carlinho?
Entrou na sala de enfermagem e a primeira coisa que disse foi:
- Como é que tu faz uma dessas Carlinhos? Tu, o meu amigo!
Foi a cena mais triste e linda que já vi na minha vida. Se é que esse antagonismo pode ser compreendido.
Depois de um tempo, disse que precisávamos arrumar o meu pai. Que ele não estava bem daquele jeito. Começou a conversar como se meu pai estivesse ali.
Com a ajuda do Nauro arrumou a boca, o cabelo, ajeitou-o melhor na maca, e seguiu conversando. Não tive coragem de seguir participando daquele momento.
Quando chegamos para o velório, já no cemitério, olhei novamente para o meu pai. A expressão de dor e tensão daquele corpo que havia me impressionado na Unimed havia desaparecido.
Um rosto plácido e um ar de paz irradiavam dali. Não tenho dúvidas de que as palavras ditas e sentidas ocuparam um espaço entre dois mundos.
Na sexta-feira passada o Dindo sofreu um AVC hemorrágico. Estava ótimo, na casa da namorada, quando se sentiu mal e o derrame aconteceu. Foi imediatamente atendido e desde então trava uma brava luta pela vida na UTI do HU São Francisco de Paula.
Desde então as notícias já oscilaram entre melhoras e pioras, mas agora ele está em coma induzido.
Temos rezado, pensado coisas boas, feito correntes de boas energias, tudo que acreditamos que possa ajudar na sua recuperação.
Ele é um homem forte, sempre levou uma vida saudável e tem tudo isso a seu favor. Por isso quando penso no Dindo, imagino aquela cena tão única, que acontecia em frente a sua casa, na Marinha Ilha Verde.
Ele colocava os pés de patos, mergulhava no arroio em qualquer estação, e os gansos que ele criava desde pequenos saiam nadando atrás dele, arroio a fora.
A cena inusitada é o mais belo retrato desse ser maravilhoso, que quero muito que continue com a gente.
Segura firme Dindo, nós e os gansos te esperamos aqui, para curtir muitas coisas boas!
Para entender isso, que a princípio parece uma maluquice, é preciso conhecê-lo um pouco mais.
Imagine uma Belina carregada de malas, crianças e uma vianda de fazer inveja a farofeiro profissional. Assim partíamos de Pelotas rumo à Montenegro, onde moravam Tia Carmem e nossos primos.
Cada aniversário era a mesma caravana. Uma verdadeira operação, com o carro entulhado de coisas, parando a cada novo pedido de xixi. Quando chegávamos na cidade o Dindo começava o festejo.
Tirava para fora do carro foguetes e começava uma verdadeira festa de ano novo fora de época. Assim avisávamos à “parentada” que a turma do Bebeto estava chegando.
Essa é só uma das inúmeras lembranças inesquecíveis desse meu padrinho e tio muito especial. Não conheço uma criança da nossa geração que não tenha uma história preciosa, protagonizada por ele, guardada na caixinha da sua infância.
O Dindo era amigo do meu pai quando eram jovens. Foi o meu pai, quando já namorava a mãe, que apresentou a Tia Vera para ele. Dali saiu um namoro e como fruto os meus três queridos primos: Bel, Otávio e Marta (Pata Amada).
Como sou a filha mais velha, quando nasci meu pai não teve dúvidas na escolha do padrinho.
- O Bebeto, claro, é mais que um irmão!
Durante toda vida sempre nos divertimos demais ouvindo as histórias hilárias dessa dupla, que não veio ao mundo a passeio. Entre os dois eu vi as mais lindas demonstrações de amizade e carinho.
O Dindo sempre beijou meu pai no rosto. Era a pessoa a quem meu pai mais ouvia.
Na madrugada em que meu pai faleceu repentinamente, o Dindo foi dos primeiros a chegar na Unimed. Me deu o abraço mais apertado que pôde e perguntou:
- Cadê o Carlinho?
Entrou na sala de enfermagem e a primeira coisa que disse foi:
- Como é que tu faz uma dessas Carlinhos? Tu, o meu amigo!
Foi a cena mais triste e linda que já vi na minha vida. Se é que esse antagonismo pode ser compreendido.
Depois de um tempo, disse que precisávamos arrumar o meu pai. Que ele não estava bem daquele jeito. Começou a conversar como se meu pai estivesse ali.
Com a ajuda do Nauro arrumou a boca, o cabelo, ajeitou-o melhor na maca, e seguiu conversando. Não tive coragem de seguir participando daquele momento.
Quando chegamos para o velório, já no cemitério, olhei novamente para o meu pai. A expressão de dor e tensão daquele corpo que havia me impressionado na Unimed havia desaparecido.
Um rosto plácido e um ar de paz irradiavam dali. Não tenho dúvidas de que as palavras ditas e sentidas ocuparam um espaço entre dois mundos.
Na sexta-feira passada o Dindo sofreu um AVC hemorrágico. Estava ótimo, na casa da namorada, quando se sentiu mal e o derrame aconteceu. Foi imediatamente atendido e desde então trava uma brava luta pela vida na UTI do HU São Francisco de Paula.
Desde então as notícias já oscilaram entre melhoras e pioras, mas agora ele está em coma induzido.
Temos rezado, pensado coisas boas, feito correntes de boas energias, tudo que acreditamos que possa ajudar na sua recuperação.
Ele é um homem forte, sempre levou uma vida saudável e tem tudo isso a seu favor. Por isso quando penso no Dindo, imagino aquela cena tão única, que acontecia em frente a sua casa, na Marinha Ilha Verde.
Ele colocava os pés de patos, mergulhava no arroio em qualquer estação, e os gansos que ele criava desde pequenos saiam nadando atrás dele, arroio a fora.
A cena inusitada é o mais belo retrato desse ser maravilhoso, que quero muito que continue com a gente.
Segura firme Dindo, nós e os gansos te esperamos aqui, para curtir muitas coisas boas!
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
O caderno
Quando a minha Voinha completou 87 anos, eu dei de presente para ela um caderno em branco. Era o dia 5 de abril de 1999. Nossa relação era muito forte e a proximidade de perdê-la, me fez pensar em uma forma de congelar sua história. De tê-la comigo pra sempre.
O cartão que acompanhava o pacote dizia:
“Voinha querida, gostaria que esse presente fosse usado para celebrares a tua vida. Gostaria que escrevesses tudo que tua alma transpira, e com essas linhas revivesses cada capítulo da tua história – tão especial pra mim”
E ali, naquelas páginas cheias de relatos, ela me deixou sua melhor herança. O livro de capa preta me foi entregue depois que ela faleceu, aos 91 anos de idade. Dentro, vários cartões e recortes, com significativas passagens da sua trajetória.
Esse é o meu tesouro, que guardo com amor e carinho. De vez enquando abro suas páginas e me delicio lendo os capítulos de uma vida começada em 1912.
A letra cursiva perfeita, o português antigo, a fé e devoção à Deus, marcas registradas dessa pessoa tão especial e que me fez muito feliz. Tudo isso está ali, bem vivo nesse nosso canal de ligação atemporal.
Mas contei isso para chegar em outro assunto. Foi lendo o mais recente lançamento da minha autora preferida, que me dei conta de uma coisa interessante. A sensação de que algumas coisas são escritas para gente.
Em julho fui levar a Sofia ao médico, em Porto Alegre, e como sempre passei na Fnac. Dei uma olhada nos lançamentos e eis que salta aos meus olhos o novo livro da Isabel Allende.
Fresquinho, saído do forno. A versão ainda em espanhol, com capa reluzente: “El cuaderno de Maya”. Não tive dúvidas, comprei.
Já no ônibus de volta pra casa comecei a ler. A história é longa, mas o que quero contar é que foi escrita em um caderno que a avó da Maya deu pra ela. Exatamente para isso, para que escrevesse a sua vida e fortalecesse ali o elo entre as duas.
Fiquei anestesiada. Tenho sempre essa sensação com a Isabel Allende, de uma ligação direta, meio sem nexo. E isso já me acompanha há anos.
Quando li “A Casa dos Espíritos”, eu vivia em uma delas. Era adolescente e habitava uma moradia construída em 1810, com senzala e dezenas de cômodos. Não preciso dizer o quanto me senti na casa da Isabel, inúmeras vezes!
E não foi só dessa vez. As noites intermináveis de UTI, ao lado da Sofia, muitas vezes me fizeram lembrar suas palavras escritas em “Paula”. Ela descreveu a sensação de querer mover as montanhas pela vida de um filho. Senti profundamente.
E é essa sensação absurda, de comungar da mesma sintonia com alguém que não habita o nosso universo é maluco. Estranho, mas que me faz bem. Acho que é como uma viagem imaginária, onde me conecto com Isabel Allende, a minha Voinha e quem mais me inspirar.
Nesse momento acredito que nossos espíritos estão interligados.
Ainda não acabei de ler o livro. Maya ainda não terminou sua aventura pela ilha de Chiloé. Assim como eu, ainda não finalizei a minha.
Mas essa “coincidência” me fez buscar na gaveta o caderno da minha avó. Abri o baú das lembranças e o segurei com ternura, como se eu pudesse sentir aquelas mãos firmes, de longos dedos. Folhei as páginas impregnadas de vida daquele personagem. Uma mulher real, que viveu a vida sem ficção.
O bom é que me vi ali, em deliciosos capítulos da vida da minha Voinha. Foi muito bom ter feito parte dessa história real. E de alguma forma escrevo aqui algumas páginas do meu caderno. E como disse minha amiga Isabel Allende...
Y en ese largo y paciente ejercicio diario de escribir he descubierto mucho sobre mí misma y sobre la vida.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Dona Léa
O inverno mais cinza das últimas décadas não dá trégua. Mas mesmo assim as pessoas casam, engravidam e os filhos nascem. O frio não quer saber de nada, muito menos do nosso estado de espírito.
E assim as folhinhas do calendário mudam na estação infinita.
Até que chegou o dia 19 de agosto. Sexta-feira e frio de rachar. A agenda social previa o chá-de-fraldas da Beloca. Pela anfitriã valia qualquer esforço. A mãe dela é minha amada comadre Eunice, uma pessoa pra lá de especial.
Sorte do Joaquim, o nenê que habita a barriga da Beloca e que deu a sorte de ter uma avó-coruja como ela. Com esse histórico emocional nos enroupamos animadas e partimos para o tal do chá.
Obviamente que chá-de-fralda é igual em qualquer lugar do planeta. Até na tribo Kaiapó deve ter o mesmo itinerário. Entre presentes e empadinhas falamos amenidades e trocamos receitas de vida doméstica.
No meu caso a tarde foi uma delícia, além dos salgadinhos crocantes conheci a Nídia. Ela é filha de um amigão da minha Comadre, e de cara a sintonia já rolou. Foram listas intermináveis de assuntos, todos deliciosos como as bandejas que passavam.
Como todo chá que se preze, a gente enche o “pandulo’ e quando menos espera já é hora de ir embora. Tai o segredo do encontro.
E naquela de despedidas pra lá e pra cá, surge uma pessoas que jamais passaria despercebida. O cabelo bem alinhado, maquiagem no ponto e uma bolsinha equilibrada no antebraço.
Vamos combinar...a verdade é que tem que ter muita energia para equilibrar uma bolsinha no antebraço em um dia infernal do inverno pelotense. Só a Dona Léa para encarar uma dessas, e vocês já vão saber o porquê.
Ela se aproximou da nossa mesa para dar um tchau e começou a desfiar um rosário de alto astral.
Nesse meio tempo, minha mãe comentou o quanto ela era bem disposta. Relembrou que tinha perdido um filho há uns anos, em um acidente de moto.
Só por esse currículo ela já teria todo direito a largas olheiras e algumas rugas de tristeza. Mas esses sinais não estavam naquele rosto alegre, quase juvenil. Perguntei qual o segredo para aquele ar tão leve. Ela me olhou nos olhos com calma, e disse:
- Minha filha, eu não dou direito à tristeza! Quando ela pensa em chegar eu pego minha bolsa e vou para o calçadão. Depois de ver vitrines, conversar com as pessoas e ouvir um pouco de cada história, não há como voltar com a mesma cara!
Receita comum, quase como a de um arroz. Resultado indescritível, o mesmo que sentimos quando provamos o prato que tem sabor de infância. Simples, mas imensurável!
Ela é viúva, mora sozinha, e me disse que quando está de baixo astral convida o Julio Iglesias para dançar. Coloca os discos a tocar bem alto e canta com ele os clássicos que não a deixam esquecer a força do amor.
A outra receita dessa jovem de 84 anos é fazer viagens de terceira idade. Foi em uma dessas que conheceu o namorado. Mas se engana quem pensa que um homem era o que queria para alegrar seus dias.
Dona Léa adora uma boa companhia. Mas volta e meia dá um jeito do consorte voltar para sua terra natal. Ela retoma sua rotina e convence o sortudo de que a saudade acende o amor.
Tanta sabedoria não estaria trajando uma roupa qualquer naquele chá de agosto. Este espírito vibrante obviamente reluzia no salão em um casacão de lã azul piscina.
Ela contrastava naquele mar de roupas em tom bege, passando pelo marrom e terminando no preto. Cheguei à conclusão de que nos vestimos como nosso espírito nos dias de inverno. Sem dúvida.
Mas aquela tarde de agosto mudou minha vida. Depois de conhecer Dona Léa decidi repensar meus conceitos de comodismo. Não vou deixar o inverno se arrastar durante longos meses de penúria na minha alma.
É isso aí, amanhã se a tristeza bater vou me tocar para o Calçadão. Vou ver vitrines, conversar com as pessoas. Só não garanto que acabe na loja de CDs procurando pelo Julio Iglesias.
Aí também é demais né Dona Léa??!!!!
domingo, 7 de agosto de 2011
Uga-uga

A fase do baixo-astral imperava até que um puxão de orelhas sacudiu o cotidiano morno. Eu curtia dias oscilantes, entre o trabalho, afazeres domésticos e a digestão da perda.
Não faz nem dois meses que meu pai partiu. Desde então estou de mala e cuia na casa da mãe, junto com a Sofia. Nossa presença tem sido o suporte necessário para ela se reencontrar.
Para completar o cenário, o inverno mais frio e cinza das últimas décadas deu as caras. Nesse contexto me esforço para pelo menos disfarçar que estou bem.
Só que se tem coisa que eu nunca soube, foi fazer cara de uma coisa e sentir outra. Então as olheiras não desaparecem nem com o mais eficiente reboco.
Me olho no espelho e procuro encontrar vestígios que levem até mim. Não lembro mais o dia em que me arrumei e achei que estava bonita. Essas coisas são relativas, mas a gente sempre tem um dia que ‘se acha’.
Cadê o meu dia, cadê minha auto-estima?
Mas como dizem as frases que estampam nossas agendas juvenis, ‘quem tem amigos, tem tudo na vida’. Foi na base do joelhaço que duas amigas queridas me puxaram para um papo-cabeça.
A dupla há dias me convidava para tomar um mate, um café, um champanhe, um conhaque ou um copo d´água. Eu sempre saia pela tangente, com a certeza de que o melhor lugar seria a minha concha interior, em meio a lembranças e saudades.
Até que semana passada ela torpedaram um decreto no meu celular. Recebi uma mensagem que instituía um encontro na quarta-feira, às 20h, na casa de uma delas.
Li, e sem a menor vontade de ir, respondi que tudo bem, mas que não estava com vontade de beber nada. Isso já traduzia a minha disposição para o encontro.
No dia marcado tomei um banho, lavei os cabelos gosmentos e me entupi de roupas já que a noite era assombrosamente fria. Liguei o costumeiro piloto-automático e segui a passos lentos.
Quando cheguei, um ambiente acolhedor me esperava. Lareira, uma mesa linda, founde, vinho e umas carinhosas pantufas para deixar marcado o acolhimento do corpo e da alma.
Entre um naco de filé e outro, provei diferentes molhos e enfáticos conselhos. Cada uma, a seu modo, mostrou um mar de possibilidades que eu estava deixando passar levada pela correnteza diária.
O desânimo estava me fazendo sucumbir ao que mais prezo: a alegria de viver. Viver um luto, tudo bem. Mas deixar que os dias me sufoquem de tédio não.
A Paula me disse uma coisa que nunca mais vou esquecer. Que quando a alma está triste a gente deixa o corpo de lado. Fica tudo pra depois.
Os pelos invadem a nossa vaidade e esquecemos que existe a depilação. As unhas e cutículas seguem se proliferando, mas não lembramos que existe a manicure. Ela definiu como “a síndrome da unha comprida”.
E assim vamos caminhando sem cantar. Os dias passam como capítulos apressados de uma novela sem graça. Nos tornamos seres das cavernas com olhos de tristeza.
Assim eu estava, vivendo a tal da síndrome, totalmente imersa nela.
A Jajá me lembrou do quanto é importante celebrar a vida. Lição que aprendi com meu pai, e que vivo repetindo nos textos desse blog. Mas me dei conta de que minha teoria estava longe da prática.
O founde de chocolate chegou na mesa de toalha florida, e com ele provei o doce sabor de um puxão de orelhas bem dado. Coisa boa ter amigos para acender a lanterninha de emergência da minha consciência.
Sai de lá pensando um milhão de coisas. No dia seguinte, depois de deixar a Sofia na sala de aula, a Jajá me puxou para um cafezinho na cantina do colégio.
Reforçou a lição de quarta-feira e listou alguns pontos eficientes para impulsionar meu recomeço. Lembrei de minha avó Nóris, a quem carinhosamente chamo de Chochó. Ela sempre soube transformar as tristezas da vida em bons momentos.
Minha mãe conta que meu avô estava em um câncer terminal, internado na Beneficência Potuguesa. A data do aniversário de casamento deles se aproximava.
Ela ligou para um buffet que era o mais prestigiado da época. Contratou um jantar delicioso, louças primorosas e um serviço de primeira.
Meus avós brindaram a data em meio a suportes de soro, baixelas de prata e um amor imensurável. Ele se foi alguns meses depois, mas levou consigo a verdadeira essência do bem viver.
Então depois dessa lição não tive dúvidas. Acordei sábado com uma lista de metas a cumprir: depilação às 10h, manicure 11h30 e banho de luz às 12h. Isso só pra começo de conversa.
Já estou me sentindo mais leve. Não sei se foram os quilos de pelos e cutículas que não carrego mais comigo, mas a verdade é que começo a ressurgir das cinzas.
Chega de carregar a tristeza, agora ela vai caminhar ao meu lado. E tenho certeza de que vamos nos divertir juntas. Cada momento transformador tem a sua mensagem e começo a ler os ensinamentos desse.
Não posso fechar os olhos para cada dia que se apresenta, todinho para ser vivido. Então adeus ‘síndrome das unhas compridas’. Estou de volta, totalmente renovada.
Deixo a caverna de lado e troco o modelito de oncinha por uma calça jeans. Saiam da frente porque a fase “Uga-uga” acaba de acabar!
domingo, 17 de julho de 2011
Saudade
Demorei muito para começar essas linhas. Não sabia como traduzir esse sentimento novo que me acompanha. Saudade eterna.
Não conseguia nem pensar nisso. Parecia que se eu escrevesse, ia ler, e se lesse, saberia que é realidade. Maluco isso, mas é exatamente assim.
O peito da gente fica anestesiado. Se não nos distraímos com o cotidiano, ele dói. Corremos o dia todo e quando paramos um pouquinho, vem aquela sensação de novo.
Decidi então me enfiar no trabalho. Fiz mil coisas durante as últimas semanas, mas o tempo não passa. Já me disseram que o luto é assim. Tem seus altos e baixos.
Mas acho que chegou a hora. Então vou tentar.
Perder meu pai num piscar de olhos foi muito forte. A vida corria seu rumo na maior normalidade. Toda família ia bem obrigado.
Até que o telefone rasgou a madrugada daquele 22 de junho. Do outro, lado minha mãe desesperada, me dizia uma frase que não fazia o menor sentido:
- Minha filha, estou aqui na Unimed, teu pai faleceu de um infarto fulminante!
Daí para frente foi como se eu entrasse em uma nave, sem saber para onde iria. Os dias que se seguiram, os abraços, as lágrimas, a saudade sem fim.
Perder nossos pais é como perder parte da gente. Somos muito deles. Temos tudo deles. Não sei como ser eu daqui pra frente. Falta uma parte de mim.
Eu sei que todo mundo fala no tempo. Eu acredito que será um bom amigo. Mas a verdade é que uma coisa muito forte aconteceu. Por mais que o tempo passe, nada será como antes.
Sei que meu pai está bem. Acredito nisso, de coração. Ele está em paz, em um lugar muito especial e uma nova jornada começa por lá.
Sei também que tive um enorme privilégio em ter caído por aqui como sua filha. Ele foi o cara mais autêntico que eu já conheci.
Tinha um coração do tamanho do mundo e um carisma que aplacava platéias de todos os estilos. Generosidade era sua marca registrada.
Ajudava gente que não acabava mais. Divertia as mais distintas rodas e era admirado desde a turma dos pés descalços até os magnatas.
E tratava todos com a mais exata igualdade.
Mas posso garantir que curti muito esse pai. Me diverti demais com esse amigo e admirei com todo o meu coração esse ser humano que convivi por 42 anos.
Fico feliz com isso. Sei que nossa relação de pai e filha foi das mais sinceras. Fomos muito completos. Cumprimos nossa missão, ambos!
Por isso tudo, procuro me distrair com a vida que segue. Mas parece que a saudade está escondida debaixo da cama. Quando me deito para dormir ela pula e me sufoca.
O mais engraçado é que um dia antes da partida, escrevi aqui no blog sobre o sentimento de perda. Nada é por acaso nessa vida, depois dessa não tenho mais dúvidas. Os sinais estão por aí, o tempo todo.
Como é que pode? Tudo o que eu escrevi naquelas linhas, fizeram mais sentido ainda. Agora tenho que esperar o tempo me ajudar a senti-las de fato.
Preciso encontrar aquela vontade de viver intensamente que falei no texto. A história segue.
Tenho que descobrir como transformar a saudade em alegria!
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Por enquanto...
Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente, chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre,
Sem saber, que o pra sempre, sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou,
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar, agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa
*Meu pai querido partiu para ver outras paisagens na madrugada de quarta-feira(22). Por um tempo ainda vamos ter que nos acostumar com a caminhada sem aquele jeito singular de rir da vida. Mas são tantas coisas boas que guardo na memória e no coração, que vão servir de combustível para vivermos cada dia com intensidade!
Volto em breve, quando as palavras começarem a sair de novo...
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente, chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre,
Sem saber, que o pra sempre, sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou,
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar, agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa
*Meu pai querido partiu para ver outras paisagens na madrugada de quarta-feira(22). Por um tempo ainda vamos ter que nos acostumar com a caminhada sem aquele jeito singular de rir da vida. Mas são tantas coisas boas que guardo na memória e no coração, que vão servir de combustível para vivermos cada dia com intensidade!
Volto em breve, quando as palavras começarem a sair de novo...
terça-feira, 21 de junho de 2011
Bruxinha boa
Um blog-divã é um lugar para todos os sentimentos que habitam o nosso coração. Aqui divido as delícias e dores do meu cotidiano. Mas desde domingo, uma dor em especial não conseguia se transformar em palavras: a perda.
Depois de um sábado inundado pela alegria da Sofia com o seu aniversário, o domingo nasceu triste. Acordei com a notícia de que a nossa querida amiga Neca tinha partido às 8h10 daquela manhã chuvosa.
Contei aqui, em vários textos, a minha admiração por essa pessoa tão especial (“Tão rara” - fevereiro de 2010, “Um lar” - julho de 2010 e “Fênix” – março de 2011.)
O último deles contava da visita que fizemos para ela em março, no Hospital Moinhos de Ventos, a Kiki e eu. Passamos um dia alegre juntas e deixei com ela a medalinha que acompanhou a Sofia durante a sua luta.
Ela segurou firme e pregou na camisola, bem grudada contra o peito. Era a imagem de Nossa Senhora, que foi nosso amuleto durante a doença da Sofia. Ficou lá, cuidando dela.
Até que chegou a hora. Depois de 14 anos de brava luta ela se foi. Difícil saber o que dizer para nós mesmos nessa hora em que nos deparamos com a finitude da vida.
Sentimos uma saudade estranha. Tão ampla e profunda que não cabe na gente. Passei aquela tarde sentada naquela sala estranha do cemitério pensando em tudo que nos rodeava.
Como é estranho imaginarmos que um dia seremos nós. É uma coisa inusitada demais, não cabe na lógica. E choramos por tudo. Pela amiga que se foi. Pelos medo de perder nossos amores. Pela fugacidade dos nossos momentos aqui. Tão bons!
E para amenizar tantas incertezas, a gente sabe que deve pensar que não é um fim. Eu sei que ela foi para um lugar de paz, onde as dores do câncer não serão mais companheiras.
Mas a ausência para sempre é por demais estranha.
Por isso hoje eu não tenho muito o que dizer. Vou guardar na memória aqueles olhos azuis brilhantes, tão cheios de vida. E no coração as tantas lições de amor à vida que ela nos deu.
E para quem não conheceu essa pessoa rara, achei nos meus arquivos uma foto que traduz exatamente quem foi a Neca.
Era o aniversário da Luisa, minha sobrinha, em 2009. Uma festa à fantasia, e todos os amiguinhos foram à carater. No meio da tarde, eis que chega a Neca. Cheia de energia, vestida de de bruxa.
Uma bruxinha boa, que esteve aqui por um tempo. Nos ensinou muitas coisas, inclusive que o tempo não para. Contaminou todos que cruzaram o seu caminho com a força indelével da vida.
Por isso meus amigos, usufruir cada momento é para hoje. E para homenageá-la, o minímo que podemos fazer aqui é viver intensamente nossas histórias. Com alegria, é claro!
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